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Treta do frete (envio de livros) 📩

a treta do frete

Treta do frete: porque o rastreamento demora para atualizar?

Os grandes sites de e-commerce habituaram as pessoas a acreditar que s√≥ existem duas modalidades de envios nos Correios: PAC e Sedex. Mas n√£o √© bem assim: essa √© a treta do frete. Quem recebe e envia livros provavelmente j√° se deparou com esses c√≥digos de rastreamento que come√ßam com as letras JN ou RE, que demoram para atualizar. Mas √© assim mesmo que funciona o IMPRESSO na modalidade de REGISTRO M√ďDICO. Esse √© um servi√ßo de envio de materiais impressos para editoras, livrarias, sindicatos, cooperativas, associa√ß√Ķes e pessoas f√≠sicas que precisam de uma modalidade econ√īmica de envio pelos Correios.

No v√≠deo Treta do Frete, dispon√≠vel abaixo, Baderna James apresenta a modalidade de envios utilizada pela Monstro dos Mares, o IMPRESSO. Como funciona? Quais as diferen√ßas entre o Impresso e outras modalidades de entregas? Quem pode utilizar e porque demora tanto para atualizar no Sistema de Rastreamento de Objetos (SRO)? Como a pandemia de coronavirus est√° afetando o dia a dia de atendentes, carteiras e carteiros, operadores de triagem e transbordo (OTT’s) e os prazos de entregas? Antes de falar sobre o pre√ßo do frete, James aproveita para contar uma hist√≥ria envolvendo a sua av√≥, um carteiro e um banco de concreto. O editor tamb√©m d√° dicas importantes sobre como cuidar da sua caixa de correspond√™ncia e como s√£o entregues os pacotes de impressos na sua casa.

Muito se fala sobre uma improv√°vel privatiza√ß√£o dos Correios, mas s√≥ quem n√£o conhece o cotidiano do milagre log√≠stico operado pela EBCT em todos os munic√≠pios brasileiros para dizer uma coisa dessas. Quem compraria os Correios, se j√° existem servi√ßos de entrega de encomendas privados de grandes e pequenas transportadoras? Como um pacote de livros pode atravessar o pa√≠s por apenas 20 reais? √Č l√≥gico que o servi√ßo prestado pela empresa sempre pode melhorar, e poderia at√© mesmo ser mais barato. Mas ser√° que as tarefas de trabalhadoras e trabalhadores que est√£o em afastamento por motivo de sa√ļde est√£o sendo compensadas ou est√£o ficando acumuladas? Ser√° que ser√£o realizados novos concursos ou contrata√ß√Ķes? E a fun√ß√£o de pessoas que est√£o merecidamente buscando aposentadoria, ou que j√° se aposentaram, recebem reposi√ß√£o ou tem algu√©m deixando de contratar para ver a empresa quebrar?

Os Correios j√° foram uma das mais prestigiadas e confi√°veis empresas do pa√≠s e seus servi√ßos costumavam ser reconhecidos por todos. O desmonte dos Correios √© fruto de muitas gera√ß√Ķes de maus gestores, ladr√Ķes que roubaram os fundos de pens√Ķes de trabalhadores e pilantras como o ministro da economia, que pensam que podem vender a empresa a pre√ßo de banana s√≥ para dizer que conseguiu vender alguma coisa. Privatiza√ß√£o √© coisa de ladr√£o!

As amizades que fazem parte da Rede de Apoio recebem os v√≠deos antecipadamente e possibilitam a aquisi√ß√£o e manuten√ß√£o dos recursos t√©cnicos para que mais conte√ļdos sejam criados e disponibilizados em v√≠deo no Youtube e no Podcast da editora. Nosso muito obrigado pelo apoio e um salve especial √†s monas, minas e manos que trabalham nos Correios.

25 de Janeiro, Dia do Carteiro. 💌

Para ouvir no Podcast

Esse e outros episódios você ouve no Podcast da Editora Monstro dos Mares nas principais plataformas de áudio com distribuição pela Anchor.

Para baixar o arquivo de áudio MP3 do episódio do podcast basta clicar aqui.

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Agradecimentos Rede de Apoio e Solidariedade (Dezembro de 2020)

Escrever agradecimentos √†s pessoas que fortalecem a correria do nosso bonde √© o m√≠nimo que podemos fazer. Neste m√™s, conseguimos fazer algo mais: fizemos um encontro, uma celebra√ß√£o (assim, do jeito que d√°, on-line). Chamamos as amizades do conselho editorial e cient√≠fico, da Rede de Apoio e Solidariedade, e tamb√©m algumas pessoas que publicaram conosco em 2020. Essa atividade n√£o teve car√°ter de reuni√£o, afinal, estamos no final de um ano horroroso e estamos felizes que podemos nos encontrar para conversar e saber como cada singularidade est√° atravessando esse per√≠odo. Sim, esse ano foi um triturador. Tudo o que se fez e o que ainda vamos fazer precisa ser entendido e avaliado pelas limita√ß√Ķes desse per√≠odo estranho, n√£o por suas potencialidades. Essa avalia√ß√£o se estende, inclusive, aos nossos afetos.

Ch√° da tarde especial da Rede de Apoio e Solidariedade

O final de ano tamb√©m √© aquela √©poca em que muita gente rememora o que fez durante o ano, em busca de aprendizados. Em 2020 n√≥s decidimos n√£o realizar uma retrospectiva, porque nossa maior vit√≥ria foi seguir existindo. Ao que tudo indica, em 2021 permaneceremos em casa; com isso, decidimos rever fatores importantes de nossa presen√ßa nas redes sociais e de comunica√ß√£o. Voltamos ao Twitter, com mais pessoas ajudando a responder e deixar o perfil mais humano, uma vez que nos √ļltimos tempo apenas o rob√ī cuidava de tudo. Tamb√©m voltamos a enviar not√≠cias por e-mail (newsletter), uma pr√°tica que havia sido deixada de lado em fun√ß√£o da correria do dia a dia.

Estamos felizes em poder contar com uma rede pr√≥xima de pessoas que confia no que fazemos e fortalece o envio de materiais para diversos recantos do pa√≠s. Em 2020, as pessoas que fazem parte da Rede de Apoio da Monstro fortaleceram a distribui√ß√£o gratuita de 821 livros e 1211 zines para coletivos, movimentos, bibliotecas comunit√°rias, okupas, sindicatos, federa√ß√Ķes, pesquisadoras e pesquisadores independentes e acad√™micas. Temos certeza de que parte significativa de nosso esfor√ßo di√°rio em produzir cultura e refer√™ncias de pesquisa √© destinada a ser enviada gratuitamente pelos Correios. Nada disso seria poss√≠vel sem o desprendimento do valor de uma lanche ou uma pizza de algumas pessoas. Com o pouquinho de cada uma, conseguimos fazer muito.

