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Julian Beck: Por um Teatro Anarquista (A)

Julian Beck

Julian Beck nasceu em Nova York em 31/05/1925, sendo seu pai comerciante e sua mãe professora. Desde jovem ele aprendeu a desprezar armas de brinquedo e desenvolvimento de ampla habilidade artística, motivada por uma paixão marcante pela vida e o desejo de concebê-la como algo que se constrói para si e com os demais.

Publicou poemas e pe√ßas no jornal do estudante do ensino m√©dio da escola; ele sempre escreveu, mas tamb√©m gostava de pintar e l√° conquistou seus primeiros sucessos como artista. Depois de abandonar a faculdade, iniciou sua longa carreira de dissid√™ncia das institui√ß√Ķes e de vontade de desenvolver-se, protestando contra um sistema que ele n√£o poderia servir por n√£o acreditar nele. Ele trabalha como oper√°rio e sente de perto o mundo dos explorados. Ele frequenta a Liga de Jovens Comunistas e faz amizade com muitas pessoas √† esquerda. Em 1943 ele conheceu Judith Malina, que viria a ser uma companheira constante na vida, a pessoa que mais influencia seu trabalho; ela manteve posi√ß√Ķes pacifistas firmes, com as quais Julian simpatizou e a mesma ambi√ß√£o de mudar o mundo. Em 1944 ele conheceu Tennessee Williams e Paul Goodman, outro parceiro importante nas lutas pol√≠ticas, art√≠sticas e culturais. Paul se declarou abertamente um anarquista, enquanto que Julian ainda n√£o estava convencido, embora ocupasse uma posi√ß√£o cr√≠tica ao comunismo por causa do stalinismo. Ele se sentiu enojado com a pol√≠tica estatal, viveu a realidade daqueles tempos horrorizados pela barb√°rie belicosa.

Na década de 1940, Nova York foi o lar de muitos artistas renomados Europeus no exílio como Breton, Duchamp, Ernst, Leger, Chagall e outros. Em esse meio que Julian conhece Jackson Pollock, com quem mantém uma amizade íntima, rodeado pelos ares patrióticos e patriarcais da Segunda Guerra Mundial. Julian começou a se descobrir homossexual em seu primeiro relacionamento com 16 anos e sentindo-se oprimido pelo sistema neste aspecto de sua personalidade. Quando ele foi chamado para servir no exército, ele se recusou alegando homossexualidade.

A convic√ß√£o pacifista foi acentuada nele. Claro que tinha que radicalizar a a√ß√£o revolucion√°ria n√£o violenta. Julian e Judith discutiram seriamente as alternativas pol√≠ticas, que pareciam ser, todas, insatisfat√≥rias. Isso at√© que Judith encontrou a revista WHY? Um artigo introdut√≥rio ao anarquismo. Foi a semente do pensamento √°crata que come√ßou a germinar. √Č imposs√≠vel ser convertido ao anarquismo. √Č poss√≠vel chegar l√° apenas atrav√©s de um processo de reconhecimento e auto identifica√ß√£o com suas ideias e prop√≥sitos. A s√≠ntese anarco-pacifista e a a√ß√£o pol√≠tico-art√≠stica constituir√° o grande experimento para o qual eles v√£o dedicar toda a sua vida junto com a cria√ß√£o do ‚ÄúLiving Theatre‚ÄĚ, que come√ßa em 1951.

O Living Theatre passou a representar uma resposta ao tradicional teatro comercial e institucional, com conte√ļdo pol√≠tico n√£o convencional e uma linguagem altamente po√©tica, ent√£o em breve as autoridades buscar√£o impedir sua a√ß√£o em v√°rios momentos. Al√©m da a√ß√£o pol√≠tica nas mesas, as pessoas do Living estavam cientes da necessidade de uma atua√ß√£o no movimento pacifista e antimilitarista. Eles promoveram a ideia da primeira greve geral mundial pela paz que ocorreu em janeiro de 1962, culminando em uma marcha; tudo isso foi uma forma de inspirar que pessoas pratiquem a a√ß√£o direta, ent√£o a experi√™ncia √© repetida mais algumas vezes. Al√©m disso, na d√©cada de 1960, Julian passa a ser conhecido como poeta por meio da leitura p√ļblica de seus textos e sua reprodu√ß√£o na imprensa underground, que ent√£o come√ßa a proliferar e disseminar v√°rias express√Ķes da contracultura radical.

O grupo apresentou trabalhos de autores renomados (Brecht, Garcia Lorca e outros), mas enfatizar√° as obras de cria√ß√£o coletiva, como por exemplo ‚ÄúThe Brig‚ÄĚ (“La Prison”), uma obra de den√ļncia radical das institui√ß√Ķes, uma pe√ßa de car√°ter t√£o question√°vel que foi fortemente questionada. Este tipo de trabalho os obrigou a se exilar na Europa em 1963. Em 1968 assumiram o nome de Coletivo Anarquista, envolvendo-se ainda mais nos eventos revolucion√°rios que geram a contracultura e na reativa√ß√£o do movimento anarquista mundial. A famosa vis√£o do Teatro Odeon de Paris foi ideia de Julian, extasiado com os acontecimentos de maio de 68. No mesmo ano, eles lan√ßaram ‚ÄúParadise, Now!‚ÄĚ, Que tamb√©m gerou rea√ß√£o escandalizado pelos poderes estabelecidos.

Com esse hist√≥rico, n√£o √© surpreendente que ao fazer teatro de rua no Brasil (1971), foram presos sob a acusa√ß√£o de subvers√£o pelos gorilas que comandam esse pa√≠s. Ap√≥s os protestos generalizados dos feitos na Europa e nos EUA, acompanhados por express√Ķes de solidariedade de muitas personalidades, o grupo √© expulso ap√≥s dois meses de pris√£o.

O Living Theatre continuou a viajar pelo mundo, enfrentando desafios e proibi√ß√Ķes e promovendo mudan√ßas sociais por meio da arte, sempre inflex√≠veis em sua postura anarco-pacifista. Julian Beck morreu em 1985, mas Judith Malina e o Coletivo continuam nesta linha de teatro de vanguarda que hoje √© refer√™ncia obrigat√≥ria em todo o mundo ‚Ķ

R e v o l u c i o n y C o n t r a r r e v o l u c i o n
(Fragmento de uma canção-poema de Julian Beck)

…queremos
abrirles con filtros de amor
queremos
vestir a los parias
de lino y de luz
queremos
poner musica y verdad
en la ropa interior
queremos
hacer que la tierra y sus ciudades resplandezcan
de creacion
lo haremos
irresistible
hasta para los racistas
queremos llevar la fertilidad
a los glaciares
queremos cambiar
el caracter demoniaco de nuestros adversarios
en gloria productiva
queremos
cambiando el mundo
cambiar nosotros mismos
queremos
desembarazarnos
de nuestra propia corrupcion
y a traves del
proceso de la revolucion
hallar
el ser
no
el morir
y hasta que
no lo logremos
la revolucion no tendra lugar

PAP
(CORREO A # 22, pp. 14-15; Março de 1993)
Extraído de Spunk.
Tradução: DaVinci
Revis√£o: Tonho


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Dia do Carteiro: trabalhadores da cultura

dia do carteiro

Neste Dia do Carteiro monas, minas e manos que exercem essa profiss√£o recebem uma entrega especial: Nosso muito obrigado!

25 de Janeiro √© o Dia do Carteiro, da Carteira, Atendentes, Operadores de Triagem e Transbordo (OTT’s), motoristas e todas/todos quase 60.000 trabalhadores postais que fazem os 358 anos de hist√≥ria dos Correios. Aqui na Monstro dos Mares, dificilmente conseguir√≠amos fazer e distribuir livros sem esses profissionais da cal√ßa azul e da camisa amarela que levam nossos pacotes pra l√° e pra c√°. Sabemos que t√£o importante quanto quem escreve, imprime e compra, tamb√©m s√£o as pessoas que fazem a entrega da cultura de inspira√ß√£o an√°rquica que produzimos para todo o pa√≠s. Essa categoria √© parte do cotidiano da nossa atividade e, por isso, reconhecemos e apoiamos suas lutas nesses quase 9 anos de editora. Em muitas cidades, s√£o os carteiros e carteiras que far√£o a opera√ß√£o log√≠stica da vacina. S√£o trabalhadoras e trabalhadores que est√£o abrindo m√£o da pr√≥pria seguran√ßa e se expondo ao v√≠rus (a familiares e corresidentes tamb√©m) desde o in√≠cio da pandemia para levar livros √† casa das pessoas, bibliotecas comunit√°rias, espa√ßos sociais e aos que fortalecem nossa Rede de Apoio. Mais uma vez, nosso agradecimento.

Um pouco de história

Conforme o livro Correio – la√ßo universal entre os homens1, o documento postal mais antigo de que se tem not√≠cia √© um papiro encontrado em El Hiba, no Egito, datado de 255 AEC2. Esse documento cont√©m muitas informa√ß√Ķes sobre como era organizado o servi√ßo eg√≠pcio de mensageiros. No escrito ‚Äď um relato em primeira pessoa ‚Äď h√° detalhes sobre o encaminhamento da correspond√™ncia, o n√ļmero de mensageiros em servi√ßo, os tipos de objetos enviados e informa√ß√Ķes sobre os destinat√°rios.

J√° no Brasil, em Maio de 1500, a primeira carta enviada foi a que o escriv√£o de armada Pero Vaz de Caminha escreveu ao rei de Portugal, relatando a exuber√Ęncia da descoberta, terra que, ‚Äúem se plantando, tudo d√°‚ÄĚ.3 Mas foi em 25 de janeiro 1663 que o primeiro servi√ßo regular de correios foi implantado. Com a oficializa√ß√£o do Servi√ßo Postal, o objetivo era possibilitar, atrav√©s do servi√ßo de escravos, tropeiros e man√ßoeiros, a comunica√ß√£o entre Portugal e a Col√īnia. Com isso, o dia 25 de Janeiro torna-se o Dia do Carteiro.

