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Ilka Oliva, imigrante indocumentada nos EUA: “Somos um neg√≥cio perfeito para as autoridades”

Ilka Oliva Corado

Confira esta entrevista com a escritora e poetisa guatemalteca, Ilka Oliva Corado, autora de Hist√≥ria de uma Indocumentada — a travessia do deserto de Sonora-Arizona publicada no Di√°rio Liberdade sobre o livro que recebeu vers√£o em Portugu√™s do Brasil pela Editora Monstro dos Mares.

Na Foto: Ilka Oliva Corado com a √ļltima edi√ß√£o, em espanhol, de Hist√≥ria de uma Indocumentada — a travessia do deserto de Sonora-Arizona.

Escritora e poetisa guatemalteca, Ilka Oliva Corado vive h√° muitos anos nos Estados Unidos, sem documentos. A Editora Monstro dos Mares est√° trazendo seu livro, in√©dito no Brasil, no qual a autora narra sua travessia a p√© da fronteira mais vigiada das Am√©ricas, que durou 3 dias e 3 noites. “N√£o migrei por anseios de luxos econ√īmicos, nunca acreditei no sonho americano. Nem sequer tinha imaginado viajar aos Estados Unidos de f√©rias, muito menos viver aqui”, contou Ilka.

Hist√≥ria de uma Indocumentada — a travessia do deserto de Sonora-Arizona traz cada pormenor de um trajeto pelo qual passam (ou ficam pelo caminho) centenas de migrantes latino-americanos todos os dias rumo ao vizinho do norte. Um relato visceral que conta cada prova√ß√£o colocada na jornada.

Escrito em 2014, traduzido ao portugu√™s em 2017 e finalmente publicado no final de 2020, o tempo de vida da obra perpassa pelas diversas discuss√Ķes e conjunturas mais recentes envolvendo o tema, como as promessas do atual presidente estadunidense de construir um muro ao longo desta fronteira, as deten√ß√Ķes ilegais de fam√≠lias e a separa√ß√£o de crian√ßas dos pais, para n√£o falarmos das mortes, incluindo de crian√ßas, que ocorrem nestes centros de deten√ß√£o de imigrantes. Mas isso √© apenas uma parte do quadro de viol√™ncia sist√™mica ao qual tentam driblar os migrantes em travessia — infelizmente tem muito mais coisas acontecendo.

Na entrevista a seguir, produzida e publicada pelo Di√°rio Liberdade em 3 de abril de 2015, Ilka apresenta sua obra e reflete um pouco a respeito das quest√Ķes relativas ao tema, tanto em n√≠vel macro, quanto a respeito de sua pr√≥pria vida durante e sobretudo ap√≥s a travessia.

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Abaixo, leia a entrevista na íntegra:

O que te conduziu a abandonar o seu país para empreender esta viagem perigosa e ilegal aos Estados Unidos?

Ilka: A frustra√ß√£o. Uma depress√£o profunda. A minha vida pessoal era um caos, j√° tinha tido duas tentativas de suic√≠dio e estava a caminho da terceira quando decidi migrar.

N√£o migrei por anseios de luxos econ√īmicos, nunca acreditei no sonho americano. Nem sequer tinha imaginado viajar aos Estados Unidos de f√©rias, muito menos viver aqui. Na Guatemala trabalhava de professora de Educa√ß√£o F√≠sica num dos col√©gios mais prestigiados, e estudava psicologia na Universidade de San Carlos. Mas o meu sonho, acima de tudo, era ser √°rbitra internacional de futebol.

Quando tomei a decisão de migrar, este país me atravessou o caminho e foi a minha via de escape. Uma decisão que tomei em um dia sem parar pra pensar duas vezes e da qual não me arrependo. Preparei a minha viagem em um mês.

