Mate o Policial no seu Bolso

Cultura de segurança e segurança operacional efetivas previnem que forças repressivas descubram sobre nossas atividades criminais específicas, mas também nossas vidas, relacionamentos, padrões de movimento, e tantos outros. Esse conhecimento é uma grande vantagem na hora de chegar a suspeitos e realizar vigilância direcionada. Esse artigo traz algumas estratégias para matar o policial no seu bolso.

A localização de seu telefone é rastreada a todo o tempo, e esses dados são capturados por empresas, permitindo à polícia contornar a necessidade de conseguir um mandato. Os identificadores do hardware e informações de assinatura são registrados por toda e cada uma das torres com as quais seu telefone se conecta. Serviços de raqueamento como Pegasus colocam o comprometimento total de telefones ao alcance mesmo de agências repressivas locais e são “zero click”, ou seja, não dependem que você clique em um link ou abra algum arquivo para raquear seu celular. Por outro lado, após mais de 30 incêndios criminosos em uma pequena cidade na França permanecerem sem suspeitos, investigadores reclamaram que “é impossível usar registro de telefone ou veículos porque eles operam sem usar carros ou celulares!”.

Em uma recente operação repressiva contra um anarquista, a polícia rastreou em tempo real a geolocalização do celular flip do suspeito e fez uma lista de todos para quem ele ligou. É sabido que vigilância deste tipo não é incomum, e mesmo assim muitos camaradas carregam um celular com eles não importa para onde vão, ou fazem ligações não criptografadas para outros anarquistas. Nós acreditamos que ambas estas práticas deveriam ser evitadas. Não vamos facilitar tanto o trabalho da polícia ou agências de inteligência, entregando nossos círculos sociais e geolocalização para eles em uma bandeja de prata.

Se você deixa seu celular em casa, a polícia vai precisar recorrer a vigilância física para determinar seu paradeiro, algo que consome muito mais recursos e é detectável. Se você for posto sob vigilância física, o primeiro passo dos investigadores é entender seu “perfil de movimento”, e o histórico da geolocalização do seu telefone oferece um retrato detalhado de seus padrões diários.

Alguns anarquistas respondem a problemas com smartphones usando celulares flip ou telefones fixos para se comunicarem uns com os outros, mas essas não são boas soluções. Celulares flip e telefones fixos não suportam comunicação criptografada, então o Estado descobre quem está falando com quem e sobre o que. Um dos principais objetivos da vigilância direcionada é mapear os círculos sociais do alvo para identificar outros alvos. A única forma de evitar entregar estas informações para nossos inimigos é usar somente meios criptografados para comunicação com outros anarquistas, quando ela for mediada por tecnologias.

A normalização da conectividade constante dentro da sociedade dominante levou alguns anarquistas a perceberem corretamente que metadados são úteis para investigadores. Entretanto, a conclusão a que alguns chegam, de que deveríamos “nunca desligar o telefone”, nos leva na direção contrária. A lógica deles é que suas interações com tecnologia formam um padrão básico de metadados, e os momentos que se desviam desta base se tornam suspeitos se coincidem com quando certas ações acontecem, que estes metadados podem ser usados por investigadores para chegar até os suspeitos. Por mais que seja verdade, a conclusão oposta tem muito mais sentido: anarquistas deveriam minimizar a criação de padrões de metadados acessíveis e úteis a investigadores.

Nossas conexões com as infraestruturas de dominação devem permanecer opacas e imprevisíveis se pretendemos manter a habilidade de atacar o inimigo. E se reconhecimento de terreno exigido por uma ação envolver um fim de semana inteiro longe de nossos dispositivos eletrônicos? Vamos começar com o simples fato de que celulares devem ser deixados em casa durante uma ação – isso só se torna uma anomalia em um padrão se celulares te acompanham onde quer que você vá. Em uma vida normativamente “sempre conectada”, ambas mudanças de metadados se destacariam rapidamente, mas não é o caso se você se recusar a estar constantemente plugado. Para minimizar suas pegadas de metadados, você deve se acostumar a deixar o celular em casa.

Celulares colonizaram a vida cotidiana, pois as pessoas foram incutidas com a crença de que elas precisam de comunicação síncrona a todo momento. Sincronismo significa que duas ou mais partes se comunicam em tempo real, em oposição a algo assíncrono como e-mail, onde mensagens são enviadas em momentos diferentes. Essa “necessidade” foi normalizada, mas vale a pena resistir a ela dentro de espaços anarquistas. O anarquismo só pode ser anti-industrial. Precisamos aprender a viver sem as conveniências vendidas pelas empresas de telecomunicação, devemos defender (ou reavivar) nossa habilidade de viver sem estarmos conectados a Internet a todo momento, sem instruções algorítmicas em tempo real, e em a flexibilidade infinita de mudar de planos no último minuto.

Se você decidir usar um celular, para dificultar o máximo possível que um adversário o geolocalize, intercepte suas mensagens, ou o raqueie, use GrapheneOS. Se conseguirmos concordar em usar somente comunicação criptografada para nos comunicarmos com outros anarquistas, isso exclui os celulares de flip e telefones fixos. GrapheneOS é o único sistema operacional de smartphone que oferece um nível aceitável de segurança e privacidade.

Para impedir que seus movimentos sejam rastreados, trate o smartphone como uma linha fixa e deixe-o sempre em casa. Mesmo se você usa um cartão SIM comprado de forma anônima, se ele for ligado a sua identidade no futuro, a provedora do serviço pode ser retroativamente consultada por dados de geolocalização. Se você usar o telefone como estamos recomendando (como um dispositivo que só funciona com Wi-Fi, mantido a todo tempo em modo avião), ele não vai se conectar com as torres de celular. Não é o bastante apenas deixar o celular em casa quando você estiver indo para uma reunião, manifestação ou ação pois essa será a anomalia em seu padrão de comportamento e serve como indicação de que uma atividade criminal está acontecendo naquela janela de tempo.

Você pode escolher viver totalmente sem telefones, se sentir que não precisa de uma “linha fixa criptografada”. As estratégias a seguir servem para minimizar a necessidade de telefones precisarem computadores, onde comunicações síncronas são também possíveis mas mais limitadas.

Burocracia

Muitas instituições burocráticas que somos forçados a conviver, dificultam uma vida sem celulares: planos de saúde, bancos, etc. Comunicação com burocracias não precisam ser criptografadas, então você pode usar um aplicativo de Voice over Internet Protocol (VoIP). Isso te permite fazer chamadas telefônicas através da internet, sem usar torres de celular.

Qualquer aplicativo VoIP disponível em um computador é assíncrono pois ele não toca quando o computador está desligado — você precisa do recuro de correio de voz para retornar ligações perdidas. Por exemplo, um serviço como jmp.chat te dá um número VoIP, que você pode pagar com Bitcoin, e você faz chamadas usando um aplicativo XMPP — Cheogram funciona bem.

VoIP geralmente funciona para qualquer autenticação de dois fatores (2FA) que você precisar (quando um serviço exige que você recebe uma número aleatório para fazer login). Números de telefone online são outra opção.

Apesar de geralmente mais caro do que VoIP, um celular de flip ou linha fixa dedicada exclusivamente a isso também funciona bem para recepção de chamadas “burocráticas”, como as mencionadas anteriormente.

Comunicação

Não carregar um telefone para todo lugar que se vai exige uma mudança na forma que você socializa, se você já foi pego na rede. Ser intencional sobre minimizar a mediação das telas em seus relacionamentos é um objetivo valioso por si só.

Usar uma “linha fixa criptografada” para fazer telefonemas e um computador para mensagens criptografadas nos permite evitar o fluxo interminável de notificações em um dispositivo que está sempre ao nosso alcance.