Nos Estados Unidos, o Mailman Day √© comemorado no dia 4 de Fevereiro. Mas pode ser no dia 1¬ļ de Julho tamb√©m, uma vez que em Fevereiro √© o Dia do Carteiro e em Julho √© o Dia Nacional dos Trabalhadores Postais. J√° a Uni√£o Postal Universal (UPU), que √© tipo a ONU dos Correios, declara que o Dia Mundial dos Servi√ßos Postais √© 9 de Outubro, data da sua funda√ß√£o em 1874. Conforme o site da entidade, o Brasil √© signat√°rio da UPU.

Carteiros famosos

Quase todo mundo lembra com carinho de algum carteiro ou carteira que conheceu, tipo o Senhor Wilson do desenho animado “Denis, o Pimentinha”. O Sr. Wilson era um carteiro aposentado. E tamb√©m tem aqueles aliens do “MIB” (voc√™ lembra disso?), o Herman, do “Garfield”, o Mimi, da novela “Passione” (que era apaixonado pela Agostina), aquele outro carteiro que apanhou na “Selva de Pedra”, o Silvio da “√Čramos Seis”… Bem, a lista de personagens ficcionais que trabalham nos correios √© imensa!

Na Am√©rica do Norte, um dos carteiros mais famosos √© o Mr. Zip, um personagem que foi criado pelo Servi√ßo Postal dos Estados Unidos (USPS) nos anos 60 do s√©culo passado para a campanha de lan√ßamento do sistema de CEP’s dos gringos, conhecido como ZIP CODE. Aqui no Brasil, o carteiro mais famoso de qualquer vila √© Jaime Garabito (Jaiminho, o Carteiro), personagem do eterno programa “Chaves”.

Quem gosta de literatura logo vai lembrar do Carteiro e o Poeta do Neruda. Mas h√° muito mais carteiros e carteiras na literatura; s√£o tantos que existe um g√™nero liter√°rio que depende inteiramente do trabalho desses profissionais: o romance epistolar. As Liga√ß√Ķes Perigosas, de Pierre Choderlos de Laclos, Dracula, de Bram Stoker, A Cor P√ļrpura, de Alice Walker: todas essas hist√≥rias e muitas outras s√£o contadas atrav√©s de cartas – que algu√©m levou da/o remetente a seu destino.

Existem tamb√©m muitos filmes sobre trocas de cartas nos quais o carteiro quase nem aparece. Esse √© o caso de “Di√°rio de uma Paix√£o”, “Brilho de uma Paix√£o”, “Querido Jhon”, “P. S. Eu Te Amo”, “A Carta An√īnima”, “A Loja da Esquina” (esse at√© que at√© √© bem bonitinho!), mas √© tanto filme ruim que n√£o merecem nem uma lista no Buzzfeed.

Jaiminho, o carteiro.

Carteiros estranhos

Voc√™ sabia que Charles Bukowski trabalhou nos correios por mais de uma d√©cada? Ele foi carteiro tempor√°rio, carteiro auxiliar e executou outras tantas atividades no USPS entre um porre e outro. Em seu primeiro romance, Post Office, traduzido no Brasil como “Cartas na rua”, desde a primeira p√°gina j√° destila sua verve e forma de escrever. Na dedicat√≥ria ele sentencia: Esta √© uma obra de fic√ß√£o, dedicada a ningu√©m.

No livro, Henry Chinaski, o personagem autobiogr√°fico criado pelo velho e controverso Buk relata sua rotina tediosa, o trabalho burocr√°tico nos correios e faz √°cidas cr√≠ticas ao estilo de vida dos estadunidenses da √©poca. Ele afirma que candidatar-se a uma vaga nos correios n√£o foi uma boa ideia ‚Äď Tudo come√ßou como um erro ‚Äď e em sua escrita enfuma√ßada e espont√Ęnea vai dando as cartas da degrada√ß√£o humana atrav√©s do trabalho. Seu hedonismo cru e cruel entorpece f√£s at√© hoje.4

Todas as rotas tinham armadilhas e apenas os carteiros regulares5 as conheciam. Todo dia era a mesma merda, e voc√™ precisava estar preparado para um estupro, um assassinato, c√£es ou algum tipo de insanidade. Os regulares n√£o revelavam seus segredinhos. Era a √ļnica vantagem que tinham ‚Äď saberem seus itiner√°rios de cor. Era de matar para um novato, principalmente para um que bebia a noite inteira, ia para a cama √†s duas, levantava √†s quatro e meia, depois de trepar e cantar a noite toda, e quase conseguir sair ileso de tudo isso.

BUKOWSKI, Charles. Cartas na rua. Porto Alegre: L&PM, 2018.

Assim como em Bukowski, a exist√™ncia humana aprisionada pelas burocracias institucionais caracterizaram a obra de Franz Kafka. Kafka foi um dos mais importantes autores da literatura do s√©culo XX e soube como poucos expressar as inquieta√ß√Ķes e ang√ļstias humanas. Apesar de toda a estranheza e uma certa amargura na sua obra, h√° um momento belo e sublime digno de nota. Um ano antes da sua morte, o escritor passava pelo parque Steglitz em Berlim e precisou inventar uma hist√≥ria para uma menina que havia perdido sua boneca. Buscando acalmar a crian√ßa, ele contou que era um carteiro de bonecas e que a boneca n√£o estava perdida, mas que tinha ido viajar e no dia seguinte ele traria uma carta contando as perip√©cias da boneca pelo mundo. Conforme Klaus Wagenbach6 , o bi√≥grafo de Kafka, esses encontros duraram tr√™s semanas, mas as hist√≥rias nunca foram publicadas porque at√© hoje n√£o se sabe nenhuma pista da menina Elsi ou dos originais das cartas.


25 de Janeiro dia do carteiro
Vídeo muito bem produzido em homenagem aos 357 anos dos Correios. Fonte: EBCT

Obrigado Carteiro!

N√£o existe arte e cultura sem a sua frui√ß√£o. N√£o haver√° literatura sem leitores e provavelmente n√£o h√° de haver livros sem o Carteiro. √Č pelas m√£os de profissionais dos Correios que os livros adquirem seu sentido e significado. S√≥ pode haver livro se houver a multiplica√ß√£o da palavra escrita, se ela puder circular abundante e dispon√≠vel. Este √© o livro que queremos: acess√≠vel para todas as pessoas que desejam entrar em contato com outros mundos poss√≠veis e imposs√≠veis. A Monstro dos Mares faz livros e zines para pessoas que buscam esse encontro de ideias, linhas, par√°grafos e cap√≠tulos, uma epistemologia para chamar de sua. Ao se reconhecer entre as palavras de vida e as pr√°ticas luta, as monas, minas e manos de todas as quebradas e recantos podem sentir que h√° um senso de pertencimento ao compartilhar com suas amizades uma vis√£o de mundo atrav√©s dos livros. Que h√° algo de belo, permanente e importante ao fazer multiplicar essas ideias neste nosso tempo.

Em fun√ß√£o da pandemia, de estarmos numa cidade do interior e de n√£o participar de feiras e eventos enquanto n√£o houver imuniza√ß√£o em massa, foi atrav√©s do envio de IMPRESSO com REGISTRO M√ďDICO que em 2020 a Monstro dos Mares distribuiu gratuitamente 821 livros e 1.211 zines. Isso seria bem mais dif√≠cil sem algu√©m para fazer essa distribui√ß√£o. As trabalhadoras e trabalhadores dos Correios, cerca de 60.000 Carteiros, Carteiras, Atendentes, OTT’s, motoristas e outros profissionais: s√£o essas amizades importantes que fazem com que o poder transformador da cultura possa chegar em mais e mais pessoas nos mais de 5.500 munic√≠pios do pa√≠s. Nosso carinho e nosso agradecimento nesse dia.

Obrigado Carteiro no seu e-mail

fretes

A newsletter Obrigado Carteiro! é uma pequena homenagem ao Carteiro, Carteira, Atendentes, OTT’s, monas, minas e manos que fazem a correria todos os dias. Faça chuva ou sol, profissionais dos Correios estão sempre nas ruas para entregar correspondências e encomendas nas mais de 5.500 cidades do Brasil. Só é possível levar a cultura e o conhecimento do livro impresso através do trabalho dessa categoria que move o país. Valeu!
Privatização é coisa de ladrão!

Processando…
Sucesso! Você está na lista.