Lutei com todas as for√ßas do meu ser para conseguir o meu sonho, dei tudo at√© a √ļltima gota de suor, mas a Guatemala me negou a oportunidade por ser mulher. Est√° t√£o implantado o machismo e os estere√≥tipos que ver a mulher ‘em um mundo de homens’ representa uma ofensa para quem acha que n√≥s mulheres devemos estar em casa lavando pratos e cuidando de crian√ßas o tempo inteiro. Nesse tempo, a Federa√ß√£o de Futebol da Guatemala n√£o estava pronta para ver uma mulher abrir as suas asas e voar. Devagar houve mudan√ßas, mas o sistema e a sociedade patriarcal ainda n√£o compreendem que os homens e as mulheres tenham as mesmas capacidades e habilidades, basta eliminar os preconceitos e os estere√≥tipos para avan√ßarmos como humanidade. N√£o existe o mundo de homens nem o de mulheres, mas sim o que conformamos todos os seres humanos. Quando vamos compreender?

O futebol é a paixão da minha vida. Chegou o momento em que me ofereceram cama em troca da categoria de árbitra internacional e foi quando desabei porque compreendi que não dependia do meu esforço nem da minha capacidade, mas do meu sexo. Renunciei imediatamente e emigrei sem saber para onde o vento me ia levar, fui folha seca.

Haverá a quem possa parecer exagerada a decisão de migrar por uma decepção, de um sonho. Mas é preciso viver uma paixão com todas as forças do ser para saber que é o motor que nos motiva a viver. A mim me cortaram as asas e assim emigrei, completamente abatida. Não tenho por que mentir, não é vitimização, é a minha realidade e foi o caminho que percorri.

Quais s√£o as provas pelas quais passaram durante a travessia?

Ilka: Muitas, e s√£o imposs√≠veis de enumerar. Desconcerto: o desconhecido provoca ang√ļstia e mais ainda ao se tratar de uma travessia sem documentos. De repente √© preciso tirar for√ßas de onde n√£o h√° para poder sobreviver a uma experi√™ncia assim t√£o traum√°tica. H√° que ter o sangue frio e deixar as emo√ß√Ķes de lado ou estar completamente devastado para tomar a decis√£o de deixar a vida na tentativa. Isso me aconteceu, n√£o me importava morrer na fronteira, dava na mesma. Jamais pensei que a iria sobreviver.

Uma situação tão extrema que se torna um aprender a enfrentar o medo e a desafiar a morte. Ver pessoas morrerem e não enlouquecer com o cheiro de sangue fresco e com a atrocidade da desumanidade. Um entra e sai do inferno constantemente nessa travessia. E igualmente na pós-fronteira.

A experi√™ncia n√£o termina por a√≠, mas marca para o resto da nossa vida. Uma pessoa aprende o verdadeiro significado da sobreviv√™ncia, do tempo, dos instantes. Estar frente √† morte constantemente muda por completo a nossa vis√£o das coisas. O que realmente vale a pena √© a alegria. Quem sobrevive a fronteira supera uma prova de fogo e sangue e sabe que nada nem ningu√©m poder√° jamais o abater. √Č por ela pr√≥pria nos ter feito invenc√≠veis, mas isso √© qualquer coisa de quem se inteira quando passa o tempo. No momento da travessia, somos farrapos, o estigma nos derruba. √Č o tempo o que cura tudo.

Sofreu qualquer amea√ßa dos coyotes?

Ilka: Claro. H√° que saber que os coyotes ou polleros s√£o quadrilhas de tr√°fico de pessoas. N√£o se assustam na hora de amedrontar e quebrantar a moral das suas v√≠timas. Porque afinal somos isso, e eles os predadores. Somos apenas um objeto com o qual eles fazem neg√≥cios. Vivos valemos-lhes at√© para o tr√°fico de √≥rg√£os, mortos estorvamos menos e nos enterram em valas clandestinas ou nos deixam atirados √†s beiras dos rios, ou nos caminhos de ferro.

A amea√ßa √© parte da estrat√©gia de intimida√ß√£o que usam as bandas de coyotes para submeter os migrantes em tr√Ęnsito. N√£o soube de qualquer pessoa que atravessasse a fronteira sem ter sofrido intimida√ß√£o dos coyotes. N√£o ficam apenas em palavras: da intimida√ß√£o verbal passam imediatamente a viol√™ncia f√≠sica, com golpes, torturas e estupros. Desrespeitam a vida e cometem assassinatos.

