Publicado em 1 comentário

Julian Beck: Por um Teatro Anarquista (A)

Julian Beck

Julian Beck nasceu em Nova York em 31/05/1925, sendo seu pai comerciante e sua mãe professora. Desde jovem ele aprendeu a desprezar armas de brinquedo e desenvolvimento de ampla habilidade artística, motivada por uma paixão marcante pela vida e o desejo de concebê-la como algo que se constrói para si e com os demais.

Publicou poemas e peças no jornal do estudante do ensino médio da escola; ele sempre escreveu, mas também gostava de pintar e lá conquistou seus primeiros sucessos como artista. Depois de abandonar a faculdade, iniciou sua longa carreira de dissidência das instituições e de vontade de desenvolver-se, protestando contra um sistema que ele não poderia servir por não acreditar nele. Ele trabalha como operário e sente de perto o mundo dos explorados. Ele frequenta a Liga de Jovens Comunistas e faz amizade com muitas pessoas à esquerda. Em 1943 ele conheceu Judith Malina, que viria a ser uma companheira constante na vida, a pessoa que mais influencia seu trabalho; ela manteve posições pacifistas firmes, com as quais Julian simpatizou e a mesma ambição de mudar o mundo. Em 1944 ele conheceu Tennessee Williams e Paul Goodman, outro parceiro importante nas lutas políticas, artísticas e culturais. Paul se declarou abertamente um anarquista, enquanto que Julian ainda não estava convencido, embora ocupasse uma posição crítica ao comunismo por causa do stalinismo. Ele se sentiu enojado com a política estatal, viveu a realidade daqueles tempos horrorizados pela barbárie belicosa.

Na década de 1940, Nova York foi o lar de muitos artistas renomados Europeus no exílio como Breton, Duchamp, Ernst, Leger, Chagall e outros. Em esse meio que Julian conhece Jackson Pollock, com quem mantém uma amizade íntima, rodeado pelos ares patrióticos e patriarcais da Segunda Guerra Mundial. Julian começou a se descobrir homossexual em seu primeiro relacionamento com 16 anos e sentindo-se oprimido pelo sistema neste aspecto de sua personalidade. Quando ele foi chamado para servir no exército, ele se recusou alegando homossexualidade.

A convicção pacifista foi acentuada nele. Claro que tinha que radicalizar a ação revolucionária não violenta. Julian e Judith discutiram seriamente as alternativas políticas, que pareciam ser, todas, insatisfatórias. Isso até que Judith encontrou a revista WHY? Um artigo introdutório ao anarquismo. Foi a semente do pensamento ácrata que começou a germinar. É impossível ser convertido ao anarquismo. É possível chegar lá apenas através de um processo de reconhecimento e auto identificação com suas ideias e propósitos. A síntese anarco-pacifista e a ação político-artística constituirá o grande experimento para o qual eles vão dedicar toda a sua vida junto com a criação do “Living Theatre”, que começa em 1951.

O Living Theatre passou a representar uma resposta ao tradicional teatro comercial e institucional, com conteúdo político não convencional e uma linguagem altamente poética, então em breve as autoridades buscarão impedir sua ação em vários momentos. Além da ação política nas mesas, as pessoas do Living estavam cientes da necessidade de uma atuação no movimento pacifista e antimilitarista. Eles promoveram a ideia da primeira greve geral mundial pela paz que ocorreu em janeiro de 1962, culminando em uma marcha; tudo isso foi uma forma de inspirar que pessoas pratiquem a ação direta, então a experiência é repetida mais algumas vezes. Além disso, na década de 1960, Julian passa a ser conhecido como poeta por meio da leitura pública de seus textos e sua reprodução na imprensa underground, que então começa a proliferar e disseminar várias expressões da contracultura radical.

O grupo apresentou trabalhos de autores renomados (Brecht, Garcia Lorca e outros), mas enfatizará as obras de criação coletiva, como por exemplo “The Brig” (“La Prison”), uma obra de denúncia radical das instituições, uma peça de caráter tão questionável que foi fortemente questionada. Este tipo de trabalho os obrigou a se exilar na Europa em 1963. Em 1968 assumiram o nome de Coletivo Anarquista, envolvendo-se ainda mais nos eventos revolucionários que geram a contracultura e na reativação do movimento anarquista mundial. A famosa visão do Teatro Odeon de Paris foi ideia de Julian, extasiado com os acontecimentos de maio de 68. No mesmo ano, eles lançaram “Paradise, Now!”, Que também gerou reação escandalizado pelos poderes estabelecidos.

Com esse histórico, não é surpreendente que ao fazer teatro de rua no Brasil (1971), foram presos sob a acusação de subversão pelos gorilas que comandam esse país. Após os protestos generalizados dos feitos na Europa e nos EUA, acompanhados por expressões de solidariedade de muitas personalidades, o grupo é expulso após dois meses de prisão.

O Living Theatre continuou a viajar pelo mundo, enfrentando desafios e proibições e promovendo mudanças sociais por meio da arte, sempre inflexíveis em sua postura anarco-pacifista. Julian Beck morreu em 1985, mas Judith Malina e o Coletivo continuam nesta linha de teatro de vanguarda que hoje é referência obrigatória em todo o mundo …

R e v o l u c i o n y C o n t r a r r e v o l u c i o n
(Fragmento de uma canção-poema de Julian Beck)

…queremos
abrirles con filtros de amor
queremos
vestir a los parias
de lino y de luz
queremos
poner musica y verdad
en la ropa interior
queremos
hacer que la tierra y sus ciudades resplandezcan
de creacion
lo haremos
irresistible
hasta para los racistas
queremos llevar la fertilidad
a los glaciares
queremos cambiar
el caracter demoniaco de nuestros adversarios
en gloria productiva
queremos
cambiando el mundo
cambiar nosotros mismos
queremos
desembarazarnos
de nuestra propia corrupcion
y a traves del
proceso de la revolucion
hallar
el ser
no
el morir
y hasta que
no lo logremos
la revolucion no tendra lugar

PAP
(CORREO A # 22, pp. 14-15; Março de 1993)
Extraído de Spunk.
Tradução: DaVinci
Revisão: Tonho


Publicado em 4 comentários

Dia do Carteiro: trabalhadores da cultura

dia do carteiro

Neste Dia do Carteiro monas, minas e manos que exercem essa profissão recebem uma entrega especial: Nosso muito obrigado!

25 de Janeiro é o Dia do Carteiro, da Carteira, Atendentes, Operadores de Triagem e Transbordo (OTT’s), motoristas e todas/todos quase 60.000 trabalhadores postais que fazem os 358 anos de história dos Correios. Aqui na Monstro dos Mares, dificilmente conseguiríamos fazer e distribuir livros sem esses profissionais da calça azul e da camisa amarela que levam nossos pacotes pra lá e pra cá. Sabemos que tão importante quanto quem escreve, imprime e compra, também são as pessoas que fazem a entrega da cultura de inspiração anárquica que produzimos para todo o país. Essa categoria é parte do cotidiano da nossa atividade e, por isso, reconhecemos e apoiamos suas lutas nesses quase 9 anos de editora. Em muitas cidades, são os carteiros e carteiras que farão a operação logística da vacina. São trabalhadoras e trabalhadores que estão abrindo mão da própria segurança e se expondo ao vírus (a familiares e corresidentes também) desde o início da pandemia para levar livros à casa das pessoas, bibliotecas comunitárias, espaços sociais e aos que fortalecem nossa Rede de Apoio. Mais uma vez, nosso agradecimento.

Um pouco de história

Conforme o livro Correio – laço universal entre os homens1, o documento postal mais antigo de que se tem notícia é um papiro encontrado em El Hiba, no Egito, datado de 255 AEC2. Esse documento contém muitas informações sobre como era organizado o serviço egípcio de mensageiros. No escrito – um relato em primeira pessoa – há detalhes sobre o encaminhamento da correspondência, o número de mensageiros em serviço, os tipos de objetos enviados e informações sobre os destinatários.

Já no Brasil, em Maio de 1500, a primeira carta enviada foi a que o escrivão de armada Pero Vaz de Caminha escreveu ao rei de Portugal, relatando a exuberância da descoberta, terra que, “em se plantando, tudo dá”.3 Mas foi em 25 de janeiro 1663 que o primeiro serviço regular de correios foi implantado. Com a oficialização do Serviço Postal, o objetivo era possibilitar, através do serviço de escravos, tropeiros e mançoeiros, a comunicação entre Portugal e a Colônia. Com isso, o dia 25 de Janeiro torna-se o Dia do Carteiro.

