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A necessidade urgente de descolonizar a pesquisa social latino-americana (Entrevista com Silvia Cusicanqui)

Cuestiones de Sociolog√≠a1 reuniu quatro intelectuais e acad√™micas latino-americanos para responder a quest√Ķes sobre o √Ęmbito da depend√™ncia intelectual e os dilemas que a teoria social latino-americana enfrenta. Silvia Rivera Cusicanqui da Bol√≠via; Jose Mauricio Domingues do Brasil; Arturo Escobar da Col√īmbia e Enrique Leff do M√©xico. Publicamos aqui a entrevista com Silvia.

Maristella: Muitos autores t√™m insistido que uma das caracter√≠sticas fundamentais da teoria social latino-americana √© a sua depend√™ncia intelectual ou epist√™mica dos conceitos e quadros te√≥ricos desenvolvidos nos pa√≠ses centrais. Alguns deram um estatuto te√≥rico a esta depend√™ncia atrav√©s do conceito de ‚Äúcolonialidade do conhecimento‚ÄĚ (Quijano, Lander). Como encara este problema? O que significa, ent√£o, pensar nas ci√™ncias sociais da Am√©rica Latina no s√©culo XXI, no quadro da modernidade avan√ßada e do atual sistema de domina√ß√£o? Existe uma perspectiva latino-americana para pensar os problemas atuais a partir de uma perspectiva da teoria social?

Silvia: Essa formula√ß√£o n√£o √© nada nova, e se por ‚Äúestatuto te√≥rico‚ÄĚ se refere √† instala√ß√£o desta ideia nos centros acad√™micos hegem√īnicos, poderia te dizer que se trata de uma academia muito sem mem√≥ria. Em v√°rios territ√≥rios da Am√©rica Latina, e tamb√©m nos Andes bolivianos, a cr√≠tica √† coloniza√ß√£o mental das elites tem uma longa hist√≥ria. No nosso caso, com Rossana Barrag√°n tentamos uma s√≠ntese desta genealogia no livro que publicamos em La Paz sobre os estudos da subalternidade na √ćndia.2 Na apresenta√ß√£o do texto entrela√ßamos a nossa leitura do grupo Estudos Subalternos com uma reflex√£o sobre as contribui√ß√Ķes da historiografia social argentina, a etno-hist√≥ria e antropologia peruanas, e a contribui√ß√£o vital mexicana e africana (1997) para a produ√ß√£o social e historiogr√°fica boliviana dos anos 80 e 90.

Recentemente, tracei esta genealogia pr√≥pria at√© o in√≠cio do per√≠odo colonial na obra do escritor Chinchaysuyu Waman Puma (Rivera, 2015). Creio que o seu trabalho, atrav√©s da montagem da imagem-texto, √© um ensaio visual te√≥rico. Em outras palavras, Waman Puma comp√Ķe uma sintaxe para expor a sua teoria de dom√≠nio colonial, tanto como uma descri√ß√£o etnograficamente densa como uma cr√≠tica te√≥rica irrefut√°vel da ilegitimidade desse sistema e das suas fal√°cias.

Gostaria de apresentar brevemente um exemplo que pertence ao horizonte liberal do colonialismo (1870‚Äď1920). Um livro de Franz Tamayo (1879‚Äď1956) aborda de forma autocr√≠tica a mesti√ßagem boliviana como uma s√≠ndrome de cruzamento psicol√≥gico, que ele chama bovarysmo, fazendo alus√£o ao romance de Flaubert, Madame Bovary. Esta no√ß√£o me servir√° de met√°fora para compreender o bloqueio que nos impede de sermos memor√°veis com a nossa pr√≥pria heran√ßa intelectual, uma vez que √© paradoxal e lament√°vel que tenhamos de legitimar as nossas pr√≥prias ideias recorrendo a autores que tornaram os assuntos do colonialismo em moda, ignorando ou menosprezando obras te√≥ricas anteriores, que, embora n√£o utilizassem as mesmas palavras, interpretaram e questionaram a experi√™ncia do colonialismo intelectual com profundidade e precis√£o. Em Creaci√≥n de la pedagog√≠a nacional3 , a autora chamou de bovarystas aos “intelectuais de gabinete” que trouxeram programas educacionais franceses para instalar e imitar no pa√≠s uma pedagogia elitista e moderna apenas na apar√™ncia. Do seu lugar de poeta de prest√≠gio (embora obscuro e mal compreendido), o seu rigor argumentativo e o seu gesto controverso provocaram um questionamento radical das pr√°ticas e estilos de ser daquela intelligentsia crioula4 que o rodeava, admirava e desprezava.