Como agem as organiza√ß√Ķes de tr√°fico de imigrantes que atravessam a fronteira?

Ilka: Primeiro, temos que estar cientes em que essas quadrilhas s√£o conformadas pelas pr√≥prias autoridades mexicanas. O narcoestado que se vive no M√©xico h√° muito tempo tem recrudescido os abusos a migrantes. Sequestros, estupros, desaparecimentos for√ßados e assassinatos v√™m das mesmas autoridades que mancomunadas com o crime organizado fazem dos migrantes em tr√Ęnsito o seu melhor neg√≥cio. √Č que somos um neg√≥cio perfeito e suculento para eles.

A√≠ est√£o envolvidos consulados, dirigentes, agentes de migra√ß√£o, presidentes das c√Ęmaras municipais, minist√©rios p√ļblicos, ex√©rcito e a pr√≥pria sociedade civil. N√£o existe prote√ß√£o alguma para os migrantes. As pessoas observam o abuso e olham para o outro lado. Acusam-nos de ladr√Ķes, de infestar o M√©xico com a nossa presen√ßa. De ir roubar os seus empregos, de encher de viol√™ncia o pa√≠s. Acusam-nos de estupradores. Todo o infame √© o que representamos n√≥s migrantes centro e sul-americanos para a sociedade mexicana. Por isso, quando nos matam n√£o se alteram. √Č o pr√≥prio governo quem manipula as redes do tr√°fico de pessoas.

Como trabalham as forças de segurança do México e dos Estados Unidos quando se trata de imigrantes ilegais tentando atravessar a fronteira?

Ilka: Se atravessar o M√©xico √© um inferno por si pr√≥prio, a fronteira entre esse pa√≠s e os Estados Unidos fulmina os migrantes. S√£o tratados como assassinos em ambos os lados. A pol√≠cia mexicana que encontra migrantes na fronteira os sequestra e pede resgate aos familiares nos Estados Unidos. Os que t√™m sorte s√£o deportados para os seus pa√≠ses de origem, e os que n√£o t√™m s√£o entregues √†s organiza√ß√Ķes criminosas que possuem redes de tr√°fico de pessoas para fins de explora√ß√£o sexual ou laboral, e ainda para o tr√°fico de √≥rg√£os.

Muitas vezes assassinam-nos ali mesmo no deserto, e s√£o essas ossadas que se v√£o sendo encontradas com o passar dos anos. Ou esses corpos em estado de decomposi√ß√£o que n√£o conseguem ser reconhecidos pelas organiza√ß√Ķes de Direitos Humanos, porque a pol√≠cia tirou os documentos de prop√≥sito para que os restos n√£o sejam retornados para os seus pa√≠ses de origem.

A Patrulha de Fronteira realiza uma verdadeira ca√ßada. Tem todo apoio do governo norte-americano. Insultam, batem, torturam, estupram, assassinam e n√£o h√° forma de os denunciar porque quando uma den√ļncia √© apresentada perante as cortes norte-americanas, estas s√£o negadas. N√£o h√° forma de prov√°-las, embora estejam evidentes as provas de que eles assassinam migrantes e desrespeitam os Direitos Humanos. Os pr√≥prios agentes da Patrulha de Fronteira abusam sexualmente de crian√ßas, adolescentes e mulheres na fronteira e nos centros de deten√ß√£o, tudo fica gravado nas c√Ęmaras de vigil√Ęncia e mesmo assim as den√ļncias n√£o s√£o tidas em conta.

Porque n√≥s, migrantes no M√©xico e nos Estados Unidos, somos invis√≠veis, a ral√© de uma leva de p√°rias que procuram comida e teto, essa massa humana que n√£o interessa nem aos governos do pa√≠s de origem, de tr√Ęnsito e de destino. Estamos sozinhos. E sozinhos morremos. Tanto as autoridades mexicanas, como a Patrulha Fronteira, nos usa e elimina ap√≥s o uso. N√£o h√° lei que nos proteja. N√£o h√° humanidade que nos respeite.