Nos Estados Unidos, o Mailman Day é comemorado no dia 4 de Fevereiro. Mas pode ser no dia 1º de Julho também, uma vez que em Fevereiro é o Dia do Carteiro e em Julho é o Dia Nacional dos Trabalhadores Postais. Já a União Postal Universal (UPU), que é tipo a ONU dos Correios, declara que o Dia Mundial dos Serviços Postais é 9 de Outubro, data da sua fundação em 1874. Conforme o site da entidade, o Brasil é signatário da UPU.

Carteiros famosos

Quase todo mundo lembra com carinho de algum carteiro ou carteira que conheceu, tipo o Senhor Wilson do desenho animado “Denis, o Pimentinha”. O Sr. Wilson era um carteiro aposentado. E também tem aqueles aliens do “MIB” (você lembra disso?), o Herman, do “Garfield”, o Mimi, da novela “Passione” (que era apaixonado pela Agostina), aquele outro carteiro que apanhou na “Selva de Pedra”, o Silvio da “Éramos Seis”… Bem, a lista de personagens ficcionais que trabalham nos correios é imensa!

Na América do Norte, um dos carteiros mais famosos é o Mr. Zip, um personagem que foi criado pelo Serviço Postal dos Estados Unidos (USPS) nos anos 60 do século passado para a campanha de lançamento do sistema de CEP’s dos gringos, conhecido como ZIP CODE. Aqui no Brasil, o carteiro mais famoso de qualquer vila é Jaime Garabito (Jaiminho, o Carteiro), personagem do eterno programa “Chaves”.

Quem gosta de literatura logo vai lembrar do Carteiro e o Poeta do Neruda. Mas há muito mais carteiros e carteiras na literatura; são tantos que existe um gênero literário que depende inteiramente do trabalho desses profissionais: o romance epistolar. As Ligações Perigosas, de Pierre Choderlos de Laclos, Dracula, de Bram Stoker, A Cor Púrpura, de Alice Walker: todas essas histórias e muitas outras são contadas através de cartas – que alguém levou da/o remetente a seu destino.

Existem também muitos filmes sobre trocas de cartas nos quais o carteiro quase nem aparece. Esse é o caso de “Diário de uma Paixão”, “Brilho de uma Paixão”, “Querido Jhon”, “P. S. Eu Te Amo”, “A Carta Anônima”, “A Loja da Esquina” (esse até que até é bem bonitinho!), mas é tanto filme ruim que não merecem nem uma lista no Buzzfeed.

Jaiminho, o carteiro.

Carteiros estranhos

Você sabia que Charles Bukowski trabalhou nos correios por mais de uma década? Ele foi carteiro temporário, carteiro auxiliar e executou outras tantas atividades no USPS entre um porre e outro. Em seu primeiro romance, Post Office, traduzido no Brasil como “Cartas na rua”, desde a primeira página já destila sua verve e forma de escrever. Na dedicatória ele sentencia: Esta é uma obra de ficção, dedicada a ninguém.

No livro, Henry Chinaski, o personagem autobiográfico criado pelo velho e controverso Buk relata sua rotina tediosa, o trabalho burocrático nos correios e faz ácidas críticas ao estilo de vida dos estadunidenses da época. Ele afirma que candidatar-se a uma vaga nos correios não foi uma boa ideia – Tudo começou como um erro – e em sua escrita enfumaçada e espontânea vai dando as cartas da degradação humana através do trabalho. Seu hedonismo cru e cruel entorpece fãs até hoje.4

Todas as rotas tinham armadilhas e apenas os carteiros regulares5 as conheciam. Todo dia era a mesma merda, e você precisava estar preparado para um estupro, um assassinato, cães ou algum tipo de insanidade. Os regulares não revelavam seus segredinhos. Era a única vantagem que tinham – saberem seus itinerários de cor. Era de matar para um novato, principalmente para um que bebia a noite inteira, ia para a cama às duas, levantava às quatro e meia, depois de trepar e cantar a noite toda, e quase conseguir sair ileso de tudo isso.

BUKOWSKI, Charles. Cartas na rua. Porto Alegre: L&PM, 2018.

Assim como em Bukowski, a existência humana aprisionada pelas burocracias institucionais caracterizaram a obra de Franz Kafka. Kafka foi um dos mais importantes autores da literatura do século XX e soube como poucos expressar as inquietações e angústias humanas. Apesar de toda a estranheza e uma certa amargura na sua obra, há um momento belo e sublime digno de nota. Um ano antes da sua morte, o escritor passava pelo parque Steglitz em Berlim e precisou inventar uma história para uma menina que havia perdido sua boneca. Buscando acalmar a criança, ele contou que era um carteiro de bonecas e que a boneca não estava perdida, mas que tinha ido viajar e no dia seguinte ele traria uma carta contando as peripécias da boneca pelo mundo. Conforme Klaus Wagenbach6 , o biógrafo de Kafka, esses encontros duraram três semanas, mas as histórias nunca foram publicadas porque até hoje não se sabe nenhuma pista da menina Elsi ou dos originais das cartas.


25 de Janeiro dia do carteiro
Vídeo muito bem produzido em homenagem aos 357 anos dos Correios. Fonte: EBCT

Obrigado Carteiro!

Não existe arte e cultura sem a sua fruição. Não haverá literatura sem leitores e provavelmente não há de haver livros sem o Carteiro. É pelas mãos de profissionais dos Correios que os livros adquirem seu sentido e significado. Só pode haver livro se houver a multiplicação da palavra escrita, se ela puder circular abundante e disponível. Este é o livro que queremos: acessível para todas as pessoas que desejam entrar em contato com outros mundos possíveis e impossíveis. A Monstro dos Mares faz livros e zines para pessoas que buscam esse encontro de ideias, linhas, parágrafos e capítulos, uma epistemologia para chamar de sua. Ao se reconhecer entre as palavras de vida e as práticas luta, as monas, minas e manos de todas as quebradas e recantos podem sentir que há um senso de pertencimento ao compartilhar com suas amizades uma visão de mundo através dos livros. Que há algo de belo, permanente e importante ao fazer multiplicar essas ideias neste nosso tempo.

Em função da pandemia, de estarmos numa cidade do interior e de não participar de feiras e eventos enquanto não houver imunização em massa, foi através do envio de IMPRESSO com REGISTRO MÓDICO que em 2020 a Monstro dos Mares distribuiu gratuitamente 821 livros e 1.211 zines. Isso seria bem mais difícil sem alguém para fazer essa distribuição. As trabalhadoras e trabalhadores dos Correios, cerca de 60.000 Carteiros, Carteiras, Atendentes, OTT’s, motoristas e outros profissionais: são essas amizades importantes que fazem com que o poder transformador da cultura possa chegar em mais e mais pessoas nos mais de 5.500 municípios do país. Nosso carinho e nosso agradecimento nesse dia.

Obrigado Carteiro no seu e-mail

fretes

A newsletter Obrigado Carteiro! é uma pequena homenagem ao Carteiro, Carteira, Atendentes, OTT’s, monas, minas e manos que fazem a correria todos os dias. Faça chuva ou sol, profissionais dos Correios estão sempre nas ruas para entregar correspondências e encomendas nas mais de 5.500 cidades do Brasil. Só é possível levar a cultura e o conhecimento do livro impresso através do trabalho dessa categoria que move o país. Valeu!
Privatização é coisa de ladrão!

Processando…
Sucesso! Você está na lista.