Ao contr√°rio do que acontece hoje, quando tudo √© escrito e falado, e os c√≠rculos hegem√īnicos dos alfabetizados criam satrapias5 pol√≠ticas (o parlamento, o poder judicial) ou espet√°culos midi√°ticos para nos enganar; no tempo de Franz Tamayo o foco era uma cultura oral gestual que se traduzia em c√≥digos corporais n√£o ditos mas socialmente intelig√≠veis: c√≥digos de comunica√ß√£o que tamb√©m estruturaram hierarquias e desprezos dissimulados. Tamayo n√£o contesta o que os seus contempor√Ęneos escreveram: considerou-o uma aglomera√ß√£o vulgar de cita√ß√Ķes de autores europeus, nem sequer foram bem traduzidas. Mas n√£o foi por ter rejeitado a heran√ßa da Europa ‚Äď a sua poesia em formato grego √© testemunho disso ‚Äď mas por ter reivindicado a um gesto mais aut√īnomo e inteligente em rela√ß√£o a ela; como faria Veena Das6 um s√©culo mais tarde. Tamayo foi tamb√©m inspirado por Nietzsche e pelo vitalismo alem√£o do seu tempo, bem como por uma vasta biblioteca filos√≥fica e liter√°ria francesa, o que de forma alguma prejudica a sua abordagem das realidades multi√©tnicas (como dir√≠amos hoje) do seu ambiente. Foi o seu gesto corporal e o seu olhar, assim como o seu conhecimento reflexivo do Aymara, que o diferenciou dos seus contempor√Ęneos.

O que Tamayo rejeita não são as ideias e princípios básicos da episteme europeia, mas a forma como são adotados em países como o nosso: no boca a boca, de uma forma submissa e reverencial. A sua análise, pelo contrário, baseia-se no escrutínio da alma do mestiço que realmente existe no seu espaço/tempo, como um ser esquizofrênico, dividido e bipolar, incapaz de criar uma nação própria ou de habitar um território próprio. Este diagnóstico é vital em Tamayo e lança as bases para fazer do double bind7 mestiço um poder criativo, em vez de aprofundar o binarismo e com ele a disjunção colonial que nos impede de sermos nós próprios.

A genealogia que estou tentando tra√ßar do colonialismo na cultura liter√°ria boliviana est√°, pela mesma raz√£o, ligada √†s urg√™ncias do presente. Qu√£o pertinente √© Tamayo lido desde o aqui e o agora. Ele define o bovarysmo como um estado de ‚Äúinsatisfa√ß√£o inovadora‚ÄĚ que se move num ‚Äúcontexto de repress√£o e conven√ß√£o social‚ÄĚ. N√£o √© isso que est√° acontecendo com os recentes esc√Ęndalos envolvendo Evo Morales8 , que a imprensa internacional est√° ‚Äúapimentando‚ÄĚ √† sua maneira? N√£o √© a sociedade boliviana descarregando a sua pr√≥pria culpa e dor familiar, privada e at√© inconsciente, fazendo da vida de Evo Morales uma causa de diatribe moral e sexual? Faz, mas n√£o percebe que o primeiro a ser julgado e apontado deveria ser o √≠ndio dentro de n√≥s.

Fausto Reinaga, nos anos 1960-1990, elaborou sobre as cr√≠ticas √† ‚Äúintelligentsia da cholaje boliviana‚ÄĚ, um agudo raio-x do colonialismo intelectual na Bol√≠via, o que lhe valeu o estigma de ser um personagem intrat√°vel e ultrarradical. N√£o √© um fato menor que tenha sido Reinaga ‚Äď e n√£o Sartre ou Balandier ‚Äď quem introduziu a obra de Frantz Fanon e outros autores da descoloniza√ß√£o africana no debate pol√≠tico boliviano dos anos 70. Com honrosas exce√ß√Ķes, os autores agora ‚Äúdescoloniais/decoloniais‚ÄĚ ou ‚Äúp√≥s-coloniais‚ÄĚ n√£o conseguem escrutinar o ethos do intelectual colonizado t√£o profundamente como Reinaga, e isto revela-se nos pr√≥prios caminhos que temos vindo a seguir para compreender os processos de liberta√ß√£o da √ćndia e as lutas de descoloniza√ß√£o no nosso continente.

Maristella: O que significa, então, pensar nas ciências sociais da América Latina no século XXI, no quadro da modernidade avançada e do atual sistema de dominação?