Todos sairíamos ganhando se déssemos uma boa e longe olhada na monocultura de chats em grupo do Signal que foram substituídos por encontros cara a cara em algumas partes dos espaços anarquistas. Essa captura da organização de relacionamentos por celular nos trancafia numa reunião que nunca acaba e é relativamente fácil de se monitorar.

Dito isso, comunicação criptografada pode ser útil para determinar uma data e hora para um encontro, ou para projetos compartilhados através de distâncias. Veja, Encrypted Messaging for Anarchists para várias opções apropriadas para um modelo de ameaça anarquista.

Chamadas de Emergência

Um transeunte pode te oferecer o telefone dele para uma chamada de emergência, se você disser que o seu está em bateria. Para receber chamadas de emergência, se você não pode ser encontrado por nenhum dos meios descritos anteriormente , nós podemos ir até as casas uns dos outros ou organizar checagens por mensageiros criptografados previamente. Que cenários exigiriam que você estivesse disponível para receber uma chamada a qualquer momento? Se isso de fato existe na sua vida, você se organizar sem projetar aquela urgência em todas outras áreas e momentos.

Direções

Compre um mapa de papel da sua área e ande com ele. Para viagens mais longas ou quando precisar se orientar, use OpenStreetMap para anotá-los com antecedência.

Música e Podcasts

Eles ainda fazem tocadores mp3! Por um preço bem mais em conta, você pode ouvir músicas e podcasts , em um dispositivo que não tem GPS ou hardware de rádio. Entretanto, isso não significa que você não possa ser geolocalizado pro um tocador MP3 . Se ele se conectar com seu Wi-Fi, a localização aproximada de seu aparelho MP3 pode ser determinada pelo seu endereço de IP.

Apêndice: Contra o smartphone

De Fernweh (#24)

Eles está sempre com a gente, não importa onde vamos ou o que estamos fazendo. Ele nos mantém informados sobre tudo e todos: o que nossos amigos estão fazendo, quando o próximo metrô parte, e qual será o clima de amanhã. Ele toma conta de nós, nos acorda pela manhã, nos relembra de encontros importantes, e sempre nos escuta, quando vamos pra cama, quando e onde estivermos, com que nos comunicamos, quem são nossos melhores amigos, o tipo de música que escutamos, e quais são nossos hobbies. E tudo que ele pede é um pouquinho de eletricidade de vez em quando?

Quando eu faço um passeio ou pego o metrô, eu o vejo com quase todos, e ninguém consegue ficar mais do que alguns segundos sem freneticamente buscar pelo que tem no bolso: o celular vem à tona, uma mensagem é enviada, um e-mail é conferido, uma foto recebe um like. Ele é deixado de lado novamente, um peuqeno intervalo, e lá vamos nós de novo, folheando as notícias do dia e checando o que todos seus amigos estão fazendo…

É nosso companheiro quando estamos no banheiro, no trabalho ou na escola, e ele aparentemente serve ara lutar contra o tédio enquanto nós esperamos ou trabalhamos, etc. Essa talvez seja uma das razões do sucesso de todos esses dispositivos tecnológicos, que a vida real é tão absurdamente entediante e monótona que uns poucos centímetros de tela quase sempre é mais interessante do que o mundo e as pessoas a nossa volta? É como um vício (as pessoas definitivamente têm crises de abstinência…) ou ele já se tornou parte do nosso corpo? Sem ele, nós já não sabemos como nos orientar e sentimos que algo está faltando? Então não é apenas mais uma ferramenta ou brinquedo, mas uma parte de nós que também exerce um certo controle sobre nós, ao qual nos adaptamos, por exemplo, não sair de casa antes da bateria estar totalmente cheia? O smartphone é o primeiro passo em turvar a linha entre o humano e o robô?

Quando vemos oque todos tipo de tecnocrata tem profetizado (Google Glasses, implantes de chips, etc.), é quase como estivéssemos indo em direção a nos tornarmos ciborgues, pessoas com smartphones implantados que controlamos através de nossos pensamentos (até que nossos próprios pensamentos sejam controlados). Não é surpreendente que a mídia, o porta-voz da dominação, nos mostre apenas os aspectos positivos deste desenvolvimento, mas é chocante que quase ninguém questiona esta visão. É possivelmente o sonho mais louco de todo governante: ser capaz de monitorar os pensamentos e ações de todos a todo momento, e ser capaz de intervir imediatamente no caso de qualquer distúrbio. Zangões trabalhadores totalmente controlados que têm alguma diversão (virutal) como recompensa enquanto uns poucos lucram.

Com as vastas quantias de dados agora tão prontamente disponíveis para todos e qualquer um a qualquer hoje do dia, controle social e vigilância também chegaram a um novo patamar. Isso vai muito além de grampear celulares os folhear entre mensagens (como durante as revoltas de 2011 no Reino Unido). Com acesso a uma quantidade incrível de informação, agências de inteligência são capazes de definir o que é “normal”. Eles são capazes de determinar que locais são “normais” para nós, quais contatos são “normais”, etc. Em resumo, eles podem rapidamente estabelecer e estabelecer praticamente em tempo real se estamos desviando do comportamento que eles estabeleceram como “normal”. Isso dá muito poder a certas pessoas, que é usado sempre que há uma oportunidade de tomar vantagem deste poder (ou seja, vigiar pessoas). Tecnologia é parte do poder, ela vem do poder e necessita de poder. É preciso um mundo em que certas pessoas tenham muito poder para permitir a produção de algo como o smartphone. Toda tecnologia é um produto da tendência opressiva do mundo, é parte disso, e serve a ele.

No mundo de hoje, nada é neutro. Até então, tudo que foi ou tem sido desenvolvido é criado para estender o controle e fazer dinheiro. Muitas das inovações das últimas décadas (como GPS, energia nuclear, ou a internet) vem diretamente dos militares. Na maior parte do tempo esses dois aspectos estão de mãos dadas, mas o “bem-estar da humanidade” certamente não é uma motivação, especialmente quando é desenvolvido pelos militares.

Talvez se pegarmos o exemplo da arquitetura podemos ilustrar algo tão complexo quanto a tecnologia: peguemos uma prisão vazia e em desuso, oque poderia ser feito com essa estrutura se não a botar abaixo? Suas própria arquitetura, suas paredes, suas torres de vigilância, suas celas, já contém o propósito da construção: aprisionar pessoas e as destruir psicologicamente. Seria impossível para mim viver dentro de uma prisão, simplesmente porque a construção é opressiva.

É o mesmo com todas as tecnologias de hoje que nos são apresentadas como progresso e como algi que deixa a vida mais fácil. Elas são construídas com a intenção de fazer dinheiro e nos controlar, aqueles que ficam ricos coletando nossos dados e te monitorando sempre vão se beneficiar mais que você.

Se no passado dizíamos que “conhecimento é poder”, hoje deveríamos dizer que “informação é poder”. Quantos mais os governantes sabem sobre seus súditos, melhor ele pode dominá-los — nesse sentido, tecnologia como um todo é uma poderosa ferramenta de controle para prever e portanto prevenir pessoas de se reunirem para atacar o que as oprime.

Esses smartphones aparentemente precisam mais do que um pouquinho de eletricidade… Na nossa geração, que ao menos conheceu um mundo sem smartphones, ainda deve haver algumas pessoas que ainda abem do que eu estou falando, que ainda sabe o que é ter uma conversa sem estar olhando para seu telefone a cada trinta segundos, para se perder e descobrir novos lugares, ou ter uma discussão sem imediatamente consultar o Google pela resposta. Mas eu não quero voltar ao passado, até porque não seria mais possível, quanto mais a tecnologia penetra nossas vidas, mais difícil fica de destruí-la. E formos uma das últimas gerações a serem capazes de parar essa evolução de seres humanos em robôs completamente controlados?

