Publicado em Deixe um coment√°rio

Agnes Inglis: Bibliotec√°ria Anarquista

Agnes Inglis nunca planejou uma carreira como bibliotec√°ria. Aos 52 anos em 1924, e ap√≥s um per√≠odo de intenso trabalho em prol dos imigrantes radicais que enfrentavam persegui√ß√£o e deporta√ß√£o ap√≥s a Primeira Guerra Mundial, Inglis visitou a biblioteca da Universidade de Michigan para consultar a cole√ß√£o de livros, peri√≥dicos, artigos, recortes e ef√™mera doada por seu amigo Joseph Labadie em 1911. ‚ÄúJo‚ÄĚ Labadie1 foi um l√≠der sindical, reformador social e anarquista individualista que acumulou um grande n√ļmero de materiais documentando a multid√£o de eventos e movimentos dos quais ele participou ao longo de uma carreira de quarenta anos. Inglis encontrou a cole√ß√£o original de Labadie nas mesmas condi√ß√Ķes em que fora doada: ‚Äúem √≥timo estado‚Ķ embora ainda n√£o encadernada‚ÄĚ. (Inglis 1924) Ela decidiu passar um curto per√≠odo de tempo como volunt√°ria na biblioteca desempacotando e separando materiais. Esse curto per√≠odo se transformou em 28 anos de servi√ßo distinto e principalmente gratuito, durante os quais ela n√£o apenas organizou a grande cole√ß√£o, mas a aumentou em cerca de vinte vezes seu tamanho original, e a elevou ao status de que goza hoje entre as bibliotecas que documentam a hist√≥ria e filosofia do anarquismo e outros movimentos sociais e pol√≠ticos radicais. A vida de Inglis como anarquista e bibliotec√°ria nos mostra um excelente caso de intersec√ß√£o entre ideais pol√≠ticos e biblioteconomia.

Agnes Inglis

Nascida como a filha mais nova de uma fam√≠lia abastada de Detroit em 1872, Agnes passou a maior parte de suas tr√™s primeiras d√©cadas em uma casa de fam√≠lia religiosa, conservadora e isolada. Seu pai, um m√©dico not√°vel, morreu quando ela tinha quatro anos. Al√©m de um ano em uma academia exclusiva para meninas em Massachusetts, Inglis passou a juventude cuidando de uma irm√£ doente com c√Ęncer e, posteriormente, de sua m√£e, que morreu antes de Agnes completar trinta anos. Sem mais obriga√ß√Ķes familiares e uma renda substancial, Agnes saiu de casa para viajar e frequentar a Universidade de Michigan, onde estudou hist√≥ria e literatura.

Inglis deixou a escola antes de se formar e passou v√°rios anos como assistente social na Hull House, em Chicago, na Franklin Street Settlement House em Detroit e na Ann Arbor YWCA. Enquanto trabalhava nesses ambientes, ela adquiriu conhecimento √≠ntimo das condi√ß√Ķes injustas de trabalho e vida sofridas por mulheres e homens imigrantes da classe trabalhadora. Ela tamb√©m se tornou c√©tica quanto √† efic√°cia das pol√≠ticas e programas liberais destinados a transformar a vida dos trabalhadores e, subsequentemente, come√ßou a questionar as condi√ß√Ķes sociais, econ√īmicas e pol√≠ticas nos Estados Unidos.

Ao mesmo tempo, Inglis continuou sua educa√ß√£o abreviada informalmente. Ela lia muito e era especialmente atra√≠da e persuadida por escritores revolucion√°rios. Ela assistiu a muitas palestras em Ann Arbor e Detroit dadas por uma variedade de cr√≠ticos sociais, muitos deles anarquistas. Ela conheceu Emma Goldman em 1915 e tornou-se amiga da famosa anarquista, por meio da qual tamb√©m conheceu Alexander Berkman, companheiro e amante de longa data de Goldman. Inglis organizou palestras anarquistas no sudeste de Michigan, come√ßou associa√ß√Ķes e amizades com muitos radicais locais e juntou-se √† divis√£o de Detroit dos Trabalhadores Industriais do Mundo (IWW). Al√©m de seu ativismo, Inglis usou seus recursos financeiros para apoiar generosamente os esfor√ßos radicais, de fundos de greve a dinheiro de fian√ßa para aqueles presos por expressar pontos de vista pol√≠ticos impopulares.

