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Tirar do repositório e levar para o território

[Na imagem: encontro da editora com amizades e apoiadores]

A Monstro dos Mares existe para fazer as ideias circularem, chegarem por aí de mão em mão. Em 2020, com pandemia e tudo, distribuímos gratuitamente 821 livros e 1.211 fanzines/livretos. Hoje decidimos celebrar esse número, porque fazemos e distribuímos livros e zines artesanais, feitos à mão, um a um. Queremos dividir com você essa proeza.

Mas os números seriam vazios de significado sem a participação de autoras e autores, pessoas que ajudam fazendo a leitura de materiais originais, amizades que compartilham conosco a atividade da edição, discutem em grupo e dão o encaminhamento nos textos. São monas, minas e manos que participam da Monstro dos Mares fazendo as traduções, revisões, recomendações de materiais para publicação, capistas e, evidentemente, todas aquelas que recomendam, apoiam mensalmente, fazem compras em nossa lojinha ou pegam nas distros que fortalecem a circulação dos mais de 240 títulos que compõem o catálogo do site.

A tarefa de divulgação do conhecimento produzido em nosso tempo, com o olhar para às próximas gerações, é um dos motivos que nos movem para além de aprender a imprimir, cortar, grampear e colar. Existimos para compartilhar nossas visões de mundo, relatos de práticas coletivas e perguntas que emergem das inquietações humanas e sociais do século 21. Imprimir livros é registrar esses anseios no tempo. É possível que em algum momento a Monstro dos Mares deixe de existir, mas haverá em algum canto um exemplar impresso, um arquivo guardado em algum disco HD/SSD/eMMC ou pastinha da nuvem e os livros continuarão com outras pessoas (ou através delas).

Com a ajuda de quem faz parte da Rede de Apoio, conseguimos os recursos necessários para imprimir 821 livros e 1.211 zines de inspiração anárquica que foram distribuídos gratuitamente. Além disso, esses recursos muitas vezes ajudam a pagar os envios pelos Correios. São bibliotecas comunitárias, espaços sociais ou culturais, sindicatos, federações, grupos de estudos, coletivos, militantes, ativistas, bandos, bandas, pesquisadoras e singularidades em vários recantos que recebem os títulos que rodamos por aqui. Colocar todo esse material na pista é uma parte importante dos objetivos da Monstro dos Mares, por isso é importante nossa alegria em compartilhar esses números mesmo em tempos tão cheios de notícias que nos roubam os sorrisos.

Seguir fazendo livros é um de nossos propósitos. Ao realizar a divulgação acadêmica de inspiração anárquica, temos a convicção de que nossa tarefa também é tirar do repositório e levar para o território. Seguimos incentivando que cada pessoa dedique um pouquinho do seu tempo para participar nas atividades de vários coletivos editoriais, não apenas na Monstro do Mares. Não somos uma ilha: estamos em rede. Neste momento, estamos passando por um severo e comprometido isolamento, o que implica numa constante ansiedade para que a população possa ser imunizada integralmente e que possamos finalmente receber pessoas em nosso espaço e trocar experiências. Colar com os bandos, visitar editoras, fazer oficinas, cultivar hortas, assar pães no forno de barro numa tarde cheia de boas conversas em grupo, arriscar queixos/joelhos e cotovelos em velozes alicates, apoiar a instalação de sistemas fotovoltaicos comunitários rurais e urbanos. É tanta vontade que nem cabe num parágrafo.

Sabemos que o capítulo pós-pandemia ainda vai levar um tempo e muitas lutas para chegar. Enquanto isso, seguimos fazendo todo o possível para nos mantermos em segurança, em solidariedade com movimentações de compas, cometendo lives, criando podcasts, gravando vídeos e, logicamente, fazendo muitos e muitos livros. Para isso, vamos aumentar o volume de impressões e ampliar as possibilidades de encontros entre a palavra escrita e as lutas diárias da nossa gente. Abrimos um espaço na casa editorial para o Duplicador Digital Ricota DX-2330, uma ferramenta importante para a Monstro dos Mares seguir publicando as páginas que fazem emergir, na prática, entendimentos de que há muitos modos de superar a normalidade e expandir horizontes de possibilidade para enfrentar todas as formas de opressão.

Para seguir multiplicando ideias: celebramos nossos passos, agradecemos o carinho das amizades e pedimos seu apoio de todas as formas que estiverem a seu alcance!

Os números de 2020

Impressões:
Livros impressos: 2.854
Zines impressos: 5.005

Distribuição gratuita:
Livros distribuição gratuita: 821
Zines distribuição gratuita: 1.211

Total de impressões de 2020: 223.444
Total de Kw gerados e consumidos com energia solar em 2020: 75Kw


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A necessidade urgente de descolonizar a pesquisa social latino-americana (Entrevista com Silvia Cusicanqui)

Cuestiones de Sociología1 reuniu quatro intelectuais e acadêmicas latino-americanos para responder a questões sobre o âmbito da dependência intelectual e os dilemas que a teoria social latino-americana enfrenta. Silvia Rivera Cusicanqui da Bolívia; Jose Mauricio Domingues do Brasil; Arturo Escobar da Colômbia e Enrique Leff do México. Publicamos aqui a entrevista com Silvia.

