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[Roda de conversa online] Interseccionalidades: queer, anarquismo e pandemia

No dia 12 de Agosto √†s 16h acontecer√° a roda de conversa online Interseccionalidades: queer, anarquismo e pandemia, que contar√° com a presen√ßa de Daniel Santos da Silva, autor de Sem lamenta√ß√Ķes: filosofia, anarquismo e outros ensaios, e Claudia Mayer, autora de queer no Brasil: resist√™ncia e empoderamento na (re/a)presenta√ß√£o de si e Editora Geral da Monstro dos Mares.

As inscri√ß√Ķes podem ser realizadas em:
https://sigaa.ufra.edu.br/sigaa/public/extensao/consulta_extensao.jsf

Esse evento √© organizado pelo Projeto de Pesquisa (In)visibilidades, Identidades e Diferen√ßas: ra√ßa, g√™nero, sexualidades e outras interseccionalidades na mem√≥ria cultural, liter√°ria dos contextos p√≥s/de(s)-coloniais ou no sul global, da Universidade Federal Rural da Amaz√īnia (Tom√©-A√ßu/PA). O projeto √© coordenado pelo professor Marcelo Spitzner, autor de Judith Butler & Michel Foucault: considera√ß√Ķes em torno da performatividade, do discurso e da constitui√ß√£o do sujeito.

O encontro tamb√©m far√° parte do I Congresso Internacional de Estudos Multidisciplinares na Amaz√īnia, que acontecer√° online nos dias 10, 11 e 12 de Agosto. As inscri√ß√Ķes ir√£o at√© o dia 07/08 e podem ser realizadas no site do evento.


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[Autor convidado] Hoje, 29 de janeiro, √© Dia da Visibilidade Trans. Por Luiz Fernando Prado Uch√īa.

Apresentação

Considerando a urgência das diversas lutas pela libertação de todas as pessoas e a resistência contra toda e qualquer forma de opressão, convidamos a comunidade que nos acompanha a tirar um tempo para refletir sobre quanto da diversidade sexual, de gênero e das sexualidades existe em nossas vidas, nos nossos contatos, nas oportunidades a que temos acesso e nas nossas redes de afeto e companheirismo.

Podemos come√ßar nos fazendo algumas perguntas. Estamos, efetivamente, vivendo em comunidades que n√£o apenas toleram, mas tamb√©m apoiam e se reconstroem pela presen√ßa de pessoas trans? Prestamos a devida aten√ß√£o √†s reivindica√ß√Ķes levantadas por esse grupo, quando n√£o fazemos parte dele, em nosso dia a dia? Sendo pessoas cis, levantamos a voz quando presenciamos atos de viol√™ncia transf√≥bica, ou tratamos a luta pela transfobia como algo que ‚Äún√£o nos pertence‚ÄĚ e, por isso, nos silenciamos?

√Č papel das pessoas cis lutar junto √† comunidade trans contra a transfobia. Isso n√£o significa que estamos ocupando um lugar de fala que n√£o √© nosso, pois a transfobia √© parte do que constitui, por exclus√£o, a cisgeneridade. Por isso, ao recorrermos ao sil√™ncio frente a situa√ß√Ķes de viol√™ncia transf√≥bica estaremos recaindo em uma postura acovardada, que refor√ßa ainda mais a diferencia√ß√£o das pessoas de acordo com a configura√ß√£o de seus corpos e a hierarquia heteronormativa.

Lutar pela liberdade √© uma atividade constante e desafiadora, que n√£o consiste apenas em desafiar os poderes hegem√īnicos externos a n√≥s: consiste tamb√©m em desafiar e rejeitar aquilo que em n√≥s reproduz e sustenta tais poderes. Convidamos, portanto, todas as pessoas a repensar suas a√ß√Ķes dentro de nossas lutas contra a opress√£o e incluir, conscientemente, as pautas elaboradas e vividas pela comunidade trans. A liberdade s√≥ o √© quando v√°lida e efetiva para todas e todos.