Silvia: Creio que outra ci√™ncia social deve ser feita, uma ci√™ncia que n√£o divorcie o c√©rebro do corpo, a √©tica da pol√≠tica, o fazer de pensar. A ci√™ncia social realmente existente n√£o difere muito daquela que Tamayo criticou. E as obras de Reinaga abundam em conceitos/met√°foras em cuja bricolagem vislumbro outro tipo de teoria sobre o colonialismo intelectual na Am√©rica Latina e sobre o colonialismo em geral. Por outro lado, a modernidade que Tamayo experimentou n√£o √© muito diferente da de hoje: continua a ser uma estrutura de pilhagem e coloniza√ß√£o mental. Com um fator agravante: nas primeiras d√©cadas do s√©culo XX havia muito mais pessoas urbanas, mesti√ßas e de elite em La Paz, que falavam Aymara perfeitamente, enquanto hoje a dimens√£o simb√≥lica do √≠ndio se tornou pigmentada e baseada em simulacros, o que nos mostra que estamos perdendo a batalha lingu√≠stica. No que diz respeito √† coloniza√ß√£o mental, as ci√™ncias sociais ‚Äď junto a v√°rias outras ‚Äď deveriam concentrar-se na cria√ß√£o de ferramentas conceituais, t√©cnicas e materiais para resistir √† pilhagem tanto de recursos materiais como de pessoas (m√£os, c√©rebros) ou, pelo menos, para nos ajudar a sobreviver a ela.

Para al√©m da pilhagem, esta modernidade imposta baseia-se na cultura do direito. A ci√™ncia social hegem√īnica tem de lidar com um fosso muito profundo entre a lei e a sua pr√°tica, entre a teoria e a viola√ß√£o da teoria. Colocar-se estritamente num dos polos deste bin√°rio √© uma atitude de suic√≠dio coletivo, que √© transferida para todo o pensamento p√ļblico. Face a este estado de confus√£o, o que a ci√™ncia social deveria estar fazendo era revolucionar a episteme. Criar um campo de jogo entre o patrim√īnio europeu e o nosso pr√≥prio patrim√īnio, no qual possamos, com autonomia, recriar um pensamento e um gesto capaz de ultrapassar o ‚Äúdouble bind‚ÄĚ ou a esquizofrenia colonial de que Tamayo falou. E isto deve ser feito por qualquer meio, n√£o s√≥ nas ci√™ncias sociais mas tamb√©m na matem√°tica, agronomia, engenharia e na multiplicidade de disciplinas que s√£o necess√°rias para o presente e agora da humanidade e do planeta, n√£o s√≥ da ci√™ncia.

Acima de tudo, a nova ci√™ncia social deveria abandonar a camisa de for√ßa da sociedade, deixar de se limitar √†s coisas humanas, rela√ß√Ķes e conflitos sociais, e tornar-se mais uma das ci√™ncias da vida. √Č por isso que me sinto muito insatisfeita com as ci√™ncias sociais existentes, considero-as como satrapias. Esclare√ßo que tenho o luxo de dizer isto porque agora estou livre da universidade, eu me aposentei e com v√°rias amigas e colegas criamos um espa√ßo9 no qual patrocinamos um ‚Äúcurso livre‚ÄĚ no Ver√£o e no Inverno, entre muitas outras atividades. A gera√ß√£o mais jovem de intelectuais e acad√™micos que trabalham na universidade tem de lidar com coisas mais danosas e vastas, como as revistas indexadas ‚Äď que tive a sorte de n√£o conhecer ‚Äď ou a excessiva carga administrativa imposta √†s universidades pelo neoliberalismo.

Mas entrar e sair da academia n√£o √© o mesmo que dizer entrar e sair da modernidade. O que entendo como o principal desafio √© ser autenticamente moderno e, ao mesmo tempo, conectar com o mais antigo, para que, a partir desta contradi√ß√£o ou anacronismo, possamos conspirar ‚Äď dentro e fora da universidade ‚Äď uma esfera p√ļblica inclusiva, democr√°tica e intercultural (para dizer em termos convencionais). Para mim √© central reconhecer que a teoria n√£o √© suficiente, as ci√™ncias sociais n√£o s√£o suficientes, a universidade e a academia n√£o s√£o suficientes para compreender o mundo em que vivemos hoje. E acredito que, ao longo de Abya Yala, este processo de ‚Äúentrar e sair da academia‚ÄĚ est√° permitindo a renova√ß√£o do pensamento e a sua melhor articula√ß√£o com as pr√°ticas comunit√°rias, populares e coletivas. Na fronteira entre o mundo universit√°rio e o seu exterior, iniciativas como a que acabo de descrever est√£o proliferando, e eu as vejo em v√°rios pa√≠ses do nosso continente.

Maristella: Existe uma perspectiva latino-americana para pensar nos problemas atuais a partir da teoria social?