Obrigado por estar conosco em Dezembro de 2020:

  • Ian Fernandez
  • Fyb C
  • Lorenzo
  • Karina Goto
  • Camila
  • Caio
  • Mayumi Horibe
  • Gabriel Jung do Amaral
  • Viviane Kelly Silva
  • R
  • Vitor Gomes da Silva
  • Z√©
  • Leo Foletto
  • Nicolas H Mosko
  • Andressa Fran√ßa Arellano
  • Marcelo Mathias Lima
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  • Guapo
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Agnes Inglis: Bibliotec√°ria Anarquista

Agnes Inglis nunca planejou uma carreira como bibliotec√°ria. Aos 52 anos em 1924, e ap√≥s um per√≠odo de intenso trabalho em prol dos imigrantes radicais que enfrentavam persegui√ß√£o e deporta√ß√£o ap√≥s a Primeira Guerra Mundial, Inglis visitou a biblioteca da Universidade de Michigan para consultar a cole√ß√£o de livros, peri√≥dicos, artigos, recortes e ef√™mera doada por seu amigo Joseph Labadie em 1911. ‚ÄúJo‚ÄĚ Labadie1 foi um l√≠der sindical, reformador social e anarquista individualista que acumulou um grande n√ļmero de materiais documentando a multid√£o de eventos e movimentos dos quais ele participou ao longo de uma carreira de quarenta anos. Inglis encontrou a cole√ß√£o original de Labadie nas mesmas condi√ß√Ķes em que fora doada: ‚Äúem √≥timo estado‚Ķ embora ainda n√£o encadernada‚ÄĚ. (Inglis 1924) Ela decidiu passar um curto per√≠odo de tempo como volunt√°ria na biblioteca desempacotando e separando materiais. Esse curto per√≠odo se transformou em 28 anos de servi√ßo distinto e principalmente gratuito, durante os quais ela n√£o apenas organizou a grande cole√ß√£o, mas a aumentou em cerca de vinte vezes seu tamanho original, e a elevou ao status de que goza hoje entre as bibliotecas que documentam a hist√≥ria e filosofia do anarquismo e outros movimentos sociais e pol√≠ticos radicais. A vida de Inglis como anarquista e bibliotec√°ria nos mostra um excelente caso de intersec√ß√£o entre ideais pol√≠ticos e biblioteconomia.

Agnes Inglis

Nascida como a filha mais nova de uma fam√≠lia abastada de Detroit em 1872, Agnes passou a maior parte de suas tr√™s primeiras d√©cadas em uma casa de fam√≠lia religiosa, conservadora e isolada. Seu pai, um m√©dico not√°vel, morreu quando ela tinha quatro anos. Al√©m de um ano em uma academia exclusiva para meninas em Massachusetts, Inglis passou a juventude cuidando de uma irm√£ doente com c√Ęncer e, posteriormente, de sua m√£e, que morreu antes de Agnes completar trinta anos. Sem mais obriga√ß√Ķes familiares e uma renda substancial, Agnes saiu de casa para viajar e frequentar a Universidade de Michigan, onde estudou hist√≥ria e literatura.

Inglis deixou a escola antes de se formar e passou v√°rios anos como assistente social na Hull House, em Chicago, na Franklin Street Settlement House em Detroit e na Ann Arbor YWCA. Enquanto trabalhava nesses ambientes, ela adquiriu conhecimento √≠ntimo das condi√ß√Ķes injustas de trabalho e vida sofridas por mulheres e homens imigrantes da classe trabalhadora. Ela tamb√©m se tornou c√©tica quanto √† efic√°cia das pol√≠ticas e programas liberais destinados a transformar a vida dos trabalhadores e, subsequentemente, come√ßou a questionar as condi√ß√Ķes sociais, econ√īmicas e pol√≠ticas nos Estados Unidos.

Ao mesmo tempo, Inglis continuou sua educa√ß√£o abreviada informalmente. Ela lia muito e era especialmente atra√≠da e persuadida por escritores revolucion√°rios. Ela assistiu a muitas palestras em Ann Arbor e Detroit dadas por uma variedade de cr√≠ticos sociais, muitos deles anarquistas. Ela conheceu Emma Goldman em 1915 e tornou-se amiga da famosa anarquista, por meio da qual tamb√©m conheceu Alexander Berkman, companheiro e amante de longa data de Goldman. Inglis organizou palestras anarquistas no sudeste de Michigan, come√ßou associa√ß√Ķes e amizades com muitos radicais locais e juntou-se √† divis√£o de Detroit dos Trabalhadores Industriais do Mundo (IWW). Al√©m de seu ativismo, Inglis usou seus recursos financeiros para apoiar generosamente os esfor√ßos radicais, de fundos de greve a dinheiro de fian√ßa para aqueles presos por expressar pontos de vista pol√≠ticos impopulares.

Com o in√≠cio do envolvimento dos Estados Unidos na Primeira Guerra Mundial, Inglis intensificou suas atividades radicais, participando frequentemente de manifesta√ß√Ķes de protesto contra o recrutamento militar obrigat√≥rio e a guerra. Quando o governo reprimiu os radicais que se manifestavam contra a guerra no que ficou conhecido como o primeiro Red Scare (p√Ęnico vermelho), Inglis descobriu que seus recursos eram ainda mais necess√°rios. Junto com os esfor√ßos incans√°veis em apoio √†queles que enfrentavam a deporta√ß√£o, ela tamb√©m pagou fian√ßa para v√°rios indiv√≠duos e contribuiu pesadamente para seus fundos de defesa. Seu apoio de longa data a causas radicais acabou levando sua fam√≠lia a cortar seu acesso ilimitado a fundos e deu-lhe apenas uma renda modesta para viver.

