Publicado em Deixe um coment√°rio

Sobre cuidados e como estamos todos fodidos caso não façamos grandes mudanças (Peter Gelderloos )

peter gelderloos

Mensagem de Peter Gelderloos 31 de Dezembro de 2020

Assim, em teoria, √© o √ļltimo dia de 2020, mas n√£o me surpreenderia se descobr√≠ssemos algum novo tipo de duplo ano bissexto de merda.

2020 tem sido um ano realmente dif√≠cil. A maioria de n√≥s perdeu amigos e companheiros, muitos perderam familiares. Derramamos os nossos cora√ß√Ķes em iniciativas de sobreviv√™ncia expandidas e rebeli√Ķes ardentes, mas ainda n√£o foi suficiente. Ainda n√£o vimos o fim de toda a dor acumulada nos nossos c√≠rculos. Quero agradecer √† d√ļzia de amizades que tornaram poss√≠vel que eu sobrevivesse a este ano, sendo atenciosos e atentos. S√£o os anarquistas mais verdadeiros que conhe√ßo, alguns dos √ļnicos que realmente compreendem a solidariedade e a ajuda m√ļtua. Mas os agradecimentos s√£o in√ļteis se n√£o estivermos abertos √† mudan√ßa.

Refletindo sobre essas amizades, são quase todas mulheres, não brancas e pessoas neuro-atípicas. Peço veementemente a todos que pensem nas pessoas que cuidaram de pessoas em seus círculos (se você é uma delas, dê a si próprio um pouco de amor). Os homens e as pessoas neurotípicas precisam se comprometer com isso. O cuidado é uma habilidade para toda a vida. Ninguém vai aprender isso num só dia. Mas há algo que podemos mudar AGORA e temos de mudar se não quisermos que as nossas (pseudo)comunidades caiam e ardam em trauma, depressão e pobreza no próximo ano.

Para quem voc√™ olha como o alicerce da sua comunidade/c√≠rculo, aquela pessoa cuja orienta√ß√£o voc√™ procura para estabelecer normas sobre como se comunicar, resolver conflitos, lidar com aqueles que sofrem, moldar o espa√ßo social? √Č melhor que sejam aquelas pessoas em quem pensou (que pertencem ao teu c√≠rculo). Devem ser aqueles que todos ouvem enquanto constru√≠mos as nossas comunidades/c√≠rculos.

N√£o deveria ser o acad√™mico a citar Agamben, o amigo que te ensina a atirar, o que tem contatos em todo o mundo, o babaca que escreve livros, o que faz as melhores festas (a menos que sejam tamb√©m o que se ocupa das pessoas, j√° que somos todos multifacetados). Todos esses outros tipos t√™m algo a oferecer em momentos importantes de luta (exceto as festas, bah humbug!)1 . Mas, na maioria das vezes, √© para eles que damos poder para estruturar as nossas comunidades e √© por isso que temos cenas produtivistas, militaristas, dogm√°ticas ou baseadas na popularidade. E estes s√£o completamente incapazes de lidar com estafa (burnout) e traumas, ou de centrar as rela√ß√Ķes na sobreviv√™ncia coletiva, que √© a caracter√≠stica que define uma comunidade real.

Uma teoria anarquista do poder reconheceria e valorizaria cada atividade que cria a nossa liberdade e bem-estar, deveria celebrar a experiência daqueles que a têm e encorajar cada um a desenvolver as suas próprias forças.

Em vez disso, exploramos e marginalizamos aquelas de quem mais dependemos para a nossa sobrevivência coletiva. Metade das pessoas com quem se pode contar para o sustento têm estado à beira do suicídio este ano. Quero mandar um sincero foda-se a todos os que não têm pensado nisso (em cuidar) e que continuam a construir as nossas comunidades falhas em torno de todas as lógicas erradas. Vão à merda. Comprometam-se. Se ainda não perceberam que a nossa sobrevivência está em risco, saiam já daqui.

Todo o meu amor para as pessoas que têm carregado todo esse fardo. Sim, todo o meu amor para as pessoas que têm estado na linha da frente, organizando protestos, escrevendo e debatendo. Sabendo, simplesmente, quando brilhar e quando segurar outra pessoa.