Você foi testemunha de uma situação de maus-tratos, falta de respeito e violação da dignidade humana?

Ilka: Gostaria de dizer com todas as for√ßas do meu cora√ß√£o que n√£o fui testemunha, mas infelizmente fui, e essas imagens est√£o na minha mem√≥ria e v√£o me perseguir at√© o dia que eu morrer. Abuso sexual por bandas criminosas em territ√≥rio mexicano e abuso sexual, golpes e assassinatos pela Patrulha de Fronteira em territ√≥rio norte-americano.

Vivi a degrada√ß√£o humana na fronteira. Todos — dos coyotes √†s autoridades mexicanas e norte-americanas — nos tratam como restos. √Č um verdadeiro calv√°rio atrever-se a atravessar a fronteira. A maior parte das pessoas n√£o sabem aquilo que lhes espera, porque quem consegue sobreviver na fronteira n√£o conta, pois √© vergonhoso, d√≥i, √© humilhante e preferem guard√°-lo no mais profundo da sua mem√≥ria. H√° quem possa imaginar, mas mesmo assim a necessidade os obriga a migrar. H√° que ter muito claro que as migra√ß√Ķes de centro-americanos aos Estados Unidos s√£o for√ßadas. E da√≠ come√ßa a trag√©dia.

Você sofreu algum trauma na travessia?

Ilka: Sofri. Por muitos anos n√£o pude dormir mais do que tr√™s horas. Quando conseguia conciliar o sono, acordava com os pesadelos e aos gritos, ouvindo o som das motos e das balas. Ensimesmei-me. Como consequ√™ncia, tateio, mas ainda n√£o consigo falar com a normalidade de antes de atravessar a fronteira.

Afastei-me das pessoas e fechei-me. Sumi no √°lcool porque s√≥ √©bria conseguia esquecer por instantes o que tinha vivido na fronteira. Subi de peso. Deixei de praticar esportes. Odiei a minha vida de esportista. Renunciei √† alegria. A fronteira roubou-me as ilus√Ķes. Fez-me peda√ßos. Fujo das reuni√Ķes sociais, n√£o suporto estar entre um grupo grande de pessoas, prefiro a solid√£o. E na Guatemala n√£o era assim, sempre era a alma da festa. N√£o consigo dominar o falar em p√ļblico, e na Guatemala era ao inverso. Desconfio mais das pessoas.

Qual foi o destino daqueles que, assim como você, atravessaram a fronteira?

Ilka: Sa√≠mos dos nossos pa√≠ses de origem e n√£o sabemos se vamos atravessar a fronteira ou vamos morrer no caminho. O destino √© incerto. O destino √© chegar a este pa√≠s e trabalhar nos of√≠cios destinados para os indocumentados: limpar casas, cortar grama, trabalhar de sol a sol nos campos de cultivo, trabalhar de pedreiro, partir as costas em f√°bricas trabalhando at√© 19 horas por dia de segunda a domingo. N√£o ter direitos trabalhistas. Que desrespeitem os Direitos Humanos em rela√ß√£o a n√≥s. Que nos discriminem.

O destino? √Č morrer lentamente em um lugar que nos descrevem como o pa√≠s dos sonhos. Um embuste suntuoso e uma realidade de esgoto. Mas do outro lado a realidade nos pa√≠ses de origem morre-se de fome, ent√£o entendo por que a necessidade de empreender uma travessia assim t√£o arriscada. L√° n√£o √© melhor do que aqui para n√≥s, os invis√≠veis.

O que comenta do livro ‘Hist√≥ria de uma indocumentada, travessia no deserto de Sonora – Arizona’?

Ilka: Sou a protagonista principal, e n√£o para ter as aten√ß√Ķes postas em mim, mas porque assim me tocou, porque essa √© a hist√≥ria da minha travessia.