Quando a turbul√™ncia ap√≥s o Red Scare diminuiu, Inglis come√ßou sua carreira na Cole√ß√£o Labadie. Como curadora, Agnes desenvolveu t√©cnicas organizacionais idiossincr√°ticas que, no entanto, forneceram uma estrutura √ļtil para a cole√ß√£o. Ela come√ßou dividindo materiais diversos em amplas categorias de assuntos que resultaram em um sistema de arquivos vertical ainda em uso atualmente. Ela tinha muitos jornais encadernados, incluindo Mother Earth, Regeneration e Appeal to Reason, e compilou recortes e outras coisas ef√™meras em √°lbuns de recortes, lidando com assuntos sobre os quais existia documenta√ß√£o abundante, como Emma Goldman, Haymarket, o IWW, o caso Tom Mooney, e Sacco e Vanzetti. Al√©m disso, ela construiu um cat√°logo de fichas detalhado (tamb√©m ainda em uso) que continha a cataloga√ß√£o em n√≠vel de item da maioria dos materiais da cole√ß√£o, bem como listas de informa√ß√Ķes de indiv√≠duos e grupos que funcionavam como um arquivo de autoridade de nome de baixo n√≠vel.

Agnes Inglis

Embora sua morte tenha deixado alguns mist√©rios sobre a disposi√ß√£o dos materiais na cole√ß√£o, seus esfor√ßos organizacionais restauraram informa√ß√Ķes contextuais aos materiais e os tornaram muito mais utiliz√°veis por pesquisadores. N√£o h√° evid√™ncias de que ela teve ou procurou a ajuda de bibliotec√°rios treinados dentro do sistema de biblioteca; consequentemente, todo esse trabalho foi feito por conta pr√≥pria.

A Inglis teve sucesso em aumentar e ampliar muito o acervo da Cole√ß√£o Labadie. Depois de alguns anos organizando-a, Agnes e Jo enviaram uma carta a 400 radicais pedindo-lhes que contribu√≠ssem com seus materiais documentando eventos e pessoas que conheciam. Embora a carta tenha recebido apenas uma resposta limitada, Inglis a usou como ponto de partida para buscar agressivamente pessoas para doar materiais. Entre as cole√ß√Ķes mais importantes que ela adicionou estavam documentos relacionados a Voltairine de Cleyre, uma anarquista nascida em Michigan e amiga de Emma Goldman, e o escritor socialista John Francis Bray. Ela usou suas extensas conex√Ķes e correspond√™ncia com radicais do per√≠odo, como Goldman, Roger Baldwin, Elizabeth Gurley Flynn e Ralph Chaplin, entre muitos outros, para persuadi-los a contribuir com materiais relevantes. Agnes tamb√©m ajudou muitos indiv√≠duos em suas pesquisas e publica√ß√Ķes, incluindo ajudar Goldman e Chaplin com suas autobiografias, Henry David com o seminal The Haymarket Tragedy e James J. Martin com Men Against the State.

A carreira de Inglis tem significado hist√≥rico para bibliotec√°rios preocupados com quest√Ķes de justi√ßa social por uma s√©rie de raz√Ķes. Sua hist√≥ria √© inspiradora do ponto de vista pol√≠tico porque, uma vez que seus ideais pol√≠ticos foram formados, ela nunca os traiu e os viu como centrais para seu trabalho como bibliotec√°ria. Suas motiva√ß√Ķes vieram explicitamente de sua devo√ß√£o aos ideais da filosofia e da hist√≥ria dos anarquistas e outros radicais de esquerda com os quais ela trabalhou por um mundo melhor e mais justo. Seus compromissos pol√≠ticos muitas vezes trabalharam em benef√≠cio da cole√ß√£o, visto mais explicitamente no uso de suas conex√Ķes para adquirir registros de seus camaradas. Mesmo recentemente, a Cole√ß√£o Labadie recebeu um valioso conjunto de pap√©is de uma mulher que ainda era grata a Agnes por ter libertado seu pai da pris√£o em 1917.

Ela tamb√©m priorizou o uso da cole√ß√£o, chegando ao extremo de emprestar materiais. Quando um de seus tomadores de empr√©stimo danificava ou n√£o devolvia um item, sua natureza gentil e generosa nunca permitiu que ela os acusasse. Ela ficou satisfeita o suficiente com o interesse das pessoas pelos materiais. Uma nota que ela escreveu descrevendo seu empr√©stimo de um livro para um anarquista italiano que vivia na Vig√©sima Alian√ßa em Detroit em 1934 diz que ‚Äúa Vig√©sima Alian√ßa √© dura para um livro raro!‚ÄĚ

Finalmente, seu conhecimento dos indiv√≠duos e eventos daquela hist√≥ria permitiu-lhe coletar, organizar, descrever e fornecer acesso aos materiais da cole√ß√£o com efic√°cia. Certa vez, Inglis escreveu para Emma Goldman: ‚ÄúN√£o √© brincadeira pegar todo esse material e consert√°-lo para que os alunos possam realmente us√°-lo. N√£o √© um trabalho que todos possam fazer. √Č preciso conhecer o material. As pessoas n√£o gostam disso.‚ÄĚ (Inglis 1925) Agnes devotou o ter√ßo final de sua vida √† Cole√ß√£o Labadie, at√© sua morte em 1952. Gera√ß√Ķes de acad√™micos que usaram a cole√ß√£o apreciaram o conhecimento, habilidade e dedica√ß√£o que Agnes Inglis trouxe √† causa de documentar a hist√≥ria dos movimentos pol√≠ticos radicais nos Estados Unidos e sua contribui√ß√£o para essa hist√≥ria √© incomensur√°vel.

Trabalhos citados

  • Inglis, Agnes (1924) Carta para Joseph Labadie, 11 de fevereiro, Joseph Labadie Papers, Labadie Collection, University of Michigan, Ann Arbor.
  • Inglis, Agnes (1925) Carta para Emma Goldman, 19 de mar√ßo, Emma Goldman Papers, Labadie Collection, University of Michigan, Ann Arbor.

Por: Julie Herrada e Tom Hyry
Publicado no Progressive Librarian
Traduzido por DaVinci, revisado por abobrinha.

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  1. Para obter mais informa√ß√Ķes sobre a vida de Labadie, consulte a excelente nova biografia de Carlotta Anderson, All American Anarchist: Joseph A. Labadie e o Movimento Trabalhista (Detroit: Wayne State University Press) 1998. []
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Em 2021, tire a pŐ∂eŐ∂sŐ∂qŐ∂uŐ∂iŐ∂sŐ∂aŐ∂ insurrei√ß√£o do arm√°rio!