Finalmente, do fundo do meu ser, uma maldi√ß√£o imortal para os dois tipos de “camaradas” que, na minha perspectiva, t√™m sido os mais prejudiciais. Aqueles que ajudam os abusivos, evitam cr√≠ticas ou consequ√™ncias, que se fazem de neutros, giram o moinho de rumores porque t√™m muito medo de falar cara a cara. E, pol√≠ticos do movimento que imp√Ķem suas ideias de classe m√©dia do que √© poss√≠vel acima do que as pessoas realmente precisam numa situa√ß√£o potencialmente revolucion√°ria; desde greves de alugu√©is a rebeli√Ķes anti-pol√≠cia. Que sofram uma infelicidade sem fim ou uma autoconsci√™ncia aguda dos danos que causaram.

Mas sim, amor para todos os outros.

Por favor, fa√ßa com que os seus amigos leiam isto, especialmente os produtivistas ou os legalz√Ķes (fadas sensatas da viol√™ncia e das alian√ßas)

√Č isto, tchau.


Tradução e revisão: Absort0, Fernando, abobrinha.


  1. Nota: Expressão utilizada pelo personagem Ebenezer Scrooge, de Charles Dickens, que se tornou símbolo de sua rabugice []
Publicado em Deixe um coment√°rio

[Roda de conversa online] Interseccionalidades: queer, anarquismo e pandemia

No dia 12 de Agosto √†s 16h acontecer√° a roda de conversa online Interseccionalidades: queer, anarquismo e pandemia, que contar√° com a presen√ßa de Daniel Santos da Silva, autor de Sem lamenta√ß√Ķes: filosofia, anarquismo e outros ensaios, e Claudia Mayer, autora de queer no Brasil: resist√™ncia e empoderamento na (re/a)presenta√ß√£o de si e Editora Geral da Monstro dos Mares.

As inscri√ß√Ķes podem ser realizadas em:
https://sigaa.ufra.edu.br/sigaa/public/extensao/consulta_extensao.jsf

Esse evento √© organizado pelo Projeto de Pesquisa (In)visibilidades, Identidades e Diferen√ßas: ra√ßa, g√™nero, sexualidades e outras interseccionalidades na mem√≥ria cultural, liter√°ria dos contextos p√≥s/de(s)-coloniais ou no sul global, da Universidade Federal Rural da Amaz√īnia (Tom√©-A√ßu/PA). O projeto √© coordenado pelo professor Marcelo Spitzner, autor de Judith Butler & Michel Foucault: considera√ß√Ķes em torno da performatividade, do discurso e da constitui√ß√£o do sujeito.

O encontro tamb√©m far√° parte do I Congresso Internacional de Estudos Multidisciplinares na Amaz√īnia, que acontecer√° online nos dias 10, 11 e 12 de Agosto. As inscri√ß√Ķes ir√£o at√© o dia 07/08 e podem ser realizadas no site do evento.


Publicado em 1 coment√°rio

[Podcast] Bate-papo com Daniel Santos da Silva sobre o lan√ßamento de “Sem lamenta√ß√Ķes: filosofia, anarquismo e outros ensaios”

No dia 12 deste m√™s tivemos o prazer de gravar um bate-papo com nosso amigo e companheiro de luta Daniel Santos da Silva, autor do livro Sem lamenta√ß√Ķes: filosofia, anarquismo e outros ensaios.

Atualmente, Daniel é professor de Filosofia na Universidade Estadual do Paraná, campus União da Vitória. Mestre pela Universidade Estadual do Ceará, Doutor e Pós-Doutor pela Universidade de São Paulo, Daniel constrói ricos entrelaces entre suas vivências teóricas dentro da academia e suas experiências fora dela, que o levaram de Brasília a Fortaleza, a São Paulo e ao interior paranaense, além dos muitos outros lugares que fizeram parte de sua trajetória.

Em Sem lamenta√ß√Ķes encontram-se textos escritos durante um per√≠odo de dez anos e, como o autor mesmo confirmou em nossa conversa, √© poss√≠vel √† leitura atenta perceber os matizes das transforma√ß√Ķes que foram acontecendo atrav√©s do passar do tempo.

Ficamos muito felizes por transferir parte da vida e do trabalho do Daniel à folha impressa, e também por termos tido a oportunidade de conversar mais sobre tudo isso com o amigo querido.