Maristella: Muitos autores têm insistido que uma das características fundamentais da teoria social latino-americana é a sua dependência intelectual ou epistêmica dos conceitos e quadros teóricos desenvolvidos nos países centrais. Alguns deram um estatuto teórico a esta dependência através do conceito de “colonialidade do conhecimento” (Quijano, Lander). Como encara este problema? O que significa, então, pensar nas ciências sociais da América Latina no século XXI, no quadro da modernidade avançada e do atual sistema de dominação? Existe uma perspectiva latino-americana para pensar os problemas atuais a partir de uma perspectiva da teoria social?

Silvia: Essa formulação não é nada nova, e se por “estatuto teórico” se refere à instalação desta ideia nos centros acadêmicos hegemônicos, poderia te dizer que se trata de uma academia muito sem memória. Em vários territórios da América Latina, e também nos Andes bolivianos, a crítica à colonização mental das elites tem uma longa história. No nosso caso, com Rossana Barragán tentamos uma síntese desta genealogia no livro que publicamos em La Paz sobre os estudos da subalternidade na Índia.2 Na apresentação do texto entrelaçamos a nossa leitura do grupo Estudos Subalternos com uma reflexão sobre as contribuições da historiografia social argentina, a etno-história e antropologia peruanas, e a contribuição vital mexicana e africana (1997) para a produção social e historiográfica boliviana dos anos 80 e 90.

Recentemente, tracei esta genealogia própria até o início do período colonial na obra do escritor Chinchaysuyu Waman Puma (Rivera, 2015). Creio que o seu trabalho, através da montagem da imagem-texto, é um ensaio visual teórico. Em outras palavras, Waman Puma compõe uma sintaxe para expor a sua teoria de domínio colonial, tanto como uma descrição etnograficamente densa como uma crítica teórica irrefutável da ilegitimidade desse sistema e das suas falácias.

Gostaria de apresentar brevemente um exemplo que pertence ao horizonte liberal do colonialismo (1870–1920). Um livro de Franz Tamayo (1879–1956) aborda de forma autocrítica a mestiçagem boliviana como uma síndrome de cruzamento psicológico, que ele chama bovarysmo, fazendo alusão ao romance de Flaubert, Madame Bovary. Esta noção me servirá de metáfora para compreender o bloqueio que nos impede de sermos memoráveis com a nossa própria herança intelectual, uma vez que é paradoxal e lamentável que tenhamos de legitimar as nossas próprias ideias recorrendo a autores que tornaram os assuntos do colonialismo em moda, ignorando ou menosprezando obras teóricas anteriores, que, embora não utilizassem as mesmas palavras, interpretaram e questionaram a experiência do colonialismo intelectual com profundidade e precisão. Em Creación de la pedagogía nacional3 , a autora chamou de bovarystas aos “intelectuais de gabinete” que trouxeram programas educacionais franceses para instalar e imitar no país uma pedagogia elitista e moderna apenas na aparência. Do seu lugar de poeta de prestígio (embora obscuro e mal compreendido), o seu rigor argumentativo e o seu gesto controverso provocaram um questionamento radical das práticas e estilos de ser daquela intelligentsia crioula4 que o rodeava, admirava e desprezava.

Ao contrário do que acontece hoje, quando tudo é escrito e falado, e os círculos hegemônicos dos alfabetizados criam satrapias5 políticas (o parlamento, o poder judicial) ou espetáculos midiáticos para nos enganar; no tempo de Franz Tamayo o foco era uma cultura oral gestual que se traduzia em códigos corporais não ditos mas socialmente inteligíveis: códigos de comunicação que também estruturaram hierarquias e desprezos dissimulados. Tamayo não contesta o que os seus contemporâneos escreveram: considerou-o uma aglomeração vulgar de citações de autores europeus, nem sequer foram bem traduzidas. Mas não foi por ter rejeitado a herança da Europa – a sua poesia em formato grego é testemunho disso – mas por ter reivindicado a um gesto mais autônomo e inteligente em relação a ela; como faria Veena Das6 um século mais tarde. Tamayo foi também inspirado por Nietzsche e pelo vitalismo alemão do seu tempo, bem como por uma vasta biblioteca filosófica e literária francesa, o que de forma alguma prejudica a sua abordagem das realidades multiétnicas (como diríamos hoje) do seu ambiente. Foi o seu gesto corporal e o seu olhar, assim como o seu conhecimento reflexivo do Aymara, que o diferenciou dos seus contemporâneos.

O que Tamayo rejeita não são as ideias e princípios básicos da episteme europeia, mas a forma como são adotados em países como o nosso: no boca a boca, de uma forma submissa e reverencial. A sua análise, pelo contrário, baseia-se no escrutínio da alma do mestiço que realmente existe no seu espaço/tempo, como um ser esquizofrênico, dividido e bipolar, incapaz de criar uma nação própria ou de habitar um território próprio. Este diagnóstico é vital em Tamayo e lança as bases para fazer do double bind7 mestiço um poder criativo, em vez de aprofundar o binarismo e com ele a disjunção colonial que nos impede de sermos nós próprios.