E se em algum ponto formos incapazes de reverter essa formação? A humanidade chegou a um novo estágio tecnológico histórico. Um estágio onde é capaz de aniquilar toda vida humana (energia nuclear) ou modificá-la (manipulação genética). Esse fato reforça mais uma vez a necessidade de agirmos hoje para destruir essa sociedade. Pra isso, precisamos encontrar outras pessoas e comunicar nossas ideias.

Não é óbvio que se ao invés de conversamos uns com os outros, nos comunicarmos em mensagens de cinco sentenças ou menos, haverão efeitos de longo termo? Aparentemente não. Primeiro de tudo, o modo como pensamos influencia como falamos, e vice-versa — a forma como falamos e comunicamos influencia a forma que pensamos. Se só formos capazes de trocar mensagens curtas e resumidas, como podemos falar de outro mundo, como podemos criá-lo?

Comunicação direta entre indivíduos autônomos é a base de qualquer rebelião compartilhada, é o ponto de partida de sonhos compartilhados e lutas em comum. Sem comunicações não mediadas, a luta contra esse mundo e por liberdade é impossível.

Então, vamos nos livrar desses telefones e nos encontramos pessoalmente em uma insurgência contra este mundo! Sejamos incontroláveis!

Artigo publicado em AnarSec.

Baderna no III Seminário Anarquismo, Educação e Cultura em Curitiba

Olá, amizades.

As pessoas mais próximas costumam me chamar de Bruxo, mas eu gosto mesmo de ser chamado de Baderna, em vez do meu nome, Tiago.

Atualmente estou cursando o Bacharelado em Ciências Humanas, na modalidade EAD, pela Estácio. Tem sido uma experiência muito importante para mim, principalmente pela possibilidade de estudar de casa. Tenho dificuldades de locomoção relacionadas à obesidade mórbida e também estou em tratamento de questões de saúde mental. Para a obesidade, participo do programa de cirurgia bariátrica do Hospital da ULBRA, em Canoas, pelo SUS. Na área da saúde mental, faço acompanhamento com psiquiatra, uso de medicação e participo de grupo pedagógico no CAPS II de Cachoeira do Sul.

Nos dias 2 e 3 de dezembro de 2026 acontecerá, em Curitiba, o III Seminário Anarquismo, Educação e Cultura. Meu trabalho foi aceito para apresentação e participarei do evento com uma comunicação oral sobre o início da minha pesquisa a respeito da Monstro dos Mares, coletivo editorial do qual faço parte desde 2013.

Essa pesquisa procura refletir sobre a contribuição da Monstro dos Mares para a circulação de saberes libertários no Brasil contemporâneo e sobre a possibilidade de compreender a própria atividade editorial como uma prática anarquista no campo da cultura e da educação. Poder apresentar esse trabalho no seminário será uma oportunidade muito importante para minha formação acadêmica, para o desenvolvimento da pesquisa e para o diálogo com outras pessoas que estudam e constroem experiências relacionadas ao anarquismo, à educação e à cultura.

Para conseguir participar, no entanto, preciso arrecadar recursos para a viagem. Terei despesas com o deslocamento de Cachoeira do Sul até Porto Alegre, a viagem de Porto Alegre a Curitiba, hospedagem, alimentação e eventuais deslocamentos dentro da cidade. Também pretendo levar uma mala com livros da Monstro dos Mares para fazer circular nossas publicações durante o evento.

No momento, não tenho condições financeiras de arcar com esses custos. Por isso, estou fazendo esta vaquinha com a meta de arrecadar R$ 1.400, valor estimado para cobrir as despesas da participação no seminário.

Qualquer contribuição será muito importante para tornar essa viagem possível. Se você não puder contribuir financeiramente, compartilhar esta vaquinha também ajuda muito.

Agradeço de coração a quem puder fortalecer essa caminhada e contribuir para que eu consiga estar em Curitiba apresentando essa pesquisa.

Baderna

Link da vaquinha: https://vakinha.com.br/6384058
Para apoiar no PIX: [email protected]

Comunicado importante

Desde junho de 2013, a Monstro dos Mares se organiza como uma editora coletiva. Somos um projeto construído a muitas mãos, com tarefas distribuídas, decisões compartilhadas e aberto à colaboração das pessoas que, ao longo desses anos, somam e constroem essa história com a gente.

Nossa forma de organização nunca seguiu a lógica convencional de uma empresa. Para enfrentar exigências burocráticas e manter nossos livros circulando, eventualmente recorremos a soluções administrativas possíveis para uma iniciativa pequena, autônoma e coletiva. Fizemos isso porque, embora produzamos e comercializemos livros, nossa existência nunca esteve orientada pela lógica empresarial.

Em julho de 2024, passamos a imprimir nossos livros utilizando o sistema de impressão sob demanda (POD). Desde então, a produção e os envios vinham acontecendo normalmente, permitindo manter nosso catálogo disponível sem a necessidade de grandes tiragens e estoques.

Agora, com as mudanças decorrentes da reforma tributária, esse modelo passa a exigir uma configuração jurídica e fiscal que não conseguimos atender mantendo nossa atual forma de organização. Na prática, para continuar operando da mesma maneira, precisaríamos transformar a Monstro dos Mares em uma empresa estruturada segundo exigências que não correspondem ao modo como escolhemos existir e construir nossa atividade editorial.

Isso não está no horizonte da Monstro dos Mares.

Por essa razão, estamos reorganizando a forma de comercialização e circulação dos nossos livros. Parte do catálogo continuará disponível por meio da distribuidora Um Livro e em plataformas como Amazon e Estante Virtual. Nosso site também está sendo adequado a essa nova realidade.

Mais do que nunca, pedimos às nossas amizades, leitoras, leitores e pessoas que acompanham a editora que continuem procurando nossos livros nos espaços onde eles sempre fizeram sentido: em eventos, feiras, livrarias independentes, distros, bancas, encontros, diretamente com a gente e de mão em mão. Comprar e fazer circular livros por essas redes também é uma maneira de sustentar uma cultura editorial autônoma.

Não estamos encerrando nossas atividades. Não estamos abandonando nosso catálogo. Não estamos dando um passo atrás.

Seguiremos editando, produzindo e fazendo circular livros. Seguiremos buscando caminhos para que nossas publicações encontrem pessoas, comunidades e territórios. Se as condições burocráticas mudam, mudamos nossas estratégias, não nossos princípios.

Nossa imprensa anarquista e nossa atividade editorial não vão esmorecer.

Seguiremos em frente, fazendo e distribuindo livros enquanto os mares da anarquia tiverem piratas.

Contamos, como sempre, com a amizade, a solidariedade e a colaboração de vocês.

Editora Monstro dos Mares

Financiamento coletivo: aprendizados da Monstro dos Mares

Ao longo dos últimos anos, a Monstro dos Mares realizou mais de 15 campanhas de financiamento coletivo, entre iniciativas pontuais e recorrentes. Neste texto, reunimos alguns aprendizados desse percurso, atravessando plataformas, erros, acertos e muitas trocas.

Hoje estamos presentes em duas plataformas, Catarse e Apoia-se. Cada uma tem suas especificidades e, como sabemos, existem muitas outras plataformas por aí. O objetivo desta publicação é compartilhar um pouco da nossa experiência navegando pelas águas do financiamento coletivo.