  1. A Universal Link Among Men (Lausanne : VIE, ART, CITE, 1974) citado em ADDISON, Luciana Maria Figueiredo. A importância dos Valores organizacionais subjacentes no processo decisório dos Correios. Dissertação de Mestrado, Rio de Janeiro: FVG, 2002. []
  2. Utilizamos Antes da Era Comum (AEC) e Era Comum (EC) conforme The Chicago Manual of Style Online or Scientific Style and Format []
  3. Carta de Pedro Vaz de Caminha sobre o descobrimento da Terra nova que fez Pedro Álvares. Feita na Ilha de Vera Cruz em o 1.º de Maio de 1500. Disponível o fac-símile na Biblioteca Nacional de Portugal e transcrição na Biblioteca Nacional, situada no Rio de Janeiro. []
  4. Nota de Baderna James: Logo depois da adolescência eu cancelei esse autor. Mas “Cartas na rua” e “O pássaro azul” ainda permanecem aqui dentro de mim em algum lugar. []
  5. Nota de Baderna James: no Brasil são chamados de carteiros titulares, não de regulares. []
  6. WAGENBACH, Klaus. Franz Kafka. Francke, 1958. []
Publicado em Deixe um comentário

Agnes Inglis: Bibliotecária Anarquista

Agnes Inglis nunca planejou uma carreira como bibliotecária. Aos 52 anos em 1924, e após um período de intenso trabalho em prol dos imigrantes radicais que enfrentavam perseguição e deportação após a Primeira Guerra Mundial, Inglis visitou a biblioteca da Universidade de Michigan para consultar a coleção de livros, periódicos, artigos, recortes e efêmera doada por seu amigo Joseph Labadie em 1911. “Jo” Labadie1 foi um líder sindical, reformador social e anarquista individualista que acumulou um grande número de materiais documentando a multidão de eventos e movimentos dos quais ele participou ao longo de uma carreira de quarenta anos. Inglis encontrou a coleção original de Labadie nas mesmas condições em que fora doada: “em ótimo estado… embora ainda não encadernada”. (Inglis 1924) Ela decidiu passar um curto período de tempo como voluntária na biblioteca desempacotando e separando materiais. Esse curto período se transformou em 28 anos de serviço distinto e principalmente gratuito, durante os quais ela não apenas organizou a grande coleção, mas a aumentou em cerca de vinte vezes seu tamanho original, e a elevou ao status de que goza hoje entre as bibliotecas que documentam a história e filosofia do anarquismo e outros movimentos sociais e políticos radicais. A vida de Inglis como anarquista e bibliotecária nos mostra um excelente caso de intersecção entre ideais políticos e biblioteconomia.

Agnes Inglis

Nascida como a filha mais nova de uma família abastada de Detroit em 1872, Agnes passou a maior parte de suas três primeiras décadas em uma casa de família religiosa, conservadora e isolada. Seu pai, um médico notável, morreu quando ela tinha quatro anos. Além de um ano em uma academia exclusiva para meninas em Massachusetts, Inglis passou a juventude cuidando de uma irmã doente com câncer e, posteriormente, de sua mãe, que morreu antes de Agnes completar trinta anos. Sem mais obrigações familiares e uma renda substancial, Agnes saiu de casa para viajar e frequentar a Universidade de Michigan, onde estudou história e literatura.

Inglis deixou a escola antes de se formar e passou vários anos como assistente social na Hull House, em Chicago, na Franklin Street Settlement House em Detroit e na Ann Arbor YWCA. Enquanto trabalhava nesses ambientes, ela adquiriu conhecimento íntimo das condições injustas de trabalho e vida sofridas por mulheres e homens imigrantes da classe trabalhadora. Ela também se tornou cética quanto à eficácia das políticas e programas liberais destinados a transformar a vida dos trabalhadores e, subsequentemente, começou a questionar as condições sociais, econômicas e políticas nos Estados Unidos.

Ao mesmo tempo, Inglis continuou sua educação abreviada informalmente. Ela lia muito e era especialmente atraída e persuadida por escritores revolucionários. Ela assistiu a muitas palestras em Ann Arbor e Detroit dadas por uma variedade de críticos sociais, muitos deles anarquistas. Ela conheceu Emma Goldman em 1915 e tornou-se amiga da famosa anarquista, por meio da qual também conheceu Alexander Berkman, companheiro e amante de longa data de Goldman. Inglis organizou palestras anarquistas no sudeste de Michigan, começou associações e amizades com muitos radicais locais e juntou-se à divisão de Detroit dos Trabalhadores Industriais do Mundo (IWW). Além de seu ativismo, Inglis usou seus recursos financeiros para apoiar generosamente os esforços radicais, de fundos de greve a dinheiro de fiança para aqueles presos por expressar pontos de vista políticos impopulares.

Com o início do envolvimento dos Estados Unidos na Primeira Guerra Mundial, Inglis intensificou suas atividades radicais, participando frequentemente de manifestações de protesto contra o recrutamento militar obrigatório e a guerra. Quando o governo reprimiu os radicais que se manifestavam contra a guerra no que ficou conhecido como o primeiro Red Scare (pânico vermelho), Inglis descobriu que seus recursos eram ainda mais necessários. Junto com os esforços incansáveis em apoio àqueles que enfrentavam a deportação, ela também pagou fiança para vários indivíduos e contribuiu pesadamente para seus fundos de defesa. Seu apoio de longa data a causas radicais acabou levando sua família a cortar seu acesso ilimitado a fundos e deu-lhe apenas uma renda modesta para viver.

Quando a turbulência após o Red Scare diminuiu, Inglis começou sua carreira na Coleção Labadie. Como curadora, Agnes desenvolveu técnicas organizacionais idiossincráticas que, no entanto, forneceram uma estrutura útil para a coleção. Ela começou dividindo materiais diversos em amplas categorias de assuntos que resultaram em um sistema de arquivos vertical ainda em uso atualmente. Ela tinha muitos jornais encadernados, incluindo Mother Earth, Regeneration e Appeal to Reason, e compilou recortes e outras coisas efêmeras em álbuns de recortes, lidando com assuntos sobre os quais existia documentação abundante, como Emma Goldman, Haymarket, o IWW, o caso Tom Mooney, e Sacco e Vanzetti. Além disso, ela construiu um catálogo de fichas detalhado (também ainda em uso) que continha a catalogação em nível de item da maioria dos materiais da coleção, bem como listas de informações de indivíduos e grupos que funcionavam como um arquivo de autoridade de nome de baixo nível.

Agnes Inglis

Embora sua morte tenha deixado alguns mistérios sobre a disposição dos materiais na coleção, seus esforços organizacionais restauraram informações contextuais aos materiais e os tornaram muito mais utilizáveis por pesquisadores. Não há evidências de que ela teve ou procurou a ajuda de bibliotecários treinados dentro do sistema de biblioteca; consequentemente, todo esse trabalho foi feito por conta própria.

A Inglis teve sucesso em aumentar e ampliar muito o acervo da Coleção Labadie. Depois de alguns anos organizando-a, Agnes e Jo enviaram uma carta a 400 radicais pedindo-lhes que contribuíssem com seus materiais documentando eventos e pessoas que conheciam. Embora a carta tenha recebido apenas uma resposta limitada, Inglis a usou como ponto de partida para buscar agressivamente pessoas para doar materiais. Entre as coleções mais importantes que ela adicionou estavam documentos relacionados a Voltairine de Cleyre, uma anarquista nascida em Michigan e amiga de Emma Goldman, e o escritor socialista John Francis Bray. Ela usou suas extensas conexões e correspondência com radicais do período, como Goldman, Roger Baldwin, Elizabeth Gurley Flynn e Ralph Chaplin, entre muitos outros, para persuadi-los a contribuir com materiais relevantes. Agnes também ajudou muitos indivíduos em suas pesquisas e publicações, incluindo ajudar Goldman e Chaplin com suas autobiografias, Henry David com o seminal The Haymarket Tragedy e James J. Martin com Men Against the State.

A carreira de Inglis tem significado histórico para bibliotecários preocupados com questões de justiça social por uma série de razões. Sua história é inspiradora do ponto de vista político porque, uma vez que seus ideais políticos foram formados, ela nunca os traiu e os viu como centrais para seu trabalho como bibliotecária. Suas motivações vieram explicitamente de sua devoção aos ideais da filosofia e da história dos anarquistas e outros radicais de esquerda com os quais ela trabalhou por um mundo melhor e mais justo. Seus compromissos políticos muitas vezes trabalharam em benefício da coleção, visto mais explicitamente no uso de suas conexões para adquirir registros de seus camaradas. Mesmo recentemente, a Coleção Labadie recebeu um valioso conjunto de papéis de uma mulher que ainda era grata a Agnes por ter libertado seu pai da prisão em 1917.

Ela também priorizou o uso da coleção, chegando ao extremo de emprestar materiais. Quando um de seus tomadores de empréstimo danificava ou não devolvia um item, sua natureza gentil e generosa nunca permitiu que ela os acusasse. Ela ficou satisfeita o suficiente com o interesse das pessoas pelos materiais. Uma nota que ela escreveu descrevendo seu empréstimo de um livro para um anarquista italiano que vivia na Vigésima Aliança em Detroit em 1934 diz que “a Vigésima Aliança é dura para um livro raro!”