A genealogia que estou tentando traçar do colonialismo na cultura literária boliviana está, pela mesma razão, ligada às urgências do presente. Quão pertinente é Tamayo lido desde o aqui e o agora. Ele define o bovarysmo como um estado de “insatisfação inovadora” que se move num “contexto de repressão e convenção social”. Não é isso que está acontecendo com os recentes escândalos envolvendo Evo Morales8 , que a imprensa internacional está “apimentando” à sua maneira? Não é a sociedade boliviana descarregando a sua própria culpa e dor familiar, privada e até inconsciente, fazendo da vida de Evo Morales uma causa de diatribe moral e sexual? Faz, mas não percebe que o primeiro a ser julgado e apontado deveria ser o índio dentro de nós.

Fausto Reinaga, nos anos 1960-1990, elaborou sobre as críticas à “intelligentsia da cholaje boliviana”, um agudo raio-x do colonialismo intelectual na Bolívia, o que lhe valeu o estigma de ser um personagem intratável e ultrarradical. Não é um fato menor que tenha sido Reinaga – e não Sartre ou Balandier – quem introduziu a obra de Frantz Fanon e outros autores da descolonização africana no debate político boliviano dos anos 70. Com honrosas exceções, os autores agora “descoloniais/decoloniais” ou “pós-coloniais” não conseguem escrutinar o ethos do intelectual colonizado tão profundamente como Reinaga, e isto revela-se nos próprios caminhos que temos vindo a seguir para compreender os processos de libertação da Índia e as lutas de descolonização no nosso continente.

Maristella: O que significa, então, pensar nas ciências sociais da América Latina no século XXI, no quadro da modernidade avançada e do atual sistema de dominação?

Silvia: Creio que outra ciência social deve ser feita, uma ciência que não divorcie o cérebro do corpo, a ética da política, o fazer de pensar. A ciência social realmente existente não difere muito daquela que Tamayo criticou. E as obras de Reinaga abundam em conceitos/metáforas em cuja bricolagem vislumbro outro tipo de teoria sobre o colonialismo intelectual na América Latina e sobre o colonialismo em geral. Por outro lado, a modernidade que Tamayo experimentou não é muito diferente da de hoje: continua a ser uma estrutura de pilhagem e colonização mental. Com um fator agravante: nas primeiras décadas do século XX havia muito mais pessoas urbanas, mestiças e de elite em La Paz, que falavam Aymara perfeitamente, enquanto hoje a dimensão simbólica do índio se tornou pigmentada e baseada em simulacros, o que nos mostra que estamos perdendo a batalha linguística. No que diz respeito à colonização mental, as ciências sociais – junto a várias outras – deveriam concentrar-se na criação de ferramentas conceituais, técnicas e materiais para resistir à pilhagem tanto de recursos materiais como de pessoas (mãos, cérebros) ou, pelo menos, para nos ajudar a sobreviver a ela.

Para além da pilhagem, esta modernidade imposta baseia-se na cultura do direito. A ciência social hegemônica tem de lidar com um fosso muito profundo entre a lei e a sua prática, entre a teoria e a violação da teoria. Colocar-se estritamente num dos polos deste binário é uma atitude de suicídio coletivo, que é transferida para todo o pensamento público. Face a este estado de confusão, o que a ciência social deveria estar fazendo era revolucionar a episteme. Criar um campo de jogo entre o patrimônio europeu e o nosso próprio patrimônio, no qual possamos, com autonomia, recriar um pensamento e um gesto capaz de ultrapassar o “double bind” ou a esquizofrenia colonial de que Tamayo falou. E isto deve ser feito por qualquer meio, não só nas ciências sociais mas também na matemática, agronomia, engenharia e na multiplicidade de disciplinas que são necessárias para o presente e agora da humanidade e do planeta, não só da ciência.

Acima de tudo, a nova ciência social deveria abandonar a camisa de força da sociedade, deixar de se limitar às coisas humanas, relações e conflitos sociais, e tornar-se mais uma das ciências da vida. É por isso que me sinto muito insatisfeita com as ciências sociais existentes, considero-as como satrapias. Esclareço que tenho o luxo de dizer isto porque agora estou livre da universidade, eu me aposentei e com várias amigas e colegas criamos um espaço9 no qual patrocinamos um “curso livre” no Verão e no Inverno, entre muitas outras atividades. A geração mais jovem de intelectuais e acadêmicos que trabalham na universidade tem de lidar com coisas mais danosas e vastas, como as revistas indexadas – que tive a sorte de não conhecer – ou a excessiva carga administrativa imposta às universidades pelo neoliberalismo.

Mas entrar e sair da academia não é o mesmo que dizer entrar e sair da modernidade. O que entendo como o principal desafio é ser autenticamente moderno e, ao mesmo tempo, conectar com o mais antigo, para que, a partir desta contradição ou anacronismo, possamos conspirar – dentro e fora da universidade – uma esfera pública inclusiva, democrática e intercultural (para dizer em termos convencionais). Para mim é central reconhecer que a teoria não é suficiente, as ciências sociais não são suficientes, a universidade e a academia não são suficientes para compreender o mundo em que vivemos hoje. E acredito que, ao longo de Abya Yala, este processo de “entrar e sair da academia” está permitindo a renovação do pensamento e a sua melhor articulação com as práticas comunitárias, populares e coletivas. Na fronteira entre o mundo universitário e o seu exterior, iniciativas como a que acabo de descrever estão proliferando, e eu as vejo em vários países do nosso continente.