  1. A Universal Link Among Men (Lausanne : VIE, ART, CITE, 1974) citado em ADDISON, Luciana Maria Figueiredo. A import√Ęncia dos Valores organizacionais subjacentes no processo decis√≥rio dos Correios. Disserta√ß√£o de Mestrado, Rio de Janeiro: FVG, 2002. []
  2. Utilizamos Antes da Era Comum (AEC) e Era Comum (EC) conforme The Chicago Manual of Style Online or Scientific Style and Format []
  3. Carta de Pedro Vaz de Caminha sobre o descobrimento da Terra nova que fez Pedro √Ālvares. Feita na Ilha de Vera Cruz em o 1.¬ļ de Maio de 1500. Dispon√≠vel o fac-s√≠mile na Biblioteca Nacional de Portugal e transcri√ß√£o na Biblioteca Nacional, situada no Rio de Janeiro. []
  4. Nota de Baderna James: Logo depois da adolesc√™ncia eu cancelei esse autor. Mas “Cartas na rua” e “O p√°ssaro azul” ainda permanecem aqui dentro de mim em algum lugar. []
  5. Nota de Baderna James: no Brasil s√£o chamados de carteiros titulares, n√£o de regulares. []
  6. WAGENBACH, Klaus. Franz Kafka. Francke, 1958. []
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Agnes Inglis: Bibliotec√°ria Anarquista

Agnes Inglis nunca planejou uma carreira como bibliotec√°ria. Aos 52 anos em 1924, e ap√≥s um per√≠odo de intenso trabalho em prol dos imigrantes radicais que enfrentavam persegui√ß√£o e deporta√ß√£o ap√≥s a Primeira Guerra Mundial, Inglis visitou a biblioteca da Universidade de Michigan para consultar a cole√ß√£o de livros, peri√≥dicos, artigos, recortes e ef√™mera doada por seu amigo Joseph Labadie em 1911. ‚ÄúJo‚ÄĚ Labadie1 foi um l√≠der sindical, reformador social e anarquista individualista que acumulou um grande n√ļmero de materiais documentando a multid√£o de eventos e movimentos dos quais ele participou ao longo de uma carreira de quarenta anos. Inglis encontrou a cole√ß√£o original de Labadie nas mesmas condi√ß√Ķes em que fora doada: ‚Äúem √≥timo estado‚Ķ embora ainda n√£o encadernada‚ÄĚ. (Inglis 1924) Ela decidiu passar um curto per√≠odo de tempo como volunt√°ria na biblioteca desempacotando e separando materiais. Esse curto per√≠odo se transformou em 28 anos de servi√ßo distinto e principalmente gratuito, durante os quais ela n√£o apenas organizou a grande cole√ß√£o, mas a aumentou em cerca de vinte vezes seu tamanho original, e a elevou ao status de que goza hoje entre as bibliotecas que documentam a hist√≥ria e filosofia do anarquismo e outros movimentos sociais e pol√≠ticos radicais. A vida de Inglis como anarquista e bibliotec√°ria nos mostra um excelente caso de intersec√ß√£o entre ideais pol√≠ticos e biblioteconomia.

Agnes Inglis

Nascida como a filha mais nova de uma fam√≠lia abastada de Detroit em 1872, Agnes passou a maior parte de suas tr√™s primeiras d√©cadas em uma casa de fam√≠lia religiosa, conservadora e isolada. Seu pai, um m√©dico not√°vel, morreu quando ela tinha quatro anos. Al√©m de um ano em uma academia exclusiva para meninas em Massachusetts, Inglis passou a juventude cuidando de uma irm√£ doente com c√Ęncer e, posteriormente, de sua m√£e, que morreu antes de Agnes completar trinta anos. Sem mais obriga√ß√Ķes familiares e uma renda substancial, Agnes saiu de casa para viajar e frequentar a Universidade de Michigan, onde estudou hist√≥ria e literatura.

Inglis deixou a escola antes de se formar e passou v√°rios anos como assistente social na Hull House, em Chicago, na Franklin Street Settlement House em Detroit e na Ann Arbor YWCA. Enquanto trabalhava nesses ambientes, ela adquiriu conhecimento √≠ntimo das condi√ß√Ķes injustas de trabalho e vida sofridas por mulheres e homens imigrantes da classe trabalhadora. Ela tamb√©m se tornou c√©tica quanto √† efic√°cia das pol√≠ticas e programas liberais destinados a transformar a vida dos trabalhadores e, subsequentemente, come√ßou a questionar as condi√ß√Ķes sociais, econ√īmicas e pol√≠ticas nos Estados Unidos.

Ao mesmo tempo, Inglis continuou sua educa√ß√£o abreviada informalmente. Ela lia muito e era especialmente atra√≠da e persuadida por escritores revolucion√°rios. Ela assistiu a muitas palestras em Ann Arbor e Detroit dadas por uma variedade de cr√≠ticos sociais, muitos deles anarquistas. Ela conheceu Emma Goldman em 1915 e tornou-se amiga da famosa anarquista, por meio da qual tamb√©m conheceu Alexander Berkman, companheiro e amante de longa data de Goldman. Inglis organizou palestras anarquistas no sudeste de Michigan, come√ßou associa√ß√Ķes e amizades com muitos radicais locais e juntou-se √† divis√£o de Detroit dos Trabalhadores Industriais do Mundo (IWW). Al√©m de seu ativismo, Inglis usou seus recursos financeiros para apoiar generosamente os esfor√ßos radicais, de fundos de greve a dinheiro de fian√ßa para aqueles presos por expressar pontos de vista pol√≠ticos impopulares.

Com o in√≠cio do envolvimento dos Estados Unidos na Primeira Guerra Mundial, Inglis intensificou suas atividades radicais, participando frequentemente de manifesta√ß√Ķes de protesto contra o recrutamento militar obrigat√≥rio e a guerra. Quando o governo reprimiu os radicais que se manifestavam contra a guerra no que ficou conhecido como o primeiro Red Scare (p√Ęnico vermelho), Inglis descobriu que seus recursos eram ainda mais necess√°rios. Junto com os esfor√ßos incans√°veis em apoio √†queles que enfrentavam a deporta√ß√£o, ela tamb√©m pagou fian√ßa para v√°rios indiv√≠duos e contribuiu pesadamente para seus fundos de defesa. Seu apoio de longa data a causas radicais acabou levando sua fam√≠lia a cortar seu acesso ilimitado a fundos e deu-lhe apenas uma renda modesta para viver.

Quando a turbul√™ncia ap√≥s o Red Scare diminuiu, Inglis come√ßou sua carreira na Cole√ß√£o Labadie. Como curadora, Agnes desenvolveu t√©cnicas organizacionais idiossincr√°ticas que, no entanto, forneceram uma estrutura √ļtil para a cole√ß√£o. Ela come√ßou dividindo materiais diversos em amplas categorias de assuntos que resultaram em um sistema de arquivos vertical ainda em uso atualmente. Ela tinha muitos jornais encadernados, incluindo Mother Earth, Regeneration e Appeal to Reason, e compilou recortes e outras coisas ef√™meras em √°lbuns de recortes, lidando com assuntos sobre os quais existia documenta√ß√£o abundante, como Emma Goldman, Haymarket, o IWW, o caso Tom Mooney, e Sacco e Vanzetti. Al√©m disso, ela construiu um cat√°logo de fichas detalhado (tamb√©m ainda em uso) que continha a cataloga√ß√£o em n√≠vel de item da maioria dos materiais da cole√ß√£o, bem como listas de informa√ß√Ķes de indiv√≠duos e grupos que funcionavam como um arquivo de autoridade de nome de baixo n√≠vel.

Agnes Inglis

Embora sua morte tenha deixado alguns mist√©rios sobre a disposi√ß√£o dos materiais na cole√ß√£o, seus esfor√ßos organizacionais restauraram informa√ß√Ķes contextuais aos materiais e os tornaram muito mais utiliz√°veis por pesquisadores. N√£o h√° evid√™ncias de que ela teve ou procurou a ajuda de bibliotec√°rios treinados dentro do sistema de biblioteca; consequentemente, todo esse trabalho foi feito por conta pr√≥pria.

A Inglis teve sucesso em aumentar e ampliar muito o acervo da Cole√ß√£o Labadie. Depois de alguns anos organizando-a, Agnes e Jo enviaram uma carta a 400 radicais pedindo-lhes que contribu√≠ssem com seus materiais documentando eventos e pessoas que conheciam. Embora a carta tenha recebido apenas uma resposta limitada, Inglis a usou como ponto de partida para buscar agressivamente pessoas para doar materiais. Entre as cole√ß√Ķes mais importantes que ela adicionou estavam documentos relacionados a Voltairine de Cleyre, uma anarquista nascida em Michigan e amiga de Emma Goldman, e o escritor socialista John Francis Bray. Ela usou suas extensas conex√Ķes e correspond√™ncia com radicais do per√≠odo, como Goldman, Roger Baldwin, Elizabeth Gurley Flynn e Ralph Chaplin, entre muitos outros, para persuadi-los a contribuir com materiais relevantes. Agnes tamb√©m ajudou muitos indiv√≠duos em suas pesquisas e publica√ß√Ķes, incluindo ajudar Goldman e Chaplin com suas autobiografias, Henry David com o seminal The Haymarket Tragedy e James J. Martin com Men Against the State.

A carreira de Inglis tem significado hist√≥rico para bibliotec√°rios preocupados com quest√Ķes de justi√ßa social por uma s√©rie de raz√Ķes. Sua hist√≥ria √© inspiradora do ponto de vista pol√≠tico porque, uma vez que seus ideais pol√≠ticos foram formados, ela nunca os traiu e os viu como centrais para seu trabalho como bibliotec√°ria. Suas motiva√ß√Ķes vieram explicitamente de sua devo√ß√£o aos ideais da filosofia e da hist√≥ria dos anarquistas e outros radicais de esquerda com os quais ela trabalhou por um mundo melhor e mais justo. Seus compromissos pol√≠ticos muitas vezes trabalharam em benef√≠cio da cole√ß√£o, visto mais explicitamente no uso de suas conex√Ķes para adquirir registros de seus camaradas. Mesmo recentemente, a Cole√ß√£o Labadie recebeu um valioso conjunto de pap√©is de uma mulher que ainda era grata a Agnes por ter libertado seu pai da pris√£o em 1917.

Ela tamb√©m priorizou o uso da cole√ß√£o, chegando ao extremo de emprestar materiais. Quando um de seus tomadores de empr√©stimo danificava ou n√£o devolvia um item, sua natureza gentil e generosa nunca permitiu que ela os acusasse. Ela ficou satisfeita o suficiente com o interesse das pessoas pelos materiais. Uma nota que ela escreveu descrevendo seu empr√©stimo de um livro para um anarquista italiano que vivia na Vig√©sima Alian√ßa em Detroit em 1934 diz que ‚Äúa Vig√©sima Alian√ßa √© dura para um livro raro!‚ÄĚ

Finalmente, seu conhecimento dos indiv√≠duos e eventos daquela hist√≥ria permitiu-lhe coletar, organizar, descrever e fornecer acesso aos materiais da cole√ß√£o com efic√°cia. Certa vez, Inglis escreveu para Emma Goldman: ‚ÄúN√£o √© brincadeira pegar todo esse material e consert√°-lo para que os alunos possam realmente us√°-lo. N√£o √© um trabalho que todos possam fazer. √Č preciso conhecer o material. As pessoas n√£o gostam disso.‚ÄĚ (Inglis 1925) Agnes devotou o ter√ßo final de sua vida √† Cole√ß√£o Labadie, at√© sua morte em 1952. Gera√ß√Ķes de acad√™micos que usaram a cole√ß√£o apreciaram o conhecimento, habilidade e dedica√ß√£o que Agnes Inglis trouxe √† causa de documentar a hist√≥ria dos movimentos pol√≠ticos radicais nos Estados Unidos e sua contribui√ß√£o para essa hist√≥ria √© incomensur√°vel.

