Campanha de financiamento coletivo: Por uma epistemologia orgânica, de Laura Mendes

Conhecimento é coisa viva. Com essa provocação, a Monstro dos Mares lança a campanha de financiamento coletivo para publicar Por uma epistemologia orgânica, novo livro de Laura Mendes. O ensaio propõe uma reflexão original sobre as formas como aprendemos, produzimos conhecimento e nos relacionamos com o mundo, questionando a ideia de que o saber pode ser reduzido a um conjunto de conceitos abstratos, neutros ou separados da vida.

Inspirada pelas reflexões de Antônio Bispo dos Santos e por diferentes tradições de pensamento contracolonial, a autora investiga a possibilidade de um conhecimento orgânico: um saber que nasce da relação entre corpo, território, comunidade, experiência e mistério. Ao longo do livro, conceitos como aproximação, atenção, reverberação, correspondência e incorporação ajudam a construir uma filosofia do conhecimento enraizada na vida cotidiana e aberta à complexidade dos encontros.

Mais do que uma crítica às formas hegemônicas de produção do saber, Por uma epistemologia orgânica é também uma aposta em outras maneiras de pensar, aprender e existir. Entre rios, florestas, memórias e relações, o ensaio convida leitoras e leitores a imaginar conhecimentos que não buscam dominar o mundo, mas aprender com ele. Trata-se de uma obra que dialoga com a filosofia, a ecologia, os estudos decoloniais e as experiências concretas de comunidades que constroem saberes em estreita relação com seus territórios.

A campanha de financiamento coletivo está aberta até 10 de agosto. Ao apoiar o projeto, você ajuda a viabilizar a impressão do livro, fortalecer a produção editorial independente e ampliar a circulação de ideias que frequentemente permanecem fora dos grandes circuitos acadêmicos e comerciais. Para participar, acesse: https://apoia.se/epistemologia-organica. Cada apoio ajuda a fazer este livro acontecer e a colocar mais um conhecimento vivo em circulação.

Entrevista Juliano Gonçalves da Silva

No dia 30 de março, o editor Felipe Siles conversou com Juliano Gonçalves da Silva sobre o lançamento de seu novo livro Cosmologias ameríndias em movimento no cinema de ficção. Em um bate-papo descontraído, a conversa percorre os filmes analisados na obra, as impressões do autor, comentários do editor e reflexões sobre a situação dos povos originários no Brasil contemporâneo.

A entrevista já está disponível em vídeo no YouTube, e também em áudio no Archive.org e no Spotify. É uma ótima oportunidade para conhecer melhor o livro e os caminhos da pesquisa que o sustenta. Ainda dá tempo de apoiar a campanha de financiamento coletivo, que segue até o dia 24 de abril de 2026. Fortaleça o projeto e ajude a colocar o livro em circulação.

Sem Estado, sem capital, apenas pessoas: antropologia e anarquia.

“Anarquia e antropologia andam de mãos dadas porque os antropólogos sabem que uma sociedade sem Estado é possível, já que muitas sociedades desse tipo já existem.”

Graeber, Fragmentos de uma Antropologia Anarquista (2004)

Introdução

           O falecido David Graeber (1961-2020) deixou um poderoso legado intelectual. Ele não era apenas um acadêmico de renome, mas também desempenhou um papel constante na conexão entre a academia e os movimentos sociais. Graeber foi um dos principais pensadores do movimento Occupy Wall Street em 2011. (Diz-se que ele cunhou o poderoso slogan “Nós somos os 99%”, que refletia a desigualdade de classes decorrente do capitalismo contemporâneo, embora ele insistisse que se tratava de uma criação colaborativa)1

           Graeber nasceu e cresceu em uma família operária com forte tradição política. Sua mãe era costureira e atuava ativamente em sindicatos, enquanto seu pai trabalhava em uma gráfica e foi motorista de ambulância voluntário durante a Guerra Civil Espanhola. Ambos apoiaram o Partido Comunista na década de 1930, mas posteriormente se afastaram dele. Esse ambiente moldou o interesse de Graeber pelas estruturas de poder e pela desigualdade social desde jovem.

           A tese de doutorado de Graeber foi uma pesquisa de campo em Madagascar. Viver entre os povos indígenas permitiu-lhe observar que as comunidades autogovernadas possuíam formas de organização social e relações de poder que não dependiam necessariamente do Estado (seja porque não havia um Estado em que se apoiar, seja porque, embora existisse um Estado, este era pouco confiável). Além disso, esses processos não eram contrários aos princípios democráticos; na verdade, eram fundamentalmente democráticos e promoviam o papel político dos indivíduos ainda mais do que a democracia representativa. Essa compreensão influenciou significativamente a trajetória acadêmica posterior de Graeber.

           Após se formar, Graeber lecionou antropologia na Universidade de Yale. Apesar de ser um acadêmico renomado e popular entre os alunos, em 2005 a universidade se recusou a renovar seu contrato de tempo integral. Apesar das críticas e de uma petição que circulou entre mais de 4.500 acadêmicos, ativistas e estudantes, a decisão foi recebida com inação. Acredita-se que um dos motivos para a intensa pressão sobre Graeber tenha sido seu ativismo político e seu apoio a uma estudante que foi ameaçada de expulsão por ser membro de um grêmio estudantil que, na época, enfrentava problemas com a universidade. Posteriormente, Graeber lecionou na Goldsmiths e, em seguida, na London School of Economics and Political Science (LSE), no Reino Unido.