Finalmente, seu conhecimento dos indivíduos e eventos daquela história permitiu-lhe coletar, organizar, descrever e fornecer acesso aos materiais da coleção com eficácia. Certa vez, Inglis escreveu para Emma Goldman: “Não é brincadeira pegar todo esse material e consertá-lo para que os alunos possam realmente usá-lo. Não é um trabalho que todos possam fazer. É preciso conhecer o material. As pessoas não gostam disso.” (Inglis 1925) Agnes devotou o terço final de sua vida à Coleção Labadie, até sua morte em 1952. Gerações de acadêmicos que usaram a coleção apreciaram o conhecimento, habilidade e dedicação que Agnes Inglis trouxe à causa de documentar a história dos movimentos políticos radicais nos Estados Unidos e sua contribuição para essa história é incomensurável.

Trabalhos citados

  • Inglis, Agnes (1924) Carta para Joseph Labadie, 11 de fevereiro, Joseph Labadie Papers, Labadie Collection, University of Michigan, Ann Arbor.
  • Inglis, Agnes (1925) Carta para Emma Goldman, 19 de março, Emma Goldman Papers, Labadie Collection, University of Michigan, Ann Arbor.

Por: Julie Herrada e Tom Hyry
Publicado no Progressive Librarian
Traduzido por DaVinci, revisado por abobrinha.

Ei pirata! 🏴‍☠️
Faça parte da Rede de Apoio da editora fazendo uma contribuição mensal:
Catarse assinaturas ou no PicPay assinaturas

  1. Para obter mais informações sobre a vida de Labadie, consulte a excelente nova biografia de Carlotta Anderson, All American Anarchist: Joseph A. Labadie e o Movimento Trabalhista (Detroit: Wayne State University Press) 1998. []
Publicado em Deixe um comentário

Sobre cuidados e como estamos todos fodidos caso não façamos grandes mudanças (Peter Gelderloos )

peter gelderloos

Mensagem de Peter Gelderloos 31 de Dezembro de 2020

Assim, em teoria, é o último dia de 2020, mas não me surpreenderia se descobríssemos algum novo tipo de duplo ano bissexto de merda.

2020 tem sido um ano realmente difícil. A maioria de nós perdeu amigos e companheiros, muitos perderam familiares. Derramamos os nossos corações em iniciativas de sobrevivência expandidas e rebeliões ardentes, mas ainda não foi suficiente. Ainda não vimos o fim de toda a dor acumulada nos nossos círculos. Quero agradecer à dúzia de amizades que tornaram possível que eu sobrevivesse a este ano, sendo atenciosos e atentos. São os anarquistas mais verdadeiros que conheço, alguns dos únicos que realmente compreendem a solidariedade e a ajuda mútua. Mas os agradecimentos são inúteis se não estivermos abertos à mudança.

Refletindo sobre essas amizades, são quase todas mulheres, não brancas e pessoas neuro-atípicas. Peço veementemente a todos que pensem nas pessoas que cuidaram de pessoas em seus círculos (se você é uma delas, dê a si próprio um pouco de amor). Os homens e as pessoas neurotípicas precisam se comprometer com isso. O cuidado é uma habilidade para toda a vida. Ninguém vai aprender isso num só dia. Mas há algo que podemos mudar AGORA e temos de mudar se não quisermos que as nossas (pseudo)comunidades caiam e ardam em trauma, depressão e pobreza no próximo ano.

Para quem você olha como o alicerce da sua comunidade/círculo, aquela pessoa cuja orientação você procura para estabelecer normas sobre como se comunicar, resolver conflitos, lidar com aqueles que sofrem, moldar o espaço social? É melhor que sejam aquelas pessoas em quem pensou (que pertencem ao teu círculo). Devem ser aqueles que todos ouvem enquanto construímos as nossas comunidades/círculos.

Não deveria ser o acadêmico a citar Agamben, o amigo que te ensina a atirar, o que tem contatos em todo o mundo, o babaca que escreve livros, o que faz as melhores festas (a menos que sejam também o que se ocupa das pessoas, já que somos todos multifacetados). Todos esses outros tipos têm algo a oferecer em momentos importantes de luta (exceto as festas, bah humbug!)1 . Mas, na maioria das vezes, é para eles que damos poder para estruturar as nossas comunidades e é por isso que temos cenas produtivistas, militaristas, dogmáticas ou baseadas na popularidade. E estes são completamente incapazes de lidar com estafa (burnout) e traumas, ou de centrar as relações na sobrevivência coletiva, que é a característica que define uma comunidade real.

Uma teoria anarquista do poder reconheceria e valorizaria cada atividade que cria a nossa liberdade e bem-estar, deveria celebrar a experiência daqueles que a têm e encorajar cada um a desenvolver as suas próprias forças.

Em vez disso, exploramos e marginalizamos aquelas de quem mais dependemos para a nossa sobrevivência coletiva. Metade das pessoas com quem se pode contar para o sustento têm estado à beira do suicídio este ano. Quero mandar um sincero foda-se a todos os que não têm pensado nisso (em cuidar) e que continuam a construir as nossas comunidades falhas em torno de todas as lógicas erradas. Vão à merda. Comprometam-se. Se ainda não perceberam que a nossa sobrevivência está em risco, saiam já daqui.

Todo o meu amor para as pessoas que têm carregado todo esse fardo. Sim, todo o meu amor para as pessoas que têm estado na linha da frente, organizando protestos, escrevendo e debatendo. Sabendo, simplesmente, quando brilhar e quando segurar outra pessoa.

Finalmente, do fundo do meu ser, uma maldição imortal para os dois tipos de “camaradas” que, na minha perspectiva, têm sido os mais prejudiciais. Aqueles que ajudam os abusivos, evitam críticas ou consequências, que se fazem de neutros, giram o moinho de rumores porque têm muito medo de falar cara a cara. E, políticos do movimento que impõem suas ideias de classe média do que é possível acima do que as pessoas realmente precisam numa situação potencialmente revolucionária; desde greves de aluguéis a rebeliões anti-polícia. Que sofram uma infelicidade sem fim ou uma autoconsciência aguda dos danos que causaram.

Mas sim, amor para todos os outros.

Por favor, faça com que os seus amigos leiam isto, especialmente os produtivistas ou os legalzões (fadas sensatas da violência e das alianças)

É isto, tchau.


Tradução e revisão: Absort0, Fernando, abobrinha.


  1. Nota: Expressão utilizada pelo personagem Ebenezer Scrooge, de Charles Dickens, que se tornou símbolo de sua rabugice []
Publicado em 3 comentários

Contra-universidades

Excerto do capítulo VI do livro Entre cuadernos y barrotes publicado pela Editora Cultura y Sociedad, na cidade de Lima, em setembro de 1999.

Tradução de Mauricio Knup.

Com frequência se contrapõe a atividade universitária à atividade escolar, como se esta fosse um grande salto à frente e tivesse características qualitativamente diferentes. Inclusive, apresenta-se a universidade como o espaço de onde brotarão soluções e alternativas para os grandes problemas de nosso tempo. Dessa maneira, oculta-se, com um otimismo necessariamente envolvido por uma mentira astuta ou mesmo simples idiotice, o fato de que nas universidades, assim como nas escolas, persiste toda uma concepção autoritária de vida, horários rigorosos a serem cumpridos, exames, notas, aprovação e reprovação, uma verticalidade mofada que nenhuma sala de aula moderna e com iluminação natural pode esconder; às vezes, até pequenas mudanças de horários e controle de frequência de estudantes, professores que, apesar de não passarem fome de maneira miserável quando não estão protagonizando uma aula vertical e autoritária que pretendem que seja magistral, na maioria das vezes são os mesmos que não têm escrúpulos em recorrer à vergonha da cópia e da reprodução.

A universidade mantém intacta a função repressiva, mas faz isso em um estágio mais avançado. Nem sempre se precisa recorrer a tanques e intervenções militares; geralmente, é suficiente para ela manter a ficção da gestão compartilhada, um simulacro de democracia no qual estudantes dóceis que adquiriram o mau hábito da política representativa e que, através da formação de diretórios acadêmicos e similares, possibilitarão não uma democracia direta e assembleias, mas a criação de máfias e grupos de poder, a existência de um alto sigilo burocrático, a perpetuação de um regime no qual você deve pedir permissão até para colocar um cartaz na parede; tudo isso, em conjunto com uma fórmula legal que proíbe atividades extra-acadêmicas, faz com que qualquer atividade independente ou autônoma capaz de produzir conhecimentos para além do saber oficial seja censurada ou desencorajada.