Maristella: Existe uma perspectiva latino-americana para pensar nos problemas atuais a partir da teoria social?

Silvia: Não. Pelo menos não dentro desse ponto, como parece estar definido na sua primeira pergunta. Uma teoria/prática social descolonizante é um processo contínuo, mas a sua verbalização ainda tem de ser construída; ainda está a gaguejar e dispersa. Não é sequer claro qual será o formato deste discurso, num contexto de proliferação e democratização das comunicações por satélite. Creio que o que é feito nas redes, ou no teatro, ou na arte latino-americana, é muito mais sensível do que a universidade ou academia paraestatal, em termos conceituais, face às realidades multifacetadas do espaço social em que vivemos.

Novos espaços para a produção de teoria/prática social surgiram também: espaços marginais e fronteiriços, mas, ao mesmo tempo, proliferando. Iniciativas de rua, lutas contra a impunidade, plataformas em torno dos direitos sexuais e uma diversidade de iniciativas práticas em defesa do meio ambiente constituem cenários ideais para uma “pesquisa atuante” ou “pesquisa militante” para além da utilidade, para as comunidades e organizações de base. Refiro-me também a intelectuais – tais como Silvia Federici, Rita Segato, Margara Millan, Veronica Gago, Suely Rolnik e a mim mesma – que dialogam em vários níveis de abstração com intelectuais de base nos seus respectivos espaços ou países. Todas estas redes são a coisa mais próxima de uma “ecologia do conhecimento” que tenho podido observar. Mas com um adendo: é também “ecologia de sabores”, e refiro-me às redes de autonomia alimentar, projetos ambientais, etc., que pensam os problemas não só através da pesquisa acadêmica e da publicação dos seus trabalhos, mas também através da participação intensa em feiras, espaços alimentares conscientes, cooperativas alimentares e muitas outras atividades.

Não tenho acesso suficiente a tudo o que se passa nas universidades e centros de pesquisa de vários países do continente para poder ponderar os avanços teóricos que estes novos fenômenos trouxeram, mas posso dizer a vocês que nos últimos anos li com maior interesse do que antes os debates latino-americanos nas ciências sociais e humanas, e fico feliz com o fato de muitos deles estarem a partir de uma tangente ou descartando abertamente o antropocentrismo dominante – e o seu descendente, o eurocentrismo.

Por Maristella Svampa
Publicado em Iberoamérica Social: Revista-red de estudios sociales.
Tradução de Fernando Rios
Revisão e versionamento: Baderna James


  1. Nota da edição: CUSICANQUI, Rivera. Domingues; Escobar, y Leff, (2016). Debate sobre el colonialismo intelectual y los dilemas de la teoría social latinoamericana. Cuestiones de Sociología, v. 14, p. e009. []
  2. Nota da edição: RIVERA CUSICANQUI, Silvia; BARRAGÁN, Rossana. Debates Post Coloniales: Una introducción a los estudios de la subalternidad. Historias, SEPHIS y Aruwiyiri, La Paz, 1997. []
  3. Nota da edição: TAMAYO, Franz. Creación de la pedagogía nacional. Linkgua, 2019. []
  4. Nota da edição: Por intelligentsia crioula, se compreende uma vanguarda intelectual crioula []
  5. Nota da edição: Pessoa que sabe governar ou mandar com astúcia e inteligência, geralmente abusando de seu poder. []
  6. Nota da edição: VEENA DAS é professora da cadeira Krieger-Eisenhower de antropologia, professora de humanidades da Johns Hopkins University e membro fundador do Institute of Socio-Economic Research in Development and Democracy. Entre seus livros, está Violence and Subjectivity [Violência e Subjetividade], que coeditou com Arthur Kleinman, Mamphela Ramphele e Pamela Reynolds. []
  7. Nota da edição: Duplo vínculo, do inglês double bind, é um dilema da comunicação onde indivíduo (ou grupo) recebe duas ou mais mensagens conflitantes, onde uma nega a outra. Isso cria uma situação na qual uma resposta bem-sucedida a uma mensagem resulta em uma falha na resposta à outra (e vice-versa), de modo que a pessoa estará automaticamente errada, independentemente da resposta. O duplo vínculo ocorre quando a pessoa não consegue enfrentar o dilema inerente e, portanto, não pode resolvê-lo nem sair da situação. A teoria do duplo vínculo foi descrita pela primeira vez por Gregory Bateson e seus colegas, na década de 1950. https://pt.wikipedia.org/wiki/Duplo_v%C3%ADnculo | A alegoria do cavalo no hospital também pode ser utilizada como analogia ao double bind. []
  8. Nota da edição: Entrevista realizada no ano de 2017. Na ocasião (além de outras situações) Evo conseguiu a liberação do Tribunal Constitucional para disputar a reeleição indefinidamente. A corte do país determinou em novembro de 2017 que o limite de dois mandatos presidenciais era “uma violação dos direitos humanos”. A oposição acusou o tribunal de passar por cima do resultado do referendo. []
  9. El Tambo Colectivx Ch’ixi, ciudad de La Paz, Bolivia. []
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Em 2021, tire a p̶e̶s̶q̶u̶i̶s̶a̶ insurreição do armário!