           Ao longo de sua carreira, Graeber produziu inúmeras obras acadêmicas que criticam o Estado e o capital, bem como as estruturas de poder que criam desigualdade na sociedade humana. Exemplos incluem “Dívida: Os Primeiros 5.000 Anos” (2011), que desafia as crenças convencionais de economistas de tendência capitalista sobre finanças e dívida e explica como o capitalismo contemporâneo usa a “dívida” como uma ferramenta ideológica e moral para exercer poder sobre os seres humanos; ” A Utopia das Regras: Sobre Tecnologia, Estupidez e as Alegrias Secretas da Burocracia” (2015), que critica a burocracia por não ser o sistema racional e eficiente que poderíamos imaginar, mas sim repleto de regras e regulamentos sem sentido, complexidade desnecessária e a “estupidez” inerente aos seus processos; e argumenta que a burocracia não é apenas um mecanismo fundamental para a manutenção do poder estatal, mas também para o reforço do capitalismo. Por fim, o livro “Bullshit Jobs: A Theory ” (2018) questiona a existência de muitos empregos atuais, particularmente nos setores de serviços e administrativos, que surgem da irracionalidade de um sistema capitalista que busca criar empregos unicamente por criar empregos ou gerar lucro, em vez de criar empregos essenciais ou que promovam valores humanos. Isso leva à criação de empregos totalmente inúteis (empregos de merda), nos quais até mesmo as pessoas que os executam têm plena consciência de que seu trabalho não agrega nenhum valor à sociedade.

           Ao mesmo tempo, Graeber não abandonou seu papel como ativista e permaneceu uma figura central nos movimentos políticos contra poderes opressores. Este artigo busca explorar a obra de Graeber relacionada ao estudo de sociedades sem Estado, particularmente sua proposta de que a anarquia não é um ideal, mas algo que ocorreu na história da humanidade, existe em sociedades humanas e pode continuar sendo possível no futuro. Examina também como a antropologia pode contribuir para o estudo da possibilidade de criação de tal sociedade.


O que é anarquia?

Este termo se refere a um princípio ou teoria sobre a vida e o comportamento em uma sociedade sem governo. A ordem em tal sociedade não surge da submissão a leis ou da obediência a qualquer autoridade, mas de acordos livres e independentes entre vários grupos em diferentes áreas e profissões. Esses grupos se unem livremente para a produção e o consumo, bem como para satisfazer as diversas e infinitas necessidades e desejos dos seres civilizados.

Pedro Kropotkin

           Poucos acadêmicos ousam se declarar anarquistas como Graeber, e ainda menos anarquistas produziram trabalhos acadêmicos que obtiveram reconhecimento generalizado como os dele (The 101. World, 2020).

           Em sua breve, porém importante obra, Fragmentos de uma Antropologia Anarquista (2004), Graeber apresenta os principais contornos que se expandiriam em muitos outros livros no futuro. Graeber busca refutar os estereótipos que a sociedade e a mídia convencional frequentemente apresentam sobre a anarquia como caos, desordem, violência ou mesmo terrorismo, e sugere que a anarquia pode, na verdade, estar mais alinhada com a democracia do que se costuma pensar.

           Para Graeber, anarquia significava autonomia, auto-organização, associação voluntária e democracia direta, bem como a rejeição do Estado, da violência estrutural, da desigualdade e de todas as formas de dominação social (daí a palavra anarquia significar literalmente “sem governante”). Embora esses princípios tenham sido frequentemente criticados como altamente idealistas e impraticáveis, Graeber destaca que eles representam a organização social real em várias culturas ao longo da história da humanidade (Graeber, 2004: 2).

           Contudo, embora os movimentos sociais e os ativistas políticos inspirados ou que se definem como anarquistas estejam se expandindo por toda parte, Graeber observa que atualmente existem poucos anarquistas dentro das instituições acadêmicas em comparação com o marxismo, que tem laços mais estreitos com a academia universitária e é o único movimento social de grande escala concebido por doutores (embora posteriormente tenha se voltado para a mobilização da classe trabalhadora). Graeber argumenta que o marxismo é frequentemente fundado por alguns gênios ou grandes homens (raramente mulheres); além de Marx, existem o leninismo, o maoísmo, o trotskismo, Gramsci e Althussaire, todos enfatizando a teoria de alto nível, enquanto o anarquismo se concentra na prática e na ética da ação. Os anarquistas são frequentemente nomeados de acordo com suas práticas ou princípios organizacionais, como anarquistas sindicalistas, anarquistas comunistas, insurrecionistas e anarquistas cooperativistas. (Cooperativista) Anarquismo individualista; Anarquismo plataformista (É importante notar que escolas de pensamento marxistas que não são nomeadas em homenagem a indivíduos frequentemente têm abordagens semelhantes ao anarquismo, como o comunismo de autonomia ou de conselho) (Graeber, 2004: 1-5)

           Em suma, o marxismo tende a ser um discurso teórico ou uma análise estratégica da revolução, enquanto o anarquismo é um debate ético sobre os aspectos práticos da revolução, demonstrando o potencial de interação entre ambos. Graeber destaca que a força do anarquismo reside em seu foco no que as pessoas fazem e em como se organizam para alcançar esses objetivos, em vez de construir uma grande estrutura teórica. O anarquismo insiste que os métodos devem ser consistentes com o objetivo; não podemos construir uma sociedade liberal por meio da ditadura, e devemos afirmar os princípios que defendemos em nosso cotidiano e em nossos relacionamentos com aqueles que nos cercam (Graeber, 2004: 4).