David Cooper compara a universidade a um hospital psiquiátrico:

“O design exterior é bastante semelhante: o bloco administrativo e vários departamentos, vilas, laboratórios, terapia ocupacional e tudo mais. Algumas universidades têm cercas e porteiros para controlar aqueles que entram e saem. A ironia disso está em que provavelmente ninguém entra e certamente ninguém sai. As duas instituições estão cheias de preocupação fingida dos ‘Protetores’ sobre os ‘protegidos’. Ambas são boas almas (alma mater), de cujos seios brota um antigo veneno, sedativos de todos os tipos concebíveis, desde a pílula precisa para o paciente preciso até o trabalho exato para estudantes exatos.”1

As universidades se apresentam, em caros anúncios de televisão, como o reino do conhecimento e da vida intelectual, mas estão presas pela esclerose de sua maneira pretensiosa e dogmática de conceber e produzir um conhecimento que desejam universalmente válido. Ignora ou despreza a sabedoria de dissidentes como Feyerabend, que afirma que o progresso científico só é possível quando certas regras “óbvias” são violadas voluntária ou involuntariamente, e acrescenta que, onde a razão é ditada pela norma, “os cientistas precisam desenvolver e sustentar suas teorias irracionalmente; não há regras gerais para estabelecer a verdade; vale tudo.”2

As universidades também têm, obviamente, interesses monetários importantes, objetivos claros de dominação social e agem de acordo com as normas ditadas pelo mundo do trabalho assalariado. Levando tudo isso em consideração, as universidades só podem ser úteis pelas estruturas que muitas vezes proporcionam (bibliotecas, ambientes diversos, salas de conferências, restaurantes universitários, salas de computadores, galerias) e que, para fins contrários aos seus propósitos originais, podem ser subvertidos e usados por estudantes e não-estudantes, ansiosos para explorar as margens do conhecimento, o subsolo da versão oficial, sabendo, assim como Bachelard, que “pensar é sempre pensar contra”3

A respeito do pensamento, essa atividade tão desencorajada por toda prática educacional, incluindo as universidades, diz Viviane Forrester:

“Não há atividade mais subversiva ou temida. É também a mais difamada, o que não é acidental nem sem importância: o pensamento é político. Isso não é restrito apenas ao pensamento político. O próprio pensar é político. Daí a luta insidiosa e, portanto, a mais eficaz e mais intensa em nosso tempo, contra o pensamento. Contra a capacidade de pensar.”4

Como provocar o pensamento, a capacidade de ler nas entrelinhas, o exercício exultante de lucidez e crítica? Como incentivar, permitir inovação, descoberta, criação de conhecimento que serve para viver, quando só é possível existir vida fora do sistema mercadológico? Agustín García Calvo renuncia ao título de filósofo ao considerá-lo desacreditado e absolutamente assimilado pelo sistema((Agustín García Calvo assinala que “a prova da extrema prostituição da palavra filosofia é a de que os até os executivos têm sua própria filosofia: a filosofia da empresa”. Nós acrescentaríamos a este exemplo, como forma de provar a mesma prostituição, o caso de Federico Salazar, filósofo liberal que comenta, com mais salário que dignidade, desfiles de moda no noticiário matinal do Canal 4 de TV.)) e prefere, se for necessário, o título menos profissional e gasto, menos formatado e definido e, portanto, mais livre, de pensador. A criação de contra-universidades, lugares autônomos onde pensadores, estudantes e professores convergem interessados em quebrar a monotonia, a rigidez acadêmica e a pobreza, onde o conhecimento deixa de ser “ensinado” para ser uma criação comum ou, ao menos, uma descoberta individual de uma possibilidade comum, a não ser que o próprio acordo mútuo solicite uma intervenção docente em matéria de ordem técnica, pode ser uma alternativa válida à morte da universidade.

Diz D. Cooper:

“O que proponho é uma estrutura móvel, totalmente não hierárquica e em revolução contínua, capaz de gerar revolução além dos limites de sua estrutura. A universidade (ou o que no atual momento da história deveria ser chamado de anti-universidade, contra-universidade, universidade livre ou algo semelhante) seria uma rede muito ampla. As células funcionariam dentro de uma universidade oficial como um antídoto para o sistema, de forma muito independente.”5

Essas estruturas informais, completamente desprovidas dos vícios daquela esquerda que se submete à dinâmica e lógica da política autoritária, desprezando completamente o poder e criando apenas uma organização mínima para funcionar, provavelmente seriam consideradas suspeitas ou mesmo ilegais pelas autoridades acadêmicas, o que nos mostra a saúde vigorosa do cadáver universitário e, portanto, a necessidade desses casos de resposta e crítica.

Se a criação desses espaços autônomos não for possível, seja devido à repressão autoritária ou porque não ocorreram encontros felizes com as pessoas necessárias para concretizá-las – dados os interesses cada vez mais estreitos e previsíveis das novas gerações; se mesmo as intervenções pessoais em sala de aula não são mais viáveis com a intenção de provocar algum debate, devido ao torpor e retaliação gerais, e se a perspectiva de um horizonte de exames e aulas massacrantes é insuportável, o único recurso para salvaguardar a integridade pessoal parece ser abandonar formalmente o antro universitário, de maneira solitária e silenciosa, estrelando o que aos olhos do mundo parece um abandono inexplicável.

  1. David Cooper, La muerte de la familia, Editorial Planeta, México 1986. []
  2. P. Feyerabend., Tratado contra el método, Ediciones Orbis, Barcelona 1984. []
  3. Citado por Jesús García Blanca, en “No somos nada”, revista Ekintza Zuzena No 19, Bilbao 1996. []
  4. Viviane Forrester, El horror económico, F.C.E., Buenos Aires 1997. []
  5. David Cooper, La muerte de la familia, op. cit. []
Publicado em Deixe um comentário

Pandemia Covid-19: utilize o auto-isolamento para sua auto-instrução

Já faz seis meses que a Pandemia do Novo Coronavirus chegou ao Brasil e América Latina. É possível que cada uma de nós já tenha desenvolvido estratégias para lidar com o vírus, adotando um protocolo de segurança que atenda minimamente as necessidades mais básicas. Sabemos que, infelizmente, um dos principais sintomas dessa doença é escancarar as diferenças. Por isso, é importante reconhecer que algumas pessoas não conseguem manter os mesmos cuidados por diversos fatores, que são essencialmente sociais. Sabemos que os impactos sanitários, ambientais e sociais desse período modificarão profundamente os modos de viver e existir das próximas gerações.

É importante que cada pessoa apoie, dentro de suas possibilidades, as campanhas de apoio mútuo mobilizadas por diversas iniciativas, que seguem surgindo nesse tempo infeliz de descaso governamental.

Algumas pessoas, ainda que com dificuldades, optaram pelo auto-isolamento. Essa é uma forma de “distanciamento social” que busca evitar a circulação de pessoas e, com isso, reduzir ao máximo as chances de contágio e transmissão do vírus. Sabemos que esse método de prevenção envolve uma série de questões que precisam ser problematizadas AGORA. De que forma e em que condições é possível manter esse isolamento sem ignorar a realidade brasileira?

O objetivo deste texto não é expor as contradições envolvidas nessa escolha, mas reconhecer que, em diferentes modelos, um auto-isolamento é possível, seguro e pode ser solidário. Além disso, de alguma maneira pode ser útil para a auto-instrução e para a promoção de novos conhecimentos.

Você deve ter notado uma oferta imensa de cursos e lives com debates interessantíssimos, grupos de estudos on-line e projetos que recebem a adesão de variados perfis. Nossas amizades também estão promovendo momentos de encontro com artistas, músicos, performances e outras atividades artísticas e de compartilhamento de conhecimentos como nunca havia sido visto.

É bem possível que, se você leu até aqui, muito provavelmente já assistiu algum desses eventos, já recebeu o convite para participar de alguma live, um podcast ou, até mesmo, em algum momento já promoveu seu próprio evento. Por isso podemos ter essa conversa, pois já entendemos que alguma coisa temos em comum.

Auto-isolamento / auto-instrução

Para ampliar nossos conhecimentos e contribuir no desenvolvimento de uma autodefesa legítima contra a ideologia hegemônica do estado, do grande capital e do patriarcado, precisamos de uma programa de educação política capaz de romper com as lógicas de dominação e fazer com que nossas visões de mundo abram um espaço de possibilidade em nossos enfrentamentos cotidianos.