Atualmente, lançar livros pela Monstro dos Mares só é possível por meio de financiamento coletivo pontual. Não contamos com recursos próprios para impressão, e é justamente aí que o financiamento coletivo se mostra um instrumento potente. Ele viabiliza os custos de produção, amplia a comunicação em torno do conteúdo e aproxima pessoas do cotidiano da editora. Muitas vezes, quem apoia um projeto acaba voltando em outros. Criamos vínculos, trocamos ideias por e-mail ou chat e, aos poucos, essas pessoas passam a fazer parte das atividades da editora.

Ansiedade do início ao fim

Nas campanhas pontuais, a ansiedade acompanha todo o processo. Começa na preparação, passa pela escolha da data ideal de lançamento, pela dúvida sobre a comunicação e pelas recompensas. Será que vão gostar? Será que os apoios vão chegar?

E quando não chegam, bate aquele frio na barriga. Por outro lado, há também a alegria de alcançar marcos como 20%, 50% e 80%. Nem sempre chegamos aos 100%, e tudo bem. Faz parte do processo. Afinal, estamos falando de livros anarquistas, não de revistas de RPG ou produtos de massa. Cada campanha é única e aprender com cada uma delas é essencial.

Planeje suas recompensas com cuidado

Uma história que sempre lembramos envolve recompensas. Em uma campanha, compramos 50 pendrives para enviar com o sistema operacional TAILS OS. Cerca de 30 foram enviados, e 20 ficaram guardados.

Anos depois, em uma nova campanha de tecnologia, resolvemos usar esses pendrives novamente. Deu certo até a hora de gravar. O sistema tinha passado de 4GB para 8GB, e os pendrives se tornaram inúteis. Resultado: tivemos que comprar novos, com dinheiro da campanha, o que bagunçou bastante as contas.

Moral da história: planeje bem suas recompensas e cuide das finanças do projeto com atenção.

Optar por plataformas maiores

Sabemos quais são as principais plataformas e também conhecemos seus problemas. A taxa de 13% costuma gerar desconfiança e nos faz olhar para alternativas menores. Ainda assim, as plataformas maiores têm uma vantagem importante: muitas pessoas já possuem cadastro, já apoiaram outros projetos e estão habituadas ao processo.

Outro ponto é a limitação na formatação de textos. Independentemente da plataforma, ainda há muito a melhorar. Inserir textos com boa organização, títulos e legibilidade é um desafio. Nem mesmo recursos simples como Markdown são oferecidos.

Mesmo com essas limitações, entendemos que vale arriscar em ferramentas mais consolidadas e lidar com seus problemas.

Sistemas de pagamento

Um ponto básico em qualquer financiamento coletivo é o sistema de pagamentos. Espera-se facilidade com pix, cartão e boleto, além de compensação rápida e transparente.

O ideal é que o pix apareça instantaneamente na campanha e que as transferências para a conta corrente do projeto sejam ágeis e certas. Nesse aspecto, ainda há bastante espaço para melhorias, principalmente quanto aos prazos.

Divulgação e comunicação com o público

Um ponto importante que temos aprendido é lidar com o mundo hiper conectado, onde há uma disputa feroz pela atenção das pessoas, na qual levamos desvantagem em relação a grandes empresas e influenciadores. Como fazer a pessoa lembrar de pagar o boleto? A maioria das pessoas acaba tendo a sua atenção, concentração e organização engolidas pela conjuntura que vivemos, onde o trabalho é sucateado, os mensageiros e as plataformas invadem as nossas folgas e descansos, e buscamos o alívio dopamínico no entretenimento por diversas mídias, gerando um ciclo de trabalho e distração que nos afasta de nossos prazeres, propósitos e objetivos mais genuínos.

Estamos observando as estatísticas das campanhas, e aprendendo os momentos mais assertivos de enviar lembretes aos leitores para apoiar os nossos projetos. Além do conteúdo da mensagem, temos uma preocupação com o meio, já que esses lembretes tem se dado de diversas formas: por e-mail; nos nossos grupos privados de apoiadores; e pelas plataformas das chamadas big techs, já que não estar nelas nos daria uma desvantagem ainda maior pela disputa de atenção. Também estamos ocupando plataformas livres e descentralizadas, como o Mastodon, como posição política, no sentido de ajudar a construir um futuro sem as grandes corporações, mas a realidade é dura e nos faltam braços para gerir tantos espaços digitais.

Uma novidade recente, implantada na campanha Cosmologias ameríndias, foi a realização de uma entrevista gravada de cerca de 80 minutos com o autor do livro, com o objetivo de gerar cortes e realizar uma divulgação em formato familiar ao público. Além de ajudar na divulgação, cremos que ouvir a voz do autor, ver o seu rosto, é algo que ajuda a humanizar a campanha e observamos um crescimento nos apoios frente ao vídeo, pelo menos nessa primeira experiência, que pretendemos ampliar e aprimorar nos próximos financiamentos.

Conheça nossas campanhas de financiamento coletivo

As campanhas pontuais que já realizamos:

As campanhas recorrentes

Por que seguimos confiando no financiamento coletivo

Realizar um financiamento coletivo, seja pontual ou recorrente, é muito importante para um projeto coletivo. Não se trata apenas de arrecadar recursos. É também uma forma de se comunicar com o mundo, apresentar ideias, fortalecer uma proposta e construir relações.

O financiamento coletivo nos permite existir, mas também nos permite criar comunidade. E, no meio desse processo, surgem amizades e trocas que fazem toda a diferença.

Seguimos navegando.

Viva o financiamento coletivo.

Campanha de financiamento coletivo: Por uma epistemologia orgânica, de Laura Mendes

Conhecimento é coisa viva. Com essa provocação, a Monstro dos Mares lança a campanha de financiamento coletivo para publicar Por uma epistemologia orgânica, novo livro de Laura Mendes. O ensaio propõe uma reflexão original sobre as formas como aprendemos, produzimos conhecimento e nos relacionamos com o mundo, questionando a ideia de que o saber pode ser reduzido a um conjunto de conceitos abstratos, neutros ou separados da vida.

Inspirada pelas reflexões de Antônio Bispo dos Santos e por diferentes tradições de pensamento contracolonial, a autora investiga a possibilidade de um conhecimento orgânico: um saber que nasce da relação entre corpo, território, comunidade, experiência e mistério. Ao longo do livro, conceitos como aproximação, atenção, reverberação, correspondência e incorporação ajudam a construir uma filosofia do conhecimento enraizada na vida cotidiana e aberta à complexidade dos encontros.

Mais do que uma crítica às formas hegemônicas de produção do saber, Por uma epistemologia orgânica é também uma aposta em outras maneiras de pensar, aprender e existir. Entre rios, florestas, memórias e relações, o ensaio convida leitoras e leitores a imaginar conhecimentos que não buscam dominar o mundo, mas aprender com ele. Trata-se de uma obra que dialoga com a filosofia, a ecologia, os estudos decoloniais e as experiências concretas de comunidades que constroem saberes em estreita relação com seus territórios.

A campanha de financiamento coletivo está aberta até 10 de agosto. Ao apoiar o projeto, você ajuda a viabilizar a impressão do livro, fortalecer a produção editorial independente e ampliar a circulação de ideias que frequentemente permanecem fora dos grandes circuitos acadêmicos e comerciais. Para participar, acesse: https://apoia.se/epistemologia-organica. Cada apoio ajuda a fazer este livro acontecer e a colocar mais um conhecimento vivo em circulação.

