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“Anarquismo é criar bibliotecas”

anarquismo é criar bibliotecas

Para alguns, ser anarquista também é lutar contra o estigma da violência. No caso de Toby, responsável pela biblioteca anarquista mais antiga do México, a luta imediata é humanizar nossas formas de convivência. “O que você ganha quebrando uma vitrina? Amanhã vão colocar outra”, questiona.


CIDADE DO MÉXICO – Toby detém uma das maiores coleções bibliográficas sobre anarquismo no continente. O homem, na casa dos cinquenta, é anarquista e pacifista até a medula, o que para ele é o mesmo. Seus óculos têm a rigidez de um arame e ele parece dispensar quase tudo, até mesmo o sobrenome: insiste que eu o cite como “Toby da Biblioteca Reconstruir”.

A Biblioteca Social Reconstruir foi fundada pelo anarquista Ricardo Mestre, refugiado da Guerra Civil Espanhola que em 1976, nos anos da mais dura perseguição política ao Partido Revolucionário Institucional (PRI), abriu uma biblioteca pública com seus livros. Mestre faleceu e agora Toby cuida da livraria localizada a algumas ruas da estação do metrô La Raza, ao norte da Cidade do México.

Na entrada, que é aberto ao público, há uma placa proclamando “Liberdade e não-violência”. Quando pergunto a Toby Sem Sobrenome por que paz? ele conta a seguinte história:

Nos anos em que Mestre esteve na Espanha, os donos da fábrica onde ele trabalhava contratavam fura-greves para arruinar uma greve de trabalhadores. Os confrontos viraram até tiroteios. Em uma ocasião, Mestre atirou contra um fura-greve que ficou apenas ferido.

Anos depois, numa turnê de propaganda, ele foi questionado por alguns participantes sobre seu local de origem. O Mestre respondeu que era de Villanueva y Geltú, ao que um dos presentes respondeu que aquele lugar trazia lembranças ruins, pois em uma época em que sua família estava literalmente morrendo de fome lhe ofereceram um péssimo emprego e a necessidade o fez aceitar, mas ele descobriu que teve que enfrentar alguns grevistas e nos tumultos foi espancado, perseguido e que tomou um tiro.

O Mestre percebeu que tinha sido o homem que atirou nele e em suas memórias reflete: “Como é possível que nós anarquistas tenhamos matado um homem por causa de coisas materiais? Fomos capazes de matar um homem que entrou no conflito, não por ser um traidor, mas por causa da fome, por causa da miséria?”.

O Mestre entendia o anarquismo de uma perspectiva muito mais ampla: se os fins eram bons, os meios tinham que ser bons, explica Toby.

Toby, na Biblioteca Social Reconstruir.
Toby, na Biblioteca Social Reconstruir. Foto: José Ignacio de Alba.

— Como você explicaria o anarquismo para alguém que não conhece o termo?

As pessoas não entendem bem o conceito e a imprensa ou o Estado se encarregam de dizer que anarquismo é caos, desordem, quando significa o contrário. O anarquismo cria uma sociedade organizada sem governo, ou seja, há organização. Basicamente, quando surge um problema, discutimos juntos, o que é acompanhado por uma ação direta; existe um problema, nós resolvemos nós mesmos, sem intermediários.

— Tem gente que associa a ação direta com a violência, e não é bem assim né?

Não, não, não. Ação direta é quando você tem um problema de criminalidade na vizinhança, ou com o lixo, qualquer coisa. Você cria um acordo com os vizinhos e eles arrumam na hora, ou seja, ação direta. É como se você quisesse sair com uma garota, você não vai dizer ao seu amigo “veja se ela quer sair comigo.” Não! Você vai pessoalmente fazer as coisas, isso é ação direta. Sempre foi assim, no anarcossindicalismo é o trabalhador que vai direto no patrão: essas são as nossas condições! Sem ter um advogado que vai falar por eles. A ação direta é para aqueles envolvidos em resolver seus próprios problemas.