Tire sua pesquisa do arm√°rio

Al√©m de ampliar as perspectivas e refer√™ncias da sua pesquisa, a Editora Monstro dos Mares est√° em a√ß√£o para fortalecer a atividade de espa√ßos comunit√°rios, sociais, movimentos, coletivos e singularidades. Atuamos com a vontade de aumentar a felicidade e a autorrealiza√ß√£o das pessoas que fazem parte de nossa iniciativa editorial, tal como daquelas que se relacionam direta ou indiretamente conosco. Isso tudo pode parecer ef√™mero, mas talvez sejam os mais importantes benef√≠cios das atividades que realizamos na editora. N√ļmeros jamais poderiam traduzir a felicidade e a autorrealiza√ß√£o que sentimos ao distribuir livros e zines, mas no dia a dia vivenciamos o impacto mais gratificante de toda a nossa atividade de inspira√ß√£o an√°rquica e autogestion√°ria.

Aprendemos constantemente umas com as outras, e nossa alegria e entusiasmo est√£o na satisfa√ß√£o de interagir e colaborar em bando, realizando atividades e projetos cada vez mais envolventes, conscientes e felizes. Entendemos que a Editora Monstro dos Mares tem como miss√£o a contribui√ß√£o social na valoriza√ß√£o das subjetividades e no enfrentamento aberto ao capitalismo, √† colonialidade e ao patriarcado em todas as suas express√Ķes.

A atividade de fazer livros e zines √© tamb√©m uma forma importante nos esfor√ßos para enfrentar a pobreza e buscar melhorias nas condi√ß√Ķes de vida de toda gente sofrida. Compreender as condi√ß√Ķes mais singelas de ser quem se √©, incluindo sua etnia, sexualidade, identidade cultural, constitui√ß√£o f√≠sica, capacidade e orienta√ß√£o tecnopol√≠tica, fortalece e amplia nossas reflex√Ķes sobre as rela√ß√Ķes de poder sobre os corpos, o adoecimento generalizado, a depend√™ncia financeira daqueles que trabalham, a coopta√ß√£o pol√≠tica de nossas comunidades, tal como os elevados n√≠veis de stress nos meios acad√™micos e as prec√°rias formas de express√£o dos sentimentos e ang√ļstias do nosso tempo. Por tudo isso, ousamos buscar por modos diversos de enfrentamento √† centraliza√ß√£o do poder e as imposi√ß√Ķes normativas do Estado, do grande capital, do judici√°rio, da igreja e da fam√≠lia (abusadores, policiais, patr√Ķes, padres, pastores, ju√≠zes, e maridos tamb√©m!).

Ao realizar processos de publica√ß√£o que disponibilizam ferramentas de autonomia, emergem evidentes chamados √†s pr√°ticas/√©ticas das vidas em perigo, das exist√™ncias que expressam sentimentos conectados √† realidade social de nosso tempo. Linhas, p√°ginas e cap√≠tulos s√£o caminhos pelos quais alcan√ßamos nossos objetivos e desfrutamos das maiores recompensas conhecidas para nossa pequena comunidade editorial: pessoas convivendo umas com as outras de forma dedicada, para uma vida mais criativa e que, ao falarem abertamente de seus problemas em sociedade, buscam solu√ß√Ķes compartilhadas.

Nosso coletivo √© pequeno, somos uma d√ļzia de pessoas que contribuem no conselho editorial e cient√≠fico, duas para fazer todo o resto (imprimir, cortar, colar, grampear…) e, l√≥gico, uma quantidade carinhosa de pessoas da Rede de Apoio e Solidariedade, que muito generosamente nos enchem de carinho e tamb√©m prestam suporte financeiro mensal para seguirmos existindo.

Buscamos com nossas publica√ß√Ķes compreens√Ķes sobre nosso tempo, partindo das cosmovis√Ķes e experi√™ncias pluridiscursivas cotidianas de habitar o lugar, onde se constr√≥i a dimens√£o da experi√™ncia e da pre-sen√ßa do Ser no Mundo. Esse lugar que somos, o s√©culo 21. Aqui, n√£o se trata de negar ou recha√ßar os iluministas, os homens europeus cis brancos e mortos da Europa que estenderam suas teorias at√© os dias de hoje, mas compreender, articular e abrir espa√ßo para que outras vis√Ķes de mundo possam emergir, rumo a um mundo em constante transforma√ß√£o e cheio de possibilidades. N√£o se trata de reescrever o futuro ou o que vir√°, mas abrir-se para o que est√° acontecendo aqui, entre n√≥s.

Esse √© o desafio presente nos esfor√ßos de publica√ß√£o de textos que conseguimos produzir, resgatar ou localizar: desacomodar o horizonte epistemol√≥gico das pessoas dentro e fora da academia a partir de uma perspectiva radical, que enfrenta os discursos daqueles que desejam a nossa morte e/ou mesmo daqueles que pensam que n√£o somos sociais ou, ainda, que acham que dependemos da aceita√ß√£o de qualquer “autoridade” no horizonte das lutas. Somos a luta, nossos corpos s√£o campos de batalha. Somos monas, minas e manos, l√©sbicas, n√£o-bin√°ries, pessoas negras, pardas, gordas, maricas, sapatonas, homens e mulheres trans, povos da floresta, pessoas com defici√™ncias. Somos essa gente com doen√ßas cr√īnicas, com problemas de sa√ļde mental. Somos as pessoas que n√£o se reconhecem nas defini√ß√Ķes limitadas dos r√≥tulos, identidades, partidos e perfis para serem catalogadas no segundo caderno dos jornais. S√£o nossos corpos, nossas vidas, nossas lutas!

Esse é o nosso tempo e ninguém vai nos dizer o que fazer.

Em 2021, tire sua pesquisa insurreição do armário e faça com que ela ocupe todos os espaços da vida, dentro e fora dos muros das universidades.


Mensagens de anos anteriores

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Sobre cuidados e como estamos todos fodidos caso não façamos grandes mudanças (Peter Gelderloos )

peter gelderloos

Mensagem de Peter Gelderloos 31 de Dezembro de 2020

Assim, em teoria, √© o √ļltimo dia de 2020, mas n√£o me surpreenderia se descobr√≠ssemos algum novo tipo de duplo ano bissexto de merda.

2020 tem sido um ano realmente dif√≠cil. A maioria de n√≥s perdeu amigos e companheiros, muitos perderam familiares. Derramamos os nossos cora√ß√Ķes em iniciativas de sobreviv√™ncia expandidas e rebeli√Ķes ardentes, mas ainda n√£o foi suficiente. Ainda n√£o vimos o fim de toda a dor acumulada nos nossos c√≠rculos. Quero agradecer √† d√ļzia de amizades que tornaram poss√≠vel que eu sobrevivesse a este ano, sendo atenciosos e atentos. S√£o os anarquistas mais verdadeiros que conhe√ßo, alguns dos √ļnicos que realmente compreendem a solidariedade e a ajuda m√ļtua. Mas os agradecimentos s√£o in√ļteis se n√£o estivermos abertos √† mudan√ßa.