Silvia: N√£o. Pelo menos n√£o dentro desse ponto, como parece estar definido na sua primeira pergunta. Uma teoria/pr√°tica social descolonizante √© um processo cont√≠nuo, mas a sua verbaliza√ß√£o ainda tem de ser constru√≠da; ainda est√° a gaguejar e dispersa. N√£o √© sequer claro qual ser√° o formato deste discurso, num contexto de prolifera√ß√£o e democratiza√ß√£o das comunica√ß√Ķes por sat√©lite. Creio que o que √© feito nas redes, ou no teatro, ou na arte latino-americana, √© muito mais sens√≠vel do que a universidade ou academia paraestatal, em termos conceituais, face √†s realidades multifacetadas do espa√ßo social em que vivemos.

Novos espa√ßos para a produ√ß√£o de teoria/pr√°tica social surgiram tamb√©m: espa√ßos marginais e fronteiri√ßos, mas, ao mesmo tempo, proliferando. Iniciativas de rua, lutas contra a impunidade, plataformas em torno dos direitos sexuais e uma diversidade de iniciativas pr√°ticas em defesa do meio ambiente constituem cen√°rios ideais para uma ‚Äúpesquisa atuante‚ÄĚ ou ‚Äúpesquisa militante‚ÄĚ para al√©m da utilidade, para as comunidades e organiza√ß√Ķes de base. Refiro-me tamb√©m a intelectuais ‚Äď tais como Silvia Federici, Rita Segato, Margara Millan, Veronica Gago, Suely Rolnik e a mim mesma ‚Äď que dialogam em v√°rios n√≠veis de abstra√ß√£o com intelectuais de base nos seus respectivos espa√ßos ou pa√≠ses. Todas estas redes s√£o a coisa mais pr√≥xima de uma ‚Äúecologia do conhecimento‚ÄĚ que tenho podido observar. Mas com um adendo: √© tamb√©m ‚Äúecologia de sabores‚ÄĚ, e refiro-me √†s redes de autonomia alimentar, projetos ambientais, etc., que pensam os problemas n√£o s√≥ atrav√©s da pesquisa acad√™mica e da publica√ß√£o dos seus trabalhos, mas tamb√©m atrav√©s da participa√ß√£o intensa em feiras, espa√ßos alimentares conscientes, cooperativas alimentares e muitas outras atividades.

N√£o tenho acesso suficiente a tudo o que se passa nas universidades e centros de pesquisa de v√°rios pa√≠ses do continente para poder ponderar os avan√ßos te√≥ricos que estes novos fen√īmenos trouxeram, mas posso dizer a voc√™s que nos √ļltimos anos li com maior interesse do que antes os debates latino-americanos nas ci√™ncias sociais e humanas, e fico feliz com o fato de muitos deles estarem a partir de uma tangente ou descartando abertamente o antropocentrismo dominante ‚Äď e o seu descendente, o eurocentrismo.

Por Maristella Svampa
Publicado em Iberoamérica Social: Revista-red de estudios sociales.
Tradução de Fernando Rios
Revis√£o e versionamento: Baderna James


  1. Nota da edição: CUSICANQUI, Rivera. Domingues; Escobar, y Leff, (2016). Debate sobre el colonialismo intelectual y los dilemas de la teoría social latinoamericana. Cuestiones de Sociología, v. 14, p. e009. []
  2. Nota da edi√ß√£o: RIVERA CUSICANQUI, Silvia; BARRAG√ĀN, Rossana. Debates Post Coloniales: Una introducci√≥n a los estudios de la subalternidad. Historias, SEPHIS y Aruwiyiri, La Paz, 1997. []
  3. Nota da edição: TAMAYO, Franz. Creación de la pedagogía nacional. Linkgua, 2019. []
  4. Nota da edição: Por intelligentsia crioula, se compreende uma vanguarda intelectual crioula []
  5. Nota da edi√ß√£o: Pessoa que sabe governar ou mandar com ast√ļcia e intelig√™ncia, geralmente abusando de seu poder. []
  6. Nota da edição: VEENA DAS é professora da cadeira Krieger-Eisenhower de antropologia, professora de humanidades da Johns Hopkins University e membro fundador do Institute of Socio-Economic Research in Development and Democracy. Entre seus livros, está Violence and Subjectivity [Violência e Subjetividade], que coeditou com Arthur Kleinman, Mamphela Ramphele e Pamela Reynolds. []
  7. Nota da edição: Duplo vínculo, do inglês double bind, é um dilema da comunicação onde indivíduo (ou grupo) recebe duas ou mais mensagens conflitantes, onde uma nega a outra. Isso cria uma situação na qual uma resposta bem-sucedida a uma mensagem resulta em uma falha na resposta à outra (e vice-versa), de modo que a pessoa estará automaticamente errada, independentemente da resposta. O duplo vínculo ocorre quando a pessoa não consegue enfrentar o dilema inerente e, portanto, não pode resolvê-lo nem sair da situação. A teoria do duplo vínculo foi descrita pela primeira vez por Gregory Bateson e seus colegas, na década de 1950. https://pt.wikipedia.org/wiki/Duplo_v%C3%ADnculo | A alegoria do cavalo no hospital também pode ser utilizada como analogia ao double bind. []
  8. Nota da edi√ß√£o: Entrevista realizada no ano de 2017. Na ocasi√£o (al√©m de outras situa√ß√Ķes) Evo conseguiu a libera√ß√£o do Tribunal Constitucional para disputar a reelei√ß√£o indefinidamente. A corte do pa√≠s determinou em novembro de 2017 que o limite de dois mandatos presidenciais era ‚Äúuma viola√ß√£o dos direitos humanos‚ÄĚ. A oposi√ß√£o acusou o tribunal de passar por cima do resultado do referendo. []
  9. El Tambo Colectivx Ch’ixi, ciudad de La Paz, Bolivia. []
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A radical pós-vida de Frantz Fanon