Compromisso com a cultura da diversidade

A editora Monstro dos Mares é muito mais do que um projeto editorial: é uma construção política, cultural e social comprometida, de forma ativa e contínua, com a promoção da diversidade, da inclusão e da visibilidade de vozes historicamente marginalizadas. Nossa proposta editorial reflete esse compromisso ao abraçar temáticas que atravessam os campos da teoria queer, dos feminismos, da decolonialidade, das lutas anticapitalistas e das produções acadêmicas e culturais realizadas por pessoas da comunidade LGBTQIAPN+.

Para nós, inclusão não significa apenas abordar determinados temas, mas também abrir espaço real para diferentes experiências, perspectivas e formas de produzir conhecimento. Buscamos valorizar autoras, autores e autorxs cujas vozes muitas vezes foram silenciadas ou tiveram pouco acesso aos circuitos tradicionais de publicação, contribuindo para um campo editorial mais plural, crítico e representativo.

A aposta em uma atividade editorial que valoriza a pluralidade de identidades, experiências e saberes não é apenas uma escolha estética ou convencional. É, antes de tudo, uma decisão ética e política. Ao abrir espaço para vozes dissidentes, a Monstro dos Mares contribui para desconstruir paradigmas normativos, questionar estruturas opressoras e fortalecer uma cultura de inclusão, respeito e dignidade.

Esse compromisso se traduz não apenas nos temas abordados, mas também nas práticas cotidianas da editora: desde os processos colaborativos de produção dos livros até a escolha de autoras, autores e coletivos que constroem saberes fora dos espaços tradicionais de legitimação. Publicar trabalhos acadêmicos, literários e políticos produzidos por pessoas LGBTQIAPN+, negras, indígenas, periféricas e outras identidades dissidentes significa fortalecer redes de apoio, circulação de conhecimento e resistência dentro das redes de editoras anarquistas.

Entendemos que ampliar o acesso à publicação e à circulação de ideias é parte fundamental de um projeto editorial comprometido com a inclusão. Por isso, buscamos criar condições para que diferentes vozes possam não apenas ser ouvidas, mas também reconhecidas como produtoras legítimas de conhecimento, cultura e pensamento crítico, contribuindo para um campo editorial mais diverso, aberto e socialmente comprometido.

A Monstro dos Mares entende que editar livros é também construir futuros possíveis. É garantir que vozes silenciadas historicamente possam ocupar espaços, disputar relatos e reimaginar o mundo. Nossas publicações não apenas refletem questões de identidade, gênero, raça e classe, mas também contribuem ativamente para os debates sobre justiça social, direitos humanos e transformação social.

O compromisso com a diversidade humana não é apenas ético e político, mas também estético, poético, um pacto pela própria construção do saber, já que essas pessoas carregam nas suas escritas formas de existir, habitar e refletir sobre o mundo que produzem uma maior riqueza de conhecimento. Acreditamos que a imaginação move o mundo, inventa futuros, adia o fim do mundo, e cremos que a coletividade e a diversidade são as pontes necessárias para transpor a nossa atual crise de imaginação imposta pelo capitalismo colonial.

Ao apostar na inclusão como princípio editorial, buscamos ampliar quem pode contar histórias, produzir teoria e compartilhar experiências. Acreditamos que o campo do livro deve ser um espaço aberto à diversidade de perspectivas e trajetórias, onde diferentes sujeitos possam se reconhecer e participar da construção coletiva do pensamento crítico e da imaginação política.

Ao se posicionar de forma evidente e comprometida, ampliamos a representatividade nas redes de editoras e inspiramos outras iniciativas a repensar seus próprios papéis na construção de uma sociedade mais justa, plural e diversa.

A editora Monstro dos Mares segue firmando seu compromisso com uma cultura editorial antidiscriminatória, descentralizada e horizontal. Nosso catálogo é, ao mesmo tempo, uma ferramenta de resistência e um convite à reflexão, à escuta e à construção coletiva de um mundo em que todas as existências sejam reconhecidas, celebradas e respeitadas.

Entendemos que esse compromisso é um processo contínuo, que se constrói no diálogo, na abertura e na disposição de aprender com as diferentes experiências que atravessam nossa comunidade. Por isso, buscamos manter a editora como um espaço vivo de encontro, onde a diversidade de vozes não apenas encontra lugar, mas também ajuda a orientar os caminhos que seguimos construindo coletivamente.

Entrevista Juliano Gonçalves da Silva

No dia 30 de março, o editor Felipe Siles conversou com Juliano Gonçalves da Silva sobre o lançamento de seu novo livro Cosmologias ameríndias em movimento no cinema de ficção. Em um bate-papo descontraído, a conversa percorre os filmes analisados na obra, as impressões do autor, comentários do editor e reflexões sobre a situação dos povos originários no Brasil contemporâneo.

A entrevista já está disponível em vídeo no YouTube, e também em áudio no Archive.org e no Spotify. É uma ótima oportunidade para conhecer melhor o livro e os caminhos da pesquisa que o sustenta. Ainda dá tempo de apoiar a campanha de financiamento coletivo, que segue até o dia 24 de abril de 2026. Fortaleça o projeto e ajude a colocar o livro em circulação.

Sem Estado, sem capital, apenas pessoas: antropologia e anarquia.

“Anarquia e antropologia andam de mãos dadas porque os antropólogos sabem que uma sociedade sem Estado é possível, já que muitas sociedades desse tipo já existem.”

Graeber, Fragmentos de uma Antropologia Anarquista (2004)

Introdução

           O falecido David Graeber (1961-2020) deixou um poderoso legado intelectual. Ele não era apenas um acadêmico de renome, mas também desempenhou um papel constante na conexão entre a academia e os movimentos sociais. Graeber foi um dos principais pensadores do movimento Occupy Wall Street em 2011. (Diz-se que ele cunhou o poderoso slogan “Nós somos os 99%”, que refletia a desigualdade de classes decorrente do capitalismo contemporâneo, embora ele insistisse que se tratava de uma criação colaborativa)1

           Graeber nasceu e cresceu em uma família operária com forte tradição política. Sua mãe era costureira e atuava ativamente em sindicatos, enquanto seu pai trabalhava em uma gráfica e foi motorista de ambulância voluntário durante a Guerra Civil Espanhola. Ambos apoiaram o Partido Comunista na década de 1930, mas posteriormente se afastaram dele. Esse ambiente moldou o interesse de Graeber pelas estruturas de poder e pela desigualdade social desde jovem.

           A tese de doutorado de Graeber foi uma pesquisa de campo em Madagascar. Viver entre os povos indígenas permitiu-lhe observar que as comunidades autogovernadas possuíam formas de organização social e relações de poder que não dependiam necessariamente do Estado (seja porque não havia um Estado em que se apoiar, seja porque, embora existisse um Estado, este era pouco confiável). Além disso, esses processos não eram contrários aos princípios democráticos; na verdade, eram fundamentalmente democráticos e promoviam o papel político dos indivíduos ainda mais do que a democracia representativa. Essa compreensão influenciou significativamente a trajetória acadêmica posterior de Graeber.

           Após se formar, Graeber lecionou antropologia na Universidade de Yale. Apesar de ser um acadêmico renomado e popular entre os alunos, em 2005 a universidade se recusou a renovar seu contrato de tempo integral. Apesar das críticas e de uma petição que circulou entre mais de 4.500 acadêmicos, ativistas e estudantes, a decisão foi recebida com inação. Acredita-se que um dos motivos para a intensa pressão sobre Graeber tenha sido seu ativismo político e seu apoio a uma estudante que foi ameaçada de expulsão por ser membro de um grêmio estudantil que, na época, enfrentava problemas com a universidade. Posteriormente, Graeber lecionou na Goldsmiths e, em seguida, na London School of Economics and Political Science (LSE), no Reino Unido.