Refletindo sobre essas amizades, são quase todas mulheres, não brancas e pessoas neuro-atípicas. Peço veementemente a todos que pensem nas pessoas que cuidaram de pessoas em seus círculos (se você é uma delas, dê a si próprio um pouco de amor). Os homens e as pessoas neurotípicas precisam se comprometer com isso. O cuidado é uma habilidade para toda a vida. Ninguém vai aprender isso num só dia. Mas há algo que podemos mudar AGORA e temos de mudar se não quisermos que as nossas (pseudo)comunidades caiam e ardam em trauma, depressão e pobreza no próximo ano.

Para quem voc√™ olha como o alicerce da sua comunidade/c√≠rculo, aquela pessoa cuja orienta√ß√£o voc√™ procura para estabelecer normas sobre como se comunicar, resolver conflitos, lidar com aqueles que sofrem, moldar o espa√ßo social? √Č melhor que sejam aquelas pessoas em quem pensou (que pertencem ao teu c√≠rculo). Devem ser aqueles que todos ouvem enquanto constru√≠mos as nossas comunidades/c√≠rculos.

N√£o deveria ser o acad√™mico a citar Agamben, o amigo que te ensina a atirar, o que tem contatos em todo o mundo, o babaca que escreve livros, o que faz as melhores festas (a menos que sejam tamb√©m o que se ocupa das pessoas, j√° que somos todos multifacetados). Todos esses outros tipos t√™m algo a oferecer em momentos importantes de luta (exceto as festas, bah humbug!)1 . Mas, na maioria das vezes, √© para eles que damos poder para estruturar as nossas comunidades e √© por isso que temos cenas produtivistas, militaristas, dogm√°ticas ou baseadas na popularidade. E estes s√£o completamente incapazes de lidar com estafa (burnout) e traumas, ou de centrar as rela√ß√Ķes na sobreviv√™ncia coletiva, que √© a caracter√≠stica que define uma comunidade real.

Uma teoria anarquista do poder reconheceria e valorizaria cada atividade que cria a nossa liberdade e bem-estar, deveria celebrar a experiência daqueles que a têm e encorajar cada um a desenvolver as suas próprias forças.

Em vez disso, exploramos e marginalizamos aquelas de quem mais dependemos para a nossa sobrevivência coletiva. Metade das pessoas com quem se pode contar para o sustento têm estado à beira do suicídio este ano. Quero mandar um sincero foda-se a todos os que não têm pensado nisso (em cuidar) e que continuam a construir as nossas comunidades falhas em torno de todas as lógicas erradas. Vão à merda. Comprometam-se. Se ainda não perceberam que a nossa sobrevivência está em risco, saiam já daqui.

Todo o meu amor para as pessoas que têm carregado todo esse fardo. Sim, todo o meu amor para as pessoas que têm estado na linha da frente, organizando protestos, escrevendo e debatendo. Sabendo, simplesmente, quando brilhar e quando segurar outra pessoa.

Finalmente, do fundo do meu ser, uma maldi√ß√£o imortal para os dois tipos de “camaradas” que, na minha perspectiva, t√™m sido os mais prejudiciais. Aqueles que ajudam os abusivos, evitam cr√≠ticas ou consequ√™ncias, que se fazem de neutros, giram o moinho de rumores porque t√™m muito medo de falar cara a cara. E, pol√≠ticos do movimento que imp√Ķem suas ideias de classe m√©dia do que √© poss√≠vel acima do que as pessoas realmente precisam numa situa√ß√£o potencialmente revolucion√°ria; desde greves de alugu√©is a rebeli√Ķes anti-pol√≠cia. Que sofram uma infelicidade sem fim ou uma autoconsci√™ncia aguda dos danos que causaram.

Mas sim, amor para todos os outros.

Por favor, fa√ßa com que os seus amigos leiam isto, especialmente os produtivistas ou os legalz√Ķes (fadas sensatas da viol√™ncia e das alian√ßas)

√Č isto, tchau.


Tradução e revisão: Absort0, Fernando, abobrinha.


  1. Nota: Expressão utilizada pelo personagem Ebenezer Scrooge, de Charles Dickens, que se tornou símbolo de sua rabugice []
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Isso não é uma retrospectiva (2020)

Queremos enviar um caloroso abra√ßo para monas, minas e manos que estiveram conosco nesse ano. Recebemos muito carinho, apoio e solidariedade de diversas amizades que se preocupam com nossa exist√™ncia, perman√™ncia e continuidade. Num momento especialmente dif√≠cil, nessa pandemia sem precedentes, as pessoas enviaram mensagens para saber como est√°vamos e se havia alguma necessidade urgente. Valeu mesmo! Percebemos que essa ideia de cuidado se amplificou e ganhou espa√ßo em todos movimentos. Atividades radiantes! Compas fizeram a√ß√Ķes, campanhas, publica√ß√Ķes, lives, rifas, distribui√ß√£o de comida, mutir√Ķes de desinfec√ß√£o de suas comunidades, muita movimenta√ß√£o para fortalecer nossa gente.

Continuaremos lutando para derrubar os abusos da centraliza√ß√£o do poder, do estado, das igrejas, abusadores, ju√≠zes e patr√Ķes.

Esquecer 2020 será um bom começo. Para muitas pessoas, porém, isso não será possível, pois esse ano horrível já tirou muita coisa de nós.

Entramos em distanciamento social no dia 11 de Março, praticando um severo isolamento desde então. Cancelamos a participação da Monstro dos Mares em qualquer evento presencial até que haja imunização em massa, para todas as pessoas. Não queremos participar de eventos que sejam apenas para alguns e algumas. Que a imunização se faça o quanto antes, ainda que no estado ocupado por essa milícia de mal-intencionados isso possa levar muito tempo.

Seguimos abrindo caminhos de liberdade através dos tempos sombrios. Estamos esticando os braços, arregaçando as mangas e partindo para um outro tempo, um novo capítulo. O mundo como o conhecemos até agora deixará de existir (ainda bem!). Caberá à nossa autonomia e autodeterminação que o ano que se avizinha traga outros ares, nuvens de compartilhamentos, mares de solidariedade entre nós, ventos que fortaleçam todos os bandos. Que essas águas façam brotar sementes de resistência no solo fértil das lutas do campo e da cidade e tragam coragem e força para derrubar o inimigo.