Franz Fanon

Um document√°rio que retoma as ideias de Frantz Fanon do passado e as coloca no caminho de como suas ideias est√£o ressoando com os jovens de hoje ao redor do planeta.

Quando Frantz Fanon estava nos √ļltimos est√°gios da leucemia, aos 36 anos, ele foi levado para um hospital em Bethesda, Maryland, nos Estados Unidos, para uma cirurgia. Seu filho de 5 anos, Olivier, andando por l√° e vendo a chegada de sangue para transfus√£o, vendo as bolsas de sangue, temeu que seu pai houvesse sido cortado em peda√ßos. O pequeno Olivier mais tarde encontrou flamulando uma bandeira da Arg√©lia em uma rua desde a brutal e recorrente guerra Franco-Argelina, na qual ambos seus pais estiveram profundamente engajados. Esse era, at√© ent√£o, seu √ļnico entendimento de viol√™ncia e sangue no mundo.

Eu me recordei desta hist√≥ria de partir o cora√ß√£o, inclu√≠da na biografia de Fanon feita por David Macey, durante a triagem do filme de Hassene Mezine, Fanon Hier, Aujourd‚Äôhui (Fanon: Ontem, hoje), com a participa√ß√£o de Olivier Fanon, agora adulto, lendo trechos do trabalho do pai. Entrevistas com ele e uma nota particularmente melanc√≥lica para o belamente composto sum√°rio da vida de Fanon comp√Ķe a por√ß√£o ‚Äėontem‚Äô da primeira metade do filme. ‚ÄúEu estava moldado em uma cena da Guerra da Arg√©lia‚ÄĚ. Olivier relata como foi viver marginalmente devido a amea√ßas constantes √† vida de seu pai.

Mezine encerra a hist√≥ria de Fanon ‚Äď a vida vivida desviantemente por um curto, en√©rgico e explosivo tempo ‚Äď entre seu come√ßo como um soldado lutando contra o nazismo aos 18 anos na II Guerra Mundial, at√© sua ‚Äú√ļltima luta contra o colonialismo‚ÄĚ. Aqui, o foco √© nos dias em que Fanon esteve na Arg√©lia, come√ßando com seu posto em Blida, onde ele foi apontado como o m√©dico-chefe no hospital psiqui√°trico. Pegando a Estrada da recente publica√ß√£o de Aliena√ß√£o e Liberdade: Frantz Fanon, na qual s√£o recuperados e traduzidos a maioria de seus escritos psiqui√°tricos, o filme tamb√©m se atenta ao trabalho psiqui√°trico de Fanon no centro de seu pensamento anticolonial. Foi em Blida que ele estava disposto a tentar novas abordagens, m√©todos progressistas em um lugar e momento em que o colonialismo e o tratamento racista dos pacientes norte-africanos havia se tornado regra.

Fanon foi estagi√°rio do Dr. Francois Tosquelles, que havia levantado a quest√£o paradigm√°tica, ‚ÄúComo voc√™ pode tratar pacientes se a institui√ß√£o em si est√° doente?‚ÄĚ e havia inventado a psiquiatria institucional. Levando estas ideias para mais longe, Fanon reorganizou completamente as atividades e tratamentos no hospital, incluindo arte terapia, m√ļsica, sess√Ķes de conta√ß√£o de hist√≥ria, e at√© mesmo locais para arremessos e futebol. O filme alterna entre imagens antigas e novas do hospital em Blida, movendo de fotos amea√ßadores de correntes, algemas e cintos para imagens de pessoas relaxando no caf√© do hospital com o porta-retrato de Fanon pendurado em destaque na parede, evid√™ncia da longa perman√™ncia das mudan√ßas estruturais que fez ali.