Neste dia de luta, chamada √† conscientiza√ß√£o e visibilidade, trazemos uma carta √†s pessoas trans escrita por Luiz Fernando Prado Uch√īa. Luiz √© jornalista, professor e militante LGBT, e ter√° seu livro sobre transmasculinidades publicado em breve pela Editora Monstro dos Mares. Generosamente, Luiz compartilha sua percep√ß√£o de vida atrav√©s do prisma constru√≠do por sua experi√™ncia, que voc√™ pode conhecer no texto abaixo e em outras publica√ß√Ķes escritas por ele.

Valeu, Luiz! Força na luta, e conte com a gente.

Claudia Mayer
Editora geral Monstro dos Mares


O que fazer quando a gente tem a sensação de não-pertencimento?

Nesse tempo em que estive sem escrever novos artigos aqui no PPQO, participei de eventos de milit√Ęncia e ativismo nos quais tive a oportunidade de estar com outras categorias existentes no movimento social. Percebi o quanto falar de transexualidade ainda √© tabu ou tido como assunto complicado para ser abordado.

Tive a oportunidade de estar com pessoas cis (héteros, gays e lésbicas) em conversas informais nos espaços, e iniciei muitos diálogos sobre as diferenças de orientação sexual e identidade de gênero, usando-as como exemplo. A partir disso, os diálogos se tornaram bem fluidos. Eles passaram a entender que se sentir em um determinado gênero em nada se relaciona com vestimentas, acessórios ou por quem se manifesta o desejo sexual/amoroso.

Relatei o in√≠cio de minha jornada e as dificuldades enfrentadas dentro e fora do meio LGBT para expor minha real identidade de g√™nero, al√©m das vit√≥rias obtidas, como retifica√ß√£o de nome e g√™nero, acompanhamento m√©dico para a transi√ß√£o, e outras que se encontram pendentes com rela√ß√£o ao meu corpo. Tamb√©m expus o por que de expor minha transi√ß√£o, seja via entrevistas para jornais, revistas e/ou programas de televis√£o, e outras a√ß√Ķes.

Série de TV

Fui convidado para participar da abertura da s√©rie ‚ÄúQuem Sou Eu‚ÄĚ, exibida pelo ‚ÄúFant√°stico‚ÄĚ, exibida por tr√™s domingos seguidos na TV Globo, que relatou a trajet√≥ria de mulheres transexuais e homens trans em diferentes fases da vida. Apesar de meus posicionamentos contr√°rios √† emissora, entendi que deveria participar para ter a oportunidade de fazer apontamentos com rela√ß√£o ao conte√ļdo para um p√ļblico que n√£o tem acesso a essas discuss√Ķes. Por possu√≠rem uma vida mecanizada, que jamais lhe proporciona oportunidades de se conhecer outras realidades.

Independente do ‚ÄúFant√°stico‚ÄĚ e alguns programas da emissora como inten√ß√£o falar do tema com o prop√≥sito de divulgar a novela ‚ÄėA For√ßa do Querer‚Äô, atualmente exibida √†s 21 h, penso que os militantes e ativistas devem se aproveitar dessas raras oportunidades em canais de TV aberta para explicar, pacientemente, tendo como premissa propagar o tema da forma correta. Al√©m, claro, de ouvir os mais diversos questionamentos a respeito do conte√ļdo explanado e, dessa forma, conseguir simpatizantes em prol da diversidade sexual e de g√™nero.

Nesse tempo afastado de minha coluna, vivenciei uma rela√ß√£o intensa, apesar de ter tido pouca dura√ß√£o. Mas ela me deixou marcas profundas e a depress√£o me atingiu em cheio e, por isso, n√£o tive for√ßas para escrever e expor minhas impress√Ķes acerca da realidade sociopol√≠tica do Pa√≠s.

Dois anos

O que permeava meus pensamentos era o fato de ter esperado dois anos para viver esse relacionamento de forma plena e, de repente, ele acabou sem grandes explica√ß√Ķes. Agora ele est√° praticamente casado com outra pessoa, e exibe essa felicidade nas redes sociais. Pessoas pr√≥ximas a mim curtem essas fotos e desejam felicidades ao novo casal.

