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Reflex√Ķes: O √≠ndio no cinema brasileiro e o espelho recente

Chegamos √† √ļltima semana da campanha de financiamento coletivo do livro O √≠ndio no cinema brasileiro e o espelho recente, de autoria de Juliano Gon√ßalves da Silva. Por isso, aproveito este momento para levantar apontamentos para al√©m do texto, pois sabemos que, ao chegarmos √† ultima p√°gina de uma obra, come√ßamos um novo processo de produ√ß√£o e reflex√£o sobre o que o livro nos diz e como as contribui√ß√Ķes do/a autor/a passam a fazer parte de como n√≥s mesmas pensamos o mundo.

O que a fic√ß√£o cinematogr√°fica pode produzir, como efeito sobre a realidade, em rela√ß√£o a coletividades e/ou indiv√≠duos (re)constitu√≠dos √† margem dos grupos hegem√īnicos de nossa sociedade?

Esse questionamento deve ser central em an√°lises de quaisquer obras que tragam √†s telas personagens que pretendam representar grupos socialmente marginalizados, j√° que a constitui√ß√£o do imagin√°rio de uma cultura perpassa todas as nossas rela√ß√Ķes sociais. Em outras palavras, preconceitos produzidos e reproduzidos na fic√ß√£o s√£o partes constitutivas dos preconceitos produzidos e reproduzidos pelas pessoas no dia a dia. Ou seja: a vida e a arte s√£o indissoci√°veis. √Č preciso trazer √† tona essa liga√ß√£o imanente; √© preciso des-velar a tens√£o fic√ß√£o vs. realidade continuamente para desmantelar os ciclos de citacionalidade que sustentam as hierarquias entre as pessoas e as culturas e d√£o justificativa ao injustific√°vel.

√Č imposs√≠vel e covarde, a meu ver, desconectar do hoje qualquer esfor√ßo de an√°lise ou coment√°rio. Por isso, penso ser relevante situar a publica√ß√£o deste livro dentro do contexto que vem sendo chamado “Crise do Coronav√≠rus” e seus desdobramentos no Brasil.

O v√≠rus chegou aos territ√≥rios supostamente protegidos destinados √† manuten√ß√£o da vida e cultura ind√≠gena, e isso se deu sobretudo atrav√©s da “explora√ß√£o ilegal” dessas terras. Temos falado de roubo, invas√£o, grilagem, e tamb√©m da expropria√ß√£o fundante do Brasil como na√ß√£o–a invas√£o pelos colonizadores europeus. √Č fato que ao evocar esses termos e fatos hist√≥ricos acertamos sobre o que move a contenda atual, mas gostaria de atrelar a essas reflex√Ķes e cr√≠ticas que j√° fazemos duas outras quest√Ķes que me acometem neste momento.

A primeira √© que muitos de n√≥s s√≥ pensamos nesses fatos em momentos de ineg√°vel como√ß√£o coletiva. H√° certamente coletividades, institui√ß√Ķes e individualidades n√£o-ind√≠genas que fazem da luta ind√≠gena sua pr√≥pria constitui√ß√£o. Mas n√≥s, pessoas brancas, estamos realmente assumindo nossa participa√ß√£o e responsabilidade sobre o bin√īmio ind√≠gena/n√£o-ind√≠gena enquanto vivemos nossa pr√≥pria constitui√ß√£o como dependente da sustenta√ß√£o desse bin√īmio? Fazemos parte de uma cultura que re(a)presenta os povos ind√≠genas como atrasados, primitivos, n√£o-civilizados, e essa cultura √© parte do que nos faz quem somos sendo brancos. Da√≠ a import√Ęncia de questionarmos e analisarmos produ√ß√Ķes culturais, e aqui particularmente a fic√ß√£o, que fazem parte da cria√ß√£o da narrativa de n√≥s mesmas.