Trabalhos citados

  • Inglis, Agnes (1924) Carta para Joseph Labadie, 11 de fevereiro, Joseph Labadie Papers, Labadie Collection, University of Michigan, Ann Arbor.
  • Inglis, Agnes (1925) Carta para Emma Goldman, 19 de mar√ßo, Emma Goldman Papers, Labadie Collection, University of Michigan, Ann Arbor.

Por: Julie Herrada e Tom Hyry
Publicado no Progressive Librarian
Traduzido por DaVinci, revisado por abobrinha.

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  1. Para obter mais informa√ß√Ķes sobre a vida de Labadie, consulte a excelente nova biografia de Carlotta Anderson, All American Anarchist: Joseph A. Labadie e o Movimento Trabalhista (Detroit: Wayne State University Press) 1998. []
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Sobre cuidados e como estamos todos fodidos caso não façamos grandes mudanças (Peter Gelderloos )

peter gelderloos

Mensagem de Peter Gelderloos 31 de Dezembro de 2020

Assim, em teoria, √© o √ļltimo dia de 2020, mas n√£o me surpreenderia se descobr√≠ssemos algum novo tipo de duplo ano bissexto de merda.

2020 tem sido um ano realmente dif√≠cil. A maioria de n√≥s perdeu amigos e companheiros, muitos perderam familiares. Derramamos os nossos cora√ß√Ķes em iniciativas de sobreviv√™ncia expandidas e rebeli√Ķes ardentes, mas ainda n√£o foi suficiente. Ainda n√£o vimos o fim de toda a dor acumulada nos nossos c√≠rculos. Quero agradecer √† d√ļzia de amizades que tornaram poss√≠vel que eu sobrevivesse a este ano, sendo atenciosos e atentos. S√£o os anarquistas mais verdadeiros que conhe√ßo, alguns dos √ļnicos que realmente compreendem a solidariedade e a ajuda m√ļtua. Mas os agradecimentos s√£o in√ļteis se n√£o estivermos abertos √† mudan√ßa.

Refletindo sobre essas amizades, são quase todas mulheres, não brancas e pessoas neuro-atípicas. Peço veementemente a todos que pensem nas pessoas que cuidaram de pessoas em seus círculos (se você é uma delas, dê a si próprio um pouco de amor). Os homens e as pessoas neurotípicas precisam se comprometer com isso. O cuidado é uma habilidade para toda a vida. Ninguém vai aprender isso num só dia. Mas há algo que podemos mudar AGORA e temos de mudar se não quisermos que as nossas (pseudo)comunidades caiam e ardam em trauma, depressão e pobreza no próximo ano.

Para quem voc√™ olha como o alicerce da sua comunidade/c√≠rculo, aquela pessoa cuja orienta√ß√£o voc√™ procura para estabelecer normas sobre como se comunicar, resolver conflitos, lidar com aqueles que sofrem, moldar o espa√ßo social? √Č melhor que sejam aquelas pessoas em quem pensou (que pertencem ao teu c√≠rculo). Devem ser aqueles que todos ouvem enquanto constru√≠mos as nossas comunidades/c√≠rculos.

N√£o deveria ser o acad√™mico a citar Agamben, o amigo que te ensina a atirar, o que tem contatos em todo o mundo, o babaca que escreve livros, o que faz as melhores festas (a menos que sejam tamb√©m o que se ocupa das pessoas, j√° que somos todos multifacetados). Todos esses outros tipos t√™m algo a oferecer em momentos importantes de luta (exceto as festas, bah humbug!)1 . Mas, na maioria das vezes, √© para eles que damos poder para estruturar as nossas comunidades e √© por isso que temos cenas produtivistas, militaristas, dogm√°ticas ou baseadas na popularidade. E estes s√£o completamente incapazes de lidar com estafa (burnout) e traumas, ou de centrar as rela√ß√Ķes na sobreviv√™ncia coletiva, que √© a caracter√≠stica que define uma comunidade real.

Uma teoria anarquista do poder reconheceria e valorizaria cada atividade que cria a nossa liberdade e bem-estar, deveria celebrar a experiência daqueles que a têm e encorajar cada um a desenvolver as suas próprias forças.

Em vez disso, exploramos e marginalizamos aquelas de quem mais dependemos para a nossa sobrevivência coletiva. Metade das pessoas com quem se pode contar para o sustento têm estado à beira do suicídio este ano. Quero mandar um sincero foda-se a todos os que não têm pensado nisso (em cuidar) e que continuam a construir as nossas comunidades falhas em torno de todas as lógicas erradas. Vão à merda. Comprometam-se. Se ainda não perceberam que a nossa sobrevivência está em risco, saiam já daqui.

Todo o meu amor para as pessoas que têm carregado todo esse fardo. Sim, todo o meu amor para as pessoas que têm estado na linha da frente, organizando protestos, escrevendo e debatendo. Sabendo, simplesmente, quando brilhar e quando segurar outra pessoa.

Finalmente, do fundo do meu ser, uma maldi√ß√£o imortal para os dois tipos de “camaradas” que, na minha perspectiva, t√™m sido os mais prejudiciais. Aqueles que ajudam os abusivos, evitam cr√≠ticas ou consequ√™ncias, que se fazem de neutros, giram o moinho de rumores porque t√™m muito medo de falar cara a cara. E, pol√≠ticos do movimento que imp√Ķem suas ideias de classe m√©dia do que √© poss√≠vel acima do que as pessoas realmente precisam numa situa√ß√£o potencialmente revolucion√°ria; desde greves de alugu√©is a rebeli√Ķes anti-pol√≠cia. Que sofram uma infelicidade sem fim ou uma autoconsci√™ncia aguda dos danos que causaram.

Mas sim, amor para todos os outros.

Por favor, fa√ßa com que os seus amigos leiam isto, especialmente os produtivistas ou os legalz√Ķes (fadas sensatas da viol√™ncia e das alian√ßas)

√Č isto, tchau.


Tradução e revisão: Absort0, Fernando, abobrinha.


  1. Nota: Expressão utilizada pelo personagem Ebenezer Scrooge, de Charles Dickens, que se tornou símbolo de sua rabugice []
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Contra-universidades

Excerto do capítulo VI do livro Entre cuadernos y barrotes publicado pela Editora Cultura y Sociedad, na cidade de Lima, em setembro de 1999.

Tradução de Mauricio Knup.

Com frequ√™ncia se contrap√Ķe a atividade universit√°ria √† atividade escolar, como se esta fosse um grande salto √† frente e tivesse caracter√≠sticas qualitativamente diferentes. Inclusive, apresenta-se a universidade como o espa√ßo de onde brotar√£o solu√ß√Ķes e alternativas para os grandes problemas de nosso tempo. Dessa maneira, oculta-se, com um otimismo necessariamente envolvido por uma mentira astuta ou mesmo simples idiotice, o fato de que nas universidades, assim como nas escolas, persiste toda uma concep√ß√£o autorit√°ria de vida, hor√°rios rigorosos a serem cumpridos, exames, notas, aprova√ß√£o e reprova√ß√£o, uma verticalidade mofada que nenhuma sala de aula moderna e com ilumina√ß√£o natural pode esconder; √†s vezes, at√© pequenas mudan√ßas de hor√°rios e controle de frequ√™ncia de estudantes, professores que, apesar de n√£o passarem fome de maneira miser√°vel quando n√£o est√£o protagonizando uma aula vertical e autorit√°ria que pretendem que seja magistral, na maioria das vezes s√£o os mesmos que n√£o t√™m escr√ļpulos em recorrer √† vergonha da c√≥pia e da reprodu√ß√£o.

A universidade mant√©m intacta a fun√ß√£o repressiva, mas faz isso em um est√°gio mais avan√ßado. Nem sempre se precisa recorrer a tanques e interven√ß√Ķes militares; geralmente, √© suficiente para ela manter a fic√ß√£o da gest√£o compartilhada, um simulacro de democracia no qual estudantes d√≥ceis que adquiriram o mau h√°bito da pol√≠tica representativa e que, atrav√©s da forma√ß√£o de diret√≥rios acad√™micos e similares, possibilitar√£o n√£o uma democracia direta e assembleias, mas a cria√ß√£o de m√°fias e grupos de poder, a exist√™ncia de um alto sigilo burocr√°tico, a perpetua√ß√£o de um regime no qual voc√™ deve pedir permiss√£o at√© para colocar um cartaz na parede; tudo isso, em conjunto com uma f√≥rmula legal que pro√≠be atividades extra-acad√™micas, faz com que qualquer atividade independente ou aut√īnoma capaz de produzir conhecimentos para al√©m do saber oficial seja censurada ou desencorajada.