Toby explica que o anarquismo chegou ao México em 1861 com o grego Plotino Rhodakanaty, que fundou o grupo Estudantes Socialistas, onde floresceram diferentes movimentos. Um dos participantes mais proeminentes era Julio Chávez López, que organizou uma revolta camponesa em uma área entre Chalco e Puebla.1 Os rebeldes queimaram terras e títulos de propriedade até que o movimento foi suprimido militarmente e Chávez López foi fuzilado.

— Este movimento influenciou a Revolução?

— Não, porque o problema do México e de toda a humanidade é que a memória se perdeu, não há continuidade; Além disso, o Porfirismo2 foi encarregado de apagar a história dessas rebeliões.

O anarquismo no México voltou a florescer no século 20, com os irmãos Flores Magón, Librado Rivera, Práxedis G. Guerrero, entre outros. Aqueles eram os tempos da Revolução e do jornal anarquista Regeneração que circulou em várias cidades. O Partido Liberal Mexicano lutou em vários lugares, a popularidade do anarquismo causou seu isolamento com outros revolucionários, como o Francismo I. Madero.

Toby explica que a Constituição em vigor no México, desde 1917, tem vários elementos anarquistas. Por exemplo, as jornadas de trabalho de 8 horas, o dia de descanso e a autonomia municipal são elementos magonistas.

— Qual é a situação do anarquismo no México?

— Atualmente as cidades são muito grandes, são poucos os que lutam pelo anarquismo. Isso indica que vai dar muito trabalho. Mais do que perfeição, buscamos mais elementos de liberdade. Se tivéssemos força para derrubar o Estado e poder nos apropriar dos meios de produção, o faríamos; Mas enquanto não podemos, estamos formando espaços: criamos bibliotecas, promovemos a pedagogia libertária, apoiamos grupos que fazem rádios livres, localizamos gente que têm espaços ociosos na comunidade. Estamos criando espaços e procurando uma maneira de levar o anarquismo a coisas muito básicas. Por exemplo: anarquismo é criar bibliotecas.

— Que avaliação você faz do que aconteceu no dia 2 de Outubro com a violência durante o protesto?3

— Quando alguém quebra uma vidraça, pergunto: “O que você ganha quebrando uma vitrina? Amanhã vão colocar outra”, questiona. Essas cenas ficam boas apenas nas fotos, mas isso não faz a menor diferença. A violência se torna uma espécie de carnaval, onde as pessoas gritam “Morte ao Estado!” e depois voltam à normalidade. Temos que repensar a eficácia do que fazemos agora. É na mente e no coração que devemos fazer a mudança, antes de usar armas.

Toby garante que as pessoas mais violentas durante as marchas são as primeiras a sair do anarquismo, “porque você não vai vencer um Estado de violência com sua suposta violência”. Além disso, ele garante que as pessoas que agem com violência durante as marchas tendem a ter “ideias burguesas” sobre o anarquismo, e agem como o Estado quer concebê-las.

— Como você traz o anarquismo para a vida diária?

— Tornando as coisas que você faz todos os dias mais humanas.

Toby recomenda a leitura de Ideologia anarquista de Ángel J. Capelleti para quem deseja saber mais sobre o assunto.

Texto: Ignacio de Alba
Fotos: Daniel Lobato e Ignacio de Alba
Publicado em Pie de Pagina em 6 de Outubro de 2019
Tradução: DaVinci
Notas, revisão e versionamento: Baderna James


Importante

Nota da Monstro dos Mares: Podemos não concordar com as ideias de Toby sobre alguns temas, mas concordamos plenamente que é necessário e urgente criar mais espaços sociais comunitários como o hacklab, a rádio livre e a biblioteca, independentemente de qualquer divergência.