A segunda quest√£o que gostaria de trazer √© sobre a impropriedade do termo “explora√ß√£o ilegal”, que coloco entre aspas justamente por causa de sua fragilidade e intr√≠nseca trapa√ßa. Podemos, efetivamente, classificar como legais e ilegais a√ß√Ķes baseadas em um sistema formulado por aqueles que se beneficiam dessa organiza√ß√£o de leis em detrimento daqueles sobre os quais as leis se aplicam? J√° n√£o foi legal a expropria√ß√£o das terras dos ind√≠genas que habitam o continente desde quando da chegada dos colonizadores, e n√£o existe a manipula√ß√£o e o preterimento das leis para que essa expropria√ß√£o continue hoje, talvez sobre outros nomes? Soa ing√™nuo para mim, por tudo isso, chamar essas a√ß√Ķes de “explora√ß√£o ilegal” e pensar que as no√ß√Ķes de legalidade e ilegalidade j√° atuam como uma esp√©cie de puni√ß√£o classificat√≥ria. Como se isso fosse suficiente, e como se pud√©ssemos esperar sentadas por algum tipo de “justi√ßa”.

Os questionamentos que apresentei n√£o esgotam, sem d√ļvida, as possibilidades cr√≠ticas e de a√ß√£o que podem emergir da an√°lise da representa√ß√£o de personagens ind√≠genas no cinema brasileiro. O que busco fazer com este texto √© um exerc√≠cio no sentido de amplificar o que podemos perguntar, incentivar a expans√£o de minha capacidade questionadora. Pois, ao falar sobre um livro que disserta acerca da representa√ß√£o de personagens ind√≠genas, posso, al√©m de questionar a impropriedade ou propriedade dessas representa√ß√Ķes, questionar tamb√©m a (im)propriedade das leis, a ficcionalidade das narrativas que me perpassam e constituem, a conex√£o entre fic√ß√£o e realidade. Podemos e devemos tomar como determina√ß√£o pessoal questionar tudo acerca do mundo em que vivemos.

Claudia Mayer
Doutora em Estudos Liter√°rios e Culturais
Editora Geral da Editora Monstro dos Mares
Contato: claudia@monstrodosmares.com.br

Contribui√ß√Ķes com a campanha de financiamento coletivo do livro O √≠ndio no cinema brasileiro e o espelho recente, de Juliano Gon√ßalves da Silva, podem ser feitas at√© o dia 11/05, √†s 23h59min. Estamos muito felizes com o andamento dessa campanha e muito gratas a todas as pessoas que contribu√≠ram e que ainda contribuir√£o. Logo os livros come√ßar√£o a ser produzidos e prevemos para o fim deste m√™s o in√≠cio dos envios nos Correios.

Apoie o financiamento coletivo do livro “O √≠ndio no cinema brasileiro e o espelho recente” de Juliano Gon√ßalves da Silva no Catarse -> http://catarse.me/oindionocinemabrasileiro

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[bate-papo] Como foi o lan√ßamento do livro ‚ÄúViol√™ncia, Democracia e Black Blocs‚ÄĚ em Cachoeira do Sul

Na noite deste sábado, 08 de Fevereiro de 2014, a Editora Artesanal Monstro dos Mares serviu um chá gelado e colocou a banquinha na garagem para receber as pessoas de Cachoeira do Sul para o lançamento do livro “Violência, Democracia e Black Blocs“, do Sociólogo Nildo Avelino.

Durante o evento, a R√°dio Caruncho FM Livre tocou v√°rios sons que foram do samba ao black metal, passando por marchinhas de carnaval e o anarcofunk. Como as conversas estavam animadas decidiu-se ligar os microfones para fazer as ideias ganharem novos espectros, inclusive o sonoro.

Confira as imagens e áudio com o bate-papo. Existem alguns chiados, plics e placs no som, mas acredite que foram tratados na medida do possível.

Faça o download do áudio para ouvir onde quiser.