Este episódio está disponível em:

Spotify, Breaker, Google Podcasts, Overcast, Pocket Casts, Radio Public, Anchor, RSS.

O livro está disponível para download gratuito ao final desta página.


Publicado em Deixe um coment√°rio

Feliz 2019, criptografe seus dispositivos!

O ano de 2019 j√° come√ßou e 2013 nem mesmo terminou. O estado de vigil√Ęncia, as persegui√ß√Ķes e criminaliza√ß√£o das lutas, dos movimentos e das pautas sociais sempre estiveram em funcionamento mesmo antes da aprova√ß√£o da Lei Antiterrorismo sancionada pela presidenta Dilma. S√≥ que agora a coragem de alguns adquiriu novas configura√ß√Ķes e ind√≠genas est√£o sendo assassinados por bandos desconhecidos (que muitos sabem que s√£o pau-mandados do agroneg√≥cio), os direitos sociais da classe trabalhadora recua cada dia mais com a terceiriza√ß√£o irrestrita, privatiza√ß√Ķes, achaque na previd√™ncia e outros tantos.

Aqui na Monstro dos Mares n√≥s fazemos livros e desde antes da Opera√ß√£o √Črebo j√° sab√≠amos que livros n√£o podem ser provas de crimes, mas que est√£o sendo criminalizados. Entra governo, sai governo, recebemos not√≠cias de que a moradia de militantes sociais, centros de cultura libert√°ria, ocupas, ongs, sede de federa√ß√Ķes anarquistas est√£o sendo invadidas, onde curiosamente livros (sim, livros!) e garrafas PET s√£o apreendidos e exibidos para as c√Ęmeras de TV como ind√≠cios de crimes potenciais numa verdadeira afronta √† racionalidade humana.

Mas afinal que tipo de racionalidade esperamos?

Fazemos livros para que mais e mais pessoas possam descobrir por seus pr√≥prios meios ou de m√£os dadas com monas, minas e manos, que a liberdade n√£o deve ser apenas um direito dado aos ricos, tirando-as de quem mais sofre. Nossos livros cont√™m palavras daquelas pessoas que lutam por direitos sociais, por igualdade, por reconhecimento das diversidades, pelo direito √† terra, pelo acesso √† condi√ß√Ķes dignas de moradia e trabalho. Nossas edi√ß√Ķes, bem como impress√Ķes de editoras e coletivos que consideramos pr√≥ximas √†s nossas ideias tratam de perspectivas an√°rquicas de enfrentamento √†s opress√Ķes, sejam elas onde estiverem: no preconceito racial, na desigualdade social, no binarismo de g√™nero, determinismo biol√≥gico, especismo, do marido/padre/pastor, do patr√£o, da p√°tria, da pol√≠cia, da pol√≠tica, do mercado e do estado. N√£o interessa onde est√£o as opress√Ķes, interessa √© saber como voc√™ vai arrega√ßar as mangas, esticar os bra√ßos e (re)tomar o seu espa√ßo.

Para isso convocamos:

Criptografe seus dispositivos, utilize navegação segura, crie ruídos nas frequências onde você e seus não possam ser escaneados. Encontre-se, discuta, produza, manifeste e celebre, ainda que secretamente, ainda que ninguém possa ver.

Fa√ßa de 2019 o in√≠cio de um novo tempo contra o fim de todas as opress√Ķes!

Proteja seus dados:

Publicado em Deixe um coment√°rio

2017: mudança, ritmo, andamento e silêncios

Demorou algum tempo para perceber que algumas mudan√ßas s√£o realmente maiores do que se imagina. Aceitar a beleza da aleatoriedade √© o que nos conduz, mas √© tamb√©m o que nos faz perceber que depois de alguns anos, existem dist√Ęncias maiores do que aquela que podemos tra√ßar no mapa. Ao ganhar o mundo com as m√£os, sem depender diretamente da fam√≠lia ou de patr√£o representa uma mudan√ßa marcante em nossas trajet√≥rias pessoais. Pois essa dedica√ß√£o ‚Äúquase‚ÄĚ exclusiva ao projeto editorial da Monstro dos Mares tem constitu√≠do cada dia mais nossa pr√≥pria ideia de Ser no Mundo.