           Ao longo de sua carreira, Graeber produziu inúmeras obras acadêmicas que criticam o Estado e o capital, bem como as estruturas de poder que criam desigualdade na sociedade humana. Exemplos incluem “Dívida: Os Primeiros 5.000 Anos” (2011), que desafia as crenças convencionais de economistas de tendência capitalista sobre finanças e dívida e explica como o capitalismo contemporâneo usa a “dívida” como uma ferramenta ideológica e moral para exercer poder sobre os seres humanos; ” A Utopia das Regras: Sobre Tecnologia, Estupidez e as Alegrias Secretas da Burocracia” (2015), que critica a burocracia por não ser o sistema racional e eficiente que poderíamos imaginar, mas sim repleto de regras e regulamentos sem sentido, complexidade desnecessária e a “estupidez” inerente aos seus processos; e argumenta que a burocracia não é apenas um mecanismo fundamental para a manutenção do poder estatal, mas também para o reforço do capitalismo. Por fim, o livro “Bullshit Jobs: A Theory ” (2018) questiona a existência de muitos empregos atuais, particularmente nos setores de serviços e administrativos, que surgem da irracionalidade de um sistema capitalista que busca criar empregos unicamente por criar empregos ou gerar lucro, em vez de criar empregos essenciais ou que promovam valores humanos. Isso leva à criação de empregos totalmente inúteis (empregos de merda), nos quais até mesmo as pessoas que os executam têm plena consciência de que seu trabalho não agrega nenhum valor à sociedade.

           Ao mesmo tempo, Graeber não abandonou seu papel como ativista e permaneceu uma figura central nos movimentos políticos contra poderes opressores. Este artigo busca explorar a obra de Graeber relacionada ao estudo de sociedades sem Estado, particularmente sua proposta de que a anarquia não é um ideal, mas algo que ocorreu na história da humanidade, existe em sociedades humanas e pode continuar sendo possível no futuro. Examina também como a antropologia pode contribuir para o estudo da possibilidade de criação de tal sociedade.


O que é anarquia?

Este termo se refere a um princípio ou teoria sobre a vida e o comportamento em uma sociedade sem governo. A ordem em tal sociedade não surge da submissão a leis ou da obediência a qualquer autoridade, mas de acordos livres e independentes entre vários grupos em diferentes áreas e profissões. Esses grupos se unem livremente para a produção e o consumo, bem como para satisfazer as diversas e infinitas necessidades e desejos dos seres civilizados.

Pedro Kropotkin

           Poucos acadêmicos ousam se declarar anarquistas como Graeber, e ainda menos anarquistas produziram trabalhos acadêmicos que obtiveram reconhecimento generalizado como os dele (The 101. World, 2020).

           Em sua breve, porém importante obra, Fragmentos de uma Antropologia Anarquista (2004), Graeber apresenta os principais contornos que se expandiriam em muitos outros livros no futuro. Graeber busca refutar os estereótipos que a sociedade e a mídia convencional frequentemente apresentam sobre a anarquia como caos, desordem, violência ou mesmo terrorismo, e sugere que a anarquia pode, na verdade, estar mais alinhada com a democracia do que se costuma pensar.

           Para Graeber, anarquia significava autonomia, auto-organização, associação voluntária e democracia direta, bem como a rejeição do Estado, da violência estrutural, da desigualdade e de todas as formas de dominação social (daí a palavra anarquia significar literalmente “sem governante”). Embora esses princípios tenham sido frequentemente criticados como altamente idealistas e impraticáveis, Graeber destaca que eles representam a organização social real em várias culturas ao longo da história da humanidade (Graeber, 2004: 2).

           Contudo, embora os movimentos sociais e os ativistas políticos inspirados ou que se definem como anarquistas estejam se expandindo por toda parte, Graeber observa que atualmente existem poucos anarquistas dentro das instituições acadêmicas em comparação com o marxismo, que tem laços mais estreitos com a academia universitária e é o único movimento social de grande escala concebido por doutores (embora posteriormente tenha se voltado para a mobilização da classe trabalhadora). Graeber argumenta que o marxismo é frequentemente fundado por alguns gênios ou grandes homens (raramente mulheres); além de Marx, existem o leninismo, o maoísmo, o trotskismo, Gramsci e Althussaire, todos enfatizando a teoria de alto nível, enquanto o anarquismo se concentra na prática e na ética da ação. Os anarquistas são frequentemente nomeados de acordo com suas práticas ou princípios organizacionais, como anarquistas sindicalistas, anarquistas comunistas, insurrecionistas e anarquistas cooperativistas. (Cooperativista) Anarquismo individualista; Anarquismo plataformista (É importante notar que escolas de pensamento marxistas que não são nomeadas em homenagem a indivíduos frequentemente têm abordagens semelhantes ao anarquismo, como o comunismo de autonomia ou de conselho) (Graeber, 2004: 1-5)

           Em suma, o marxismo tende a ser um discurso teórico ou uma análise estratégica da revolução, enquanto o anarquismo é um debate ético sobre os aspectos práticos da revolução, demonstrando o potencial de interação entre ambos. Graeber destaca que a força do anarquismo reside em seu foco no que as pessoas fazem e em como se organizam para alcançar esses objetivos, em vez de construir uma grande estrutura teórica. O anarquismo insiste que os métodos devem ser consistentes com o objetivo; não podemos construir uma sociedade liberal por meio da ditadura, e devemos afirmar os princípios que defendemos em nosso cotidiano e em nossos relacionamentos com aqueles que nos cercam (Graeber, 2004: 4).

           Embora o anarquismo enfatize a prática, não se opõe necessariamente à teoria por completo. Expor, desmantelar e minar as estruturas sociais e a dominação existentes exige ferramentas intelectuais de análise e compreensão. Essas ferramentas podem não ser as teorias complexas com as quais estamos familiarizados nas ciências sociais tradicionais, que muitas vezes são abstratas e criadas por especialistas. Em vez disso, Graeber as chama de “teorias práticas” ou “teorias de baixo nível”, que surgem da democracia direta e da construção de consenso entre vários níveis de anarquistas. O princípio é que ninguém pode mudar completamente as opiniões dos outros para que correspondam perfeitamente às suas próprias, e nem deveria tentar fazê-lo. Portanto, os debates devem se concentrar em problemas concretos e práticos e desenvolver planos com os quais todos possam concordar, sem que ninguém sinta que seus princípios fundamentais estão sendo violados. As teorias práticas também abordam problemas imediatos decorrentes da mudança social, diferentemente das ciências sociais tradicionais, que veem essas questões como “problemas de política”, uma rejeição da política. Isso ocorre porque pressupõe que um Estado ou mecanismo de governo dita como as pessoas devem viver e que elites ou especialistas autoproclamados determinam a natureza da sociedade. Assim, a teoria social deve ser adaptável por meio da democracia direta. O conhecimento e a análise não são propriedade exclusiva dos especialistas, mas sim um produto colaborativo da troca e das ações de todos os envolvidos (Graeber, 2004: 5-8).

           Graeber propôs que a teoria social anárquica deveria partir de duas premissas principais: 1) “Outro mundo é possível”, o que significa que o Estado, o capitalismo e as estruturas de poder com as quais estamos familiarizados não são inevitáveis; a sociedade pode ser organizada de outras maneiras para o benefício e a igualdade de todos os seres humanos. 2) Rejeitar o vanguardismo na mudança social; o papel dos intelectuais não é liderar as massas ou criar “conselheiros” especialistas, mas observar e compreender o que as pessoas realmente fazem e, a partir daí, projetar colaborativamente uma nova sociedade. É nesse ponto que Graeber vê a antropologia desempenhando um papel crucial como ferramenta para explorar e compreender essas possibilidades no mundo real (Graeber, 2004: 7-8).