Nós, que nos reconhecemos como pessoas identificadas com políticas radicais e revolucionárias, precisamos construir ferramentas práticas para que nossas ideias e críticas possam emergir das realidades às quaisque estamos condicionadas, especialmente durante a pandemia. É preciso estilhaçar as ideias do senso comum e desenvolver dentro de nós a coragem necessária para que nossas convicções e capacidades de ação possam fortalecer uma resposta autônoma e autogestionária, compartilhando dos princípios e éticas libertários aos problemas impostos pelo Covid-19 ou agravados por ele.

Pensando em tudo isso, seguem abaixo algumas dicas para realizar momentos de leitura no seu dia a dia, só ou com seu bando.

Ideias e sugestões para seu programa de auto-instrução

  • Ler (ou reler) obras de uma autora ou ator do seu interesse, em ordem cronológica;
  • Ler um livro junto com uma amizade e promover encontros on-line para trocar ideias a cada capítulo;
  • Combinar a leitura de um texto literário com textos e teóricos que dialogam com a obra;
  • Fazer uma ampla seleção de documentários e filmes de ficção sobre um tema;
  • Pesquisar artigos acadêmicos, livros, zines e panfletos sobre um tema de seu interesse ou de algo absolutamente novo para você e seu bando. Anticolonialismo, agroecologia libertária, solarpunk, teoria queer, feminismo negro, epicurismo, arrombamento de fechaduras e segurança digital são ótimos exemplos de temas;
  • Transitar entre diferentes escolas e movimentos literários e sociais;
  • Criar uma playlist de músicas que tratam sobre o tema de sua pesquisa e, na sequência, pensar sobre as letras e o contexto social da época de lançamento;
  • Reservar um horário para leitura sem muitas interrupções;
  • Navegar por sites estrangeiros de editoras e livrarias;
  • Acessar a Biblioteca Anarquista Lusófona e conhecer os diversos textos disponíveis;
  • Explorar formatos e gêneros, alternando histórias em quadrinhos, contos, romances, etc;
  • Ler obras de autoras e autores que você sempre considerou impossíveis ou inacessíveis;
  • Fazer um cineclube virtual para assistir filmes e debater com co-residentes e familiares, utilizando recursos de videochamada ou mensagens de texto/áudio;
  • Ler o livro, assistir ao filme e discutir a adaptação;
  • Criar um zine;
  • Organizar sua biblioteca/coleção (vale a pasta de PDF);
  • Compartilhar seus títulos preferidos com suas amizades, para depois organizar leituras em grupo;
  • Crar sua própria estratégia de leitura.

Utilizar o tempo de auto-isolamento como um tempo útil e necessário para que seja possível fortalecer nossas visões de mundo e apontar direções para além do atual estado de coisas. Se manter o isolamento é viável para você, considere fazer um programa de estudos, um plano de zines, livros e capítulos que podem articular respostas para as dúvidas que movimentam suas inquietação e que te fazem perguntar como será possível fazermos, com nossas mãos, um século 21 absolutamente diferente.

Algo novo está em ebulição, bote para ferver!

Solidary Tea

Publicado em 1 comentário

“Pandemia constitui um reflexo cabal da miséria do capitalismo” — Entrevista com Carlos Taibo

Nosso compa Raphael Sanz, jornalista e editor-adjunto do Correio da Cidadania, entrevistou o professor, autor e pensador Carlos Taibo. Seu livro “Colapso: capitalismo terminal, transição ecossocial e ecofascismo” tem levantado questões significativas sobre o nosso tempo e o que está por vir. Nossos agradecimentos ao Raphael por compartilhar a entrevista conosco, valeu mano!


“Pandemia constitui um reflexo cabal da miséria do capitalismo”

A pandemia do Coronavírus se expande por todo o planeta e seus efeitos já são sentidos e temidos. Enquanto vemos o provável colapso dos sistemas de saúde em nível mundial somados a problemas ambientais e sociais preexistentes, os discursos políticos e midiáticos oficiais recusam qualquer debate relativo a um eventual colapso do sistema que venhamos a testemunhar – mas a possibilidade existe. Sobre esse contexto entrevistamos Carlos Taibo, professor de Ciência Política da Universidade Autônoma de Madrid, autor de diversos livros sobre o tema, entre eles Colapso: capitalismo terminal, transição ecossocial e ecofascismo, lançado no Brasil pela Editora UFPR no ano passado.

“Salta à vista que o capitalismo pretenda não dar um passo atrás. A morte de muitos seres humanos, sobretudo idosos, é vista como um problema menor em comparação com a manutenção da lógica do trabalho assalariado, da mais-valia e da mercadoria. Por trás desponta, como sempre, a subordinação dos governos, dos Estados, aos interesses de poderosas corporações econômico-financeiras que operam nos bastidores. E se faz evidente que a crise tem uma manifesta condição de classe”, analisa.

Taibo pesquisa as possíveis causas e consequências de um próximo colapso das sociedades capitalistas. Entre as causas ressalta questões como mudanças climáticas e crise de matriz energética em nível global, mas não descarta o papel que epidemias e pandemias podem desempenhar em um processo de desagregação social e econômica. Avalia, ao contrário de outros especialistas, que a atual situação de pandemia tem mais a ver com as consequências, do que com as causas, das crises – no plural – que atualmente estão instaladas em nossas sociedades.

“Na origem, a pandemia é, certamente, uma consequência das regras que impõem, em toda ordem, um capitalismo enlouquecido e descontrolado. Constitui, se assim podemos dizer, um reflexo cabal da miséria desse capitalismo”.

A entrevista completa pode ser lida a seguir.

Correio da Cidadania: Como encara a emergência da pandemia de covid-19 em todo o mundo, especialmente na Espanha, um dos países mais afetados até o momento ao lado de Itália, China, Irã e Índia?

Carlos Taibo: Como um sinal inquietante de que falamos de um período crítico para a manifestação de um colapso geral. E aqueles que o identificam com a etapa 2020-2050 não estavam, desgraçadamente, equivocados. Isto não significa, necessariamente, é claro, que o sistema não possa experimentar alguma recuperação. Significa que teremos diante dos nossos olhos, em todas as áreas, sinais de que esse sistema não funciona e urge introduzir mudanças radicais.

Correio da Cidadania: Qual teu pensamento a respeito da dicotomia presente em boa parte dos países ocidentais, incluindo os da América Latina, que apresenta um embate entre as medidas de isolamento social recomendadas pelos trabalhadores da saúde, e a ideia de que ‘a economia não pode parar’?

Carlos Taibo: Salta à vista que o capitalismo pretenda não dar um passo atrás. A morte de muitos seres humanos, sobretudo idosos, é vista como um problema menor em comparação com a manutenção da lógica do trabalho assalariado, da mais-valia e da mercadoria. Por trás desponta, como sempre, a subordinação dos governos, dos Estados, aos interesses de poderosas corporações econômico-financeiras que operam nos bastidores. E se faz evidente que a crise tem uma manifesta condição de classe. Não afeta da mesma maneira as elites e a quem têm de acudir, dia após dia, ao trabalho – da mesma forma que exames e tratamentos não estão ao igual alcance de todos.

Correio da Cidadania: Como isso se relaciona com a necessidade de deixar nossas sociedades menos complexas, ideia que você coloca em seu livro Colapso?

Carlos Taibo: A discussão tem a ver com a relação entre complexidade e independência. Não notamos que quanto mais complexas são nossas sociedades, mais dependentes somos. E, como resultado, somos menos capazes de resolver, ‘de baixo e daqui’, por nós mesmos, de forma autogerida, os nossos problemas. Isto colocou nas mãos do capital, e de suas diferentes estruturas de poder, capacidades de controle e de submissão das que antes carecia.

Correio da Cidadania: Podemos dizer que a pandemia tem um caráter de consequência, e não de causa, das crises no capitalismo?

Carlos Taibo: Na origem, a pandemia é, certamente, uma consequência das regras impostas, em toda ordem, por um capitalismo enlouquecido e descontrolado. Constitui, se assim podemos dizer, um reflexo cabal da miséria desse capitalismo. É certo que, a partir daí, se abrem duas interpretações.

A primeira sublinha que a pandemia se transformará, infelizmente, em uma ferramenta decisiva para permitir que o capital retome, em condições ainda mais vantajosas que as de há pouco, sua condição de proeminência. A segunda entende, ao contrário, que desnudará as disfunções de um capitalismo aberrante, curtoprazista e sem projeto de futuro. Sinto-me mais cômodo com a segunda interpretação do que com a primeira.