           Embora o anarquismo enfatize a prática, não se opõe necessariamente à teoria por completo. Expor, desmantelar e minar as estruturas sociais e a dominação existentes exige ferramentas intelectuais de análise e compreensão. Essas ferramentas podem não ser as teorias complexas com as quais estamos familiarizados nas ciências sociais tradicionais, que muitas vezes são abstratas e criadas por especialistas. Em vez disso, Graeber as chama de “teorias práticas” ou “teorias de baixo nível”, que surgem da democracia direta e da construção de consenso entre vários níveis de anarquistas. O princípio é que ninguém pode mudar completamente as opiniões dos outros para que correspondam perfeitamente às suas próprias, e nem deveria tentar fazê-lo. Portanto, os debates devem se concentrar em problemas concretos e práticos e desenvolver planos com os quais todos possam concordar, sem que ninguém sinta que seus princípios fundamentais estão sendo violados. As teorias práticas também abordam problemas imediatos decorrentes da mudança social, diferentemente das ciências sociais tradicionais, que veem essas questões como “problemas de política”, uma rejeição da política. Isso ocorre porque pressupõe que um Estado ou mecanismo de governo dita como as pessoas devem viver e que elites ou especialistas autoproclamados determinam a natureza da sociedade. Assim, a teoria social deve ser adaptável por meio da democracia direta. O conhecimento e a análise não são propriedade exclusiva dos especialistas, mas sim um produto colaborativo da troca e das ações de todos os envolvidos (Graeber, 2004: 5-8).

           Graeber propôs que a teoria social anárquica deveria partir de duas premissas principais: 1) “Outro mundo é possível”, o que significa que o Estado, o capitalismo e as estruturas de poder com as quais estamos familiarizados não são inevitáveis; a sociedade pode ser organizada de outras maneiras para o benefício e a igualdade de todos os seres humanos. 2) Rejeitar o vanguardismo na mudança social; o papel dos intelectuais não é liderar as massas ou criar “conselheiros” especialistas, mas observar e compreender o que as pessoas realmente fazem e, a partir daí, projetar colaborativamente uma nova sociedade. É nesse ponto que Graeber vê a antropologia desempenhando um papel crucial como ferramenta para explorar e compreender essas possibilidades no mundo real (Graeber, 2004: 7-8).


Antropólogos e sociedades sem Estado

           Pergunta: Quantos votos (ou vozes) de eleitores elegíveis são necessários para trocar uma lâmpada?

           Resposta: Não é necessário, pois os eleitores não podem mudar nada de qualquer forma.

           Para Graeber, a antropologia era muito adequada ao estudo de sociedades anárquicas porque fornecia ferramentas e metodologias de pesquisa que ajudavam a acessar e compreender sociedades sem estados, comunidades autogovernadas ou sistemas econômicos não mercantis, particularmente o trabalho de campo e a observação participante.

           Graeber cita o exemplo de antropólogos anarquistas como A.R. Radcliffe-Brown, um dos pais fundadores da área. Embora famoso por sua teoria estrutural-funcionalista, em sua juventude ele admirava o anarquista Peter Kropotkin, a ponto de seus amigos o apelidarem de “Anarquia Brown”. Graeber argumenta que o trabalho de Radcliffe-Brown foi pioneiro no estudo da ordem social fora do Estado e buscou sugerir que os povos sem Estado não eram selvagens incivilizados, mas sim possuíam uma organização sistemática de relações entre si, refletida em diversas culturas e tradições. Portanto, é necessário que os antropólogos realizem trabalho de campo para examinar detalhadamente a possibilidade de criar sociedades alternativas a partir de cada sociedade existente, bem como estudos comparativos para observar como os seres humanos em diferentes lugares lidam com os problemas de maneiras distintas (Graeber, 2004: 10).