A jornalista chilena Carolina V√°squez Araya, residente na Guatemala, teve muita influ√™ncia na minha decis√£o de escrever dessa maneira. Faz anos que leio as colunas de opini√£o dela no Prensa Libre – um jornal guatemalteco – e sempre denuncia o tr√°fico de pessoas, os abusos sexuais que vivem as crian√ßas, adolescentes e mulheres nos nossos pa√≠ses de origem. A discrimina√ß√£o com que crescemos as crian√ßas marginalizadas pelo sistema e a sociedade.

Ela √© uma das poucas jornalistas que d√£o voz ao drama da migra√ß√£o for√ßada e aprofunda nas raz√Ķes, uma mulher de uma humanidade admir√°vel, mestra no sentido mais completo da palavra. Ela foi o motor que me impulsionou a me despir de tal maneira.

Lendo as colunas dela compreendi que não podia ficar com isto dentro, que o meu dever humano era fazê-lo conhecer. Que se queria fazer parte da mudança não podia guardar algo tão devastador, e que precisava trazer à tona para outras pessoas conhecerem através da própria protagonista o que a fronteira entre o México e os Estados Unidos é.

Consegui escrev√™-lo com todo o tipo de pormenores gra√ßas a que j√° o superei. Foram dez anos trabalhando as minhas emo√ß√Ķes, abrindo as feridas e arejando-as para que pudessem secar. Passei por desvelos, por ren√ļncias, pelo alcoolismo e por depress√Ķes para voltar a renascer. A fronteira deixou-me est√©ril, de sonhos, de vida, e n√£o foi um processo f√°cil lembrar o cheiro do sangue e n√£o me desabar de novo.

Escrevi este livro porque √© a minha obriga√ß√£o humana, porque sou p√≥s-fronteira, porque sou uma de milhares de invis√≠veis. Porque se n√£o o dizemos n√≥s, os indocumentados, ningu√©m dir√° com integridade. √Č por isso que o escrevi, n√£o para procurar fama nem dinheiro, nem aplausos. Escrevi-o porque quero fazer parte da mudan√ßa e para isso h√° que se envolver.

Qual é a sua situação atual nos EUA? Como é a vida como um imigrante ilegal?

Ilka: Continuo a ser indocumentada tal como quando cheguei em 11 de novembro de 2003.

Trabalho nos mil of√≠cios como os milh√Ķes de indocumentados. N√£o tenho direitos trabalhistas. Como outros milh√Ķes de invis√≠veis, podem me deportar a qualquer dia. Igual a eles, saio do apartamento que alugo com a minha irm√£-m√£e, Evelyn – que j√° fazia um ano por aqui quando eu emigrei, embora ela tenha emigrado com visto e n√£o viveu a fronteira – e n√£o sei se vou regressar porque a qualquer momento um policial racista pode me parar e enviar-me direto para a deporta√ß√£o. Aprende-se a viver com essa realidade cheia de sobressaltos. √Č parte do andar indocumentado neste pa√≠s.

Por isso aprendi a desfrutar das pequenas coisas: os meus passeios de bicicleta, as minhas caminhadas pela reserva florestal, as vistas do lago Michigan, a brisa da primavera e as cores do outono, o branco inverno tão cheio de magia. São coisas que para muitos parecem insignificantes mas que enchem a alma. Uma pessoa aprende a viver com o que tem, que enfim é muito.

Este processo catártico da escrita e da poesia permitiu-me refletir. Aos poucos, as letras converteram-se na minha razão de ser, no ar que respiro, na minha convicção. São enfim a minha expressão mais leal.

Não posso ser egoísta e guardá-las só para mim criando borboletas de cores e céus sempre azuis: o meu dever é lançá-las ao vento para que outras pessoas saibam o que é a realidade do indocumentado que, no fim das contas, é muito similar em qualquer lugar do mundo.