Antropólogos e sociedades sem Estado

           Pergunta: Quantos votos (ou vozes) de eleitores elegíveis são necessários para trocar uma lâmpada?

           Resposta: Não é necessário, pois os eleitores não podem mudar nada de qualquer forma.

           Para Graeber, a antropologia era muito adequada ao estudo de sociedades anárquicas porque fornecia ferramentas e metodologias de pesquisa que ajudavam a acessar e compreender sociedades sem estados, comunidades autogovernadas ou sistemas econômicos não mercantis, particularmente o trabalho de campo e a observação participante.

           Graeber cita o exemplo de antropólogos anarquistas como A.R. Radcliffe-Brown, um dos pais fundadores da área. Embora famoso por sua teoria estrutural-funcionalista, em sua juventude ele admirava o anarquista Peter Kropotkin, a ponto de seus amigos o apelidarem de “Anarquia Brown”. Graeber argumenta que o trabalho de Radcliffe-Brown foi pioneiro no estudo da ordem social fora do Estado e buscou sugerir que os povos sem Estado não eram selvagens incivilizados, mas sim possuíam uma organização sistemática de relações entre si, refletida em diversas culturas e tradições. Portanto, é necessário que os antropólogos realizem trabalho de campo para examinar detalhadamente a possibilidade de criar sociedades alternativas a partir de cada sociedade existente, bem como estudos comparativos para observar como os seres humanos em diferentes lugares lidam com os problemas de maneiras distintas (Graeber, 2004: 10).

           Marcel Mauss, um antropólogo francês pioneiro e crítico prolífico das economias de mercado em jornais socialistas, propôs um conceito fundamental que desafiou a compreensão dos mercados e do capitalismo. Em sua obra seminal, “Ensaio sobre a Dádiva” (1925), Mauss argumentou que a “economia da dádiva” era a base dos contratos e da organização social em muitas sociedades antes do advento dos mercados e do Estado. Em sua essência, a troca de dádivas criava e mantinha obrigações para com os outros; o destinatário de uma dádiva era obrigado a retribuir posteriormente, seja com bens, trabalho ou outras ações. A recusa em dar, a recusa em receber ou a falta de reciprocidade impactavam o status social e as relações comunitárias. Exemplos incluem casamentos, funerais e outras cerimônias que estabeleciam e mantinham laços sociais. Esse sistema não se concentrava na acumulação de riqueza pessoal ou na maximização do lucro e, diferentemente dos contratos de mercado que se concluíam com uma venda, na qual o comprador obtinha a propriedade plena e separada do item em relação ao vendedor, a economia da dádiva não se baseava no cálculo do lucro, mas sim na recusa em fazê-lo. No entanto, Mauss não insinuou que as pessoas nessas sociedades não tivessem conhecimento de métodos eficientes de busca de lucro; em vez disso, elas podem ter concluído que maximizar o lucro das transações era abominável. Pelo menos em transações envolvendo não-inimigos, Mauss também acreditava que a transição para o socialismo viria de baixo para cima, por meio da criação de sistemas econômicos alternativos e redes de cooperação entre as pessoas, e não por meio de ordens estatais (Graeber, 2004: 12-13).

           O antropólogo francês Pierre Clastres desafiou as crenças predominantes sobre a origem do Estado por meio de sua pesquisa sobre tribos amazônicas em sua obra seminal, * A Sociedade Contra o Estado * (1974). Clastres argumentou que o Estado não era um fenômeno natural ou um estágio evolutivo inevitável da sociedade humana, e apontou que algumas sociedades optaram deliberadamente por rejeitar ou resistir ao seu surgimento. Clastres criticou os antropólogos políticos que estavam presos a uma perspectiva evolucionista, considerando o Estado como uma forma de organização social mais complexa ou avançada do que outras sociedades do passado. Portanto, eles presumiam implicitamente que os grupos sem Estado eram simplesmente sociedades que ainda não haviam alcançado uma organização política complexa. No entanto, Clastres propôs uma nova questão: e se esses povos amazônicos estivessem plenamente conscientes da natureza da estrutura de poder conhecida como Estado e compreendessem as implicações de permitir que certos indivíduos exercessem autoridade sobre outros sem questionar ou criticar, sob pena de intimidação, ameaças ou uso da força? Em outras palavras, Clastres argumentou que as tribos que rejeitaram o Estado não desconheciam o Estado, mas sim o compreendiam bem e estavam determinadas a impedir que ocorresse uma situação em que o Estado oprimisse e ditasse as vidas humanas.

           Esses antropólogos demonstraram mecanismos sociais concebidos para impedir a acumulação permanente de poder ou riqueza, que poderia levar à desigualdade ou à dominação. Também procuraram mostrar que as sociedades humanas têm diversas opções de organização e que a existência sem um Estado ou um mercado capitalista não é um sinal de subdesenvolvimento, mas sim uma escolha resultante das decisões e dos valores morais da comunidade. Foi a isso que Graeber chamou de ética alternativa (Graeber, 2004: 15).


Antropologia Anarquista

           Os céticos frequentemente questionam se as sociedades estudadas pelos antropólogos são meramente “sociedades primitivas” ou pequenos grupos isolados, e não estados modernos complexos, e que mesmo se estivessem estabelecidas, provavelmente entrariam em colapso ou seriam destruídas a longo prazo. Eles também pedem exemplos de “estados anárquicos”.

           Graeber destaca que o termo “Estado anarquista” é paradoxal porque as organizações ou sociedades anarquistas não se assemelham a Estados na aparência, mas envolvem uma multiplicidade de comunidades, associações, redes e projetos existentes em todos os níveis, sobrepondo-se e convergindo de todas as maneiras imagináveis, incluindo formas que ainda não consideramos. Algumas são agregações locais, outras globais. Talvez a única coisa que esses grupos anarquistas tenham em comum seja a recusa em se associar a qualquer pessoa que pareça armada e ordene que os outros se calem e obedeçam às suas ordens. E como os anarquistas não tentam tomar o poder dentro do território de nenhum país, nem acreditam em revoluções violentas e repentinas, mas sim criam gradualmente formas organizacionais globais alternativas, novas formas de comunicação e novas maneiras de organizar a vida sem alienação, em última análise, essas ações farão com que as formas de poder existentes pareçam tolas e desnecessárias. Isso significa que existem inúmeros exemplos possíveis de sociedades anarquistas (Graeber, 2004: 24-25).

           Além disso, Graeber questiona a suposição de uma desconexão completa entre o mundo moderno e o mundo pré-moderno de seres “primitivos”, “bárbaros” ou “subdesenvolvidos”, apesar de antropólogos terem tentado, durante décadas, convencer o público de que não existe uma sociedade primitiva ou simples e que ninguém existe isolado além do tempo (como sugere Bruno Latour, nunca fomos modernos) (Graeber, 2004: 26-29).

           O paradoxo entre os antropólogos reside no fato de possuirmos um vasto acervo de experiências relativas a experimentos políticos e sociais humanos, sobre os quais outros sabem pouco, ou pelo menos prestam pouca atenção. Contudo, os antropólogos mantêm esses trabalhos etnográficos em segredo, hesitantes em divulgá-los ou apresentar discussões com implicações sociais mais amplas, embora nossas descobertas constituam um patrimônio comum da humanidade. Nesse sentido, Graeber argumenta que a antropologia parece estranhamente receosa de seu próprio potencial, apesar de sua capacidade de apresentar as vidas diversas e ilimitadas da humanidade — porque é a única disciplina que realmente estuda seres humanos de quase todas as sociedades e está familiarizada com todos os casos “anormais”. No entanto, a antropologia se recusa a fazê-lo (Graeber, 2004: 61-65).