O filme toma o olhar por meio de Fanon no tempo em que era revolucion√°rio na luta da Arg√©lia at√© lentes √≠ntimas e pessoais ‚Äď hist√≥rias de amigos com quem se reunia nas refei√ß√Ķes e tinha longas e agitadas discuss√Ķes sobre a guerra; Fanon tocando guitarra e cantando nas festas de fim de ano, Fanon caminhando pelo seu quarto vazio, sem mob√≠lias, no qual ele ditou seu livro todo para sua assistente Marie-Jean Manuellan; Fanon empurrando o pequeno Olivier em seu triciclo. Todos estes fragmentos de mem√≥ria permitiram que o p√ļblico acessasse o soci√°vel, agrad√°vel e vibrante Fanon vivo ‚Äď sendo sempre algu√©m com a comunidade, e que tinha energias ilimitadas e ideias sobre a luta colonial e as injusti√ßas em todo lugar.

Frantz Fanon brincando com criança

A inova√ß√£o trazida por este document√°rio √© simples: um curto retrato da companheira de Fanon em vida e amor, Josie. Resumido em um amor revolucion√°rio, ‚ÄúArg√©lia serviu como catalisador para aproximar Fanon e minha m√£e‚ÄĚ, explica Olivier, ‚ÄúEle estava l√° nos campos de batalha, nas fronteiras‚ÄĚ, acrescenta. Sem d√ļvida, Fanon, Josie e a Arg√©lia eram indissoci√°veis.

Enquanto Josie Fanon foi deixada de lado pelos livros de hist√≥ria, esta curta homenagem faz o trabalho necess√°rio de incitar e relembrar os especialistas em Fanon a avaliar a extens√£o em que a revolu√ß√£o √© continuamente enquadrada como masculina, com as mulheres apenas tratadas como acess√≥rios tempor√°rios para grandes projetos. Josie foi uma figura respeitada e amada que continuou o seu trabalho como jornalista na Arg√©lia e foi uma forte aliada do movimento anti-apartheid na √Āfrica do Sul, permanecendo essencialmente sem medo e engajada nas pol√≠ticas at√© sua morte em 1989.

Ap√≥s realizar muitas novas intera√ß√Ķes na biografia de Fanon, a sess√£o ‚Äúhoje‚ÄĚ mostra-se o ponto crucial do document√°rio. Ela cont√©m a longa e robusta tese: a ideia de que o trabalho de Fanon tem sido transformador e influente, e que indubitavelmente possui radicalidade ap√≥s sua vida.

Qual √©, com tudo isso, a relev√Ęncia de Fanon hoje? Diferente de Che Guevara, Fanon n√£o se tornou um √≠cone de destaque. N√£o existem camisetas, broches, sacolas nas quais ele aparece, e isso √© simplesmente porque as ideias de Fanon n√£o s√£o facilmente consumidas, nem servem para curtos e concisos lemas. At√© como movimento de alerta para o direito global que agora cria ra√≠zes, que tamb√©m tem ferocidades beligerantes e ideologia de resist√™ncia decolonial.

O document√°rio demonstra que Fanon tem muito o que oferecer para a juventude de hoje, que √© privada de seus direitos pelas pol√≠ticas econ√īmicas neoliberais, alimentando o racismo pernicioso e profundamente radicalizado justamente devido √† ampla disponibilidade online de uma lista de injusti√ßas, desigualdades e corrup√ß√£o no mundo. ‚ÄúMis√©ria √© o √ļnico destino prometido para centenas de milh√Ķes de humanos‚ÄĚ, a narradora Marie Tsakala estoicamente declara.

A jornada do filme come√ßa na Martinica, local de nascimento de Fanon (onde o document√°rio exibe a audi√™ncia entusiasmada em um audit√≥rio massivamente lotado). Mezine estava surpreso em saber que o trabalho de Fanon era pouco conhecido na Martinica. Ademias, tal recep√ß√£o ansiosa talvez evidenciasse que ali havia um desejo de olhar para al√©m dos erros de estere√≥tipo de Fanon como um ‚Äúap√≥stolo da viol√™ncia‚ÄĚ, e a fome real de retomar suas ideias, que talvez possam oferecer respostas para problemas do presente.

Em Portugal, o rapper e ativista Fl√†vio Almada ‚ÄúLBC Soldjah‚ÄĚ falou o quanto havia sido transformado por Pele Negra, M√°scaras Brancas. O l√≠der em ‚ÄúPlataforma Gueto‚ÄĚ, um movimento social negro que inventa m√©todos para educa√ß√£o popular e constru√ß√£o comunit√°ria, Almada reclama do racismo institucional e da viol√™ncia policial contra a popula√ß√£o negra arraigados em Portugal. Portanto, as no√ß√Ķes fanonianas de que ‚Äún√≥s nos revoltamos porque n√£o podemos respirar‚ÄĚ ressoam como urgentes. As ideias de Fanon s√£o importantes porque ele ilumina o que n√£o √© culpa dos povos marginalizados, e que n√£o s√£o seus destinos, explica Almada, mas o racismo e a viol√™ncia s√£o ideologicamente organizados, e podem ser decolonizados, erradicados e superados.