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Apresenta√ß√£o de “Abaixo ao trabalho 2¬™ edi√ß√£o” por Baderna James

Abaixo ao trabalho
Imagens da primeira e segunda edição

A segunda edi√ß√£o de Abaixo ao Trabalho √© uma homenagem, uma sauda√ß√£o e lembran√ßa muito querida de um t√≠tulo que circulou durante muitos anos em v√°rios meios gra√ßas a atua√ß√£o da editora Deriva, um coletivo editorial que apresentou a toda uma gera√ß√£o, a possibilidade de realizar livros artesanais de baixo custo sem depender da ind√ļstria gr√°fica e sem amargar com tiragens gigantes.

A experi√™ncia de escolher os textos, format√°-los e colocar ‚Äúpra rodar‚ÄĚ √© o que forma uma editora. Essa tarefa vem acompanhando coletivos de inspira√ß√£o an√°rquica ao curso da hist√≥ria. √Č poss√≠vel citar um sem-n√ļmero de iniciativas genuinamente artesanais que estiveram presentes na forma√ß√£o de leitores dissidentes e libert√°rios. Coletivo Sabotagem, Barba Ruiva, Deriva, Nenhures, Index Librorum Prohibitorum, Erva Daninha, s√£o algumas dessas editoras que colocaram na pista livros feitos um a um, manualmente, nos mais diversos formatos e materiais.

Atualmente, algumas editoras como Imprensa Marginal, Contraciv, Fac√ß√£o Fict√≠cia, Subta e Monstro dos Mares est√£o em movimento a mais tempo, saudando e inspirando o surgimento de diversas editoras artesanais que se chegam como a Terra Sem Amos (TSA), Adand√©, Amanaj√©, Edi√ß√Ķes Kisimbi, Lampi√£o, Insurg√™ncia, Correria e outros tantos projetos que florescem nos diversos recantos do pa√≠s.

Relembrar e homenagear a movimenta√ß√£o de compas que fizeram livros com as pr√≥prias m√£os e celebrar a chegada de tantos outros coletivos nos d√° a certeza de que √© poss√≠vel apropriar-se das t√©cnicas e das tecnologias que comp√Ķem a produ√ß√£o de livros e zines. Publicar os textos que percorrem o nosso tempo com observa√ß√Ķes e an√°lises, pesquisas e investiga√ß√Ķes, relatos e estudos, comp√Ķem um conjunto de pr√°ticas significativas para formar um retrato da perman√™ncia das ideias de autonomia, liberdade, auto-organiza√ß√£o e colabora√ß√£o na luta contra todas as formas de opress√£o.

Anarquistas, libert√°rias, aut√īnomas, an√°rquicas, cr√≠ticas, dissidentes ou insurgentes, independente das cores e das tintas de cada coletivo editorial artesanal de ontem e de hoje, Abaixo ao Trabalho retorna √†s ruas, para circular de m√£o em m√£o, aproximando pessoas, movimentos, coletivos, grupos e bandos em torno de suas ideias: uma cr√≠tica genu√≠na √† ideia de trabalho.

Muitas das pessoas que tocam projetos editoriais artesanais j√° desistiram da possibilidade de se manterem em empregos horr√≠veis, trocando suas liberdades por um sal√°rio no final do m√™s. O livro que voc√™ tem em m√£os, re√ļne n√£o apenas um conjunto de ideias, mas espectro de experi√™ncias que (re)afirmam a possibilidade de que h√° diversos modos de multiplicar e se somar as lutas do nosso tempo.

Faça livros, multiplique!

Baderna James, Outubro de 2020.


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Resenha: O índio no cinema brasileiro e o espelho recente, de Juliano Gonçalves da Silva

o índio no cinema brasileiro

Sobre o autor

Juliano Gonçalves da Silva é Mestre em Multimeios pela Unicamp e Doutorando do Programa de Pós-Graduação em História na Universidade Estadual do Rio de Janeiro, onde pesquisa a representação de personagens indígenas no cinema latino-americano.