Tire sua pesquisa do armário

Além de ampliar as perspectivas e referências da sua pesquisa, a Editora Monstro dos Mares está em ação para fortalecer a atividade de espaços comunitários, sociais, movimentos, coletivos e singularidades. Atuamos com a vontade de aumentar a felicidade e a autorrealização das pessoas que fazem parte de nossa iniciativa editorial, tal como daquelas que se relacionam direta ou indiretamente conosco. Isso tudo pode parecer efêmero, mas talvez sejam os mais importantes benefícios das atividades que realizamos na editora. Números jamais poderiam traduzir a felicidade e a autorrealização que sentimos ao distribuir livros e zines, mas no dia a dia vivenciamos o impacto mais gratificante de toda a nossa atividade de inspiração anárquica e autogestionária.

Aprendemos constantemente umas com as outras, e nossa alegria e entusiasmo estão na satisfação de interagir e colaborar em bando, realizando atividades e projetos cada vez mais envolventes, conscientes e felizes. Entendemos que a Editora Monstro dos Mares tem como missão a contribuição social na valorização das subjetividades e no enfrentamento aberto ao capitalismo, à colonialidade e ao patriarcado em todas as suas expressões.

A atividade de fazer livros e zines é também uma forma importante nos esforços para enfrentar a pobreza e buscar melhorias nas condições de vida de toda gente sofrida. Compreender as condições mais singelas de ser quem se é, incluindo sua etnia, sexualidade, identidade cultural, constituição física, capacidade e orientação tecnopolítica, fortalece e amplia nossas reflexões sobre as relações de poder sobre os corpos, o adoecimento generalizado, a dependência financeira daqueles que trabalham, a cooptação política de nossas comunidades, tal como os elevados níveis de stress nos meios acadêmicos e as precárias formas de expressão dos sentimentos e angústias do nosso tempo. Por tudo isso, ousamos buscar por modos diversos de enfrentamento à centralização do poder e as imposições normativas do Estado, do grande capital, do judiciário, da igreja e da família (abusadores, policiais, patrões, padres, pastores, juízes, e maridos também!).

Ao realizar processos de publicação que disponibilizam ferramentas de autonomia, emergem evidentes chamados às práticas/éticas das vidas em perigo, das existências que expressam sentimentos conectados à realidade social de nosso tempo. Linhas, páginas e capítulos são caminhos pelos quais alcançamos nossos objetivos e desfrutamos das maiores recompensas conhecidas para nossa pequena comunidade editorial: pessoas convivendo umas com as outras de forma dedicada, para uma vida mais criativa e que, ao falarem abertamente de seus problemas em sociedade, buscam soluções compartilhadas.

Nosso coletivo é pequeno, somos uma dúzia de pessoas que contribuem no conselho editorial e científico, duas para fazer todo o resto (imprimir, cortar, colar, grampear…) e, lógico, uma quantidade carinhosa de pessoas da Rede de Apoio e Solidariedade, que muito generosamente nos enchem de carinho e também prestam suporte financeiro mensal para seguirmos existindo.

Buscamos com nossas publicações compreensões sobre nosso tempo, partindo das cosmovisões e experiências pluridiscursivas cotidianas de habitar o lugar, onde se constrói a dimensão da experiência e da pre-sença do Ser no Mundo. Esse lugar que somos, o século 21. Aqui, não se trata de negar ou rechaçar os iluministas, os homens europeus cis brancos e mortos da Europa que estenderam suas teorias até os dias de hoje, mas compreender, articular e abrir espaço para que outras visões de mundo possam emergir, rumo a um mundo em constante transformação e cheio de possibilidades. Não se trata de reescrever o futuro ou o que virá, mas abrir-se para o que está acontecendo aqui, entre nós.

Esse é o desafio presente nos esforços de publicação de textos que conseguimos produzir, resgatar ou localizar: desacomodar o horizonte epistemológico das pessoas dentro e fora da academia a partir de uma perspectiva radical, que enfrenta os discursos daqueles que desejam a nossa morte e/ou mesmo daqueles que pensam que não somos sociais ou, ainda, que acham que dependemos da aceitação de qualquer “autoridade” no horizonte das lutas. Somos a luta, nossos corpos são campos de batalha. Somos monas, minas e manos, lésbicas, não-bináries, pessoas negras, pardas, gordas, maricas, sapatonas, homens e mulheres trans, povos da floresta, pessoas com deficiências. Somos essa gente com doenças crônicas, com problemas de saúde mental. Somos as pessoas que não se reconhecem nas definições limitadas dos rótulos, identidades, partidos e perfis para serem catalogadas no segundo caderno dos jornais. São nossos corpos, nossas vidas, nossas lutas!

Esse é o nosso tempo e ninguém vai nos dizer o que fazer.

Em 2021, tire sua pesquisa insurreição do armário e faça com que ela ocupe todos os espaços da vida, dentro e fora dos muros das universidades.


Mensagens de anos anteriores

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Reflexões: O índio no cinema brasileiro e o espelho recente

Chegamos à última semana da campanha de financiamento coletivo do livro O índio no cinema brasileiro e o espelho recente, de autoria de Juliano Gonçalves da Silva. Por isso, aproveito este momento para levantar apontamentos para além do texto, pois sabemos que, ao chegarmos à ultima página de uma obra, começamos um novo processo de produção e reflexão sobre o que o livro nos diz e como as contribuições do/a autor/a passam a fazer parte de como nós mesmas pensamos o mundo.

