Publicado em Deixe um coment√°rio

A radical pós-vida de Frantz Fanon

Franz Fanon

Um document√°rio que retoma as ideias de Frantz Fanon do passado e as coloca no caminho de como suas ideias est√£o ressoando com os jovens de hoje ao redor do planeta.

Quando Frantz Fanon estava nos √ļltimos est√°gios da leucemia, aos 36 anos, ele foi levado para um hospital em Bethesda, Maryland, nos Estados Unidos, para uma cirurgia. Seu filho de 5 anos, Olivier, andando por l√° e vendo a chegada de sangue para transfus√£o, vendo as bolsas de sangue, temeu que seu pai houvesse sido cortado em peda√ßos. O pequeno Olivier mais tarde encontrou flamulando uma bandeira da Arg√©lia em uma rua desde a brutal e recorrente guerra Franco-Argelina, na qual ambos seus pais estiveram profundamente engajados. Esse era, at√© ent√£o, seu √ļnico entendimento de viol√™ncia e sangue no mundo.

Eu me recordei desta hist√≥ria de partir o cora√ß√£o, inclu√≠da na biografia de Fanon feita por David Macey, durante a triagem do filme de Hassene Mezine, Fanon Hier, Aujourd‚Äôhui (Fanon: Ontem, hoje), com a participa√ß√£o de Olivier Fanon, agora adulto, lendo trechos do trabalho do pai. Entrevistas com ele e uma nota particularmente melanc√≥lica para o belamente composto sum√°rio da vida de Fanon comp√Ķe a por√ß√£o ‚Äėontem‚Äô da primeira metade do filme. ‚ÄúEu estava moldado em uma cena da Guerra da Arg√©lia‚ÄĚ. Olivier relata como foi viver marginalmente devido a amea√ßas constantes √† vida de seu pai.

Mezine encerra a hist√≥ria de Fanon ‚Äď a vida vivida desviantemente por um curto, en√©rgico e explosivo tempo ‚Äď entre seu come√ßo como um soldado lutando contra o nazismo aos 18 anos na II Guerra Mundial, at√© sua ‚Äú√ļltima luta contra o colonialismo‚ÄĚ. Aqui, o foco √© nos dias em que Fanon esteve na Arg√©lia, come√ßando com seu posto em Blida, onde ele foi apontado como o m√©dico-chefe no hospital psiqui√°trico. Pegando a Estrada da recente publica√ß√£o de Aliena√ß√£o e Liberdade: Frantz Fanon, na qual s√£o recuperados e traduzidos a maioria de seus escritos psiqui√°tricos, o filme tamb√©m se atenta ao trabalho psiqui√°trico de Fanon no centro de seu pensamento anticolonial. Foi em Blida que ele estava disposto a tentar novas abordagens, m√©todos progressistas em um lugar e momento em que o colonialismo e o tratamento racista dos pacientes norte-africanos havia se tornado regra.

Fanon foi estagi√°rio do Dr. Francois Tosquelles, que havia levantado a quest√£o paradigm√°tica, ‚ÄúComo voc√™ pode tratar pacientes se a institui√ß√£o em si est√° doente?‚ÄĚ e havia inventado a psiquiatria institucional. Levando estas ideias para mais longe, Fanon reorganizou completamente as atividades e tratamentos no hospital, incluindo arte terapia, m√ļsica, sess√Ķes de conta√ß√£o de hist√≥ria, e at√© mesmo locais para arremessos e futebol. O filme alterna entre imagens antigas e novas do hospital em Blida, movendo de fotos amea√ßadores de correntes, algemas e cintos para imagens de pessoas relaxando no caf√© do hospital com o porta-retrato de Fanon pendurado em destaque na parede, evid√™ncia da longa perman√™ncia das mudan√ßas estruturais que fez ali.

O filme toma o olhar por meio de Fanon no tempo em que era revolucion√°rio na luta da Arg√©lia at√© lentes √≠ntimas e pessoais ‚Äď hist√≥rias de amigos com quem se reunia nas refei√ß√Ķes e tinha longas e agitadas discuss√Ķes sobre a guerra; Fanon tocando guitarra e cantando nas festas de fim de ano, Fanon caminhando pelo seu quarto vazio, sem mob√≠lias, no qual ele ditou seu livro todo para sua assistente Marie-Jean Manuellan; Fanon empurrando o pequeno Olivier em seu triciclo. Todos estes fragmentos de mem√≥ria permitiram que o p√ļblico acessasse o soci√°vel, agrad√°vel e vibrante Fanon vivo ‚Äď sendo sempre algu√©m com a comunidade, e que tinha energias ilimitadas e ideias sobre a luta colonial e as injusti√ßas em todo lugar.