Resenha

Por Claudia Mayer
Doutora em Letras Inglês (PPGI-UFSC)
Estudos Liter√°rios e Culturais

Em O índio no cinema brasileiro e o espelho recente, Juliano aborda a representação de personagens indígenas no cinema ficcional brasileiro, fornecendo de um levantamento dos filmes que apresentam tais personagens. Esse levantamento começa em 1911, quando Juliano identifica o primeiro filme de ficção com personagens indígenas, atravessando as décadas até chegar aos anos 2000.

Para realizar essa inventaria√ß√£o, al√©m de consultar fitas VHS, exibi√ß√Ķes, e cinematecas, o autor acessa fontes como artigos de jornais, resenhas, cartazes e entrevistas. Assim, √© capaz de construir um panorama t√£o completo quanto poss√≠vel, incluindo nele filmes perdidos; isto √©, dos quais n√£o existem mais c√≥pias. Esse aspecto da obra a torna atraente para quem pesquisa ou estuda as √°reas da Antropologia, das Ci√™ncias Sociais e do Cinema, e tamb√©m para o p√ļblico que se interessa pelo cinema brasileiro e pelo cinema de maneira geral.

Al√©m da significativa contribui√ß√£o para a conserva√ß√£o da hist√≥ria do nosso cinema, O √≠ndio no cinema brasileiro e o espelho recente traz √†s leitoras e leitores a importante reflex√£o sobre o impacto cultural das representa√ß√Ķes ficcionais sobre a exist√™ncia real dos povos ind√≠genas ao discutir como o cinema ficional produz, reproduz e contraria os estere√≥tipos constitu√≠dos acerca dos ind√≠genas, que permeiam o imagin√°rio da cultura brasileira. √Č por isso que o autor faz uma diferencia√ß√£o entre os termos ‚Äú√≠ndio‚ÄĚ e ‚Äúind√≠gena‚ÄĚ: enquanto o primeiro se refere √† imagem ficcional estereotipada, o segundo √© utilizado para se referir aos ind√≠genas reais ‚ÄĒ que, sem sombra de d√ļvida, t√™m suas vidas e culturas impactadas pelas imagens veiculadas pela cultura hegem√īnica.

O livro O √≠ndio no cinema brasileiro e o espelho recente, de Juliano Gon√ßalves da Silva, est√° sendo produzido por meio de uma campanha de financiamento coletivo. Essa campanha dar√° suporte a todo o processo editorial e √† distribui√ß√£o da obra. √Č importante ressaltar que parte do projeto de financiamento coletivo inclui a distribui√ß√£o gratuita do livro para bibliotecas comunit√°rias, coletivos e pesquisadoras acad√™micas e independentes. Com isso, o projeto ultrapassa o alcance individual de cada livro e busca atingir a sociedade como um todo.

Al√©m disso, a proposta editorial contribui para a difus√£o do conhecimento produzido nas universidades p√ļblicas do pa√≠s, ao levar para o p√ļblico dentro e fora dos ambientes de pesquisa acad√™micos livros de baixo e baix√≠ssimo custo e via distribui√ß√£o gratuita. Soma-se a isso a publica√ß√£o em Copyleft; isto √©, a obra pode e deve ser distribu√≠da sem o pagamento de direitos autorais. Dessa forma, refor√ßa-se o compromisso com a produ√ß√£o de conhecimento livre, para todas as pessoas e por todas as pessoas.


Financiamento coletivo

Para contribuir com a realização desse projeto, acesse o site https://www.catarse.me/oindionocinemabrasileiro.
As doa√ß√Ķes iniciam em R$ 10,00.

Mais informa√ß√Ķes podem ser obtidas em nossos canais de comunica√ß√£o:
E-mail: editora@monstrodosmares.com.br
Instagram: @monstrodosmares
Facebook: fb.com/monstrodosmares
Telegram: Grupo ‚Äď @editoramonstrodosmares; Canal ‚Äď @monstrodosmares
Correios: Caixa Postal 1560, Ponta Grossa ‚Äď PR, CEP 84071-981.
Sobre: Quem faz a Monstro dos Mares?