Com o in√≠cio do envolvimento dos Estados Unidos na Primeira Guerra Mundial, Inglis intensificou suas atividades radicais, participando frequentemente de manifesta√ß√Ķes de protesto contra o recrutamento militar obrigat√≥rio e a guerra. Quando o governo reprimiu os radicais que se manifestavam contra a guerra no que ficou conhecido como o primeiro Red Scare (p√Ęnico vermelho), Inglis descobriu que seus recursos eram ainda mais necess√°rios. Junto com os esfor√ßos incans√°veis em apoio √†queles que enfrentavam a deporta√ß√£o, ela tamb√©m pagou fian√ßa para v√°rios indiv√≠duos e contribuiu pesadamente para seus fundos de defesa. Seu apoio de longa data a causas radicais acabou levando sua fam√≠lia a cortar seu acesso ilimitado a fundos e deu-lhe apenas uma renda modesta para viver.

Quando a turbul√™ncia ap√≥s o Red Scare diminuiu, Inglis come√ßou sua carreira na Cole√ß√£o Labadie. Como curadora, Agnes desenvolveu t√©cnicas organizacionais idiossincr√°ticas que, no entanto, forneceram uma estrutura √ļtil para a cole√ß√£o. Ela come√ßou dividindo materiais diversos em amplas categorias de assuntos que resultaram em um sistema de arquivos vertical ainda em uso atualmente. Ela tinha muitos jornais encadernados, incluindo Mother Earth, Regeneration e Appeal to Reason, e compilou recortes e outras coisas ef√™meras em √°lbuns de recortes, lidando com assuntos sobre os quais existia documenta√ß√£o abundante, como Emma Goldman, Haymarket, o IWW, o caso Tom Mooney, e Sacco e Vanzetti. Al√©m disso, ela construiu um cat√°logo de fichas detalhado (tamb√©m ainda em uso) que continha a cataloga√ß√£o em n√≠vel de item da maioria dos materiais da cole√ß√£o, bem como listas de informa√ß√Ķes de indiv√≠duos e grupos que funcionavam como um arquivo de autoridade de nome de baixo n√≠vel.

Agnes Inglis

Embora sua morte tenha deixado alguns mist√©rios sobre a disposi√ß√£o dos materiais na cole√ß√£o, seus esfor√ßos organizacionais restauraram informa√ß√Ķes contextuais aos materiais e os tornaram muito mais utiliz√°veis por pesquisadores. N√£o h√° evid√™ncias de que ela teve ou procurou a ajuda de bibliotec√°rios treinados dentro do sistema de biblioteca; consequentemente, todo esse trabalho foi feito por conta pr√≥pria.

A Inglis teve sucesso em aumentar e ampliar muito o acervo da Cole√ß√£o Labadie. Depois de alguns anos organizando-a, Agnes e Jo enviaram uma carta a 400 radicais pedindo-lhes que contribu√≠ssem com seus materiais documentando eventos e pessoas que conheciam. Embora a carta tenha recebido apenas uma resposta limitada, Inglis a usou como ponto de partida para buscar agressivamente pessoas para doar materiais. Entre as cole√ß√Ķes mais importantes que ela adicionou estavam documentos relacionados a Voltairine de Cleyre, uma anarquista nascida em Michigan e amiga de Emma Goldman, e o escritor socialista John Francis Bray. Ela usou suas extensas conex√Ķes e correspond√™ncia com radicais do per√≠odo, como Goldman, Roger Baldwin, Elizabeth Gurley Flynn e Ralph Chaplin, entre muitos outros, para persuadi-los a contribuir com materiais relevantes. Agnes tamb√©m ajudou muitos indiv√≠duos em suas pesquisas e publica√ß√Ķes, incluindo ajudar Goldman e Chaplin com suas autobiografias, Henry David com o seminal The Haymarket Tragedy e James J. Martin com Men Against the State.

