Geografias das R-existências

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Os textos reunidos nesta obra abrem caminhos e se colocam como “fendas no muro” de uma Geografia colonizada e colonizadora, e apontam para um horizonte ético-político em que a ciência geográfica, seus conceitos e suas categorias não sejam meros fetiches retóricos ou predileções acadêmicas, mas que andem ombro a ombro com aqueles e aquelas que r-existem, produzindo suas geo-grafias.


O alerta de que nosso marco civilizatório – construído sob um horizonte societal colonial e capitalista, que naturaliza e justifica todas as relações de dominação e de opressão da espécie humana para consigo e para com as outras espécies com as quais se relaciona – nos conduzia a um limite, já vinha sendo dado por diferentes vozes. Da comunidade acadêmica eram frequentes os alertas, em especial quanto à impossibilidade de sustentação de um modelo predatório cujas trágicas consequências ambientais eram cada vez mais inegáveis, assim como inegável é a seletividade com que essas consequências “escolhem” aqueles e aquelas aos quais atinge, predominante- mente os e as mesmas “deserdados” da terra aos quais não cabe outra herança que não o despojo. Mas também pelos alertas dados quanto à insustentabilidade social de um modelo que multiplica o número de excluídos na mesma razão em que aumenta sua capacidade produtiva. Se isso representou em algum momento um marco civilizatório – um modelo ou paradigma a partir do qual a espécie humana tomaria consciência de si própria e dos fins para os quais vive em coletividade – nos parece cada vez mais evidente que esse modelo chegou ao seu limite. E se chegamos, então, a uma encruzilhada, é preciso escolher qual o caminho a seguir (ou quais os caminhos).

O Ciclo de Debates Geografias da R-Existência, que dá origem a este livro, foi uma busca de proposição de reflexões sobre diferentes aspectos do cenário mencionado nas linhas anteriores. A iniciativa nasceu, em primeiro lugar, da necessidade de se criar formas de aproximação em meio a uma pandemia que nos apartava, ao mesmo tempo em que nos encontrávamos em um cenário de incertezas e angústias. Os eventos virtuais – infelizmente um tanto banalizados, dada a quantidade quase excessiva com que passaram a ser ofertados – surgiram como alternativa de contato facilitada pelas tecnologias de comunicação disponíveis, fazendo com que ao menos pudéssemos nos ver e nos escutar, ainda que através da frieza de uma tela e de reprodutores de áudio. Também percebemos a possibilidade de aproximação com vozes vindas de outras geografias, às quais nossas condições de acesso sempre foram limitadas pelas distâncias e pelos custos necessários para superá-las. A criação dos seminários virtuais abria uma possibilidade de vencer o torpor que tomou a maioria de nós quando dos primeiros meses da pandemia.

Ao mesmo tempo, ao reconhecermos que a pandemia implicava outras reflexões além daquelas – urgentes – sobre as formas diretas de contenção dos contágios, emergia a importância de pensarmos a partir do prisma da encruzilhada civilizatória e, consequentemente, a partir das formas de existência que resistiam aos imperativos do marco capitalista e que propunham outros horizontes societais. As r-existências, forma de redação alçada à categoria de análise ao trazer o protagonismo da ação aos povos e comunidades que, com a preservação de suas formas de existência, resistem ao avanço predatório do capitalismo, apontam para as formas com que outros caminhos são abertos a partir da encruzilhada na qual nos encontramos, com suas lutas e enfrentamentos, sem esquecer das ferramentas e estratégias de apoio e fortalecimento.

Foi nesse sentido e com esse objetivo que o Grupo de Estudos de Conflitos de Territorialidades (GECONTE), vinculado ao Núcleo de Estudo Geografia e Ambiente (NEGA) do Departamento de Geografia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) se uniu à Associação de Geógrafos Brasileiros – Seção Porto Alegre (AGB-PoA) para a proposição do ciclo realizado entre junho e julho do ano de 2020 e que ao longo de oito sessões propôs debates sobre diferentes aspectos envolvidos nessa temática (os vídeos ficaram gravados e podem acessados no canal do Youtube da AGB Porto Alegre. O alcance obtido com o evento – que teve mais de 300 inscrições e cujos vídeos tiveram milhares de visualizações –, durante o qual os debates foram acompanhados por um público atento e participativo, inspirou a proposta da publicação que a leitora e o leitor tem em tela (ou em mãos), construída a partir do convite aos e às debatedores(as) que participaram da atividade, para que enviassem textos relativos às suas falas. O resultado é o que temos aqui, com escritos que não apenas aprofundam o que foi dialogado ao vivo, como traçam um horizonte de possibilidades para as diversas geo-grafias das r-existências.

Geografias das R-existências
Dilermando Cattaneo, Marcelo Argenta Câmara e Renata Ferreira da Silveira (org.)

Programa de Pós-Graduação em Geografia (POSGEA) UFRGS
ufrgs.br/posgea

Monstro dos Mares
monstrodosmares.com.br

Revisão Português: Claudia Santos Mayer
Revisão Castelhano: Isabel Perez Alves
Diagramação e capa: Tiago Jaime Machado
Ilustração da capa: Tharcus Aguilar
ISBN: 978-65-86008-16-6
Agosto de 2021