Vídeo de apresentação

Apoie o financiamento coletivo do livro “O √≠ndio no cinema brasileiro e o espelho recente” de Juliano Gon√ßalves da Silva no Catarse -> http://catarse.me/oindionocinemabrasileiro

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Resenha do livro ‚ÄúA reprodu√ß√£o da vida cotidiana e outros escritos‚ÄĚ, de Fredy Perlman, por Tonho.

Apresentação

Convidamos nosso amigo Tonho, tradutor e membro do conselho editoral da Monstro dos Mares para escrever algumas palavras sobre um dos t√≠tulos de nosso cat√°logo. Ele escolheu o livro ‚ÄúA reprodu√ß√£o da vida cotidiana e outros escritos‚ÄĚ, de Fredy Perlman, da Editora Textos Subterr√Ęneos de Portugal (que infelizmente n√£o est√° mais ativa).

Aproveite a leitura e a recomendação.


‚ÄúA reprodu√ß√£o da vida cotidiana e outros escritos‚ÄĚ, de Fredy Perlman.

Perlman √© um autor nascido na Rep√ļblica Tcheca em 1934, que passou a inf√Ęncia na Bol√≠via ‚Äď sua fam√≠lia fugia da ocupa√ß√£o nazista ‚Äď, a adolesc√™ncia e juventude na Am√©rica do Norte, e a vida cruzando os movimentos de esquerda americanos e europeus ‚Äď IWW, Maio de 68 e ind√ļstrias auto-geridas da Iugosl√°via, para citar alguns. Perlman rejeitava r√≥tulos como sindicalista, anarquista, situacionista ou marxista, se dizendo simplesmente violoncelista. Apesar de t√™-lo descoberto pouco tempo atr√°s e nem de longe ser um acad√™mico em Perlman, tr√™s textos dele saltam aos olhos: A reprodu√ß√£o da vida cotidiana, A Cont√≠nua Atra√ß√£o do Nacionalismo e Against His-Story, Against Leviathan (Contra a hist√≥ria dele, Contra o Leviat√£). N√£o conhe√ßo vers√Ķes lus√≥fonas deste √ļltimo.

A reprodu√ß√£o da vida cotidiana foi o texto que chamou minha aten√ß√£o na antologia. Um texto marxista em todo o seu conte√ļdo e terminologia ‚Äď teoria do valor-trabalho, como iniciada por Smith e desenvolvida por Ricardo e Marx ‚Äď, mas que soa como uma pedrada no telhado de vidro de movimentos marxistas que esqueceram do que importa em nome da est√©tica autorit√°ria. Algu√©m descreveu o texto da seguinte forma: ‚ÄúUm mineiro n√£o leva a montanha para casa, apenas as pepitas ‚Äď Perlman traz as pepitas marxistas neste texto‚ÄĚ.

O texto gira em torno de uma ideia que parece inicialmente ser um trava-l√≠ngua, mas que √© fundamental para a pr√°xis: A vida cotidiana reproduz a forma social que deu forma social √† vida cotidiana, mesmo quando essa forma deixou de ser √ļtil ‚Äď as min√ļcias da vida do trabalhador assalariado perpetuam o controle que o sal√°rio exerce sobre a atividade vital, mesmo quando as condi√ß√Ķes materiais mudam. A pr√°tica di√°ria de todos anula os objetivos de cada um, diz Perlman.

Romper com a escravidão assalariada requer que o indivíduo rompa com a vida cotidiana, e isso significa enxergar a atividade criativa para além da produção de mercadorias. Ir além do espetáculo da mercadoria, numa referência à Guy Debord. O trabalhador tem um papel que não se resume a seguir o sindicato ou a burocracia, se não se constrói uma nova mediação alienante.

O texto dialoga com praticamente todos os grupos libert√°rios ou comunistas, e inclui refer√™ncias aos movimentos dos quais Perlman participou. √Č simples tamb√©m coloc√°-lo para conversar com movimentos que n√£o existiam √† √©poca, como o insurrecionalismo, a cr√≠tica √† civiliza√ß√£o ou, com um pouco de criatividade, o Imediatismo de Hakim Bey.

Namastreta,
Tonho.