O que a ficção cinematográfica pode produzir, como efeito sobre a realidade, em relação a coletividades e/ou indivíduos (re)constituídos à margem dos grupos hegemônicos de nossa sociedade?

Esse questionamento deve ser central em análises de quaisquer obras que tragam às telas personagens que pretendam representar grupos socialmente marginalizados, já que a constituição do imaginário de uma cultura perpassa todas as nossas relações sociais. Em outras palavras, preconceitos produzidos e reproduzidos na ficção são partes constitutivas dos preconceitos produzidos e reproduzidos pelas pessoas no dia a dia. Ou seja: a vida e a arte são indissociáveis. É preciso trazer à tona essa ligação imanente; é preciso des-velar a tensão ficção vs. realidade continuamente para desmantelar os ciclos de citacionalidade que sustentam as hierarquias entre as pessoas e as culturas e dão justificativa ao injustificável.

É impossível e covarde, a meu ver, desconectar do hoje qualquer esforço de análise ou comentário. Por isso, penso ser relevante situar a publicação deste livro dentro do contexto que vem sendo chamado “Crise do Coronavírus” e seus desdobramentos no Brasil.

O vírus chegou aos territórios supostamente protegidos destinados à manutenção da vida e cultura indígena, e isso se deu sobretudo através da “exploração ilegal” dessas terras. Temos falado de roubo, invasão, grilagem, e também da expropriação fundante do Brasil como nação–a invasão pelos colonizadores europeus. É fato que ao evocar esses termos e fatos históricos acertamos sobre o que move a contenda atual, mas gostaria de atrelar a essas reflexões e críticas que já fazemos duas outras questões que me acometem neste momento.

A primeira é que muitos de nós só pensamos nesses fatos em momentos de inegável comoção coletiva. Há certamente coletividades, instituições e individualidades não-indígenas que fazem da luta indígena sua própria constituição. Mas nós, pessoas brancas, estamos realmente assumindo nossa participação e responsabilidade sobre o binômio indígena/não-indígena enquanto vivemos nossa própria constituição como dependente da sustentação desse binômio? Fazemos parte de uma cultura que re(a)presenta os povos indígenas como atrasados, primitivos, não-civilizados, e essa cultura é parte do que nos faz quem somos sendo brancos. Daí a importância de questionarmos e analisarmos produções culturais, e aqui particularmente a ficção, que fazem parte da criação da narrativa de nós mesmas.

A segunda questão que gostaria de trazer é sobre a impropriedade do termo “exploração ilegal”, que coloco entre aspas justamente por causa de sua fragilidade e intrínseca trapaça. Podemos, efetivamente, classificar como legais e ilegais ações baseadas em um sistema formulado por aqueles que se beneficiam dessa organização de leis em detrimento daqueles sobre os quais as leis se aplicam? Já não foi legal a expropriação das terras dos indígenas que habitam o continente desde quando da chegada dos colonizadores, e não existe a manipulação e o preterimento das leis para que essa expropriação continue hoje, talvez sobre outros nomes? Soa ingênuo para mim, por tudo isso, chamar essas ações de “exploração ilegal” e pensar que as noções de legalidade e ilegalidade já atuam como uma espécie de punição classificatória. Como se isso fosse suficiente, e como se pudéssemos esperar sentadas por algum tipo de “justiça”.

Os questionamentos que apresentei não esgotam, sem dúvida, as possibilidades críticas e de ação que podem emergir da análise da representação de personagens indígenas no cinema brasileiro. O que busco fazer com este texto é um exercício no sentido de amplificar o que podemos perguntar, incentivar a expansão de minha capacidade questionadora. Pois, ao falar sobre um livro que disserta acerca da representação de personagens indígenas, posso, além de questionar a impropriedade ou propriedade dessas representações, questionar também a (im)propriedade das leis, a ficcionalidade das narrativas que me perpassam e constituem, a conexão entre ficção e realidade. Podemos e devemos tomar como determinação pessoal questionar tudo acerca do mundo em que vivemos.

Claudia Mayer
Doutora em Estudos Literários e Culturais
Editora Geral da Editora Monstro dos Mares
Contato: [email protected]

Contribuições com a campanha de financiamento coletivo do livro O índio no cinema brasileiro e o espelho recente, de Juliano Gonçalves da Silva, podem ser feitas até o dia 11/05, às 23h59min. Estamos muito felizes com o andamento dessa campanha e muito gratas a todas as pessoas que contribuíram e que ainda contribuirão. Logo os livros começarão a ser produzidos e prevemos para o fim deste mês o início dos envios nos Correios.

Apoie o financiamento coletivo do livro “O índio no cinema brasileiro e o espelho recente” de Juliano Gonçalves da Silva no Catarse -> http://catarse.me/oindionocinemabrasileiro

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2020: coloque a editora do seu movimento/coletivo para navegar

Desde 2012, a Editora Monstro dos Mares vem passando por profundas modificações. Quem acompanha nosso bonde pode perceber que algumas técnicas e o volume de impressão mudaram bastante, mas que a natureza de nossa atividade segue exatamente a mesma: publicar os modos de pensar e as práticas que formam os movimentos de luta social de nosso tempo. Entendemos que existe uma diversidade de ideias que constituem aquilo que pode se definir como “luta social”. Não temos interesse em definições rígidas, pois compreendemos que vivemos em um mundo em constante mudança, no qual pessoas transformam e se transformam de forma ininterrupta. É simples imaginar que práticas de luta e resistência, bem como teorias e epistemologias que questionam o poder, o Estado e o estado de coisas, também estão em movimento. Um livro aberto nunca será estático.