           Marcel Mauss, um antropólogo francês pioneiro e crítico prolífico das economias de mercado em jornais socialistas, propôs um conceito fundamental que desafiou a compreensão dos mercados e do capitalismo. Em sua obra seminal, “Ensaio sobre a Dádiva” (1925), Mauss argumentou que a “economia da dádiva” era a base dos contratos e da organização social em muitas sociedades antes do advento dos mercados e do Estado. Em sua essência, a troca de dádivas criava e mantinha obrigações para com os outros; o destinatário de uma dádiva era obrigado a retribuir posteriormente, seja com bens, trabalho ou outras ações. A recusa em dar, a recusa em receber ou a falta de reciprocidade impactavam o status social e as relações comunitárias. Exemplos incluem casamentos, funerais e outras cerimônias que estabeleciam e mantinham laços sociais. Esse sistema não se concentrava na acumulação de riqueza pessoal ou na maximização do lucro e, diferentemente dos contratos de mercado que se concluíam com uma venda, na qual o comprador obtinha a propriedade plena e separada do item em relação ao vendedor, a economia da dádiva não se baseava no cálculo do lucro, mas sim na recusa em fazê-lo. No entanto, Mauss não insinuou que as pessoas nessas sociedades não tivessem conhecimento de métodos eficientes de busca de lucro; em vez disso, elas podem ter concluído que maximizar o lucro das transações era abominável. Pelo menos em transações envolvendo não-inimigos, Mauss também acreditava que a transição para o socialismo viria de baixo para cima, por meio da criação de sistemas econômicos alternativos e redes de cooperação entre as pessoas, e não por meio de ordens estatais (Graeber, 2004: 12-13).

           O antropólogo francês Pierre Clastres desafiou as crenças predominantes sobre a origem do Estado por meio de sua pesquisa sobre tribos amazônicas em sua obra seminal, * A Sociedade Contra o Estado * (1974). Clastres argumentou que o Estado não era um fenômeno natural ou um estágio evolutivo inevitável da sociedade humana, e apontou que algumas sociedades optaram deliberadamente por rejeitar ou resistir ao seu surgimento. Clastres criticou os antropólogos políticos que estavam presos a uma perspectiva evolucionista, considerando o Estado como uma forma de organização social mais complexa ou avançada do que outras sociedades do passado. Portanto, eles presumiam implicitamente que os grupos sem Estado eram simplesmente sociedades que ainda não haviam alcançado uma organização política complexa. No entanto, Clastres propôs uma nova questão: e se esses povos amazônicos estivessem plenamente conscientes da natureza da estrutura de poder conhecida como Estado e compreendessem as implicações de permitir que certos indivíduos exercessem autoridade sobre outros sem questionar ou criticar, sob pena de intimidação, ameaças ou uso da força? Em outras palavras, Clastres argumentou que as tribos que rejeitaram o Estado não desconheciam o Estado, mas sim o compreendiam bem e estavam determinadas a impedir que ocorresse uma situação em que o Estado oprimisse e ditasse as vidas humanas.

           Esses antropólogos demonstraram mecanismos sociais concebidos para impedir a acumulação permanente de poder ou riqueza, que poderia levar à desigualdade ou à dominação. Também procuraram mostrar que as sociedades humanas têm diversas opções de organização e que a existência sem um Estado ou um mercado capitalista não é um sinal de subdesenvolvimento, mas sim uma escolha resultante das decisões e dos valores morais da comunidade. Foi a isso que Graeber chamou de ética alternativa (Graeber, 2004: 15).


Antropologia Anarquista

           Os céticos frequentemente questionam se as sociedades estudadas pelos antropólogos são meramente “sociedades primitivas” ou pequenos grupos isolados, e não estados modernos complexos, e que mesmo se estivessem estabelecidas, provavelmente entrariam em colapso ou seriam destruídas a longo prazo. Eles também pedem exemplos de “estados anárquicos”.

           Graeber destaca que o termo “Estado anarquista” é paradoxal porque as organizações ou sociedades anarquistas não se assemelham a Estados na aparência, mas envolvem uma multiplicidade de comunidades, associações, redes e projetos existentes em todos os níveis, sobrepondo-se e convergindo de todas as maneiras imagináveis, incluindo formas que ainda não consideramos. Algumas são agregações locais, outras globais. Talvez a única coisa que esses grupos anarquistas tenham em comum seja a recusa em se associar a qualquer pessoa que pareça armada e ordene que os outros se calem e obedeçam às suas ordens. E como os anarquistas não tentam tomar o poder dentro do território de nenhum país, nem acreditam em revoluções violentas e repentinas, mas sim criam gradualmente formas organizacionais globais alternativas, novas formas de comunicação e novas maneiras de organizar a vida sem alienação, em última análise, essas ações farão com que as formas de poder existentes pareçam tolas e desnecessárias. Isso significa que existem inúmeros exemplos possíveis de sociedades anarquistas (Graeber, 2004: 24-25).

           Além disso, Graeber questiona a suposição de uma desconexão completa entre o mundo moderno e o mundo pré-moderno de seres “primitivos”, “bárbaros” ou “subdesenvolvidos”, apesar de antropólogos terem tentado, durante décadas, convencer o público de que não existe uma sociedade primitiva ou simples e que ninguém existe isolado além do tempo (como sugere Bruno Latour, nunca fomos modernos) (Graeber, 2004: 26-29).

           O paradoxo entre os antropólogos reside no fato de possuirmos um vasto acervo de experiências relativas a experimentos políticos e sociais humanos, sobre os quais outros sabem pouco, ou pelo menos prestam pouca atenção. Contudo, os antropólogos mantêm esses trabalhos etnográficos em segredo, hesitantes em divulgá-los ou apresentar discussões com implicações sociais mais amplas, embora nossas descobertas constituam um patrimônio comum da humanidade. Nesse sentido, Graeber argumenta que a antropologia parece estranhamente receosa de seu próprio potencial, apesar de sua capacidade de apresentar as vidas diversas e ilimitadas da humanidade — porque é a única disciplina que realmente estuda seres humanos de quase todas as sociedades e está familiarizada com todos os casos “anormais”. No entanto, a antropologia se recusa a fazê-lo (Graeber, 2004: 61-65).