Frantz Fanon brincando com criança

A inova√ß√£o trazida por este document√°rio √© simples: um curto retrato da companheira de Fanon em vida e amor, Josie. Resumido em um amor revolucion√°rio, ‚ÄúArg√©lia serviu como catalisador para aproximar Fanon e minha m√£e‚ÄĚ, explica Olivier, ‚ÄúEle estava l√° nos campos de batalha, nas fronteiras‚ÄĚ, acrescenta. Sem d√ļvida, Fanon, Josie e a Arg√©lia eram indissoci√°veis.

Enquanto Josie Fanon foi deixada de lado pelos livros de hist√≥ria, esta curta homenagem faz o trabalho necess√°rio de incitar e relembrar os especialistas em Fanon a avaliar a extens√£o em que a revolu√ß√£o √© continuamente enquadrada como masculina, com as mulheres apenas tratadas como acess√≥rios tempor√°rios para grandes projetos. Josie foi uma figura respeitada e amada que continuou o seu trabalho como jornalista na Arg√©lia e foi uma forte aliada do movimento anti-apartheid na √Āfrica do Sul, permanecendo essencialmente sem medo e engajada nas pol√≠ticas at√© sua morte em 1989.

Ap√≥s realizar muitas novas intera√ß√Ķes na biografia de Fanon, a sess√£o ‚Äúhoje‚ÄĚ mostra-se o ponto crucial do document√°rio. Ela cont√©m a longa e robusta tese: a ideia de que o trabalho de Fanon tem sido transformador e influente, e que indubitavelmente possui radicalidade ap√≥s sua vida.

Qual √©, com tudo isso, a relev√Ęncia de Fanon hoje? Diferente de Che Guevara, Fanon n√£o se tornou um √≠cone de destaque. N√£o existem camisetas, broches, sacolas nas quais ele aparece, e isso √© simplesmente porque as ideias de Fanon n√£o s√£o facilmente consumidas, nem servem para curtos e concisos lemas. At√© como movimento de alerta para o direito global que agora cria ra√≠zes, que tamb√©m tem ferocidades beligerantes e ideologia de resist√™ncia decolonial.

O document√°rio demonstra que Fanon tem muito o que oferecer para a juventude de hoje, que √© privada de seus direitos pelas pol√≠ticas econ√īmicas neoliberais, alimentando o racismo pernicioso e profundamente radicalizado justamente devido √† ampla disponibilidade online de uma lista de injusti√ßas, desigualdades e corrup√ß√£o no mundo. ‚ÄúMis√©ria √© o √ļnico destino prometido para centenas de milh√Ķes de humanos‚ÄĚ, a narradora Marie Tsakala estoicamente declara.

A jornada do filme come√ßa na Martinica, local de nascimento de Fanon (onde o document√°rio exibe a audi√™ncia entusiasmada em um audit√≥rio massivamente lotado). Mezine estava surpreso em saber que o trabalho de Fanon era pouco conhecido na Martinica. Ademias, tal recep√ß√£o ansiosa talvez evidenciasse que ali havia um desejo de olhar para al√©m dos erros de estere√≥tipo de Fanon como um ‚Äúap√≥stolo da viol√™ncia‚ÄĚ, e a fome real de retomar suas ideias, que talvez possam oferecer respostas para problemas do presente.

Em Portugal, o rapper e ativista Fl√†vio Almada ‚ÄúLBC Soldjah‚ÄĚ falou o quanto havia sido transformado por Pele Negra, M√°scaras Brancas. O l√≠der em ‚ÄúPlataforma Gueto‚ÄĚ, um movimento social negro que inventa m√©todos para educa√ß√£o popular e constru√ß√£o comunit√°ria, Almada reclama do racismo institucional e da viol√™ncia policial contra a popula√ß√£o negra arraigados em Portugal. Portanto, as no√ß√Ķes fanonianas de que ‚Äún√≥s nos revoltamos porque n√£o podemos respirar‚ÄĚ ressoam como urgentes. As ideias de Fanon s√£o importantes porque ele ilumina o que n√£o √© culpa dos povos marginalizados, e que n√£o s√£o seus destinos, explica Almada, mas o racismo e a viol√™ncia s√£o ideologicamente organizados, e podem ser decolonizados, erradicados e superados.