Somos monas, minas e manos agindo para destruir hierarquias, a centralização do poder e a coerção em todas as suas expressões. Nosso posicionamento político-editorial está amarrado às necessidades de quem sofre cotidianamente com as formas de exclusão e precarização da vida. Nos alinhamos aos desejos e estudos de quem se identifica com o questionamento do que está posto e busca, através da autonomia e da solidariedade, a construção de significados para compreender o nosso tempo e lutar contra todas as formas de opressão, por mais subjetivas que pareçam à primeira vista. Essa proposta não impede que as pessoas que integram nosso bonde editorial mantenham seus posicionamentos individuais, sejam filiadas a organizações, etc. Cada pessoa faz sua correria, movimentação de base, atuação em grupos, coletivos e movimentos, ou mesmo seja alguém que utiliza o espaço de produção acadêmica e de pesquisa para contribuir com questionamentos e ideias para compor nosso catálogo de publicações e materiais que escolhemos distribuir.

Editoras são necessárias. Por isso, no ano de 2020 a Monstro dos Mares, além de seguir com seu projeto de divulgação acadêmica anárquica, vai mobilizar seus esforços para ampliar a quantidade de novas editoras. Para cumprir esse objetivo, compartilharemos conhecimentos e aprendizados de métodos de produção e tudo aquilo que estamos aprendendo nesses oito anos de atividade, em que nos envolvemos ainda mais em fazer e distribuir livros e zines. Quando enviamos materiais para singularidades, grupos de estudos, pesquisadoras, bibliotecas, coletivos e movimentos, colocamos em prática aquilo que nos constitui como pessoas que lutam por emancipação, liberdade, apoio mútuo, cooperação e solidariedade em todas as expressões da vida. Distribuir livros é multiplicar ações e compartilhar reflexões.

Convidamos todas as pessoas a somar em nosso propósito de transferir conhecimentos para que mais editoras possam existir, para que mais ideias possam ganhar as páginas das ruas e que mais pessoas possam aprender, instruir e compartilhar saberes e práticas anárquicas e anarquistas. Desde nossa primeira impressão nos alinhamos ao compromisso de fazer com que as palavras, a tinta no papel e a divulgação de ideias de nossas lutas possam ocupar espaço na articulação daquilo que constitui o que chamamos de luta social. Tocar uma editora é dar espaço às possibilidades.

Por um 2020 combativo: publique suas ideias!


abobrinha, baderna, enguia, R., ste, sullivan, tonho, zé.

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[reflexão] Para publicar – A necessidade de tinta no papel nas publicações anarquistas da atualidade (por Aragorn!)

Dentro de cada pessoa cínica, há um idealista desapontado.

George Carlin

Se publicar é a prática de colocar tinta no papel e jogar na mão do povo, então criar uma editora é barbada (principalmente se for uma editora anarquista). Embora existam indiscutivelmente mais livros anarquistas sendo publicados do que em qualquer outro momento da história, a quantidade de leitores está diminuindo. Publicações anarquistas, sejam panfletos, jornais e revistas, estão reduzindo no universo inteiro. Cronogramas de publicação sem frequências definidas e diminuição das tiragens, indicam que o tempo do papel pode estar chegando ao fim para os periódicos anarquistas.

O indicador para essa contagem é que tem havido uma correspondente, se não maior, ascensão de publicações anarquistas na internet. Mas será que esse é realmente o caso? Isso vai depender do que você entende por publicação. Por exemplo, no site infoshop.org, podemos encontrar a maior e mais antiga publicação anarquista na web, ao longo de um ano, seria difícil encontrar um grande volume de conteúdo original na parte de notícias (já que é a mais ativa) para preencher as páginas de uma revista. Isto não é uma crítica, mas uma declaração de como uma publicação na internet é qualitativamente diferente de um jornal ou revista, onde republicações são a exceção e não a regra.

Por isso, talvez seja necessário uma definição mais ampla de publicação anarquista. Livrar-se de publicações de tinta e papel, pode ser visto como mais saudável e ecológico do que nunca. Sabemos que esses são dias felizes de discussões sobre os acontecimentos do outro lado do mundo, artigos escritos na semana passada, e detalhes picantes que antigamente teriam levado anos para descobrir sobre os heróis e vilões da anarcolândia (risos). Mas o que perdemos neste mundo novo da informação constante que se limita as telas, as conexões banda larga; especialistas das artes digitais, HTML, CMS, e manipulação de imagens?