  1. Nota da edição: Puebla, oficialmente Heroica Puebla de Zaragoza, é um município do México, capital do estado de Puebla. []
  2. Nota da edição: O Porfirismo na história do México, é o período de 30 anos durante o qual governou o país o general Porfirio Diaz. []
  3. Nota da edição: Grandes protestos em memória aos 51 anos (2019) do Massacre de Tlatelolco, onde militares abriram fogo contra centenas de estudantes e civis que protestavam contra a realização dos Jogos Olímpicos de 1968 na Cidade do México. []
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Onde encontrar: Adágio Anarco Livros, Belo Horizonte, MG.

A cada semana a Monstro dos Mares divulgará banquinhas e livrarias que distribuem nossas publicações e espaços comunitários onde é possível consultar os livros e zines. Não é a tarefa mais simples decidir a ordem em que essa listagem será publicada, então decidimos abraçar o caos e permitir que o nome venha, que possa emergir por sua própria natureza em cada semana.

Agradecemos imensamente todos os espaços comunitários e libertários que se achegam para receber nossos livros e zines em suas bibliotecas, fazemos questão de enviar um pacote e quando possível um pacotão. Dependemos basicamente dos apoios em nossa Rede de Apoio para fortalecer as impressões e correios desses materiais, então com um pouco de paciência, demora um pouquinho mas chega.


Adágio Anarco Livros

As amizades da Adágio Anarco Livros entraram em contato conosco para distribuir nossos livros e zines em Belo Horizonte (MG) e ficamos felizes em poder contar com a boa vontade de compas em colocar a banquinha na rua, fazer o corre de carregar livros pra lá e pra cá. Só quem já fez essa fita de chegar cedo no evento e sair tarde carregando um monte de material sabe o quão valioso é o bonde de quem a “feira” acontecer. Pois não existe uma feira de livros sem livros, sem banquinhas, livreiros e editoras presentes. Por isso nosso máximo respeito a monas, minas e manos que puxam esse barco. É nóis!

Além dos livros e zines novos de editoras anárquicas e anarquistas, a Adágio leva seu tempo, moderadamente lento, para entre os corredores moderadamente cheios dos sebos de BH, para garimpar textos de literatura com temática libertária, anarquista, autônoma, autogerida, livre. Você pode pegar diretamente com as pessoas na banquinha em eventos ou combinar entregas e envios pelos correios através da página do Facebook da livraria.

Adágio Anarco Livros
adagio.livros@hotmail.com
facebook.com/adagiolivros

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Livro Livre Curió – Biblioteca Comunitária

Com a ajuda das contribuições da Rede de Apoio nossos livros e zines chegaram até a Biblioteca Comunitária Livro Livre Curió em Fortaleza! Estamos bem felizes em receber este tipo de carinho de rolês que recebem gratuitamente nossos materiais. Segue a mensagem compartilhada pelas compas no Facebook:

“Doação incrível que recebemos da Editora Monstro dos Mares através da colaboração de Ju Maya, para diversificar ainda mais os conteúdos Anarquista da nossa Livro Livre Curió Biblioteca Comunitária”

Conheça a biblioteca:

Uma biblioteca com liberdade e afeto
Perto de completar aniversário, pedi de presente para Anitta Moura que me ajudasse a construir uma Biblioteca de Livros Livres no bairro em que eu moro, o Curió. Fui prontamente atendido, não apenas por ela, mas por muitas outras pessoas, a Silma que doou a estante, a Socorro Acioli que mobilizou doações, minhas amigas e amigos e as próprias moradoras e moradores do bairro, em especial minha Mãe, Ritinha, uma mulher que sempre articulou atividades no bairro, como passeios, cinema, festa das crianças, grupo de idosos; minha irmã Lígia, uma leitora apaixonada; meu vizinho Vinícius, que conheci e se encantou com a ideia.

Assim nasceu, no dia 31 de Março de 2018 a Biblioteca Comunitária Livro Livre Curió. Nosso bairro está entre os 20 bairros com o menor IDH, não possui políticas permanentes de cultura, sua população é formada por pessoas de diversos outros bairros beneficiadas por uma política de habitação da antiga COHABE. Contudo, sua população, mesmo sofrendo com a violência policial, e a violência do abandono do Estado e Município, é inteligente, empreendedora, e principalmente, inteligente e criativa.