Em 2017 conseguimos um ritmo de produ√ß√£o que ainda n√£o hav√≠amos experimentado, foram 62.352 impress√Ķes. N√£o temos ideia de quantos livros e zines esse n√ļmero representa, tampouco se √© muito ou pouco para uma editora libert√°ria. Mas esse tipo de contabilidade n√£o serve de nada al√©m de um registro de nosso pr√≥prio tempo. Temos a convic√ß√£o de que, mesmo sendo detentores de um CNPJ, n√≥s n√£o somos uma empresa, n√£o seguimos uma l√≥gica mercantilista, ou tampouco queremos ser administradores, gestores, empreendedores ou nos submetermos a qualquer modelo de ‚Äúsucesso‚ÄĚ. Danem-se os Best Sellers!

Fazemos livros pois sabemos que neles ‚Äúh√°‚ÄĚ potencial para transforma√ß√£o. √Č na exist√™ncia dessa possibilidade que acreditamos. √Č por causa deste ‚Äúh√°‚ÄĚ que jogamos tinta no papel e damos andamento a livros que chegam at√© as m√£os das pessoas. Fazemos o necess√°rio para que ideias disruptivas possam ganhar mais p√°ginas, permitam ser copiadas e ganhem quil√īmetros de dist√Ęncia. √Č para chegar nas casas, nas ocupas, nos centros culturais, coletivos, rol√™s, labs, spaces, sindicatos, comunas e todo o tipo de congrega√ß√£o que luta por liberdades que se proponham libertar o universo, a gal√°xia, o planeta, a natureza, os animais e inclusive essa maldita ra√ßa humana que fazemos livros. √Č pela possibilidade que h√°.

√Č nas m√£os desse bicho que se diz racional que todos os objetos que conhecemos tornam-se dotados de significados. √Č esse ser humano que √© capaz de dar sentido √† comunica√ß√£o, articular ideias, desenvolver criatividade musical, fazer cinema e literatura. √Č exatamente o mesmo que condena outros com a caneta que assina leis contra os direitos da classe trabalhadora, e que forja leis chamando as manifesta√ß√Ķes do povo de terrorismo e de vandalismo, √© o mesmo ser que com o fuzil puxa o gatilho e promove guerras que tentam devastar o povo Curdo e Palestino. Este ente todo privilegiado com a capacidade de pensar e fazer livros tem uma m√£o que mata e promove sil√™ncios na Argentina e no Brasil.

No ano que vem, n√£o queremos apenas nossa companheirada de p√© enfrentando o ogro eleitoral, denunciando os abusos da Opera√ß√£o √Črebo, fortalecendo a defesa de Rafael Braga, subindo barricada contra medidas de austeridade e desmandos dos pol√≠ticos. No ano que vem queremos que o fogo de nossas ideias transformem esse modelo de sociedade em cinzas e que desde j√°, possamos pensar uma nova realidade!

Em homenagem ao amigo, Brian Matos Silva.
Editora Monstro dos Mares
Dezembro de 2017.

“Walking to the age of Chaos
Burning the Lifes
The end of Mankind
Shadows and Pain
Arrives the Death
Opening the Way
To Begin Doomsday
You! cannot escape
Fire! is your Fate
The New Reality
is Born‚ÄĚ

The New Reality, Empires Will Fall, Rotten Filthy, 2011.

Publicado em Deixe um coment√°rio

Calend√°rio de Novembro

A Editora Artesanal Monstro dos Mares + AntiEditora Editora Libert√°ria, estar√£o presentes em diversos eventos no m√™s de Novembro, gra√ßas a boa vontade das pessoas que participam deste coletivo publicador em se deslocar por a√≠ e/ou ajudar com doa√ß√Ķes para custear viagens e impress√Ķes de mais e mais exemplares.