Viajando para a Fran√ßa, √Āfrica do Sul e Nig√©ria, o document√°rio pretendeu seguir a relev√Ęncia de Fanon para a gera√ß√£o mais jovem intensamente consciente do fato de que o imperialismo continua inabal√°vel em um rol de criativas e enganosas muta√ß√Ķes. ‚ÄúN√≥s n√£o somos os ‚Äėcondenados da terra‚Äô falados por Fanon,‚ÄĚ explica Houria Bouteldja ativista franco-argelino. ‚ÄúN√≥s somos os sujeitos p√≥s-coloniais da Europa; n√≥s somos o Sul no Norte.‚ÄĚ

imagem do Espaço Frantz Fanon

O pr√≥prio Hassane Mezine √© muito o produto dessas ideias, e escolheu fazer este document√°rios por causa de sua ‚Äúidentidade argelina‚ÄĚ, com a qual tinha conflitos enquanto crescia na Fran√ßa. Ele explica que √© ‚Äúconfrontado com os mitos do republicanismo franc√™s sobre justi√ßa e igualdade, que n√£o s√£o realmente aplicados quando voc√™ nasceu fora, em uma col√īnia hist√≥rica francesa.‚ÄĚ Para Bouteldja, assim como para Mezine, Fanon esclarece o processo como um colonialismo interno, e seus escritos oferecem estrat√©gias para se decolonizar destas estruturas sufocantes.

Observa√ß√Ķes excepcionalmente fortes v√™m do jovem ativista Ibrahima Diori em Niamey, Nig√©ria, que disse que as ideias fanonianas se tornaram particularmente relevantes em seu pa√≠s pois ele tem um papel central na exacerba√ß√£o do que chamam de ‚Äúcrise migrat√≥ria‚ÄĚ. As leis de divis√£o colonial entre a √Āfrica Negra, a √Āfrica Branca e o Norte da √Āfrica evitam liberdades internas de movimenta√ß√£o; Como os chefes de Estado das na√ß√Ķes norte-africanas se tornaram agentes das agendas europeias, fronteiras foram estendidas e se proliferaram ao longo da √Āfrica, se tornando ‚Äúum jogo de isolamento institu√≠do pelas pol√≠ticas anti-migrat√≥rias europeias.” Apesar das estat√≠sticas que provam repetitivamente que a maioria dos migrantes n√£o deseja entrar na Europa, mas pretende viajar livremente pela √Āfrica, este discurso √© promovido na m√≠dia como uma justifica√ß√£o da draconiana e repressiva das pol√≠ticas de fronteira.

Diori pleiteia a simplifica√ß√£o das rela√ß√Ķes entre os humanos, e Fanon oferece a ele uma ponte para os ideais de solidariedade e unidade. Salima Ghezali, jornalista e ativista, faz uma reflex√£o similar em Argel, Arg√©lia, e fala em um discurso racista interno que tem sido combatido pelo grupo ao qual Fanon referiu-se como a corrupta ‚Äúburguesia nacional‚ÄĚ no contexto dos refugiados e migrantes oriundos da √Āfrica.

Como a jornada de Fanon continua, parece claro que mulheres s√£o a vanguarda dos movimentos de massa contempor√Ęneos contra o racismo, gan√Ęncia corporativa e colonialismo estrutural. Tal quadro fica ainda mais evidente quando Mexine termina com uma sess√£o na Palestina com Samah Jabr, que √© uma das 22 pessoas exercendo a psiquiatria e a √ļnica mulher na profiss√£o na Costa Oeste. Profundamente influenciada pelos escritos de Fanon, Jabr explica que ‚Äúo trauma descrito nos manuais ocidentais n√£o parece similar ao trauma que temos na Palestina.‚ÄĚ Ela compara um grupo oprimido com uma sobrevivente de estupro que se culpa pelo estupro e imagina que ela inicialmente mereceu isso. Um grupo oprimido como os Palestinos tem que superar seu imenso complexo de inferioridade, e atuam inspirados pelo potencial terap√™utico das teorias de Fanon, acrescenta Jabr. Em um movimento de poder simb√≥lico, Mezine projeta as palavras de Fanon no rosto radiante de Ahed Tamimi, uma garota adolescente que j√° foi presa por seu confronto com os soldados israelenses, incitando manifesta√ß√Ķes e protestos globais.

