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I Encontro Anarquista de Ribeir√£o Preto

I Encontro Anarquista de Ribeir√£o Preto, realizado pelo Coletivo Libert√°rio Viver a Utopia nos dias 12 e 13 de Outubro no Memorial da Classe Oper√°ria. O evento contar√° com a presen√ßa de editoras e ocorrer√° conjuntamente XII Express√Ķes Anarquistas.

Informa√ß√Ķes:
http://viverautopia.org/
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[reflex√£o] Para publicar ‚Äď A necessidade de tinta no papel nas publica√ß√Ķes anarquistas da atualidade (por Aragorn!)

Dentro de cada pessoa cínica, há um idealista desapontado.

George Carlin

Se publicar √© a pr√°tica de colocar tinta no papel e jogar na m√£o do povo, ent√£o criar uma editora √© barbada (principalmente se for uma editora anarquista). Embora existam indiscutivelmente mais livros anarquistas sendo publicados do que em qualquer outro momento da hist√≥ria, a quantidade de leitores est√° diminuindo. Publica√ß√Ķes anarquistas, sejam panfletos, jornais e revistas, est√£o reduzindo no universo inteiro. Cronogramas de publica√ß√£o sem frequ√™ncias definidas e diminui√ß√£o das tiragens, indicam que o tempo do papel pode estar chegando ao fim para os peri√≥dicos anarquistas.

O indicador para essa contagem √© que tem havido uma correspondente, se n√£o maior, ascens√£o de publica√ß√Ķes anarquistas na internet. Mas ser√° que esse √© realmente o caso? Isso vai depender do que voc√™ entende por publica√ß√£o. Por exemplo, no site infoshop.org, podemos encontrar a maior e mais antiga publica√ß√£o anarquista na web, ao longo de um ano, seria dif√≠cil encontrar um grande volume de conte√ļdo original na parte de not√≠cias (j√° que √© a mais ativa) para preencher as p√°ginas de uma revista. Isto n√£o √© uma cr√≠tica, mas uma declara√ß√£o de como uma publica√ß√£o na internet √© qualitativamente diferente de um jornal ou revista, onde republica√ß√Ķes s√£o a exce√ß√£o e n√£o a regra.

Por isso, talvez seja necess√°rio uma defini√ß√£o mais ampla de publica√ß√£o anarquista. Livrar-se de publica√ß√Ķes de tinta e papel, pode ser visto como mais saud√°vel e ecol√≥gico do que nunca. Sabemos que esses s√£o dias felizes de discuss√Ķes sobre os acontecimentos do outro lado do mundo, artigos escritos na semana passada, e detalhes picantes que antigamente teriam levado anos para descobrir sobre os her√≥is e vil√Ķes da anarcol√Ęndia (risos). Mas o que perdemos neste mundo novo da informa√ß√£o constante que se limita as telas, as conex√Ķes banda larga; especialistas das artes digitais, HTML, CMS, e manipula√ß√£o de imagens?

O ritmo, o tato, a sedu√ß√£o, o contexto, a simplicidade, clareza, escrita bonita, profundidade, debate informado, e as rela√ß√Ķes pessoais aos autores √© o que perdemos. √Č bem prov√°vel que essas coisas n√£o v√£o voltar, nem nas publica√ß√Ķes anarquistas ou em qualquer outra. Al√©m disso, h√° uma massa cr√≠tica de leitores que deram adeus aos pre√ßos de venda; artigos longos demais; autores especializados; nome de editoras; cronogramas lentos de novas publica√ß√Ķes e a quantidade de tempo levam para que peri√≥dicos possam ser impressos. As pessoas j√° n√£o esperam impress√Ķes, em geral, as editoras que imprimem materiais est√£o desaparecendo uma a uma. Qualquer editor que deseja ser relevante deve manter uma presen√ßa na internet, mas o oposto disso tamb√©m √© verdade. O movimento em dire√ß√£o ao digital (evidenciado pelo n√ļmero crescente de vers√Ķes ‚Äúapenas pdf‚ÄĚ de publica√ß√Ķes anarquistas) e incapacidade de um n√ļmero maior de projetos capazes de ganhar voz pr√≥pria √© uma demonstra√ß√£o dos tempos sombrios que temos pela frente. Claro, haver√° mais palavras, mais coisas jogadas contra as paredes digitais na esperan√ßa de ficar, mas isso n√£o vai ser notado. Na melhor das hip√≥teses um novo tipo de elite virtual (que j√° existe e se diz dona de muitos espa√ßos anti-autorit√°rios) v√£o se virar na dire√ß√£o de um texto e pipocar novos links. E assim v√£o continuar na pr√≥xima semana. At√© pintar a pr√≥xima coisa, a pr√≥xima falsa controv√©rsia, o pr√≥ximo prazer, a pr√≥xima distra√ß√£o.

Isso √© bem diferente do que acontece num zine, do mais humilde ao mais fant√°stico, at√© mesmo uma revista de cr√≠tica anarquista no fundo da mochila de um viajante. A tinta no papel cont√©m mais possibilidades de serem redescobertos muitos anos depois, de encontrar um novo p√ļblico. Editoras anarquistas de nossos tempos devem emergir como uma solu√ß√£o para um problema novo, que neste momento parece ser mais grave do que a pr√≥pria extin√ß√£o de editoras no s√©culo passado. Se a ideia de vivermos livres de coer√ß√£o significou em algum momento vivermos livre do trampo de imprimir e distribuir, isto n√£o tem se mostrado uma boa ideia. Existe um mercad√£o de ideias, nossas premissas de liberdade e anarquia j√° n√£o parecem ser muito convidativas. O caminho √© solit√°rio e perigoso. Pode parecer pouco evidente, mas o processo de desejar a liberdade anarquista, de articular um mundo diferente enquanto estiver sob coa√ß√£o, √© parte do processo para se tornar uma pessoa informada e educada ao longo da vida anarquista, tal como ler as palavras dos velhos anarquistas, ou o famoso FAQ.

O processo de colocar tinta no papel e entregá-los para pessoas que estão interessadas contém um espectro completo de experiências sobre como realmente podemos fazer alguma coisa. Como transformar boas ideias (e mesmo as meia-boca) em sucessos ou fracassos. No papel essas ideias tem um valor próprio, mais do que elogios, críticas e enganos, o resultado é jogar mais ideias para o mundo. O processo de transferir palavras impressas de lá pra cá, de você pra mim, é também a conexão primária que faz existir uma editora para dezenas, centenas ou milhares de pessoas que serão escribas do futuro, feitiçeirxs da anarquia, companheirxs que podem fazer as coisas acontecerem e as melhores amizades que você nunca vai ter.

Por Aragorn!
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