           Como resultado, os antropólogos contemporâneos não formulam mais conclusões teóricas abrangentes, mas delegam essa tarefa a filósofos europeus, que não têm dificuldade em debater questões humanas fundamentais como liberdade, desejo, imaginação, identidade ou soberania. É como se esses conceitos fossem inerentemente concebíveis, e ninguém fora da alta literatura da Europa Ocidental ou da América do Norte se envolvesse verdadeiramente com eles. Graeber também aponta uma mudança no uso da linguagem. Antes, os principais termos teóricos para os antropólogos eram palavras indígenas como mana, totem ou tabu, mas os novos termos populares frequentemente têm origem no latim ou no grego, em grande parte emprestados do francês e, às vezes, do alemão (Graeber, 2004: 62).

           Portanto, embora a antropologia esteja idealmente posicionada para iniciar diálogos intelectuais em larga escala para debater questões políticas e outras com outros membros da sociedade, certas contradições internas a impedem de utilizar plenamente seu potencial. Na visão de Graeber, quando a anarquia não é mera desordem, mas uma forma de organização social que enfatiza a autogovernança e é desprovida de poder centralizado, o papel da antropologia é observar atentamente como as pessoas em diferentes sociedades pensam e projetam suas sociedades coletivamente, como imaginam e agem socialmente sem submissão ao Estado e ao capital, e então apresentar esse conhecimento e essas descobertas como uma “dádiva” intelectual de volta à sociedade da qual as informações foram coletadas, permitindo que as pessoas inventem e criem suas próprias sociedades de forma livre e diversificada.


Referências

Clastres, P. (1974). Sociedade contra o Estado: Ensaios em antropologia política. (R. Hurley, Trad.). Urizen Books.

Graeber, D. (2004). Fragmentos de uma antropologia anarquista. Prickly Paradigm Press.

Graeber, D. (2011). Dívida: Os primeiros 5.000 anos. Melville House.

Graeber, D. (2015). A utopia das regras: sobre tecnologia, estupidez e as alegrias secretas da burocracia. Melville House.

Graeber, D. (2018). Empregos de merda: uma teoria. Simon & Schuster.

The Guardian. (2020). David Graeber, antropólogo e autor de Bullshit Jobs, morre aos 59 anos. The Guardian. https://www.theguardian.com/books/2020/sep/03/david-graeber-anthropologist-and-author-of-bullshit-jobs-dies-aged-59?CMP=share_btn_url .

The101.World. (2020). David Graeber, um antropólogo anarquista que acredita em possibilidades alternativas. The101.World. https://www.the101.world/david-graeber .


Autora:
Piyanan Jina,
Pesquisadora, Divisão de Pesquisa e Promoção Acadêmica,
Centro de Antropologia Sirindhorn (Organização Pública)

Via: https://www.sac.or.th/portal/th/article/detail/750


  1. Graeber disse certa vez: “Eu fui o primeiro a sugerir que nos chamássemos de 99 por cento. Depois, dois anarquistas espanhóis e um grego acrescentaram o ‘nós’, e mais tarde um ex-membro do Food Not Bombs acrescentou o ‘é’ no meio. Quem disse que não podemos criar algo valioso juntos! Eu gostaria de citá-los, mas considerando como a polícia lidou com os primeiros manifestantes do Occupy Wall Street, talvez seja melhor não fazê-lo.” (The101.World, 2020) []

Um novo livro sobre cinema e cosmologias ameríndias

Está no ar a campanha de financiamento coletivo do livro Cosmologias ameríndias em movimento no cinema de ficção, de Juliano Gonçalves da Silva. A obra investiga como o cinema latino-americano mobiliza cosmologias ameríndias e como imagens, narrativas e personagens indígenas tensionam estereótipos históricos ainda presentes na linguagem cinematográfica.

Ao tratar o cinema como espaço de produção de sentidos, memória e disputa simbólica, o livro propõe uma leitura crítica e sensível sobre representação, decolonialidade e modos de imaginar o mundo. É uma pesquisa que dialoga com quem se interessa por cinema, estudos indígenas, imagem e pensamento latino-americano.

O livro está disponível por valor promocional durante o financiamento coletivo, e a campanha também reúne outras obras do autor, além de opções com múltiplos exemplares para compartilhar, presentear ou dividir com amizades.

Apoiar esta campanha é contribuir para a circulação de pesquisas independentes, para o fortalecimento da edição autônoma e para a ampliação de debates sobre representação e cosmologias ameríndias no cinema.

Conheça as recompensas e apoie o projeto em:
https://catarse.me/cosmologias-amerindias

Limonada o servidor comunitário da Rede de Apoio

A Rede de Apoio da Monstro dos Mares é formada por pessoas que fortalecem economicamente, de maneira contínua, as atividades e necessidades mensais da editora. Trata-se de uma base comunitária que sustenta não apenas a produção editorial, mas também as condições materiais de existência de quem decidiu fazer livros como parte da luta.