De fato, Mezine inaugura Fanon na gera√ß√£o do s√©culo XXI que, talvez, nunca conheceram o colonialismo propriamente dito, mas tem herdado todas as suas dur√°veis brutalidades. Almada de Portugal insiste que ‚Äúativistas, rappers e acad√™micos devem ler Fanon, mas n√£o o transformar em algo da moda. Fanon √© para a liberta√ß√£o.‚ÄĚ Em outro lugar, as palavras hipnotizantes de Cornel West para a c√Ęmera permanecem conosco: ‚ÄúMuitos do mundo pr√©-fanoniano persiste. Mas n√≥s vamos conversar com Frantz Fanon porque muitos de n√≥s decidimos que queremos ser fi√©is at√© a morte as verdades ditas por eles, aos seus testemunhos…‚ÄĚ

Como o esfor√ßo melanc√≥lico de Yazid Fentazi¬īs oud, que nos acompanhou por todo o document√°rio, agora deixa aos m√ļsicos Neyssatou da Tun√≠sia que bravamente imersos por ‚ÄúWar‚ÄĚ de Bob Marley, h√° um senso de j√ļbilo. A miss√£o talvez ainda n√£o esteja complete, mas a saga foi iniciada e o trabalho da decoloniza√ß√£o libert√°ria est√° encampada seriamente por todo o planeta.

Por Bhakti Shringarpure em Africa Is a Country.
Gentilmente traduzido por Ste.


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Participe do financiamento coletivo do livro “Zumbi dos Palmares: por uma educa√ß√£o antirracista”, de Walter Vadala

zumbi dos palmares: por uma educação antirracista

Em “Zumbi dos Palmares: por uma educa√ß√£o antirracista“, Walter Vadala articula as possibilidades de encontros e di√°logos que emergem a partir da hist√≥ria de Zumbi para que educadoras e educadores possam compreender e combater o racismo utilizando-se da educa√ß√£o como mediadora e fazendo da escola mais que um ambiente de conhecimento te√≥rico, mas um ambiente de transforma√ß√£o social.

A Monstro dos Mares tem entre seus princ√≠pios a tarefa de disponibilizar exemplares impressos a bibliotecas comunit√°rias, coletivos, movimentos e centros sociais que, entre suas pr√°ticas, promovem uma educa√ß√£o libert√°ria, antirracista e que questionam o padr√£o euroc√™ntrico dentro e fora das salas de aula. A fun√ß√£o de nosso bonde editorial √© fazer do livro uma ferramenta de luta contra o capitalismo, a colonialidade e o patriarcado em todas as suas express√Ķes. Para a publica√ß√£o de “Zumbi dos Palmares: por uma educa√ß√£o antirracista“, vamos fortalecer as seguintes coletividades:

  • Biblioteca comunit√°ria de Parelheiros (S√£o Paulo – SP)
  • Biblioteca Comunit√°ria Livro Livre Curi√≥ (Fortaleza – CE)
  • Biblioteca Libert√°ria Maxwell Ferreira (Bel√©m – PA)
  • CIEJA Campo Limpo (S√£o Paulo – SP)
  • Quilombo das Artes (Porto Alegre – RS)
  • Frente Quilombola RS (Porto Alegre – RS)
  • Anarquistas contra o Racismo
  • Coletivo Cultura Viva (S√£o Paulo – SP)
  • R√°dio Comunit√°ria A Voz do Morro (Porto Alegre – RS)
  • R√°dio Comunit√°ria Aconchego (Recife – PE)
  • CCS Vila Dalva (S√£o Paulo – SP)

Para que muitos exemplares possam chegar nesses espaços precisamos da sua participação. Ao apoiar com valores a partir de 10 reais ou recomendar a campanha de financiamento coletivo do livro para suas amizades, você estará fortalecendo a distribuição de materiais que vão fortalecer efetivamente a luta cotidiana de quem faz educação.

“Zumbi dos Palmares: por uma educa√ß√£o antirracista” – para apoiar o projeto acesse: catarse.me/zumbidospalmares

O processo de publica√ß√£o de um livro exige a participa√ß√£o de muitas pessoas. Para colocar as ideias para circular, Vadala contou com a colabora√ß√£o de Monica Marques, que fez a diagrama√ß√£o e criou as belas e poderosas ilustra√ß√Ķes que comp√Ķem o livro. Tamb√©m est√£o neste projeto o carinho e aten√ß√£o de Luciana Teixeira Morais, que fez a revis√£o, e os generosos conhecimentos do bibliotec√°rio e ativista Paulo R. Freitas, que contribuiu com a ficha catalogr√°fica e aspectos formais de registro do material. Aqui na Monstro, nosso compa Da Vinci ajuda nas rotinas de m√≠dias sociais, Baderna James como assistente editorial (e impress√£o) e abobrinha como editora geral do projeto (e montagem). Com a sua participa√ß√£o, vamos debelar os limites f√≠sicos e sociais dos muros que cercam as universidades e formam verdadeiros abismos entre comunidade e conhecimento.