David Cooper compara a universidade a um hospital psiqui√°trico:

‚ÄúO design exterior √© bastante semelhante: o bloco administrativo e v√°rios departamentos, vilas, laborat√≥rios, terapia ocupacional e tudo mais. Algumas universidades t√™m cercas e porteiros para controlar aqueles que entram e saem. A ironia disso est√° em que provavelmente ningu√©m entra e certamente ningu√©m sai. As duas institui√ß√Ķes est√£o cheias de preocupa√ß√£o fingida dos ‚ÄėProtetores‚Äô sobre os ‚Äėprotegidos‚Äô. Ambas s√£o boas almas (alma mater), de cujos seios brota um antigo veneno, sedativos de todos os tipos conceb√≠veis, desde a p√≠lula precisa para o paciente preciso at√© o trabalho exato para estudantes exatos.‚ÄĚ1

As universidades se apresentam, em caros an√ļncios de televis√£o, como o reino do conhecimento e da vida intelectual, mas est√£o presas pela esclerose de sua maneira pretensiosa e dogm√°tica de conceber e produzir um conhecimento que desejam universalmente v√°lido. Ignora ou despreza a sabedoria de dissidentes como Feyerabend, que afirma que o progresso cient√≠fico s√≥ √© poss√≠vel quando certas regras ‚Äú√≥bvias‚ÄĚ s√£o violadas volunt√°ria ou involuntariamente, e acrescenta que, onde a raz√£o √© ditada pela norma, ‚Äúos cientistas precisam desenvolver e sustentar suas teorias irracionalmente; n√£o h√° regras gerais para estabelecer a verdade; vale tudo.‚ÄĚ2

As universidades tamb√©m t√™m, obviamente, interesses monet√°rios importantes, objetivos claros de domina√ß√£o social e agem de acordo com as normas ditadas pelo mundo do trabalho assalariado. Levando tudo isso em considera√ß√£o, as universidades s√≥ podem ser √ļteis pelas estruturas que muitas vezes proporcionam (bibliotecas, ambientes diversos, salas de confer√™ncias, restaurantes universit√°rios, salas de computadores, galerias) e que, para fins contr√°rios aos seus prop√≥sitos originais, podem ser subvertidos e usados por estudantes e n√£o-estudantes, ansiosos para explorar as margens do conhecimento, o subsolo da vers√£o oficial, sabendo, assim como Bachelard, que ‚Äúpensar √© sempre pensar contra‚ÄĚ3

A respeito do pensamento, essa atividade t√£o desencorajada por toda pr√°tica educacional, incluindo as universidades, diz Viviane Forrester:

“N√£o h√° atividade mais subversiva ou temida. √Č tamb√©m a mais difamada, o que n√£o √© acidental nem sem import√Ęncia: o pensamento √© pol√≠tico. Isso n√£o √© restrito apenas ao pensamento pol√≠tico. O pr√≥prio pensar √© pol√≠tico. Da√≠ a luta insidiosa e, portanto, a mais eficaz e mais intensa em nosso tempo, contra o pensamento. Contra a capacidade de pensar.‚ÄĚ4

Como provocar o pensamento, a capacidade de ler nas entrelinhas, o exerc√≠cio exultante de lucidez e cr√≠tica? Como incentivar, permitir inova√ß√£o, descoberta, cria√ß√£o de conhecimento que serve para viver, quando s√≥ √© poss√≠vel existir vida fora do sistema mercadol√≥gico? Agust√≠n Garc√≠a Calvo renuncia ao t√≠tulo de fil√≥sofo ao consider√°-lo desacreditado e absolutamente assimilado pelo sistema((Agust√≠n Garc√≠a Calvo assinala que ‚Äúa prova da extrema prostitui√ß√£o da palavra filosofia √© a de que os at√© os executivos t√™m sua pr√≥pria filosofia: a filosofia da empresa‚ÄĚ. N√≥s acrescentar√≠amos a este exemplo, como forma de provar a mesma prostitui√ß√£o, o caso de Federico Salazar, fil√≥sofo liberal que comenta, com mais sal√°rio que dignidade, desfiles de moda no notici√°rio matinal do Canal 4 de TV.)) e prefere, se for necess√°rio, o t√≠tulo menos profissional e gasto, menos formatado e definido e, portanto, mais livre, de pensador. A cria√ß√£o de contra-universidades, lugares aut√īnomos onde pensadores, estudantes e professores convergem interessados em quebrar a monotonia, a rigidez acad√™mica e a pobreza, onde o conhecimento deixa de ser ‚Äúensinado‚ÄĚ para ser uma cria√ß√£o comum ou, ao menos, uma descoberta individual de uma possibilidade comum, a n√£o ser que o pr√≥prio acordo m√ļtuo solicite uma interven√ß√£o docente em mat√©ria de ordem t√©cnica, pode ser uma alternativa v√°lida √† morte da universidade.

Diz D. Cooper:

‚ÄúO que proponho √© uma estrutura m√≥vel, totalmente n√£o hier√°rquica e em revolu√ß√£o cont√≠nua, capaz de gerar revolu√ß√£o al√©m dos limites de sua estrutura. A universidade (ou o que no atual momento da hist√≥ria deveria ser chamado de anti-universidade, contra-universidade, universidade livre ou algo semelhante) seria uma rede muito ampla. As c√©lulas funcionariam dentro de uma universidade oficial como um ant√≠doto para o sistema, de forma muito independente.‚ÄĚ5

Essas estruturas informais, completamente desprovidas dos v√≠cios daquela esquerda que se submete √† din√Ęmica e l√≥gica da pol√≠tica autorit√°ria, desprezando completamente o poder e criando apenas uma organiza√ß√£o m√≠nima para funcionar, provavelmente seriam consideradas suspeitas ou mesmo ilegais pelas autoridades acad√™micas, o que nos mostra a sa√ļde vigorosa do cad√°ver universit√°rio e, portanto, a necessidade desses casos de resposta e cr√≠tica.

Se a cria√ß√£o desses espa√ßos aut√īnomos n√£o for poss√≠vel, seja devido √† repress√£o autorit√°ria ou porque n√£o ocorreram encontros felizes com as pessoas necess√°rias para concretiz√°-las ‚Äď dados os interesses cada vez mais estreitos e previs√≠veis das novas gera√ß√Ķes; se mesmo as interven√ß√Ķes pessoais em sala de aula n√£o s√£o mais vi√°veis com a inten√ß√£o de provocar algum debate, devido ao torpor e retalia√ß√£o gerais, e se a perspectiva de um horizonte de exames e aulas massacrantes √© insuport√°vel, o √ļnico recurso para salvaguardar a integridade pessoal parece ser abandonar formalmente o antro universit√°rio, de maneira solit√°ria e silenciosa, estrelando o que aos olhos do mundo parece um abandono inexplic√°vel.

  1. David Cooper, La muerte de la familia, Editorial Planeta, México 1986. []
  2. P. Feyerabend., Tratado contra el método, Ediciones Orbis, Barcelona 1984. []
  3. Citado por Jes√ļs Garc√≠a Blanca, en ‚ÄúNo somos nada‚ÄĚ, revista Ekintza Zuzena No 19, Bilbao 1996. []
  4. Viviane Forrester, El horror económico, F.C.E., Buenos Aires 1997. []
  5. David Cooper, La muerte de la familia, op. cit. []
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Pandemia Covid-19: utilize o auto-isolamento para sua auto-instrução

J√° faz seis meses que a Pandemia do Novo Coronavirus chegou ao Brasil e Am√©rica Latina. √Č poss√≠vel que cada uma de n√≥s j√° tenha desenvolvido estrat√©gias para lidar com o v√≠rus, adotando um protocolo de seguran√ßa que atenda minimamente as necessidades mais b√°sicas. Sabemos que, infelizmente, um dos principais sintomas dessa doen√ßa √© escancarar as diferen√ßas. Por isso, √© importante reconhecer que algumas pessoas n√£o conseguem manter os mesmos cuidados por diversos fatores, que s√£o essencialmente sociais. Sabemos que os impactos sanit√°rios, ambientais e sociais desse per√≠odo modificar√£o profundamente os modos de viver e existir das pr√≥ximas gera√ß√Ķes.

√Č importante que cada pessoa apoie, dentro de suas possibilidades, as campanhas de apoio m√ļtuo mobilizadas por diversas iniciativas, que seguem surgindo nesse tempo infeliz de descaso governamental.

Algumas pessoas, ainda que com dificuldades, optaram pelo auto-isolamento. Essa √© uma forma de “distanciamento social” que busca evitar a circula√ß√£o de pessoas e, com isso, reduzir ao m√°ximo as chances de cont√°gio e transmiss√£o do v√≠rus. Sabemos que esse m√©todo de preven√ß√£o envolve uma s√©rie de quest√Ķes que precisam ser problematizadas AGORA. De que forma e em que condi√ß√Ķes √© poss√≠vel manter esse isolamento sem ignorar a realidade brasileira?

O objetivo deste texto n√£o √© expor as contradi√ß√Ķes envolvidas nessa escolha, mas reconhecer que, em diferentes modelos, um auto-isolamento √© poss√≠vel, seguro e pode ser solid√°rio. Al√©m disso, de alguma maneira pode ser √ļtil para a auto-instru√ß√£o e para a promo√ß√£o de novos conhecimentos.

Voc√™ deve ter notado uma oferta imensa de cursos e lives com debates interessant√≠ssimos, grupos de estudos on-line e projetos que recebem a ades√£o de variados perfis. Nossas amizades tamb√©m est√£o promovendo momentos de encontro com artistas, m√ļsicos, performances e outras atividades art√≠sticas e de compartilhamento de conhecimentos como nunca havia sido visto.

√Č bem poss√≠vel que, se voc√™ leu at√© aqui, muito provavelmente j√° assistiu algum desses eventos, j√° recebeu o convite para participar de alguma live, um podcast ou, at√© mesmo, em algum momento j√° promoveu seu pr√≥prio evento. Por isso podemos ter essa conversa, pois j√° entendemos que alguma coisa temos em comum.

Auto-isolamento / auto-instrução

Para ampliar nossos conhecimentos e contribuir no desenvolvimento de uma autodefesa leg√≠tima contra a ideologia hegem√īnica do estado, do grande capital e do patriarcado, precisamos de uma programa de educa√ß√£o pol√≠tica capaz de romper com as l√≥gicas de domina√ß√£o e fazer com que nossas vis√Ķes de mundo abram um espa√ßo de possibilidade em nossos enfrentamentos cotidianos.