Os recursos da Rede de Apoio são utilizados para custear despesas essenciais, como remédios e estudos, e também para estruturar ferramentas que ampliem a participação da comunidade nos processos da editora. A ideia é simples e política: transformar apoio financeiro em autonomia coletiva, criando meios para que mais pessoas acompanhem, colaborem e compartilhem o cotidiano de uma editora anarquista independente.

Em 2019, a Rede de Apoio viabilizou a aquisição de um servidor usado, onde passamos a hospedar microserviços de blogs e websites utilizando a tecnologia Tor. Foi um passo importante na construção de uma infraestrutura própria, alinhada com princípios de privacidade e soberania digital.

Em 2023, tivemos uma breve, mas muito feliz, experiência com uma conexão de internet sem CGNAT. Nesse período, conhecemos o YunoHost, um ambiente de portal voltado para pequenas comunidades, grupos e coletivos, que facilita a instalação e a gestão de serviços digitais autônomos.

Agora, em 2026, novamente com recursos da Rede de Apoio, contratamos um servidor VPS e, com a ajuda do grupo de tecnologia da editora, realizamos a instalação do YunoHost. O servidor já está disponível para uso da comunidade.

Entre os principais serviços oferecidos está o Calibre Web, uma ferramenta que permite navegar, baixar ou sincronizar dispositivos e-reader, como Kindle e Kobo, com os livros digitais em formato EPUB da Monstro dos Mares. Também estão disponíveis:

  • SearXNG, ferramenta de busca que prioriza a privacidade;
  • FacePrivacy, para borrar rostos em imagens;
  • LibreQR, para gerar QR codes conforme a necessidade;
  • outras aplicações poderão ser implementadas em breve, de acordo com as demandas da comunidade.

O servidor recebeu o nome de Limonada, em referência ao Oceano de Limonada, alegoria criada por Hakim Bey. A escolha do nome dialoga com a imaginação radical e com a criação de territórios autônomos temporários, onde outras formas de convivência e organização são possíveis.

Neste momento, estamos cadastrando prioritariamente as pessoas que já fazem parte da Rede de Apoio. Quem desejar integrar o servidor pode entrar em contato com Baderna Jaime, que está cuidando da gestão do VPS comunitário.

A Rede de Apoio não financia apenas livros. Ela financia infraestrutura, cuidado e autonomia. Venha fazer parte.

e-mail: [email protected] | zapzap: wa.me/5551994037547

2026: Educação anarquista para a transformação social

Nós, da Editora Monstro dos Mares, entendemos a educação anarquista como uma prática essencial para a transformação social. Acreditamos que ela é um caminho para ampliar a liberdade, fortalecer a autonomia e promover relações solidárias. A educação não deve ser reduzida a modelos tradicionais que reforçam hierarquias, obediências e estruturas de dominação. Deve ser vivida como um processo permanente de construção coletiva, presente no cotidiano das pessoas e dos movimentos que lutam por um mundo mais justo. Essa compreensão inclui as vivências e resistências das comunidades LGBTQIAPN+, das pessoas queer, dos povos originários, das comunidades indígenas e quilombolas, cujas trajetórias colocam em evidência a urgência de uma educação libertária.

Nossa visão sobre educação anarquista rompe com a lógica de transmissão unilateral do conhecimento. Defendemos um processo de aprendizagem baseado na colaboração e no respeito à autonomia de cada pessoa. Os saberes precisam circular de maneira horizontal, criando espaços onde todos possam ensinar e aprender, valorizando a diversidade e construindo ambientes realmente inclusivos. A educação libertária é inseparável da pluralidade de identidades, culturas e experiências que compõem nossas comunidades.

A educação precisa ser prática e transformadora. Em nossas publicações, buscamos estimular o pensamento crítico e fomentar reflexões que atravessam dimensões sociais, políticas, ambientais e identitárias. A educação anarquista acontece nos livros, mas também nas ruas, nas praças, nas bibliotecas comunitárias, nos espaços autogestionados e em qualquer lugar onde o aprendizado seja livre e espontâneo. A ação direta é parte desse processo. Ela surge como expressão concreta do conhecimento compartilhado e das mudanças que desejamos construir, ampliando e acolhendo especialmente as vozes e experiências marginalizadas.

Criticamos com firmeza o sistema escolar tradicional que reproduz desigualdades, restringe o acesso a saberes diversos e organiza a vida a partir da obediência a normas e autoridades. Defendemos uma educação inclusiva, participativa e emancipadora, capaz de fortalecer a autonomia e a consciência crítica de cada pessoa. Nosso compromisso é fomentar caminhos que permitam participação ativa na construção de um futuro mais igualitário, onde ninguém seja excluído por sua origem, gênero, orientação, identidade ou território.

As raízes da educação anarquista remontam ao início do século passado, quando pensadores e militantes libertários desenvolveram experiências pedagógicas que marcaram profundamente os debates educacionais. Francisco Ferrer y Guardia, com a Escola Moderna, inspirou escolas racionalistas em diversos países, inclusive no Brasil. No contexto brasileiro, diversos grupos anarquistas ligados ao movimento operário organizaram escolas livres, cursos noturnos, universidades populares e práticas educativas voltadas à emancipação da classe trabalhadora. Suas iniciativas defendiam a coeducação, a laicidade, a autonomia e o combate às estruturas autoritárias que moldavam a escola tradicional. Esses esforços mostram que a educação anarquista é uma prática histórica, coletiva e profundamente transformadora.