O ritmo, o tato, a sedução, o contexto, a simplicidade, clareza, escrita bonita, profundidade, debate informado, e as relações pessoais aos autores é o que perdemos. É bem provável que essas coisas não vão voltar, nem nas publicações anarquistas ou em qualquer outra. Além disso, há uma massa crítica de leitores que deram adeus aos preços de venda; artigos longos demais; autores especializados; nome de editoras; cronogramas lentos de novas publicações e a quantidade de tempo levam para que periódicos possam ser impressos. As pessoas já não esperam impressões, em geral, as editoras que imprimem materiais estão desaparecendo uma a uma. Qualquer editor que deseja ser relevante deve manter uma presença na internet, mas o oposto disso também é verdade. O movimento em direção ao digital (evidenciado pelo número crescente de versões “apenas pdf” de publicações anarquistas) e incapacidade de um número maior de projetos capazes de ganhar voz própria é uma demonstração dos tempos sombrios que temos pela frente. Claro, haverá mais palavras, mais coisas jogadas contra as paredes digitais na esperança de ficar, mas isso não vai ser notado. Na melhor das hipóteses um novo tipo de elite virtual (que já existe e se diz dona de muitos espaços anti-autoritários) vão se virar na direção de um texto e pipocar novos links. E assim vão continuar na próxima semana. Até pintar a próxima coisa, a próxima falsa controvérsia, o próximo prazer, a próxima distração.

Isso é bem diferente do que acontece num zine, do mais humilde ao mais fantástico, até mesmo uma revista de crítica anarquista no fundo da mochila de um viajante. A tinta no papel contém mais possibilidades de serem redescobertos muitos anos depois, de encontrar um novo público. Editoras anarquistas de nossos tempos devem emergir como uma solução para um problema novo, que neste momento parece ser mais grave do que a própria extinção de editoras no século passado. Se a ideia de vivermos livres de coerção significou em algum momento vivermos livre do trampo de imprimir e distribuir, isto não tem se mostrado uma boa ideia. Existe um mercadão de ideias, nossas premissas de liberdade e anarquia já não parecem ser muito convidativas. O caminho é solitário e perigoso. Pode parecer pouco evidente, mas o processo de desejar a liberdade anarquista, de articular um mundo diferente enquanto estiver sob coação, é parte do processo para se tornar uma pessoa informada e educada ao longo da vida anarquista, tal como ler as palavras dos velhos anarquistas, ou o famoso FAQ.

O processo de colocar tinta no papel e entregá-los para pessoas que estão interessadas contém um espectro completo de experiências sobre como realmente podemos fazer alguma coisa. Como transformar boas ideias (e mesmo as meia-boca) em sucessos ou fracassos. No papel essas ideias tem um valor próprio, mais do que elogios, críticas e enganos, o resultado é jogar mais ideias para o mundo. O processo de transferir palavras impressas de lá pra cá, de você pra mim, é também a conexão primária que faz existir uma editora para dezenas, centenas ou milhares de pessoas que serão escribas do futuro, feitiçeirxs da anarquia, companheirxs que podem fazer as coisas acontecerem e as melhores amizades que você nunca vai ter.

Por Aragorn!
Versão para o português por Vertov

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Seu manifesto, sua cultura (por Seth Godin)

É fácil relacionar um monte de banalidades e chamá-las de “missão”. Mas o que acontece se você realmente tem uma missão específica, uma cultura em mente, um manifesto por suas ações?

A escolha essencial é esta: você tem que descrever (e viver) as escolhas difíceis. Você tem que descobrir o que você vai enfrentar. Acima de tudo, você tem que deixar claro o que é importante e o que você não vai ou não pode fazer.

Aqui está algo que foi publicado esta semana por alguns amigos:

Perspicácia (Acumen)

Começa por estar com os pobres, ouvir vozes não ouvidas, e reconhecer o potencial onde outros só veem desespero.

Exige investimento como um meio, não um fim, ousadia para ir onde os mercados falharam e a ajuda ficou aquém. O investimento serve como capital, não como controle.

A perspicácia vive na imaginação moral: a humildade de ver o mundo como ele é e a audácia de imaginar o mundo como ele poderia ser. É ambição de aprender, sabedoria para admitir o fracasso e coragem para recomeçar. Ela exige paciência, bondade e superação: a esperança é um jogo duro. É uma liderança que rejeita complacência, rompe a burocracia e a tentação da corrupção. FAZER O QUE É CERTO, NÃO O QUE É FÁCIL.

Perspicácia é a ideia radical de criar esperança em um mundo cínico, mudando a maneira como o mundo aborda a pobreza e construindo um mundo baseado na dignidade.

Começar, demandar, prosperar e exigir. Quatro palavras (verbos) que não estão no vocabulário da maioria das organizações.

Começar, como em “aqui onde nós estamos, poucos outros estão.” A maioria dos políticos e entidades empresariais não pode imaginar estar em pé de igualdade com os pobres. Além deles, é óbvio. Mas com eles?

Demandar? Demandar significa fazer escolhas difíceis sobre o que a concorrência vai ser e que paradigmas você está disposto a definir e a realizar.

Prosperar, porque a sua organização é única e vale a pena se fazer chegar ao ponto em que ela vai prosperar, onde você fará a diferença, não apenas lutar.

E exigir, porque nada disso é fácil.

É fácil escrever isto, mas é incrivelmente difícil de viver, porque exige escolhas difíceis e a vontade de gozar do resultado de suas ações. Se você estiver indo para permitir brechas, espaço de manobra e negação, nem se incomode mesmo.

Tradução livre de: Your manifesto, your culture
The Acumen Manifesto: http://acumen.org/manifesto/
Enviado por @ascatia