A exibi√ß√£o p√ļblica dos momentos cotidianos dos dois e intera√ß√£o constante desses meus amigos e conhecidos nestas publica√ß√Ķes me doem profundamente, apesar de ser polig√Ęmico e poliamorista e, por esta raz√£o, n√£o sentir ci√ļme ou algum outro sentimento possessivo por ele ou por qualquer outra pessoa. Mas o que me deixa magoado nessa breve hist√≥ria foram a falta de di√°logo, as discuss√Ķes e ter sido informado da nova rela√ß√£o por meio das redes sociais.

Com isso, as palavras simplesmente me escaparam por completo e tive de mergulhar em uma jornada de autoconhecimento nos mais diversos campos sociais. O sentimento de vazio estava presente, apesar de seguir com as minhas atividades de milit√Ęncia e ativismo em ritmo normal.

Conflito

A dissid√™ncia em ser um homem habitando um corpo com caracter√≠sticas ainda femininas √© algo que me deixa em desvantagem no quesito rela√ß√£o amorosa e, √†s vezes, sexual. Essa pris√£o corp√≥rea me confronta com a dolorosa realidade de serem as raras vezes atingir a plenitude em um ato sexual por mais que seja moment√Ęnea.

Por esses dias fui em um evento de samba feito por mulheres negras num espa√ßo de resist√™ncia negra, e aquelas m√ļsicas me transportaram para outra dimens√£o. Tentei em v√£o interagir, mas, em sua maioria, l√° estavam l√©sbicas e bissexuais cis, e fui visto com desconfian√ßa e at√© certo rep√ļdio por elas. Os poucos gays que l√° estavam s√≥ interagiam com suas amigas ou estavam acompanhados.

Percebendo o n√£o pertencimento √†quele local, fui embora com a lembran√ßa das boas m√ļsicas e das poucas conversas tidas a fim de ter for√ßas para as atividades agendadas para o dia seguinte.

Ap√≥s as reuni√Ķes fui para um bar no Largo do Arouche ouvir m√ļsicas e observar os frequentadores. Aquele lugar n√£o me pertencia e, em v√£o, tentei expor para alguns contatos de redes sociais minhas dores. At√© que um amigo foi me encontrar e, de l√°, fomos para um barzinho na rua Fradique Coutinho para encontrarmos umas pessoas de um grupo de WhatsApp de poliamor, do qual sou membro.

Poliamor

A decoração do local era muito interessante e divertida por ter como proposta uma certa informalidade. Quando cheguei com meu amigo, avistamos cinco pessoas do grupo que estavam lá preocupadas em exibir uma certa liberalidade. Na compartida do discurso proferido por estes poliamoristas, o padrão cis hétero lá predominava no sentido da aparência física, papéis demarcados de gênero e também aos assuntos vigentes.

No fim da noite, me vi s√≥ e tendo de lidar com a solid√£o, do modelo mais latente de todos. Caminhei at√© a esta√ß√£o de metr√ī, √† frente dos barzinhos e as entradas das boates, e vi aquele mar de gente. Transpareciam enorme felicidade por estarem com roupas descoladas, ao lado de uma pessoa bonita ou rodeados de amigos ou colegas e, mesmo sendo superficiais, estavam acompanhados. De alguma forma, estavam se divertindo, enquanto eu, caminhando sozinho na multid√£o de rostos, seguia para algum lugar que me levasse em seguran√ßa para a casa.

Com a mente entorpecida diante das conversas e reprodu√ß√Ķes de machismo e misoginia ouvidas no encontro, logo pensei no que suportei na escola em que trabalhei para ter uma renda m√≠nima e, assim, sobreviver nessa sociedade capitalista e desumana. Tive s√©rios desgastes psicol√≥gicos, e mesmo em uma conjuntura desfavor√°vel ponderei os pr√≥s e contras antes de me desligar oficialmente daquele emprego.