– dia 10, Feira do Livro Anarquista de S√£o Paulo
Рde 11 a 13, Colóquio Internacional Ciência e Anarquismo da USP
– dias 14, 15, 16 e 17, Aldeia Caiana, Vera Cruz, RS
– dias 15, 16 e 17, IV Feira do Livro Anarquista de Porto Alegre
Рdia 15, Festival Eu Quero é Rock II, Cachoeira do Sul, RS
– dia 16, Lan√ßamento e conversa sobre O ANARQUISMO E SUAS ASPIRA√á√ēES, Porto Alegre, RS
– dia 24, Vandalismo Cultural, Pindamonhangaba, SP (http://vai.la/3gi8)

Pedidos, encomendas, doa√ß√Ķes e informa√ß√Ķes por inbox ou atrav√©s do e-mail monstrodosmares@riseup.net

Publicado em Deixe um coment√°rio

Calend√°rio de Novembro

A Editora Artesanal Monstro dos Mares + AntiEditora Editora Libert√°ria, estar√£o presentes em diversos eventos no m√™s de Novembro, gra√ßas a boa vontade das pessoas que participam deste coletivo publicador em se deslocar por a√≠ e/ou ajudar com doa√ß√Ķes para custear viagens e impress√Ķes de mais e mais exemplares.

– dia 10, Feira do Livro Anarquista de S√£o Paulo
Рde 11 a 13, Colóquio Internacional Ciência e Anarquismo da USP
– dias 14, 15, 16 e 17, Aldeia Caiana, Vera Cruz, RS
– dias 15, 16 e 17, IV Feira do Livro Anarquista de Porto Alegre
Рdia 15, Festival Eu Quero é Rock II, Cachoeira do Sul, RS
– dia 16, Lan√ßamento e conversa sobre O ANARQUISMO E SUAS ASPIRA√á√ēES, Porto Alegre, RS
– dia 24, Vandalismo Cultural, Pindamonhangaba, SP (http://vai.la/3gi8)

Pedidos, encomendas, doa√ß√Ķes e informa√ß√Ķes por inbox ou atrav√©s do e-mail monstrodosmares@riseup.net

Publicado em Deixe um coment√°rio

I Encontro Anarquista de Ribeir√£o Preto

I Encontro Anarquista de Ribeir√£o Preto, realizado pelo Coletivo Libert√°rio Viver a Utopia nos dias 12 e 13 de Outubro no Memorial da Classe Oper√°ria. O evento contar√° com a presen√ßa de editoras e ocorrer√° conjuntamente XII Express√Ķes Anarquistas.

Informa√ß√Ķes:
http://viverautopia.org/
Fanpage no Facebook

Publicado em Deixe um coment√°rio

[reflex√£o] Para publicar ‚Äď A necessidade de tinta no papel nas publica√ß√Ķes anarquistas da atualidade (por Aragorn!)

Dentro de cada pessoa cínica, há um idealista desapontado.

George Carlin

Se publicar √© a pr√°tica de colocar tinta no papel e jogar na m√£o do povo, ent√£o criar uma editora √© barbada (principalmente se for uma editora anarquista). Embora existam indiscutivelmente mais livros anarquistas sendo publicados do que em qualquer outro momento da hist√≥ria, a quantidade de leitores est√° diminuindo. Publica√ß√Ķes anarquistas, sejam panfletos, jornais e revistas, est√£o reduzindo no universo inteiro. Cronogramas de publica√ß√£o sem frequ√™ncias definidas e diminui√ß√£o das tiragens, indicam que o tempo do papel pode estar chegando ao fim para os peri√≥dicos anarquistas.

O indicador para essa contagem √© que tem havido uma correspondente, se n√£o maior, ascens√£o de publica√ß√Ķes anarquistas na internet. Mas ser√° que esse √© realmente o caso? Isso vai depender do que voc√™ entende por publica√ß√£o. Por exemplo, no site infoshop.org, podemos encontrar a maior e mais antiga publica√ß√£o anarquista na web, ao longo de um ano, seria dif√≠cil encontrar um grande volume de conte√ļdo original na parte de not√≠cias (j√° que √© a mais ativa) para preencher as p√°ginas de uma revista. Isto n√£o √© uma cr√≠tica, mas uma declara√ß√£o de como uma publica√ß√£o na internet √© qualitativamente diferente de um jornal ou revista, onde republica√ß√Ķes s√£o a exce√ß√£o e n√£o a regra.