Viajando para a Fran√ßa, √Āfrica do Sul e Nig√©ria, o document√°rio pretendeu seguir a relev√Ęncia de Fanon para a gera√ß√£o mais jovem intensamente consciente do fato de que o imperialismo continua inabal√°vel em um rol de criativas e enganosas muta√ß√Ķes. ‚ÄúN√≥s n√£o somos os ‚Äėcondenados da terra‚Äô falados por Fanon,‚ÄĚ explica Houria Bouteldja ativista franco-argelino. ‚ÄúN√≥s somos os sujeitos p√≥s-coloniais da Europa; n√≥s somos o Sul no Norte.‚ÄĚ

imagem do Espaço Frantz Fanon

O pr√≥prio Hassane Mezine √© muito o produto dessas ideias, e escolheu fazer este document√°rios por causa de sua ‚Äúidentidade argelina‚ÄĚ, com a qual tinha conflitos enquanto crescia na Fran√ßa. Ele explica que √© ‚Äúconfrontado com os mitos do republicanismo franc√™s sobre justi√ßa e igualdade, que n√£o s√£o realmente aplicados quando voc√™ nasceu fora, em uma col√īnia hist√≥rica francesa.‚ÄĚ Para Bouteldja, assim como para Mezine, Fanon esclarece o processo como um colonialismo interno, e seus escritos oferecem estrat√©gias para se decolonizar destas estruturas sufocantes.

Observa√ß√Ķes excepcionalmente fortes v√™m do jovem ativista Ibrahima Diori em Niamey, Nig√©ria, que disse que as ideias fanonianas se tornaram particularmente relevantes em seu pa√≠s pois ele tem um papel central na exacerba√ß√£o do que chamam de ‚Äúcrise migrat√≥ria‚ÄĚ. As leis de divis√£o colonial entre a √Āfrica Negra, a √Āfrica Branca e o Norte da √Āfrica evitam liberdades internas de movimenta√ß√£o; Como os chefes de Estado das na√ß√Ķes norte-africanas se tornaram agentes das agendas europeias, fronteiras foram estendidas e se proliferaram ao longo da √Āfrica, se tornando ‚Äúum jogo de isolamento institu√≠do pelas pol√≠ticas anti-migrat√≥rias europeias.” Apesar das estat√≠sticas que provam repetitivamente que a maioria dos migrantes n√£o deseja entrar na Europa, mas pretende viajar livremente pela √Āfrica, este discurso √© promovido na m√≠dia como uma justifica√ß√£o da draconiana e repressiva das pol√≠ticas de fronteira.

Diori pleiteia a simplifica√ß√£o das rela√ß√Ķes entre os humanos, e Fanon oferece a ele uma ponte para os ideais de solidariedade e unidade. Salima Ghezali, jornalista e ativista, faz uma reflex√£o similar em Argel, Arg√©lia, e fala em um discurso racista interno que tem sido combatido pelo grupo ao qual Fanon referiu-se como a corrupta ‚Äúburguesia nacional‚ÄĚ no contexto dos refugiados e migrantes oriundos da √Āfrica.

Como a jornada de Fanon continua, parece claro que mulheres s√£o a vanguarda dos movimentos de massa contempor√Ęneos contra o racismo, gan√Ęncia corporativa e colonialismo estrutural. Tal quadro fica ainda mais evidente quando Mexine termina com uma sess√£o na Palestina com Samah Jabr, que √© uma das 22 pessoas exercendo a psiquiatria e a √ļnica mulher na profiss√£o na Costa Oeste. Profundamente influenciada pelos escritos de Fanon, Jabr explica que ‚Äúo trauma descrito nos manuais ocidentais n√£o parece similar ao trauma que temos na Palestina.‚ÄĚ Ela compara um grupo oprimido com uma sobrevivente de estupro que se culpa pelo estupro e imagina que ela inicialmente mereceu isso. Um grupo oprimido como os Palestinos tem que superar seu imenso complexo de inferioridade, e atuam inspirados pelo potencial terap√™utico das teorias de Fanon, acrescenta Jabr. Em um movimento de poder simb√≥lico, Mezine projeta as palavras de Fanon no rosto radiante de Ahed Tamimi, uma garota adolescente que j√° foi presa por seu confronto com os soldados israelenses, incitando manifesta√ß√Ķes e protestos globais.