N√≥s, que nos reconhecemos como pessoas identificadas com pol√≠ticas radicais e revolucion√°rias, precisamos construir ferramentas pr√°ticas para que nossas ideias e cr√≠ticas possam emergir das realidades √†s quaisque estamos condicionadas, especialmente durante a pandemia. √Č preciso estilha√ßar as ideias do senso comum e desenvolver dentro de n√≥s a coragem necess√°ria para que nossas convic√ß√Ķes e capacidades de a√ß√£o possam fortalecer uma resposta aut√īnoma e autogestion√°ria, compartilhando dos princ√≠pios e √©ticas libert√°rios aos problemas impostos pelo Covid-19 ou agravados por ele.

Pensando em tudo isso, seguem abaixo algumas dicas para realizar momentos de leitura no seu dia a dia, só ou com seu bando.

Ideias e sugest√Ķes para seu programa de auto-instru√ß√£o

  • Ler (ou reler) obras de uma autora ou ator do seu interesse, em ordem cronol√≥gica;
  • Ler um livro junto com uma amizade e promover encontros on-line para trocar ideias a cada cap√≠tulo;
  • Combinar a leitura de um texto liter√°rio com textos e te√≥ricos que dialogam com a obra;
  • Fazer uma ampla sele√ß√£o de document√°rios e filmes de fic√ß√£o sobre um tema;
  • Pesquisar artigos acad√™micos, livros, zines e panfletos sobre um tema de seu interesse ou de algo absolutamente novo para voc√™ e seu bando. Anticolonialismo, agroecologia libert√°ria, solarpunk, teoria queer, feminismo negro, epicurismo, arrombamento de fechaduras e seguran√ßa digital s√£o √≥timos exemplos de temas;
  • Transitar entre diferentes escolas e movimentos liter√°rios e sociais;
  • Criar uma playlist de m√ļsicas que tratam sobre o tema de sua pesquisa e, na sequ√™ncia, pensar sobre as letras e o contexto social da √©poca de lan√ßamento;
  • Reservar um hor√°rio para leitura sem muitas interrup√ß√Ķes;
  • Navegar por sites estrangeiros de editoras e livrarias;
  • Acessar a Biblioteca Anarquista Lus√≥fona e conhecer os diversos textos dispon√≠veis;
  • Explorar formatos e g√™neros, alternando hist√≥rias em quadrinhos, contos, romances, etc;
  • Ler obras de autoras e autores que voc√™ sempre considerou imposs√≠veis ou inacess√≠veis;
  • Fazer um cineclube virtual para assistir filmes e debater com co-residentes e familiares, utilizando recursos de videochamada ou mensagens de texto/√°udio;
  • Ler o livro, assistir ao filme e discutir a adapta√ß√£o;
  • Criar um zine;
  • Organizar sua biblioteca/cole√ß√£o (vale a pasta de PDF);
  • Compartilhar seus t√≠tulos preferidos com suas amizades, para depois organizar leituras em grupo;
  • Crar sua pr√≥pria estrat√©gia de leitura.

Utilizar o tempo de auto-isolamento como um tempo √ļtil e necess√°rio para que seja poss√≠vel fortalecer nossas vis√Ķes de mundo e apontar dire√ß√Ķes para al√©m do atual estado de coisas. Se manter o isolamento √© vi√°vel para voc√™, considere fazer um programa de estudos, um plano de zines, livros e cap√≠tulos que podem articular respostas para as d√ļvidas que movimentam suas inquieta√ß√£o e que te fazem perguntar como ser√° poss√≠vel fazermos, com nossas m√£os, um s√©culo 21 absolutamente diferente.

Algo novo está em ebulição, bote para ferver!

Solidary Tea

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‚ÄúPandemia constitui um reflexo cabal da mis√©ria do capitalismo‚ÄĚ ‚ÄĒ Entrevista com Carlos Taibo

Nosso compa Raphael Sanz, jornalista e editor-adjunto do Correio da Cidadania, entrevistou o professor, autor e pensador Carlos Taibo. Seu livro “Colapso: capitalismo terminal, transi√ß√£o ecossocial e ecofascismo” tem levantado quest√Ķes significativas sobre o nosso tempo e o que est√° por vir. Nossos agradecimentos ao Raphael por compartilhar a entrevista conosco, valeu mano!


‚ÄúPandemia constitui um reflexo cabal da mis√©ria do capitalismo‚ÄĚ

A pandemia do Coronav√≠rus se expande por todo o planeta e seus efeitos j√° s√£o sentidos e temidos. Enquanto vemos o prov√°vel colapso dos sistemas de sa√ļde em n√≠vel mundial somados a problemas ambientais e sociais preexistentes, os discursos pol√≠ticos e midi√°ticos oficiais recusam qualquer debate relativo a um eventual colapso do sistema que venhamos a testemunhar ‚Äď mas a possibilidade existe. Sobre esse contexto entrevistamos Carlos Taibo, professor de Ci√™ncia Pol√≠tica da Universidade Aut√īnoma de Madrid, autor de diversos livros sobre o tema, entre eles Colapso: capitalismo terminal, transi√ß√£o ecossocial e ecofascismo, lan√ßado no Brasil pela Editora UFPR no ano passado.

‚ÄúSalta √† vista que o capitalismo pretenda n√£o dar um passo atr√°s. A morte de muitos seres humanos, sobretudo idosos, √© vista como um problema menor em compara√ß√£o com a manuten√ß√£o da l√≥gica do trabalho assalariado, da mais-valia e da mercadoria. Por tr√°s desponta, como sempre, a subordina√ß√£o dos governos, dos Estados, aos interesses de poderosas corpora√ß√Ķes econ√īmico-financeiras que operam nos bastidores. E se faz evidente que a crise tem uma manifesta condi√ß√£o de classe‚ÄĚ, analisa.

Taibo pesquisa as poss√≠veis causas e consequ√™ncias de um pr√≥ximo colapso das sociedades capitalistas. Entre as causas ressalta quest√Ķes como mudan√ßas clim√°ticas e crise de matriz energ√©tica em n√≠vel global, mas n√£o descarta o papel que epidemias e pandemias podem desempenhar em um processo de desagrega√ß√£o social e econ√īmica. Avalia, ao contr√°rio de outros especialistas, que a atual situa√ß√£o de pandemia tem mais a ver com as consequ√™ncias, do que com as causas, das crises ‚Äď no plural ‚Äď que atualmente est√£o instaladas em nossas sociedades.

‚ÄúNa origem, a pandemia √©, certamente, uma consequ√™ncia das regras que imp√Ķem, em toda ordem, um capitalismo enlouquecido e descontrolado. Constitui, se assim podemos dizer, um reflexo cabal da mis√©ria desse capitalismo‚ÄĚ.

A entrevista completa pode ser lida a seguir.

Correio da Cidadania: Como encara a emerg√™ncia da pandemia de covid-19 em todo o mundo, especialmente na Espanha, um dos pa√≠ses mais afetados at√© o momento ao lado de It√°lia, China, Ir√£ e √ćndia?

Carlos Taibo: Como um sinal inquietante de que falamos de um período crítico para a manifestação de um colapso geral. E aqueles que o identificam com a etapa 2020-2050 não estavam, desgraçadamente, equivocados. Isto não significa, necessariamente, é claro, que o sistema não possa experimentar alguma recuperação. Significa que teremos diante dos nossos olhos, em todas as áreas, sinais de que esse sistema não funciona e urge introduzir mudanças radicais.

Correio da Cidadania: Qual teu pensamento a respeito da dicotomia presente em boa parte dos pa√≠ses ocidentais, incluindo os da Am√©rica Latina, que apresenta um embate entre as medidas de isolamento social recomendadas pelos trabalhadores da sa√ļde, e a ideia de que ‚Äėa economia n√£o pode parar‚Äô?

Carlos Taibo: Salta √† vista que o capitalismo pretenda n√£o dar um passo atr√°s. A morte de muitos seres humanos, sobretudo idosos, √© vista como um problema menor em compara√ß√£o com a manuten√ß√£o da l√≥gica do trabalho assalariado, da mais-valia e da mercadoria. Por tr√°s desponta, como sempre, a subordina√ß√£o dos governos, dos Estados, aos interesses de poderosas corpora√ß√Ķes econ√īmico-financeiras que operam nos bastidores. E se faz evidente que a crise tem uma manifesta condi√ß√£o de classe. N√£o afeta da mesma maneira as elites e a quem t√™m de acudir, dia ap√≥s dia, ao trabalho ‚Äď da mesma forma que exames e tratamentos n√£o est√£o ao igual alcance de todos.

Correio da Cidadania: Como isso se relaciona com a necessidade de deixar nossas sociedades menos complexas, ideia que você coloca em seu livro Colapso?

Carlos Taibo: A discuss√£o tem a ver com a rela√ß√£o entre complexidade e independ√™ncia. N√£o notamos que quanto mais complexas s√£o nossas sociedades, mais dependentes somos. E, como resultado, somos menos capazes de resolver, ‚Äėde baixo e daqui‚Äô, por n√≥s mesmos, de forma autogerida, os nossos problemas. Isto colocou nas m√£os do capital, e de suas diferentes estruturas de poder, capacidades de controle e de submiss√£o das que antes carecia.

Correio da Cidadania: Podemos dizer que a pandemia tem um caráter de consequência, e não de causa, das crises no capitalismo?

Carlos Taibo: Na origem, a pandemia √©, certamente, uma consequ√™ncia das regras impostas, em toda ordem, por um capitalismo enlouquecido e descontrolado. Constitui, se assim podemos dizer, um reflexo cabal da mis√©ria desse capitalismo. √Č certo que, a partir da√≠, se abrem duas interpreta√ß√Ķes.