Correio da Cidadania: É possível que essas crises se transformem em colapso geral do capitalismo? Em que medidas podemos começar a falar em colapso – uma vez que tanto meios de comunicação como autoridades fogem do assunto – e como podemos caracterizar este colapso?

Carlos Taibo: No meu livro ‘Colapso’, do qual há uma versão publicada no Brasil, em Curitiba, defino o colapso da seguinte maneira: ‘Um processo, ou um momento, do qual se derivam várias consequências delicadas: mudanças substanciais, e irreversíveis, em muitas relações, profundas alterações no que se refere à satisfação das necessidades básicas, reduções significativas no tamanho da população humana, uma perda geral de complexidade em todos os âmbitos – acompanhada de uma crescente fragmentação e de um retrocesso dos fluxos centralizadores -, o desaparecimento das instituições previamente existentes e, por fim, a quebra das ideologias legitimadoras e de muitos dos mecanismos de comunicação da ordem anterior.

As causas principais do colapso que estudo no livro são duas: as mudanças climáticas, por um lado, e o esgotamento de todas as matérias primas energéticas, por outro. Mas assinalo que há outros fatores que, aparentemente secundários, podem aparecer como multiplicadores das tensões. E entre eles menciono, de maneira expressa, epidemias e pandemias. Creio que, por falta de um conhecimento maior, é razoável afirmar que talvez nos encontraremos diante de um cenário próprio do que chamarei de ‘antessala do colapso’. Resta determinar, enfim, se podemos falar de um colapso do capitalismo ou, mais além, de um colapso da civilização humana como um todo.

Correio da Cidadania: O que é o Ecofascismo? De alguma maneira autoridades e lideranças nacionais e globais poderiam se aproveitar da situação para implantar uma agenda própria de poder, próxima ao conceito de Ecofascismo?

Carlos Taibo: Estaríamos equivocados se concluíssemos que as ideias que defenderam os nazistas alemães oitenta anos atrás remetem a um momento histórico conjuntural e irrepetível: muitas dessas ideias parecem chamadas a reaparecer hoje, não defendidas por ultramarginais grupos de neonazis, senão postuladas por alguns dos principais centros de poder político e econômico, cada vez mais conscientes da escassez geral que se avizinha e cada vez mais firmemente decididos a preservar em umas poucas mãos esses recursos escassos, ao amparo de um projeto de darwinismo social militarizado, isto é, de ecofascismo. Este último entende que no planeta sobra gente, de tal maneira que se trataria, na versão mais suave, de marginalizar aqueles que sobram – isto já fazem – e, na mais dura, de exterminá-los diretamente.

Ainda seria excessivo concluir que as medidas de recorte estatista, hierarquizantes, repressivas e militarizadas que aplicam hoje tantos governos obedecem em sentido estrito a um projeto ecofascista. Parece que a experiência conseguinte, com a ratificação da servidão voluntária que abraçam muitas pessoas, está chamada a aportar dados muito sugestivos diante dos desdobramentos desse projeto.

Correio da Cidadania: Os colapsos dos sistemas de saúde, como vemos na Itália, poderiam ter influência neste processo, mesmo que de maneira indireta?

Carlos Taibo: Poderiam, sim, em virtude uma razão precisa: colocam graficamente diante dos olhos das pessoas as misérias da gestão neoliberal, da gestão capitalista, de uns serviços sociais destinados a reproduzir sem meio termo a força de trabalho. Nunca se sublinhará o suficiente, contudo, de que não basta fortalecer os serviços sociais: é preciso apostar, para nos liberarmos de tutelas externas, por sua autogestão e socialização plenas.

Correio da Cidadania: O que esperar do mundo após o fim do período mais crítico da pandemia e quais devem ser os principais desafios que nos serão impostos?

Carlos Taibo: Temos de estar muito atentos aos perfis da pós-pandemia, se é que chegará. Há poucos dias, e em outra entrevista, identifiquei aqueles que creio serem os nossos deveres. Por um lado, colocar no núcleo do debate a discussão sobre o capital, o trabalho assalariado, a mercadoria, a mais-valia, a alienação, a exploração, o espólio dos países do sul global, a sociedade patriarcal, as guerras imperiais, as crises ecológicas e o colapso. E, pelo outro lado, perfilar os movimentos anticapitalistas que, longe da lógica dos Estados, coloquem a autogestão e o apoio mútuo no núcleo de sua ação. Somamos ao acerto desses movimentos muitos dos elementos das sociedades pré-capitalistas. Já sei que fácil não é, e não será.

Raphael Sanz é jornalista e editor-adjunto do Correio da Cidadania.


Publicado em Correio da Cidadania.

Publicado em 1 comentário

[Autor convidado] Hoje, 29 de janeiro, é Dia da Visibilidade Trans. Por Luiz Fernando Prado Uchôa.

Apresentação

Considerando a urgência das diversas lutas pela libertação de todas as pessoas e a resistência contra toda e qualquer forma de opressão, convidamos a comunidade que nos acompanha a tirar um tempo para refletir sobre quanto da diversidade sexual, de gênero e das sexualidades existe em nossas vidas, nos nossos contatos, nas oportunidades a que temos acesso e nas nossas redes de afeto e companheirismo.

Podemos começar nos fazendo algumas perguntas. Estamos, efetivamente, vivendo em comunidades que não apenas toleram, mas também apoiam e se reconstroem pela presença de pessoas trans? Prestamos a devida atenção às reivindicações levantadas por esse grupo, quando não fazemos parte dele, em nosso dia a dia? Sendo pessoas cis, levantamos a voz quando presenciamos atos de violência transfóbica, ou tratamos a luta pela transfobia como algo que “não nos pertence” e, por isso, nos silenciamos?

É papel das pessoas cis lutar junto à comunidade trans contra a transfobia. Isso não significa que estamos ocupando um lugar de fala que não é nosso, pois a transfobia é parte do que constitui, por exclusão, a cisgeneridade. Por isso, ao recorrermos ao silêncio frente a situações de violência transfóbica estaremos recaindo em uma postura acovardada, que reforça ainda mais a diferenciação das pessoas de acordo com a configuração de seus corpos e a hierarquia heteronormativa.

Lutar pela liberdade é uma atividade constante e desafiadora, que não consiste apenas em desafiar os poderes hegemônicos externos a nós: consiste também em desafiar e rejeitar aquilo que em nós reproduz e sustenta tais poderes. Convidamos, portanto, todas as pessoas a repensar suas ações dentro de nossas lutas contra a opressão e incluir, conscientemente, as pautas elaboradas e vividas pela comunidade trans. A liberdade só o é quando válida e efetiva para todas e todos.

Neste dia de luta, chamada à conscientização e visibilidade, trazemos uma carta às pessoas trans escrita por Luiz Fernando Prado Uchôa. Luiz é jornalista, professor e militante LGBT, e terá seu livro sobre transmasculinidades publicado em breve pela Editora Monstro dos Mares. Generosamente, Luiz compartilha sua percepção de vida através do prisma construído por sua experiência, que você pode conhecer no texto abaixo e em outras publicações escritas por ele.

Valeu, Luiz! Força na luta, e conte com a gente.

Claudia Mayer
Editora geral Monstro dos Mares


O que fazer quando a gente tem a sensação de não-pertencimento?

Nesse tempo em que estive sem escrever novos artigos aqui no PPQO, participei de eventos de militância e ativismo nos quais tive a oportunidade de estar com outras categorias existentes no movimento social. Percebi o quanto falar de transexualidade ainda é tabu ou tido como assunto complicado para ser abordado.

Tive a oportunidade de estar com pessoas cis (héteros, gays e lésbicas) em conversas informais nos espaços, e iniciei muitos diálogos sobre as diferenças de orientação sexual e identidade de gênero, usando-as como exemplo. A partir disso, os diálogos se tornaram bem fluidos. Eles passaram a entender que se sentir em um determinado gênero em nada se relaciona com vestimentas, acessórios ou por quem se manifesta o desejo sexual/amoroso.

Relatei o início de minha jornada e as dificuldades enfrentadas dentro e fora do meio LGBT para expor minha real identidade de gênero, além das vitórias obtidas, como retificação de nome e gênero, acompanhamento médico para a transição, e outras que se encontram pendentes com relação ao meu corpo. Também expus o por que de expor minha transição, seja via entrevistas para jornais, revistas e/ou programas de televisão, e outras ações.