Sigamos! Cada qual tocando o barco, em uni√£o de prop√≥sitos nas mais diversas pr√°ticas e horizontes te√≥ricos fazendo enfrentamento, livros, m√ļsicas, florestas, alimentos, bicicletas, lutas, culturas e celebra√ß√Ķes.

Livros e Anarquia!
Editora Monstro dos Mares
Dezembro de 2020

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Contra-universidades

Excerto do capítulo VI do livro Entre cuadernos y barrotes publicado pela Editora Cultura y Sociedad, na cidade de Lima, em setembro de 1999.

Tradução de Mauricio Knup.

Com frequ√™ncia se contrap√Ķe a atividade universit√°ria √† atividade escolar, como se esta fosse um grande salto √† frente e tivesse caracter√≠sticas qualitativamente diferentes. Inclusive, apresenta-se a universidade como o espa√ßo de onde brotar√£o solu√ß√Ķes e alternativas para os grandes problemas de nosso tempo. Dessa maneira, oculta-se, com um otimismo necessariamente envolvido por uma mentira astuta ou mesmo simples idiotice, o fato de que nas universidades, assim como nas escolas, persiste toda uma concep√ß√£o autorit√°ria de vida, hor√°rios rigorosos a serem cumpridos, exames, notas, aprova√ß√£o e reprova√ß√£o, uma verticalidade mofada que nenhuma sala de aula moderna e com ilumina√ß√£o natural pode esconder; √†s vezes, at√© pequenas mudan√ßas de hor√°rios e controle de frequ√™ncia de estudantes, professores que, apesar de n√£o passarem fome de maneira miser√°vel quando n√£o est√£o protagonizando uma aula vertical e autorit√°ria que pretendem que seja magistral, na maioria das vezes s√£o os mesmos que n√£o t√™m escr√ļpulos em recorrer √† vergonha da c√≥pia e da reprodu√ß√£o.

A universidade mant√©m intacta a fun√ß√£o repressiva, mas faz isso em um est√°gio mais avan√ßado. Nem sempre se precisa recorrer a tanques e interven√ß√Ķes militares; geralmente, √© suficiente para ela manter a fic√ß√£o da gest√£o compartilhada, um simulacro de democracia no qual estudantes d√≥ceis que adquiriram o mau h√°bito da pol√≠tica representativa e que, atrav√©s da forma√ß√£o de diret√≥rios acad√™micos e similares, possibilitar√£o n√£o uma democracia direta e assembleias, mas a cria√ß√£o de m√°fias e grupos de poder, a exist√™ncia de um alto sigilo burocr√°tico, a perpetua√ß√£o de um regime no qual voc√™ deve pedir permiss√£o at√© para colocar um cartaz na parede; tudo isso, em conjunto com uma f√≥rmula legal que pro√≠be atividades extra-acad√™micas, faz com que qualquer atividade independente ou aut√īnoma capaz de produzir conhecimentos para al√©m do saber oficial seja censurada ou desencorajada.

David Cooper compara a universidade a um hospital psiqui√°trico:

‚ÄúO design exterior √© bastante semelhante: o bloco administrativo e v√°rios departamentos, vilas, laborat√≥rios, terapia ocupacional e tudo mais. Algumas universidades t√™m cercas e porteiros para controlar aqueles que entram e saem. A ironia disso est√° em que provavelmente ningu√©m entra e certamente ningu√©m sai. As duas institui√ß√Ķes est√£o cheias de preocupa√ß√£o fingida dos ‚ÄėProtetores‚Äô sobre os ‚Äėprotegidos‚Äô. Ambas s√£o boas almas (alma mater), de cujos seios brota um antigo veneno, sedativos de todos os tipos conceb√≠veis, desde a p√≠lula precisa para o paciente preciso at√© o trabalho exato para estudantes exatos.‚ÄĚ1

As universidades se apresentam, em caros an√ļncios de televis√£o, como o reino do conhecimento e da vida intelectual, mas est√£o presas pela esclerose de sua maneira pretensiosa e dogm√°tica de conceber e produzir um conhecimento que desejam universalmente v√°lido. Ignora ou despreza a sabedoria de dissidentes como Feyerabend, que afirma que o progresso cient√≠fico s√≥ √© poss√≠vel quando certas regras ‚Äú√≥bvias‚ÄĚ s√£o violadas volunt√°ria ou involuntariamente, e acrescenta que, onde a raz√£o √© ditada pela norma, ‚Äúos cientistas precisam desenvolver e sustentar suas teorias irracionalmente; n√£o h√° regras gerais para estabelecer a verdade; vale tudo.‚ÄĚ2

As universidades tamb√©m t√™m, obviamente, interesses monet√°rios importantes, objetivos claros de domina√ß√£o social e agem de acordo com as normas ditadas pelo mundo do trabalho assalariado. Levando tudo isso em considera√ß√£o, as universidades s√≥ podem ser √ļteis pelas estruturas que muitas vezes proporcionam (bibliotecas, ambientes diversos, salas de confer√™ncias, restaurantes universit√°rios, salas de computadores, galerias) e que, para fins contr√°rios aos seus prop√≥sitos originais, podem ser subvertidos e usados por estudantes e n√£o-estudantes, ansiosos para explorar as margens do conhecimento, o subsolo da vers√£o oficial, sabendo, assim como Bachelard, que ‚Äúpensar √© sempre pensar contra‚ÄĚ3

A respeito do pensamento, essa atividade t√£o desencorajada por toda pr√°tica educacional, incluindo as universidades, diz Viviane Forrester:

“N√£o h√° atividade mais subversiva ou temida. √Č tamb√©m a mais difamada, o que n√£o √© acidental nem sem import√Ęncia: o pensamento √© pol√≠tico. Isso n√£o √© restrito apenas ao pensamento pol√≠tico. O pr√≥prio pensar √© pol√≠tico. Da√≠ a luta insidiosa e, portanto, a mais eficaz e mais intensa em nosso tempo, contra o pensamento. Contra a capacidade de pensar.‚ÄĚ4