De fato, Mezine inaugura Fanon na gera√ß√£o do s√©culo XXI que, talvez, nunca conheceram o colonialismo propriamente dito, mas tem herdado todas as suas dur√°veis brutalidades. Almada de Portugal insiste que ‚Äúativistas, rappers e acad√™micos devem ler Fanon, mas n√£o o transformar em algo da moda. Fanon √© para a liberta√ß√£o.‚ÄĚ Em outro lugar, as palavras hipnotizantes de Cornel West para a c√Ęmera permanecem conosco: ‚ÄúMuitos do mundo pr√©-fanoniano persiste. Mas n√≥s vamos conversar com Frantz Fanon porque muitos de n√≥s decidimos que queremos ser fi√©is at√© a morte as verdades ditas por eles, aos seus testemunhos…‚ÄĚ

Como o esfor√ßo melanc√≥lico de Yazid Fentazi¬īs oud, que nos acompanhou por todo o document√°rio, agora deixa aos m√ļsicos Neyssatou da Tun√≠sia que bravamente imersos por ‚ÄúWar‚ÄĚ de Bob Marley, h√° um senso de j√ļbilo. A miss√£o talvez ainda n√£o esteja complete, mas a saga foi iniciada e o trabalho da decoloniza√ß√£o libert√°ria est√° encampada seriamente por todo o planeta.

Por Bhakti Shringarpure em Africa Is a Country.
Gentilmente traduzido por Ste.


Publicado em Deixe um coment√°rio

Participe do financiamento coletivo do livro “Zumbi dos Palmares: por uma educa√ß√£o antirracista”, de Walter Vadala

zumbi dos palmares: por uma educação antirracista

Em “Zumbi dos Palmares: por uma educa√ß√£o antirracista“, Walter Vadala articula as possibilidades de encontros e di√°logos que emergem a partir da hist√≥ria de Zumbi para que educadoras e educadores possam compreender e combater o racismo utilizando-se da educa√ß√£o como mediadora e fazendo da escola mais que um ambiente de conhecimento te√≥rico, mas um ambiente de transforma√ß√£o social.

A Monstro dos Mares tem entre seus princ√≠pios a tarefa de disponibilizar exemplares impressos a bibliotecas comunit√°rias, coletivos, movimentos e centros sociais que, entre suas pr√°ticas, promovem uma educa√ß√£o libert√°ria, antirracista e que questionam o padr√£o euroc√™ntrico dentro e fora das salas de aula. A fun√ß√£o de nosso bonde editorial √© fazer do livro uma ferramenta de luta contra o capitalismo, a colonialidade e o patriarcado em todas as suas express√Ķes. Para a publica√ß√£o de “Zumbi dos Palmares: por uma educa√ß√£o antirracista“, vamos fortalecer as seguintes coletividades:

  • Biblioteca comunit√°ria de Parelheiros (S√£o Paulo – SP)
  • Biblioteca Comunit√°ria Livro Livre Curi√≥ (Fortaleza – CE)
  • Biblioteca Libert√°ria Maxwell Ferreira (Bel√©m – PA)
  • CIEJA Campo Limpo (S√£o Paulo – SP)
  • Quilombo das Artes (Porto Alegre – RS)
  • Frente Quilombola RS (Porto Alegre – RS)
  • Anarquistas contra o Racismo
  • Coletivo Cultura Viva (S√£o Paulo – SP)
  • R√°dio Comunit√°ria A Voz do Morro (Porto Alegre – RS)
  • R√°dio Comunit√°ria Aconchego (Recife – PE)
  • CCS Vila Dalva (S√£o Paulo – SP)

Para que muitos exemplares possam chegar nesses espaços precisamos da sua participação. Ao apoiar com valores a partir de 10 reais ou recomendar a campanha de financiamento coletivo do livro para suas amizades, você estará fortalecendo a distribuição de materiais que vão fortalecer efetivamente a luta cotidiana de quem faz educação.

“Zumbi dos Palmares: por uma educa√ß√£o antirracista” – para apoiar o projeto acesse: catarse.me/zumbidospalmares

O processo de publica√ß√£o de um livro exige a participa√ß√£o de muitas pessoas. Para colocar as ideias para circular, Vadala contou com a colabora√ß√£o de Monica Marques, que fez a diagrama√ß√£o e criou as belas e poderosas ilustra√ß√Ķes que comp√Ķem o livro. Tamb√©m est√£o neste projeto o carinho e aten√ß√£o de Luciana Teixeira Morais, que fez a revis√£o, e os generosos conhecimentos do bibliotec√°rio e ativista Paulo R. Freitas, que contribuiu com a ficha catalogr√°fica e aspectos formais de registro do material. Aqui na Monstro, nosso compa Da Vinci ajuda nas rotinas de m√≠dias sociais, Baderna James como assistente editorial (e impress√£o) e abobrinha como editora geral do projeto (e montagem). Com a sua participa√ß√£o, vamos debelar os limites f√≠sicos e sociais dos muros que cercam as universidades e formam verdadeiros abismos entre comunidade e conhecimento.