Seguir a vida

Hoje tenho gana de explorar outras vertentes profissionais, e me lan√ßar a novos desafios sem nenhum tipo de trava que vise me limitar como pessoa ou profissional. As li√ß√Ķes aprendidas nessa pausa de minha coluna no PPQO e de outros projetos s√£o:

  • Por mais que a liberalidade reine em uma determinada conjectura, JAMAIS pense que ela ser√° aplicada a corpos distintos do padr√£o cis heteronormativo enquanto n√£o houver uma sociedade mais igualit√°ria e uma educa√ß√£o que culmine para este cen√°rio. Por isso, temos de seguir na luta apesar das adversidades vindas de todos os lados;
  • Nunca espere que algu√©m lhe respeite ou lhe ame. Se voc√™ estiver disposto a aceitar todo tipo de ofensa e descaso s√≥ para t√™-lo em sua vida;
  • N√£o espere a compreens√£o dos outros com rela√ß√£o aos seus problemas, independente de quais sejam por elas estarem mais focadas em si mesmas. Cabe a voc√™ encontrar um ref√ļgio para tratar seus problemas, seja com um terapeuta ou em centros de apoios como o Centro de Valoriza√ß√£o da Vida;
  • A melhoria em sua vida s√≥ estar√° dispon√≠vel quando voc√™ estiver disposto(a) a repensar suas escolhas e recome√ßar INFINITAS vezes, sem se importar com o julgamento alheio;
  • Por mais dif√≠cil que seja, BUSQUE ocupar a mente com novos aprendizados e novas experi√™ncias. E, dessa forma, estar√° construindo novos alicerces a fim de superar os infort√ļnios que a vida lhe trouxer;
  • JAMAIS aceite qualquer tipo de humilha√ß√£o para ter uma certa seguran√ßa financeira. Saiba que novas oportunidades surgir√£o se estiver disposto(a) a aceit√°-las;
  • Por mais que a conjectura pol√≠tico-social esteja complicada, UNA-SE a coletivos ou grupos, mesmo que a vertente de atua√ß√£o n√£o seja diretamente envolvida com a sua. S√≥ com a uni√£o de diferentes pensamentos e a√ß√Ķes construiremos um pa√≠s igualit√°rio de fato;
  • FACEBOOK e WHATSAPP n√£o s√£o portais de not√≠cias, e nem possuem especialistas te√≥ricos dos mais diversos assuntos. Ent√£o busque m√ļltiplas formas de acessar as informa√ß√Ķes. Em tempo algum acredite em verdades singulares;
  • Observe mais e fale menos. Para, desta forma, captar o que est√° por tr√°s do discurso proferido;
  • Nunca seja emp√°tico com o objetivo de atrair compartilhamentos em seus posts ou simpatia de determinados segmentos sociais;
  • Por mais que deseje o melhor para uma pessoa querida, NUNCA se esque√ßa de seus planos ou projetos para se dedicar completamente a ela;
  • A literatura √© uma boa op√ß√£o para expressar seus pensamentos. Tenha sempre consigo um bloco para anotar seus pensamentos e, com isso, envolver-se neles por completo. E, se preferir outra express√£o art√≠stica, fa√ßa-a sem limit√°-la a qualquer crit√©rio est√©tico;
  • ENTREGUE-SE √† vida por completo sem nenhum tipo de pudor ou receio e, busque a sua felicidade nos pequenos detalhes que ela lhe ofertar.

Publicado originalmente em: http://www.paupraqualquerobra.com.br/2017/04/12/gente-sensacao-nao-pertencimento-luiz-fernando-uchoa/

Luiz Fernando Prado Uch√īa, jornalista, professor de ingl√™s e espanhol, idealizador do blog Arco Iris Liter√°rio, que tem como objetivo difundir literatura LGBT atrav√©s de resenhas liter√°rias, colaborador da revista Sync e Coordenador do N√ļcleo de transmasculinidades da rede fam√≠lia Stronger.

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Onde encontrar: Distro Dysca, Recife (PE)

Entre os mangues e ilhas, a Distro Dysca √© uma plataforma autogestionada de produ√ß√£o cultural, propaga√ß√£o filos√≥fica e agita√ß√£o pol√≠tica, preocupada com a constru√ß√£o de materialidades combativas √† uma sociedade normativa, hegem√īnica e opressora. Cruzando diversas linguagens em perspectiva descolonial, sexodissidente e interseccional, como horizontes imprescind√≠veis para a emerg√™ncia de emancipa√ß√£o, equidade e justi√ßa, aqui e agora.

Com livros, zines, dvd’s, adesivos, postais e outros materiais a distro agiliza a correria com materiais de diversas editoras como Deriva, Subta e Monstro dos Mares. Entre em contato, confira a agenda de eventos e títulos disponíveis.

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