Como provocar o pensamento, a capacidade de ler nas entrelinhas, o exerc√≠cio exultante de lucidez e cr√≠tica? Como incentivar, permitir inova√ß√£o, descoberta, cria√ß√£o de conhecimento que serve para viver, quando s√≥ √© poss√≠vel existir vida fora do sistema mercadol√≥gico? Agust√≠n Garc√≠a Calvo renuncia ao t√≠tulo de fil√≥sofo ao consider√°-lo desacreditado e absolutamente assimilado pelo sistema((Agust√≠n Garc√≠a Calvo assinala que ‚Äúa prova da extrema prostitui√ß√£o da palavra filosofia √© a de que os at√© os executivos t√™m sua pr√≥pria filosofia: a filosofia da empresa‚ÄĚ. N√≥s acrescentar√≠amos a este exemplo, como forma de provar a mesma prostitui√ß√£o, o caso de Federico Salazar, fil√≥sofo liberal que comenta, com mais sal√°rio que dignidade, desfiles de moda no notici√°rio matinal do Canal 4 de TV.)) e prefere, se for necess√°rio, o t√≠tulo menos profissional e gasto, menos formatado e definido e, portanto, mais livre, de pensador. A cria√ß√£o de contra-universidades, lugares aut√īnomos onde pensadores, estudantes e professores convergem interessados em quebrar a monotonia, a rigidez acad√™mica e a pobreza, onde o conhecimento deixa de ser ‚Äúensinado‚ÄĚ para ser uma cria√ß√£o comum ou, ao menos, uma descoberta individual de uma possibilidade comum, a n√£o ser que o pr√≥prio acordo m√ļtuo solicite uma interven√ß√£o docente em mat√©ria de ordem t√©cnica, pode ser uma alternativa v√°lida √† morte da universidade.

Diz D. Cooper:

‚ÄúO que proponho √© uma estrutura m√≥vel, totalmente n√£o hier√°rquica e em revolu√ß√£o cont√≠nua, capaz de gerar revolu√ß√£o al√©m dos limites de sua estrutura. A universidade (ou o que no atual momento da hist√≥ria deveria ser chamado de anti-universidade, contra-universidade, universidade livre ou algo semelhante) seria uma rede muito ampla. As c√©lulas funcionariam dentro de uma universidade oficial como um ant√≠doto para o sistema, de forma muito independente.‚ÄĚ5

Essas estruturas informais, completamente desprovidas dos v√≠cios daquela esquerda que se submete √† din√Ęmica e l√≥gica da pol√≠tica autorit√°ria, desprezando completamente o poder e criando apenas uma organiza√ß√£o m√≠nima para funcionar, provavelmente seriam consideradas suspeitas ou mesmo ilegais pelas autoridades acad√™micas, o que nos mostra a sa√ļde vigorosa do cad√°ver universit√°rio e, portanto, a necessidade desses casos de resposta e cr√≠tica.

Se a cria√ß√£o desses espa√ßos aut√īnomos n√£o for poss√≠vel, seja devido √† repress√£o autorit√°ria ou porque n√£o ocorreram encontros felizes com as pessoas necess√°rias para concretiz√°-las ‚Äď dados os interesses cada vez mais estreitos e previs√≠veis das novas gera√ß√Ķes; se mesmo as interven√ß√Ķes pessoais em sala de aula n√£o s√£o mais vi√°veis com a inten√ß√£o de provocar algum debate, devido ao torpor e retalia√ß√£o gerais, e se a perspectiva de um horizonte de exames e aulas massacrantes √© insuport√°vel, o √ļnico recurso para salvaguardar a integridade pessoal parece ser abandonar formalmente o antro universit√°rio, de maneira solit√°ria e silenciosa, estrelando o que aos olhos do mundo parece um abandono inexplic√°vel.

  1. David Cooper, La muerte de la familia, Editorial Planeta, México 1986. []
  2. P. Feyerabend., Tratado contra el método, Ediciones Orbis, Barcelona 1984. []
  3. Citado por Jes√ļs Garc√≠a Blanca, en ‚ÄúNo somos nada‚ÄĚ, revista Ekintza Zuzena No 19, Bilbao 1996. []
  4. Viviane Forrester, El horror económico, F.C.E., Buenos Aires 1997. []
  5. David Cooper, La muerte de la familia, op. cit. []
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Apresenta√ß√£o de “Abaixo ao trabalho 2¬™ edi√ß√£o” por Baderna James

Abaixo ao trabalho
Imagens da primeira e segunda edição

A segunda edi√ß√£o de Abaixo ao Trabalho √© uma homenagem, uma sauda√ß√£o e lembran√ßa muito querida de um t√≠tulo que circulou durante muitos anos em v√°rios meios gra√ßas a atua√ß√£o da editora Deriva, um coletivo editorial que apresentou a toda uma gera√ß√£o, a possibilidade de realizar livros artesanais de baixo custo sem depender da ind√ļstria gr√°fica e sem amargar com tiragens gigantes.

A experi√™ncia de escolher os textos, format√°-los e colocar ‚Äúpra rodar‚ÄĚ √© o que forma uma editora. Essa tarefa vem acompanhando coletivos de inspira√ß√£o an√°rquica ao curso da hist√≥ria. √Č poss√≠vel citar um sem-n√ļmero de iniciativas genuinamente artesanais que estiveram presentes na forma√ß√£o de leitores dissidentes e libert√°rios. Coletivo Sabotagem, Barba Ruiva, Deriva, Nenhures, Index Librorum Prohibitorum, Erva Daninha, s√£o algumas dessas editoras que colocaram na pista livros feitos um a um, manualmente, nos mais diversos formatos e materiais.

Atualmente, algumas editoras como Imprensa Marginal, Contraciv, Fac√ß√£o Fict√≠cia, Subta e Monstro dos Mares est√£o em movimento a mais tempo, saudando e inspirando o surgimento de diversas editoras artesanais que se chegam como a Terra Sem Amos (TSA), Adand√©, Amanaj√©, Edi√ß√Ķes Kisimbi, Lampi√£o, Insurg√™ncia, Correria e outros tantos projetos que florescem nos diversos recantos do pa√≠s.

Relembrar e homenagear a movimenta√ß√£o de compas que fizeram livros com as pr√≥prias m√£os e celebrar a chegada de tantos outros coletivos nos d√° a certeza de que √© poss√≠vel apropriar-se das t√©cnicas e das tecnologias que comp√Ķem a produ√ß√£o de livros e zines. Publicar os textos que percorrem o nosso tempo com observa√ß√Ķes e an√°lises, pesquisas e investiga√ß√Ķes, relatos e estudos, comp√Ķem um conjunto de pr√°ticas significativas para formar um retrato da perman√™ncia das ideias de autonomia, liberdade, auto-organiza√ß√£o e colabora√ß√£o na luta contra todas as formas de opress√£o.