A educação libertária deve se refletir em todos os aspectos da vida social. Promovemos práticas educativas autônomas, que não dependem do mercado ou do Estado para existir. Nosso papel é contribuir para uma sociedade onde o conhecimento seja ferramenta de resistência e libertação, capaz de enfrentar as estruturas opressivas e ampliar a autonomia das pessoas sem qualquer forma de discriminação. A educação anarquista é um instrumento de subversão criativa, acolhendo as especificidades de cada comunidade e fortalecendo redes de solidariedade.

Seguimos firmes no compromisso com a produção e disseminação de ideias que questionam as convenções educacionais. Construímos alternativas que inspiram caminhos decoloniais, autônomos e transformadores, capazes de reconhecer e valorizar identidades, saberes e experiências diversas. Nosso trabalho busca um futuro em que a liberdade, a igualdade, a solidariedade e o respeito às múltiplas expressões da vida sejam pilares de uma sociedade baseada em conhecimento compartilhado e práticas verdadeiramente livres.

Feliz 2026
Felipe Siles, Caronte Mayer e Baderna Jaime.


Apoie o lançamento do livro Brasil negro insurgente: anarquistas e socialistas libertários pretos e pardos da Primeira República

A Editora Monstro dos Mares convida leitoras e leitores a conhecerem a campanha de financiamento coletivo do livro Brasil negro insurgente: anarquistas e socialistas libertários pretos e pardos da Primeira República, disponível na plataforma Catarse. A publicação reúne histórias de homens e mulheres negros, pardos e indígenas que atuaram nas lutas libertárias do início do século XX, resgatando trajetórias apagadas pela historiografia oficial.

Resultado de um extenso trabalho de pesquisa, o livro revisita personagens e movimentos que construíram uma genealogia afro-brasileira da insurgência. Mais do que exceções em um cenário dominado por figuras brancas e imigrantes europeus, esses sujeitos revelam a presença negra no coração das lutas por liberdade, igualdade e justiça social. Cada biografia é um gesto de resistência e uma recusa ao esquecimento.

A publicação parte de uma pergunta simples e incômoda: onde estão os libertários negros na história do Brasil? Ao reconstruir as respostas, o autor questiona as explicações racistas que tentaram apagar a contribuição das populações negras às ideias revolucionárias.

Ao apoiar a campanha, você ajuda a tornar possível a impressão e a distribuição independente desta obra, sem concessões a grandes grupos editoriais ou interesses de mercado. Cada contribuição fortalece um projeto coletivo comprometido com a diversidade, a inclusão e a memória das resistências.

Apoiar Brasil negro insurgente: anarquistas e socialistas libertários pretos e pardos da Primeira República é afirmar que a história libertária também tem rosto negro. Conheça a campanha, compartilhe e ajude a construir um futuro em que a memória e a liberdade caminhem juntas.
Acesse: https://catarse.me/brasilnegroinsurgente

TAZ – Zona Autônoma Temporária: um chamado à liberdade efêmera

Há livros que chegam como manifestos e que permanecem como bússolas para gerações inteiras. TAZ – Zona Autônoma Temporária, de Hakim Bey, é um desses. Mais do que um texto teórico, é um convite a experimentar a vida em sua potência insurgente, explorando espaços de autonomia, solidariedade e criação coletiva.

Publicado originalmente nos anos 1990, o livro tornou-se referência mundial nos debates sobre política, cultura alternativa e contracultura. Sua força está na ideia central de que é possível criar brechas dentro do sistema – zonas autônomas temporárias – onde outras formas de viver, conviver e resistir podem florescer.

Ao falar de TAZ, Hakim Bey não descreve um território fixo, mas uma experiência em movimento. São espaços que escapam do controle do Estado e do mercado, onde a liberdade se manifesta de modo radical e poético. Essas zonas podem surgir em festas, ocupações, coletivos artísticos, redes autônomas ou até mesmo em pequenas práticas cotidianas que desafiam o conformismo.

O livro propõe que a autonomia não precisa esperar por grandes revoluções futuras. Ela pode ser vivida agora, ainda que por instantes. Esse pensamento ressoa fortemente com quem busca alternativas diante da precarização da vida, da vigilância e do consumismo desenfreado. É, ao mesmo tempo, uma filosofia e um manual de ação para rebeldes, artistas, coletivos e sonhadores.

A nova edição brasileira publicada pela Editora Subta resgata esse clássico em um formato acessível e independente. Fiel à proposta de abrir espaço para vozes e ideias que contestam a ordem estabelecida, a editora reafirma seu compromisso em trazer livros que alimentam a imaginação política e cultural de nossos tempos.

Ler TAZ – Zona Autônoma Temporária é entrar em contato com uma escrita vibrante, que mistura ensaio, poesia e provocação. Hakim Bey não oferece respostas prontas, mas instiga perguntas incômodas: como podemos criar frestas de liberdade em meio ao controle? Que formas de comunidade podem nascer quando nos reconhecemos fora da lógica do poder centralizado?