Série de TV

Fui convidado para participar da abertura da série “Quem Sou Eu”, exibida pelo “Fantástico”, exibida por três domingos seguidos na TV Globo, que relatou a trajetória de mulheres transexuais e homens trans em diferentes fases da vida. Apesar de meus posicionamentos contrários à emissora, entendi que deveria participar para ter a oportunidade de fazer apontamentos com relação ao conteúdo para um público que não tem acesso a essas discussões. Por possuírem uma vida mecanizada, que jamais lhe proporciona oportunidades de se conhecer outras realidades.

Independente do “Fantástico” e alguns programas da emissora como intenção falar do tema com o propósito de divulgar a novela ‘A Força do Querer’, atualmente exibida às 21 h, penso que os militantes e ativistas devem se aproveitar dessas raras oportunidades em canais de TV aberta para explicar, pacientemente, tendo como premissa propagar o tema da forma correta. Além, claro, de ouvir os mais diversos questionamentos a respeito do conteúdo explanado e, dessa forma, conseguir simpatizantes em prol da diversidade sexual e de gênero.

Nesse tempo afastado de minha coluna, vivenciei uma relação intensa, apesar de ter tido pouca duração. Mas ela me deixou marcas profundas e a depressão me atingiu em cheio e, por isso, não tive forças para escrever e expor minhas impressões acerca da realidade sociopolítica do País.

Dois anos

O que permeava meus pensamentos era o fato de ter esperado dois anos para viver esse relacionamento de forma plena e, de repente, ele acabou sem grandes explicações. Agora ele está praticamente casado com outra pessoa, e exibe essa felicidade nas redes sociais. Pessoas próximas a mim curtem essas fotos e desejam felicidades ao novo casal.

A exibição pública dos momentos cotidianos dos dois e interação constante desses meus amigos e conhecidos nestas publicações me doem profundamente, apesar de ser poligâmico e poliamorista e, por esta razão, não sentir ciúme ou algum outro sentimento possessivo por ele ou por qualquer outra pessoa. Mas o que me deixa magoado nessa breve história foram a falta de diálogo, as discussões e ter sido informado da nova relação por meio das redes sociais.

Com isso, as palavras simplesmente me escaparam por completo e tive de mergulhar em uma jornada de autoconhecimento nos mais diversos campos sociais. O sentimento de vazio estava presente, apesar de seguir com as minhas atividades de militância e ativismo em ritmo normal.

Conflito

A dissidência em ser um homem habitando um corpo com características ainda femininas é algo que me deixa em desvantagem no quesito relação amorosa e, às vezes, sexual. Essa prisão corpórea me confronta com a dolorosa realidade de serem as raras vezes atingir a plenitude em um ato sexual por mais que seja momentânea.

Por esses dias fui em um evento de samba feito por mulheres negras num espaço de resistência negra, e aquelas músicas me transportaram para outra dimensão. Tentei em vão interagir, mas, em sua maioria, lá estavam lésbicas e bissexuais cis, e fui visto com desconfiança e até certo repúdio por elas. Os poucos gays que lá estavam só interagiam com suas amigas ou estavam acompanhados.

Percebendo o não pertencimento àquele local, fui embora com a lembrança das boas músicas e das poucas conversas tidas a fim de ter forças para as atividades agendadas para o dia seguinte.

Após as reuniões fui para um bar no Largo do Arouche ouvir músicas e observar os frequentadores. Aquele lugar não me pertencia e, em vão, tentei expor para alguns contatos de redes sociais minhas dores. Até que um amigo foi me encontrar e, de lá, fomos para um barzinho na rua Fradique Coutinho para encontrarmos umas pessoas de um grupo de WhatsApp de poliamor, do qual sou membro.

Poliamor

A decoração do local era muito interessante e divertida por ter como proposta uma certa informalidade. Quando cheguei com meu amigo, avistamos cinco pessoas do grupo que estavam lá preocupadas em exibir uma certa liberalidade. Na compartida do discurso proferido por estes poliamoristas, o padrão cis hétero lá predominava no sentido da aparência física, papéis demarcados de gênero e também aos assuntos vigentes.

No fim da noite, me vi só e tendo de lidar com a solidão, do modelo mais latente de todos. Caminhei até a estação de metrô, à frente dos barzinhos e as entradas das boates, e vi aquele mar de gente. Transpareciam enorme felicidade por estarem com roupas descoladas, ao lado de uma pessoa bonita ou rodeados de amigos ou colegas e, mesmo sendo superficiais, estavam acompanhados. De alguma forma, estavam se divertindo, enquanto eu, caminhando sozinho na multidão de rostos, seguia para algum lugar que me levasse em segurança para a casa.

Com a mente entorpecida diante das conversas e reproduções de machismo e misoginia ouvidas no encontro, logo pensei no que suportei na escola em que trabalhei para ter uma renda mínima e, assim, sobreviver nessa sociedade capitalista e desumana. Tive sérios desgastes psicológicos, e mesmo em uma conjuntura desfavorável ponderei os prós e contras antes de me desligar oficialmente daquele emprego.

Seguir a vida

Hoje tenho gana de explorar outras vertentes profissionais, e me lançar a novos desafios sem nenhum tipo de trava que vise me limitar como pessoa ou profissional. As lições aprendidas nessa pausa de minha coluna no PPQO e de outros projetos são:

  • Por mais que a liberalidade reine em uma determinada conjectura, JAMAIS pense que ela será aplicada a corpos distintos do padrão cis heteronormativo enquanto não houver uma sociedade mais igualitária e uma educação que culmine para este cenário. Por isso, temos de seguir na luta apesar das adversidades vindas de todos os lados;
  • Nunca espere que alguém lhe respeite ou lhe ame. Se você estiver disposto a aceitar todo tipo de ofensa e descaso só para tê-lo em sua vida;
  • Não espere a compreensão dos outros com relação aos seus problemas, independente de quais sejam por elas estarem mais focadas em si mesmas. Cabe a você encontrar um refúgio para tratar seus problemas, seja com um terapeuta ou em centros de apoios como o Centro de Valorização da Vida;
  • A melhoria em sua vida só estará disponível quando você estiver disposto(a) a repensar suas escolhas e recomeçar INFINITAS vezes, sem se importar com o julgamento alheio;
  • Por mais difícil que seja, BUSQUE ocupar a mente com novos aprendizados e novas experiências. E, dessa forma, estará construindo novos alicerces a fim de superar os infortúnios que a vida lhe trouxer;
  • JAMAIS aceite qualquer tipo de humilhação para ter uma certa segurança financeira. Saiba que novas oportunidades surgirão se estiver disposto(a) a aceitá-las;
  • Por mais que a conjectura político-social esteja complicada, UNA-SE a coletivos ou grupos, mesmo que a vertente de atuação não seja diretamente envolvida com a sua. Só com a união de diferentes pensamentos e ações construiremos um país igualitário de fato;
  • FACEBOOK e WHATSAPP não são portais de notícias, e nem possuem especialistas teóricos dos mais diversos assuntos. Então busque múltiplas formas de acessar as informações. Em tempo algum acredite em verdades singulares;
  • Observe mais e fale menos. Para, desta forma, captar o que está por trás do discurso proferido;
  • Nunca seja empático com o objetivo de atrair compartilhamentos em seus posts ou simpatia de determinados segmentos sociais;
  • Por mais que deseje o melhor para uma pessoa querida, NUNCA se esqueça de seus planos ou projetos para se dedicar completamente a ela;
  • A literatura é uma boa opção para expressar seus pensamentos. Tenha sempre consigo um bloco para anotar seus pensamentos e, com isso, envolver-se neles por completo. E, se preferir outra expressão artística, faça-a sem limitá-la a qualquer critério estético;
  • ENTREGUE-SE à vida por completo sem nenhum tipo de pudor ou receio e, busque a sua felicidade nos pequenos detalhes que ela lhe ofertar.

Publicado originalmente em: http://www.paupraqualquerobra.com.br/2017/04/12/gente-sensacao-nao-pertencimento-luiz-fernando-uchoa/

Luiz Fernando Prado Uchôa, jornalista, professor de inglês e espanhol, idealizador do blog Arco Iris Literário, que tem como objetivo difundir literatura LGBT através de resenhas literárias, colaborador da revista Sync e Coordenador do Núcleo de transmasculinidades da rede família Stronger.