           Como resultado, os antropólogos contemporâneos não formulam mais conclusões teóricas abrangentes, mas delegam essa tarefa a filósofos europeus, que não têm dificuldade em debater questões humanas fundamentais como liberdade, desejo, imaginação, identidade ou soberania. É como se esses conceitos fossem inerentemente concebíveis, e ninguém fora da alta literatura da Europa Ocidental ou da América do Norte se envolvesse verdadeiramente com eles. Graeber também aponta uma mudança no uso da linguagem. Antes, os principais termos teóricos para os antropólogos eram palavras indígenas como mana, totem ou tabu, mas os novos termos populares frequentemente têm origem no latim ou no grego, em grande parte emprestados do francês e, às vezes, do alemão (Graeber, 2004: 62).

           Portanto, embora a antropologia esteja idealmente posicionada para iniciar diálogos intelectuais em larga escala para debater questões políticas e outras com outros membros da sociedade, certas contradições internas a impedem de utilizar plenamente seu potencial. Na visão de Graeber, quando a anarquia não é mera desordem, mas uma forma de organização social que enfatiza a autogovernança e é desprovida de poder centralizado, o papel da antropologia é observar atentamente como as pessoas em diferentes sociedades pensam e projetam suas sociedades coletivamente, como imaginam e agem socialmente sem submissão ao Estado e ao capital, e então apresentar esse conhecimento e essas descobertas como uma “dádiva” intelectual de volta à sociedade da qual as informações foram coletadas, permitindo que as pessoas inventem e criem suas próprias sociedades de forma livre e diversificada.


Referências

Clastres, P. (1974). Sociedade contra o Estado: Ensaios em antropologia política. (R. Hurley, Trad.). Urizen Books.

Graeber, D. (2004). Fragmentos de uma antropologia anarquista. Prickly Paradigm Press.

Graeber, D. (2011). Dívida: Os primeiros 5.000 anos. Melville House.

Graeber, D. (2015). A utopia das regras: sobre tecnologia, estupidez e as alegrias secretas da burocracia. Melville House.

Graeber, D. (2018). Empregos de merda: uma teoria. Simon & Schuster.

The Guardian. (2020). David Graeber, antropólogo e autor de Bullshit Jobs, morre aos 59 anos. The Guardian. https://www.theguardian.com/books/2020/sep/03/david-graeber-anthropologist-and-author-of-bullshit-jobs-dies-aged-59?CMP=share_btn_url .

The101.World. (2020). David Graeber, um antropólogo anarquista que acredita em possibilidades alternativas. The101.World. https://www.the101.world/david-graeber .


Autora:
Piyanan Jina,
Pesquisadora, Divisão de Pesquisa e Promoção Acadêmica,
Centro de Antropologia Sirindhorn (Organização Pública)

Via: https://www.sac.or.th/portal/th/article/detail/750


  1. Graeber disse certa vez: “Eu fui o primeiro a sugerir que nos chamássemos de 99 por cento. Depois, dois anarquistas espanhóis e um grego acrescentaram o ‘nós’, e mais tarde um ex-membro do Food Not Bombs acrescentou o ‘é’ no meio. Quem disse que não podemos criar algo valioso juntos! Eu gostaria de citá-los, mas considerando como a polícia lidou com os primeiros manifestantes do Occupy Wall Street, talvez seja melhor não fazê-lo.” (The101.World, 2020) [↩]

Um novo livro sobre cinema e cosmologias ameríndias

Está no ar a campanha de financiamento coletivo do livro Cosmologias ameríndias em movimento no cinema de ficção, de Juliano Gonçalves da Silva. A obra investiga como o cinema latino-americano mobiliza cosmologias ameríndias e como imagens, narrativas e personagens indígenas tensionam estereótipos históricos ainda presentes na linguagem cinematográfica.

Ao tratar o cinema como espaço de produção de sentidos, memória e disputa simbólica, o livro propõe uma leitura crítica e sensível sobre representação, decolonialidade e modos de imaginar o mundo. É uma pesquisa que dialoga com quem se interessa por cinema, estudos indígenas, imagem e pensamento latino-americano.

O livro está disponível por valor promocional durante o financiamento coletivo, e a campanha também reúne outras obras do autor, além de opções com múltiplos exemplares para compartilhar, presentear ou dividir com amizades.

Apoiar esta campanha é contribuir para a circulação de pesquisas independentes, para o fortalecimento da edição autônoma e para a ampliação de debates sobre representação e cosmologias ameríndias no cinema.

Conheça as recompensas e apoie o projeto em:
https://catarse.me/cosmologias-amerindias

Limonada o servidor comunitário da Rede de Apoio

A Rede de Apoio da Monstro dos Mares é formada por pessoas que fortalecem economicamente, de maneira contínua, as atividades e necessidades mensais da editora. Trata-se de uma base comunitária que sustenta não apenas a produção editorial, mas também as condições materiais de existência de quem decidiu fazer livros como parte da luta.

Os recursos da Rede de Apoio são utilizados para custear despesas essenciais, como remédios e estudos, e também para estruturar ferramentas que ampliem a participação da comunidade nos processos da editora. A ideia é simples e política: transformar apoio financeiro em autonomia coletiva, criando meios para que mais pessoas acompanhem, colaborem e compartilhem o cotidiano de uma editora anarquista independente.

Em 2019, a Rede de Apoio viabilizou a aquisição de um servidor usado, onde passamos a hospedar microserviços de blogs e websites utilizando a tecnologia Tor. Foi um passo importante na construção de uma infraestrutura própria, alinhada com princípios de privacidade e soberania digital.

Em 2023, tivemos uma breve, mas muito feliz, experiência com uma conexão de internet sem CGNAT. Nesse período, conhecemos o YunoHost, um ambiente de portal voltado para pequenas comunidades, grupos e coletivos, que facilita a instalação e a gestão de serviços digitais autônomos.

Agora, em 2026, novamente com recursos da Rede de Apoio, contratamos um servidor VPS e, com a ajuda do grupo de tecnologia da editora, realizamos a instalação do YunoHost. O servidor já está disponível para uso da comunidade.

Entre os principais serviços oferecidos está o Calibre Web, uma ferramenta que permite navegar, baixar ou sincronizar dispositivos e-reader, como Kindle e Kobo, com os livros digitais em formato EPUB da Monstro dos Mares. Também estão disponíveis:

  • SearXNG, ferramenta de busca que prioriza a privacidade;
  • FacePrivacy, para borrar rostos em imagens;
  • LibreQR, para gerar QR codes conforme a necessidade;
  • outras aplicações poderão ser implementadas em breve, de acordo com as demandas da comunidade.

O servidor recebeu o nome de Limonada, em referência ao Oceano de Limonada, alegoria criada por Hakim Bey. A escolha do nome dialoga com a imaginação radical e com a criação de territórios autônomos temporários, onde outras formas de convivência e organização são possíveis.

Neste momento, estamos cadastrando prioritariamente as pessoas que já fazem parte da Rede de Apoio. Quem desejar integrar o servidor pode entrar em contato com Baderna Jaime, que está cuidando da gestão do VPS comunitário.

A Rede de Apoio não financia apenas livros. Ela financia infraestrutura, cuidado e autonomia. Venha fazer parte.

e-mail: [email protected] | zapzap: wa.me/5551994037547

UPDATE: Servidor descontinuado em Agosto de 2026.

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