A primeira sublinha que a pandemia se transformar√°, infelizmente, em uma ferramenta decisiva para permitir que o capital retome, em condi√ß√Ķes ainda mais vantajosas que as de h√° pouco, sua condi√ß√£o de proemin√™ncia. A segunda entende, ao contr√°rio, que desnudar√° as disfun√ß√Ķes de um capitalismo aberrante, curtoprazista e sem projeto de futuro. Sinto-me mais c√īmodo com a segunda interpreta√ß√£o do que com a primeira.

Correio da Cidadania: √Č poss√≠vel que essas crises se transformem em colapso geral do capitalismo? Em que medidas podemos come√ßar a falar em colapso ‚Äď uma vez que tanto meios de comunica√ß√£o como autoridades fogem do assunto ‚Äď e como podemos caracterizar este colapso?

Carlos Taibo: No meu livro ‚ÄėColapso‚Äô, do qual h√° uma vers√£o publicada no Brasil, em Curitiba, defino o colapso da seguinte maneira: ‚ÄėUm processo, ou um momento, do qual se derivam v√°rias consequ√™ncias delicadas: mudan√ßas substanciais, e irrevers√≠veis, em muitas rela√ß√Ķes, profundas altera√ß√Ķes no que se refere √† satisfa√ß√£o das necessidades b√°sicas, redu√ß√Ķes significativas no tamanho da popula√ß√£o humana, uma perda geral de complexidade em todos os √Ęmbitos ‚Äď acompanhada de uma crescente fragmenta√ß√£o e de um retrocesso dos fluxos centralizadores -, o desaparecimento das institui√ß√Ķes previamente existentes e, por fim, a quebra das ideologias legitimadoras e de muitos dos mecanismos de comunica√ß√£o da ordem anterior.

As causas principais do colapso que estudo no livro s√£o duas: as mudan√ßas clim√°ticas, por um lado, e o esgotamento de todas as mat√©rias primas energ√©ticas, por outro. Mas assinalo que h√° outros fatores que, aparentemente secund√°rios, podem aparecer como multiplicadores das tens√Ķes. E entre eles menciono, de maneira expressa, epidemias e pandemias. Creio que, por falta de um conhecimento maior, √© razo√°vel afirmar que talvez nos encontraremos diante de um cen√°rio pr√≥prio do que chamarei de ‚Äėantessala do colapso‚Äô. Resta determinar, enfim, se podemos falar de um colapso do capitalismo ou, mais al√©m, de um colapso da civiliza√ß√£o humana como um todo.

Correio da Cidadania: O que é o Ecofascismo? De alguma maneira autoridades e lideranças nacionais e globais poderiam se aproveitar da situação para implantar uma agenda própria de poder, próxima ao conceito de Ecofascismo?

Carlos Taibo: Estar√≠amos equivocados se conclu√≠ssemos que as ideias que defenderam os nazistas alem√£es oitenta anos atr√°s remetem a um momento hist√≥rico conjuntural e irrepet√≠vel: muitas dessas ideias parecem chamadas a reaparecer hoje, n√£o defendidas por ultramarginais grupos de neonazis, sen√£o postuladas por alguns dos principais centros de poder pol√≠tico e econ√īmico, cada vez mais conscientes da escassez geral que se avizinha e cada vez mais firmemente decididos a preservar em umas poucas m√£os esses recursos escassos, ao amparo de um projeto de darwinismo social militarizado, isto √©, de ecofascismo. Este √ļltimo entende que no planeta sobra gente, de tal maneira que se trataria, na vers√£o mais suave, de marginalizar aqueles que sobram ‚Äď isto j√° fazem ‚Äď e, na mais dura, de extermin√°-los diretamente.

Ainda seria excessivo concluir que as medidas de recorte estatista, hierarquizantes, repressivas e militarizadas que aplicam hoje tantos governos obedecem em sentido estrito a um projeto ecofascista. Parece que a experiência conseguinte, com a ratificação da servidão voluntária que abraçam muitas pessoas, está chamada a aportar dados muito sugestivos diante dos desdobramentos desse projeto.

Correio da Cidadania: Os colapsos dos sistemas de sa√ļde, como vemos na It√°lia, poderiam ter influ√™ncia neste processo, mesmo que de maneira indireta?

Carlos Taibo: Poderiam, sim, em virtude uma razão precisa: colocam graficamente diante dos olhos das pessoas as misérias da gestão neoliberal, da gestão capitalista, de uns serviços sociais destinados a reproduzir sem meio termo a força de trabalho. Nunca se sublinhará o suficiente, contudo, de que não basta fortalecer os serviços sociais: é preciso apostar, para nos liberarmos de tutelas externas, por sua autogestão e socialização plenas.

Correio da Cidadania: O que esperar do mundo após o fim do período mais crítico da pandemia e quais devem ser os principais desafios que nos serão impostos?

Carlos Taibo: Temos de estar muito atentos aos perfis da p√≥s-pandemia, se √© que chegar√°. H√° poucos dias, e em outra entrevista, identifiquei aqueles que creio serem os nossos deveres. Por um lado, colocar no n√ļcleo do debate a discuss√£o sobre o capital, o trabalho assalariado, a mercadoria, a mais-valia, a aliena√ß√£o, a explora√ß√£o, o esp√≥lio dos pa√≠ses do sul global, a sociedade patriarcal, as guerras imperiais, as crises ecol√≥gicas e o colapso. E, pelo outro lado, perfilar os movimentos anticapitalistas que, longe da l√≥gica dos Estados, coloquem a autogest√£o e o apoio m√ļtuo no n√ļcleo de sua a√ß√£o. Somamos ao acerto desses movimentos muitos dos elementos das sociedades pr√©-capitalistas. J√° sei que f√°cil n√£o √©, e n√£o ser√°.

Raphael Sanz é jornalista e editor-adjunto do Correio da Cidadania.


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[Autor convidado] Hoje, 29 de janeiro, √© Dia da Visibilidade Trans. Por Luiz Fernando Prado Uch√īa.

Apresentação

Considerando a urgência das diversas lutas pela libertação de todas as pessoas e a resistência contra toda e qualquer forma de opressão, convidamos a comunidade que nos acompanha a tirar um tempo para refletir sobre quanto da diversidade sexual, de gênero e das sexualidades existe em nossas vidas, nos nossos contatos, nas oportunidades a que temos acesso e nas nossas redes de afeto e companheirismo.

Podemos come√ßar nos fazendo algumas perguntas. Estamos, efetivamente, vivendo em comunidades que n√£o apenas toleram, mas tamb√©m apoiam e se reconstroem pela presen√ßa de pessoas trans? Prestamos a devida aten√ß√£o √†s reivindica√ß√Ķes levantadas por esse grupo, quando n√£o fazemos parte dele, em nosso dia a dia? Sendo pessoas cis, levantamos a voz quando presenciamos atos de viol√™ncia transf√≥bica, ou tratamos a luta pela transfobia como algo que ‚Äún√£o nos pertence‚ÄĚ e, por isso, nos silenciamos?

√Č papel das pessoas cis lutar junto √† comunidade trans contra a transfobia. Isso n√£o significa que estamos ocupando um lugar de fala que n√£o √© nosso, pois a transfobia √© parte do que constitui, por exclus√£o, a cisgeneridade. Por isso, ao recorrermos ao sil√™ncio frente a situa√ß√Ķes de viol√™ncia transf√≥bica estaremos recaindo em uma postura acovardada, que refor√ßa ainda mais a diferencia√ß√£o das pessoas de acordo com a configura√ß√£o de seus corpos e a hierarquia heteronormativa.

Lutar pela liberdade √© uma atividade constante e desafiadora, que n√£o consiste apenas em desafiar os poderes hegem√īnicos externos a n√≥s: consiste tamb√©m em desafiar e rejeitar aquilo que em n√≥s reproduz e sustenta tais poderes. Convidamos, portanto, todas as pessoas a repensar suas a√ß√Ķes dentro de nossas lutas contra a opress√£o e incluir, conscientemente, as pautas elaboradas e vividas pela comunidade trans. A liberdade s√≥ o √© quando v√°lida e efetiva para todas e todos.

Neste dia de luta, chamada √† conscientiza√ß√£o e visibilidade, trazemos uma carta √†s pessoas trans escrita por Luiz Fernando Prado Uch√īa. Luiz √© jornalista, professor e militante LGBT, e ter√° seu livro sobre transmasculinidades publicado em breve pela Editora Monstro dos Mares. Generosamente, Luiz compartilha sua percep√ß√£o de vida atrav√©s do prisma constru√≠do por sua experi√™ncia, que voc√™ pode conhecer no texto abaixo e em outras publica√ß√Ķes escritas por ele.

Valeu, Luiz! Força na luta, e conte com a gente.

Claudia Mayer
Editora geral Monstro dos Mares


O que fazer quando a gente tem a sensação de não-pertencimento?

Nesse tempo em que estive sem escrever novos artigos aqui no PPQO, participei de eventos de milit√Ęncia e ativismo nos quais tive a oportunidade de estar com outras categorias existentes no movimento social. Percebi o quanto falar de transexualidade ainda √© tabu ou tido como assunto complicado para ser abordado.

Tive a oportunidade de estar com pessoas cis (héteros, gays e lésbicas) em conversas informais nos espaços, e iniciei muitos diálogos sobre as diferenças de orientação sexual e identidade de gênero, usando-as como exemplo. A partir disso, os diálogos se tornaram bem fluidos. Eles passaram a entender que se sentir em um determinado gênero em nada se relaciona com vestimentas, acessórios ou por quem se manifesta o desejo sexual/amoroso.

Relatei o in√≠cio de minha jornada e as dificuldades enfrentadas dentro e fora do meio LGBT para expor minha real identidade de g√™nero, al√©m das vit√≥rias obtidas, como retifica√ß√£o de nome e g√™nero, acompanhamento m√©dico para a transi√ß√£o, e outras que se encontram pendentes com rela√ß√£o ao meu corpo. Tamb√©m expus o por que de expor minha transi√ß√£o, seja via entrevistas para jornais, revistas e/ou programas de televis√£o, e outras a√ß√Ķes.