Por isso, talvez seja necess√°rio uma defini√ß√£o mais ampla de publica√ß√£o anarquista. Livrar-se de publica√ß√Ķes de tinta e papel, pode ser visto como mais saud√°vel e ecol√≥gico do que nunca. Sabemos que esses s√£o dias felizes de discuss√Ķes sobre os acontecimentos do outro lado do mundo, artigos escritos na semana passada, e detalhes picantes que antigamente teriam levado anos para descobrir sobre os her√≥is e vil√Ķes da anarcol√Ęndia (risos). Mas o que perdemos neste mundo novo da informa√ß√£o constante que se limita as telas, as conex√Ķes banda larga; especialistas das artes digitais, HTML, CMS, e manipula√ß√£o de imagens?

O ritmo, o tato, a sedu√ß√£o, o contexto, a simplicidade, clareza, escrita bonita, profundidade, debate informado, e as rela√ß√Ķes pessoais aos autores √© o que perdemos. √Č bem prov√°vel que essas coisas n√£o v√£o voltar, nem nas publica√ß√Ķes anarquistas ou em qualquer outra. Al√©m disso, h√° uma massa cr√≠tica de leitores que deram adeus aos pre√ßos de venda; artigos longos demais; autores especializados; nome de editoras; cronogramas lentos de novas publica√ß√Ķes e a quantidade de tempo levam para que peri√≥dicos possam ser impressos. As pessoas j√° n√£o esperam impress√Ķes, em geral, as editoras que imprimem materiais est√£o desaparecendo uma a uma. Qualquer editor que deseja ser relevante deve manter uma presen√ßa na internet, mas o oposto disso tamb√©m √© verdade. O movimento em dire√ß√£o ao digital (evidenciado pelo n√ļmero crescente de vers√Ķes ‚Äúapenas pdf‚ÄĚ de publica√ß√Ķes anarquistas) e incapacidade de um n√ļmero maior de projetos capazes de ganhar voz pr√≥pria √© uma demonstra√ß√£o dos tempos sombrios que temos pela frente. Claro, haver√° mais palavras, mais coisas jogadas contra as paredes digitais na esperan√ßa de ficar, mas isso n√£o vai ser notado. Na melhor das hip√≥teses um novo tipo de elite virtual (que j√° existe e se diz dona de muitos espa√ßos anti-autorit√°rios) v√£o se virar na dire√ß√£o de um texto e pipocar novos links. E assim v√£o continuar na pr√≥xima semana. At√© pintar a pr√≥xima coisa, a pr√≥xima falsa controv√©rsia, o pr√≥ximo prazer, a pr√≥xima distra√ß√£o.

Isso √© bem diferente do que acontece num zine, do mais humilde ao mais fant√°stico, at√© mesmo uma revista de cr√≠tica anarquista no fundo da mochila de um viajante. A tinta no papel cont√©m mais possibilidades de serem redescobertos muitos anos depois, de encontrar um novo p√ļblico. Editoras anarquistas de nossos tempos devem emergir como uma solu√ß√£o para um problema novo, que neste momento parece ser mais grave do que a pr√≥pria extin√ß√£o de editoras no s√©culo passado. Se a ideia de vivermos livres de coer√ß√£o significou em algum momento vivermos livre do trampo de imprimir e distribuir, isto n√£o tem se mostrado uma boa ideia. Existe um mercad√£o de ideias, nossas premissas de liberdade e anarquia j√° n√£o parecem ser muito convidativas. O caminho √© solit√°rio e perigoso. Pode parecer pouco evidente, mas o processo de desejar a liberdade anarquista, de articular um mundo diferente enquanto estiver sob coa√ß√£o, √© parte do processo para se tornar uma pessoa informada e educada ao longo da vida anarquista, tal como ler as palavras dos velhos anarquistas, ou o famoso FAQ.

O processo de colocar tinta no papel e entregá-los para pessoas que estão interessadas contém um espectro completo de experiências sobre como realmente podemos fazer alguma coisa. Como transformar boas ideias (e mesmo as meia-boca) em sucessos ou fracassos. No papel essas ideias tem um valor próprio, mais do que elogios, críticas e enganos, o resultado é jogar mais ideias para o mundo. O processo de transferir palavras impressas de lá pra cá, de você pra mim, é também a conexão primária que faz existir uma editora para dezenas, centenas ou milhares de pessoas que serão escribas do futuro, feitiçeirxs da anarquia, companheirxs que podem fazer as coisas acontecerem e as melhores amizades que você nunca vai ter.

Por Aragorn!
Versão para o português por Vertov