A carreira de Inglis tem significado hist√≥rico para bibliotec√°rios preocupados com quest√Ķes de justi√ßa social por uma s√©rie de raz√Ķes. Sua hist√≥ria √© inspiradora do ponto de vista pol√≠tico porque, uma vez que seus ideais pol√≠ticos foram formados, ela nunca os traiu e os viu como centrais para seu trabalho como bibliotec√°ria. Suas motiva√ß√Ķes vieram explicitamente de sua devo√ß√£o aos ideais da filosofia e da hist√≥ria dos anarquistas e outros radicais de esquerda com os quais ela trabalhou por um mundo melhor e mais justo. Seus compromissos pol√≠ticos muitas vezes trabalharam em benef√≠cio da cole√ß√£o, visto mais explicitamente no uso de suas conex√Ķes para adquirir registros de seus camaradas. Mesmo recentemente, a Cole√ß√£o Labadie recebeu um valioso conjunto de pap√©is de uma mulher que ainda era grata a Agnes por ter libertado seu pai da pris√£o em 1917.

Ela tamb√©m priorizou o uso da cole√ß√£o, chegando ao extremo de emprestar materiais. Quando um de seus tomadores de empr√©stimo danificava ou n√£o devolvia um item, sua natureza gentil e generosa nunca permitiu que ela os acusasse. Ela ficou satisfeita o suficiente com o interesse das pessoas pelos materiais. Uma nota que ela escreveu descrevendo seu empr√©stimo de um livro para um anarquista italiano que vivia na Vig√©sima Alian√ßa em Detroit em 1934 diz que ‚Äúa Vig√©sima Alian√ßa √© dura para um livro raro!‚ÄĚ

Finalmente, seu conhecimento dos indiv√≠duos e eventos daquela hist√≥ria permitiu-lhe coletar, organizar, descrever e fornecer acesso aos materiais da cole√ß√£o com efic√°cia. Certa vez, Inglis escreveu para Emma Goldman: ‚ÄúN√£o √© brincadeira pegar todo esse material e consert√°-lo para que os alunos possam realmente us√°-lo. N√£o √© um trabalho que todos possam fazer. √Č preciso conhecer o material. As pessoas n√£o gostam disso.‚ÄĚ (Inglis 1925) Agnes devotou o ter√ßo final de sua vida √† Cole√ß√£o Labadie, at√© sua morte em 1952. Gera√ß√Ķes de acad√™micos que usaram a cole√ß√£o apreciaram o conhecimento, habilidade e dedica√ß√£o que Agnes Inglis trouxe √† causa de documentar a hist√≥ria dos movimentos pol√≠ticos radicais nos Estados Unidos e sua contribui√ß√£o para essa hist√≥ria √© incomensur√°vel.

Trabalhos citados

  • Inglis, Agnes (1924) Carta para Joseph Labadie, 11 de fevereiro, Joseph Labadie Papers, Labadie Collection, University of Michigan, Ann Arbor.
  • Inglis, Agnes (1925) Carta para Emma Goldman, 19 de mar√ßo, Emma Goldman Papers, Labadie Collection, University of Michigan, Ann Arbor.

Por: Julie Herrada e Tom Hyry
Publicado no Progressive Librarian
Traduzido por DaVinci, revisado por abobrinha.

Ei pirata! 🏴‍☠️
Faça parte da Rede de Apoio da editora fazendo uma contribuição mensal:
Catarse assinaturas ou no PicPay assinaturas

  1. Para obter mais informa√ß√Ķes sobre a vida de Labadie, consulte a excelente nova biografia de Carlotta Anderson, All American Anarchist: Joseph A. Labadie e o Movimento Trabalhista (Detroit: Wayne State University Press) 1998. []