Esse livro atravessou décadas inspirando movimentos sociais, coletivos artísticos, hackers e comunidades alternativas ao redor do mundo. No Brasil, sua recepção é especialmente potente, pois dialoga com experiências de autogestão, cultura anarquista, coletivos periféricos e práticas que reinventam o cotidiano.

Ao se aproximar de TAZ – Zona Autônoma Temporária, você não encontra apenas um livro, mas uma experiência que atravessa páginas e se projeta na vida cotidiana. É um texto que circula como ferramenta de reflexão e ação, fazendo parte de uma constelação de publicações independentes que cultivam a pluralidade e a criação de outros mundos possíveis. Ler TAZ é somar-se a esse movimento de cultura livre, de resistência e de imaginação radical.

Se você busca um texto que une pensamento crítico, poesia política e prática insurgente, TAZ – Zona Autônoma Temporária é leitura indispensável. Descubra por que TAZ segue sendo um dos livros mais transformadores e instigantes de nosso tempo.


TAZ – Zona Autônoma Temporária

Manifesto ciborgue: por que ler Donna Haraway hoje

Haraway nos convida a encarar Manifesto ciborgue como um mito político irônico que desarma certezas e desafia fronteiras entre natureza e cultura, corpo e máquina, público e privado. O texto combina rigor teórico e imaginação crítica para propor novas formas de pensar tecnologia, poder e vida cotidiana.

A autora apresenta o ciborgue como figura híbrida que é, ao mesmo tempo, criatura da ficção e realidade social. Essa imagem permite articular materiais e simbólicos, evidenciando como arranjos tecnocientíficos moldam subjetividades, afetos e disputas políticas. O ciborgue desloca a pergunta sobre o que somos para a pergunta sobre com quem e com o que nos acoplamos.

Do ponto de vista literário, Manifesto Ciborgue torna visível um repertório que já pulsa na ficção científica e em outros gêneros especulativos. Ao aproximar especulação e experiência, o texto oferece chaves de leitura para obras que reescrevem limites de espécie, gênero e técnica, abrindo espaço para estéticas menos hierárquicas e mais heterogêneas.

Na ficção científica, a figura do ciborgue funciona como laboratório narrativo. Acoplamentos entre humanos, máquinas e infraestruturas tornam-se ferramentas para explorar dilemas éticos, regimes de vigilância, ecologias de cuidado e novas formas de coletividade. O Manifesto fornece linguagem e conceitos para interpretar esses mundos e produzir outros.

Para os estudos de gênero, o ciborgue opera como crítica a identidades fixas e essencialismos. Em lugar de origens puras, o texto afirma parcialidade, coalizões situadas e conexões parciais. Essa virada ajuda a imaginar alianças que não dependem de essências e a reconhecer potências políticas que emergem de corpos e técnicas em relação.

O livro importa também para debates sobre cultura digital e trabalho. Ao nomear a informática da dominação e suas promessas, o Manifesto oferece instrumentos para pensar desigualdades, racismo e exploração que atravessam sistemas técnicos. O ciborgue, nesse contexto, é um convite a reconstruir fronteiras de modo responsável e colaborativo.

Ler Manifesto ciborgue hoje significa recuperar um léxico crítico para enfrentar crises contemporâneas e cultivar futuros compartilhados. É um chamado à imaginação política que não abre mão da materialidade das vidas, das máquinas e dos mundos que elas co-produzem.


Manifesto Ciborgue

A Ideologia Californiana: entre hippies libertários e yuppies neoliberais

O livro A Ideologia Californiana, publicado em coedição com o BaixaCultura, é um dos textos mais relevantes para quem deseja compreender criticamente as raízes culturais e políticas que moldaram a internet como a conhecemos hoje. Escrito por Richard Barbrook e Andy Cameron nos anos 1990, o ensaio se tornou um marco da chamada net criticism, ao desmontar a utopia tecnológica promovida pelas empresas do Vale do Silício.

O texto propõe que a internet nasceu sob influência direta de um estranho amálgama entre a contracultura dos anos 1960 e o liberalismo econômico radical. Trata-se daquilo que os autores chamaram de “ideologia californiana”, um pensamento que mescla a busca por liberdade individual com o culto ao mercado e à tecnologia, resultando em uma visão onde ser “livre” e “empreendedor” é sinônimo de se conectar à rede e gerar lucro com isso.

Com introdução e apresentação de Leonardo Foletto, editor do BaixaCultura, esta edição busca contextualizar o impacto do ensaio para o debate atual sobre vigilância digital, concentração de poder nas big techs e os limites das promessas emancipadoras da internet. Ao mesmo tempo, oferece caminhos para pensar alternativas possíveis baseadas em redes comunitárias, infraestrutura autônoma e cultura digital livre.

A Ideologia Californiana é leitura essencial para quem deseja compreender por que a internet deixou de ser um espaço de liberdade para se tornar uma ferramenta de controle. E por que é urgente imaginar e construir outras redes, outros futuros e outros modos de habitar o digital.

Adquira o livro na página da editora:
https://monstrodosmares.com.br/produto/a-ideologia-californiana/


A ideologia californiana

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