Anarquistas, libert√°rias, aut√īnomas, an√°rquicas, cr√≠ticas, dissidentes ou insurgentes, independente das cores e das tintas de cada coletivo editorial artesanal de ontem e de hoje, Abaixo ao Trabalho retorna √†s ruas, para circular de m√£o em m√£o, aproximando pessoas, movimentos, coletivos, grupos e bandos em torno de suas ideias: uma cr√≠tica genu√≠na √† ideia de trabalho.

Muitas das pessoas que tocam projetos editoriais artesanais j√° desistiram da possibilidade de se manterem em empregos horr√≠veis, trocando suas liberdades por um sal√°rio no final do m√™s. O livro que voc√™ tem em m√£os, re√ļne n√£o apenas um conjunto de ideias, mas espectro de experi√™ncias que (re)afirmam a possibilidade de que h√° diversos modos de multiplicar e se somar as lutas do nosso tempo.

Faça livros, multiplique!

Baderna James, Outubro de 2020.


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Agradecimentos Rede de Apoio: Novembro de 2020

Agradecemos √†s pessoas que apoiam nosso projeto editorial a continuar imprimindo livros e zines para enviar aos mais diversos recantos do pa√≠s. Neste m√™s de Novembro nossas amizades est√£o acompanhando nosso processo de adapta√ß√£o ao novo espa√ßo, manuten√ß√£o da guilhotina que exigiu tempo e esfor√ßos, e muitos, sim, muitos pacotes acumulados para serem enviados. Estamos quase conseguindo normalizar todas as entregas e por isso queremos agradecer muito a essas pessoas, porque o apoio mensal se trata bem mais do que o recurso financeiro, que √© muito significativo pra exist√™ncia da editora: √© a certeza de ter pessoas que confiam e acreditam na import√Ęncia do que decidimos fazer para multiplicar as ideias de autonomia e liberdade para todas as pessoas na luta social.

Com isso agradecemos muito gentilmente:

  • Viviane Kelly Silva
  • Vitor Gomes da Silva
  • Nicolas Mosko
  • Andressa Fran√ßa Arellano
  • Marcelo Mathias Lima
  • Fernando Silva e Silva
  • Thiago de Macedo Bartoleti
  • R.
  • Mauricio Marin Eidelman
  • Lupi
  • Paulo Oliveira
  • Anna Karina
  • Victor Hugo de Oliveira
  • Andrei Cerentini
  • Claudia Mayer
  • Karina Goto
  • Felipe Siles
  • Leonardo Goes
  • Gabriel Jung do Amaral
  • Mayumi Horibe
  • Lua Clara Jacira
  • Fyb C
  • Leo Foletto
  • Guapo
  • M√°rcio Massula
  • Contribui√ß√Ķes an√īnimas

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[Live de lançamento] Zumbi dos Palmares: por uma educação antirracista

Ol√° amizade! Enfim entramos na “era das lives” e queremos que voc√™ venha participar de nossa primeira transmiss√£o ao vivo para lan√ßamento de livros. No dia 9 de Dezembro, √†s 20h, vamos conversar com Waltinho Vadala, autor de “Zumbi dos Palmares: por uma educa√ß√£o antirracista”. Lan√ßado atrav√©s de financiamento coletivo pela Monstro dos Mares, est√° sendo distribu√≠do para onze espa√ßos de educa√ß√£o e luta antirracista.

Coloque na agenda ūüôā

Lan√ßamento “Zumbi dos Palmares: por uma educa√ß√£o antirracista”
9 de Dezembro de 2020, 20h.
Instagram da editora @monstrodosmares

Apresentação

Assim como Zumbi, por meio da luta e da resist√™ncia o movimento negro tem entre suas maiores conquistas a Lei 10.639/2003, que torna obrigat√≥rio o ensino da cultura afro-brasileira e africana nas escolas p√ļblicas e particulares de todo o Brasil.

Por isso, a história de Zumbi dos Palmares tem todo o necessário para levar o educando à compreensão de como a cultura afro-brasileira e africana é fundamental na formação da identidade cultural brasileira, e de como o educador pode questionar e combater as estruturas eurocêntricas históricas que ainda permanecem intrínsecas à maneira que se conta a história negra dentro das escolas. Este é o intuito principal deste livro. Segue, então, uma análise de como o movimento negro se mobilizou ao longo do século XX para obter uma das maiores conquistas afro-brasileiras na educação: a inserção da sua história e da história de suas raízes africanas no currículo educacional do país.

O movimento negro √© a organiza√ß√£o do povo afro-brasileiro na constru√ß√£o do combate ao racismo na educa√ß√£o brasileira. Ele serve de exemplo te√≥rico metodol√≥gico para os educadores superarem o ‚Äúracismo hist√≥rico‚ÄĚ que ainda se reflete na educa√ß√£o brasileira e influencia principalmente no processo de constru√ß√£o da identidade do educando negro, que n√£o se v√™ representado na forma√ß√£o cultural brasileira. Por mais que a teoria explique que a identidade brasileira se forma com a cis√£o das culturas europeias, ind√≠genas e africanas, apenas a cultura branca √© descrita na hist√≥ria. Entretanto, a partir do momento que temos um her√≥i negro que luta pela liberdade mesmo estando √† margem do sistema, esse aluno se v√™ representado e culturalmente pertencente a essa identidade brasileira.

O autor

Nascido na d√©cada de 90 e criado na cidade de Tabo√£o da Serra, em S√£o Paulo, neto de nordestinos e bisneto de imigrantes da S√≠ria e da It√°lia, Walter Vadala √© professor do Estado de S√£o Paulo desde 2013. Por op√ß√£o, leciona nas √°reas mais perif√©ricas. √Č historiador com p√≥s gradua√ß√£o em e Psicopedagogia, Arte e Cultura Afro-Brasileira e Ind√≠gena, e atualmente estudante de Ci√™ncias Sociais. Fundador do Coletivo Cultura Viva, um movimento de propaga√ß√£o das culturas ind√≠genas da Am√©rica atrav√©s de eventos culturais e produ√ß√Ķes audiovisuais, produziu e lan√ßou em 2019 um document√°rio sobre como os Guaranis transmitem seus conhecimentos origin√°rios para suas crian√ßas atrav√©s do canto. O document√°rio √© intitulado ‚ÄúVozes Guarani‚ÄĚ.