Nossa biblioteca não tem cadastro, não estipula prazos para leituras, não tem horário de funcionamento e estamos de portas abertas à todas e todos, que desejam nos visitar; Também recebemos permanentemente doações de livros de literatura, de preferência em bom estado.

facebook.com/livrolivrecurio

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[evento] No fundo do poço habita o monstro

“Enfie os pés no balde e segure firme na corda enquanto alguém gira a manivela. Pouco a pouco as paredes escuras do poço pintam toda a sua visão do mais puro breu, a temperatura baixa e a umidade do lugar toma conta dos seus ossos.

A corda desce, o balde se movimenta quebrando o silêncio sepulcral do poço, o eco do tilintar de pequenas pedrinhas e das goteiras dão a noção aos seus sentidos da altura em que estás, girando pela manivela é possível perceber que a água está cada vez mais próxima.

Lentamente seus pés mergulham, o corpo inteiro se resfria, rapidamente os tentáculos abraçam, envolvem e puxam sua carcaça humana para dentro do estômago do grande monstro. Lá, deslizando pelo tobogã ondulado da traqueia, repousas solenemente nos braços de seus companheiros e companheiras de luta para uma reunião.

Ao final do encontro sairás cuspida e mastigadamente, retornarás à palidez da superfície radiante de energia transformadora (ou pode ser apenas a baba de todas as conversas). Depois de dias de lutas e noites de amor, o carinho dos abraços, das rodas de chás e do sono perdido, serão não somente as boas histórias para contar deste mergulho e entregas no fundo do poço.”

Encontro de apresentação da Editora Artesanal Monstro dos Mares, debate sobre livros artesanais, recepção de novxs autorxs, inicio das atividades da garagem cultural biblioteca libertária e a urgência da literatura marginal nos dias de hoje.

Dia 24/09
19 horas
Rua Dona Hermínia, 2392.
Trazer contribuição para o jantar (dinheiro ou alimentos), se possível.
Cardápio será definido na hora.

Traga seu pendrive, notebook, tablet ou celular para troca troca de arquivos digitais.
Wi-Fi Free

Aceitamos doações de livros, revistas em quadrinhos, filmes em dvd e discos de vinil para o projeto da garagem cultural.

www.monstrodosmares.com.br

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[evento] No fundo do poço habita o monstro

“Enfie os pés no balde e segure firme na corda enquanto alguém gira a manivela. Pouco a pouco as paredes escuras do poço pintam toda a sua visão do mais puro breu, a temperatura baixa e a umidade do lugar toma conta dos seus ossos.

A corda desce, o balde se movimenta quebrando o silêncio sepulcral do poço, o eco do tilintar de pequenas pedrinhas e das goteiras dão a noção aos seus sentidos da altura em que estás, girando pela manivela é possível perceber que a água está cada vez mais próxima.

Lentamente seus pés mergulham, o corpo inteiro se resfria, rapidamente os tentáculos abraçam, envolvem e puxam sua carcaça humana para dentro do estômago do grande monstro. Lá, deslizando pelo tobogã ondulado da traqueia, repousas solenemente nos braços de seus companheiros e companheiras de luta para uma reunião.

Ao final do encontro sairás cuspida e mastigadamente, retornarás à palidez da superfície radiante de energia transformadora (ou pode ser apenas a baba de todas as conversas). Depois de dias de lutas e noites de amor, o carinho dos abraços, das rodas de chás e do sono perdido, serão não somente as boas histórias para contar deste mergulho e entregas no fundo do poço.”

Encontro de apresentação da Editora Artesanal Monstro dos Mares, debate sobre livros artesanais, recepção de novxs autorxs, inicio das atividades da garagem cultural biblioteca libertária e a urgência da literatura marginal nos dias de hoje.

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