Série de TV

Fui convidado para participar da abertura da s√©rie ‚ÄúQuem Sou Eu‚ÄĚ, exibida pelo ‚ÄúFant√°stico‚ÄĚ, exibida por tr√™s domingos seguidos na TV Globo, que relatou a trajet√≥ria de mulheres transexuais e homens trans em diferentes fases da vida. Apesar de meus posicionamentos contr√°rios √† emissora, entendi que deveria participar para ter a oportunidade de fazer apontamentos com rela√ß√£o ao conte√ļdo para um p√ļblico que n√£o tem acesso a essas discuss√Ķes. Por possu√≠rem uma vida mecanizada, que jamais lhe proporciona oportunidades de se conhecer outras realidades.

Independente do ‚ÄúFant√°stico‚ÄĚ e alguns programas da emissora como inten√ß√£o falar do tema com o prop√≥sito de divulgar a novela ‚ÄėA For√ßa do Querer‚Äô, atualmente exibida √†s 21 h, penso que os militantes e ativistas devem se aproveitar dessas raras oportunidades em canais de TV aberta para explicar, pacientemente, tendo como premissa propagar o tema da forma correta. Al√©m, claro, de ouvir os mais diversos questionamentos a respeito do conte√ļdo explanado e, dessa forma, conseguir simpatizantes em prol da diversidade sexual e de g√™nero.

Nesse tempo afastado de minha coluna, vivenciei uma rela√ß√£o intensa, apesar de ter tido pouca dura√ß√£o. Mas ela me deixou marcas profundas e a depress√£o me atingiu em cheio e, por isso, n√£o tive for√ßas para escrever e expor minhas impress√Ķes acerca da realidade sociopol√≠tica do Pa√≠s.

Dois anos

O que permeava meus pensamentos era o fato de ter esperado dois anos para viver esse relacionamento de forma plena e, de repente, ele acabou sem grandes explica√ß√Ķes. Agora ele est√° praticamente casado com outra pessoa, e exibe essa felicidade nas redes sociais. Pessoas pr√≥ximas a mim curtem essas fotos e desejam felicidades ao novo casal.

A exibi√ß√£o p√ļblica dos momentos cotidianos dos dois e intera√ß√£o constante desses meus amigos e conhecidos nestas publica√ß√Ķes me doem profundamente, apesar de ser polig√Ęmico e poliamorista e, por esta raz√£o, n√£o sentir ci√ļme ou algum outro sentimento possessivo por ele ou por qualquer outra pessoa. Mas o que me deixa magoado nessa breve hist√≥ria foram a falta de di√°logo, as discuss√Ķes e ter sido informado da nova rela√ß√£o por meio das redes sociais.

Com isso, as palavras simplesmente me escaparam por completo e tive de mergulhar em uma jornada de autoconhecimento nos mais diversos campos sociais. O sentimento de vazio estava presente, apesar de seguir com as minhas atividades de milit√Ęncia e ativismo em ritmo normal.

Conflito

A dissid√™ncia em ser um homem habitando um corpo com caracter√≠sticas ainda femininas √© algo que me deixa em desvantagem no quesito rela√ß√£o amorosa e, √†s vezes, sexual. Essa pris√£o corp√≥rea me confronta com a dolorosa realidade de serem as raras vezes atingir a plenitude em um ato sexual por mais que seja moment√Ęnea.

Por esses dias fui em um evento de samba feito por mulheres negras num espa√ßo de resist√™ncia negra, e aquelas m√ļsicas me transportaram para outra dimens√£o. Tentei em v√£o interagir, mas, em sua maioria, l√° estavam l√©sbicas e bissexuais cis, e fui visto com desconfian√ßa e at√© certo rep√ļdio por elas. Os poucos gays que l√° estavam s√≥ interagiam com suas amigas ou estavam acompanhados.

Percebendo o n√£o pertencimento √†quele local, fui embora com a lembran√ßa das boas m√ļsicas e das poucas conversas tidas a fim de ter for√ßas para as atividades agendadas para o dia seguinte.

Ap√≥s as reuni√Ķes fui para um bar no Largo do Arouche ouvir m√ļsicas e observar os frequentadores. Aquele lugar n√£o me pertencia e, em v√£o, tentei expor para alguns contatos de redes sociais minhas dores. At√© que um amigo foi me encontrar e, de l√°, fomos para um barzinho na rua Fradique Coutinho para encontrarmos umas pessoas de um grupo de WhatsApp de poliamor, do qual sou membro.

Poliamor

A decoração do local era muito interessante e divertida por ter como proposta uma certa informalidade. Quando cheguei com meu amigo, avistamos cinco pessoas do grupo que estavam lá preocupadas em exibir uma certa liberalidade. Na compartida do discurso proferido por estes poliamoristas, o padrão cis hétero lá predominava no sentido da aparência física, papéis demarcados de gênero e também aos assuntos vigentes.

No fim da noite, me vi s√≥ e tendo de lidar com a solid√£o, do modelo mais latente de todos. Caminhei at√© a esta√ß√£o de metr√ī, √† frente dos barzinhos e as entradas das boates, e vi aquele mar de gente. Transpareciam enorme felicidade por estarem com roupas descoladas, ao lado de uma pessoa bonita ou rodeados de amigos ou colegas e, mesmo sendo superficiais, estavam acompanhados. De alguma forma, estavam se divertindo, enquanto eu, caminhando sozinho na multid√£o de rostos, seguia para algum lugar que me levasse em seguran√ßa para a casa.

Com a mente entorpecida diante das conversas e reprodu√ß√Ķes de machismo e misoginia ouvidas no encontro, logo pensei no que suportei na escola em que trabalhei para ter uma renda m√≠nima e, assim, sobreviver nessa sociedade capitalista e desumana. Tive s√©rios desgastes psicol√≥gicos, e mesmo em uma conjuntura desfavor√°vel ponderei os pr√≥s e contras antes de me desligar oficialmente daquele emprego.

Seguir a vida

Hoje tenho gana de explorar outras vertentes profissionais, e me lan√ßar a novos desafios sem nenhum tipo de trava que vise me limitar como pessoa ou profissional. As li√ß√Ķes aprendidas nessa pausa de minha coluna no PPQO e de outros projetos s√£o:

  • Por mais que a liberalidade reine em uma determinada conjectura, JAMAIS pense que ela ser√° aplicada a corpos distintos do padr√£o cis heteronormativo enquanto n√£o houver uma sociedade mais igualit√°ria e uma educa√ß√£o que culmine para este cen√°rio. Por isso, temos de seguir na luta apesar das adversidades vindas de todos os lados;
  • Nunca espere que algu√©m lhe respeite ou lhe ame. Se voc√™ estiver disposto a aceitar todo tipo de ofensa e descaso s√≥ para t√™-lo em sua vida;
  • N√£o espere a compreens√£o dos outros com rela√ß√£o aos seus problemas, independente de quais sejam por elas estarem mais focadas em si mesmas. Cabe a voc√™ encontrar um ref√ļgio para tratar seus problemas, seja com um terapeuta ou em centros de apoios como o Centro de Valoriza√ß√£o da Vida;
  • A melhoria em sua vida s√≥ estar√° dispon√≠vel quando voc√™ estiver disposto(a) a repensar suas escolhas e recome√ßar INFINITAS vezes, sem se importar com o julgamento alheio;
  • Por mais dif√≠cil que seja, BUSQUE ocupar a mente com novos aprendizados e novas experi√™ncias. E, dessa forma, estar√° construindo novos alicerces a fim de superar os infort√ļnios que a vida lhe trouxer;
  • JAMAIS aceite qualquer tipo de humilha√ß√£o para ter uma certa seguran√ßa financeira. Saiba que novas oportunidades surgir√£o se estiver disposto(a) a aceit√°-las;
  • Por mais que a conjectura pol√≠tico-social esteja complicada, UNA-SE a coletivos ou grupos, mesmo que a vertente de atua√ß√£o n√£o seja diretamente envolvida com a sua. S√≥ com a uni√£o de diferentes pensamentos e a√ß√Ķes construiremos um pa√≠s igualit√°rio de fato;
  • FACEBOOK e WHATSAPP n√£o s√£o portais de not√≠cias, e nem possuem especialistas te√≥ricos dos mais diversos assuntos. Ent√£o busque m√ļltiplas formas de acessar as informa√ß√Ķes. Em tempo algum acredite em verdades singulares;
  • Observe mais e fale menos. Para, desta forma, captar o que est√° por tr√°s do discurso proferido;
  • Nunca seja emp√°tico com o objetivo de atrair compartilhamentos em seus posts ou simpatia de determinados segmentos sociais;
  • Por mais que deseje o melhor para uma pessoa querida, NUNCA se esque√ßa de seus planos ou projetos para se dedicar completamente a ela;
  • A literatura √© uma boa op√ß√£o para expressar seus pensamentos. Tenha sempre consigo um bloco para anotar seus pensamentos e, com isso, envolver-se neles por completo. E, se preferir outra express√£o art√≠stica, fa√ßa-a sem limit√°-la a qualquer crit√©rio est√©tico;
  • ENTREGUE-SE √† vida por completo sem nenhum tipo de pudor ou receio e, busque a sua felicidade nos pequenos detalhes que ela lhe ofertar.

Publicado originalmente em: http://www.paupraqualquerobra.com.br/2017/04/12/gente-sensacao-nao-pertencimento-luiz-fernando-uchoa/

Luiz Fernando Prado Uch√īa, jornalista, professor de ingl√™s e espanhol, idealizador do blog Arco Iris Liter√°rio, que tem como objetivo difundir literatura LGBT atrav√©s de resenhas liter√°rias, colaborador da revista Sync e Coordenador do N√ļcleo de transmasculinidades da rede fam√≠lia Stronger.