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Pandemia Covid-19: utilize o auto-isolamento para sua auto-instrução

Já faz seis meses que a Pandemia do Novo Coronavirus chegou ao Brasil e América Latina. É possível que cada uma de nós já tenha desenvolvido estratégias para lidar com o vírus, adotando um protocolo de segurança que atenda minimamente as necessidades mais básicas. Sabemos que, infelizmente, um dos principais sintomas dessa doença é escancarar as diferenças. Por isso, é importante reconhecer que algumas pessoas não conseguem manter os mesmos cuidados por diversos fatores, que são essencialmente sociais. Sabemos que os impactos sanitários, ambientais e sociais desse período modificarão profundamente os modos de viver e existir das próximas gerações.

É importante que cada pessoa apoie, dentro de suas possibilidades, as campanhas de apoio mútuo mobilizadas por diversas iniciativas, que seguem surgindo nesse tempo infeliz de descaso governamental.

Algumas pessoas, ainda que com dificuldades, optaram pelo auto-isolamento. Essa é uma forma de “distanciamento social” que busca evitar a circulação de pessoas e, com isso, reduzir ao máximo as chances de contágio e transmissão do vírus. Sabemos que esse método de prevenção envolve uma série de questões que precisam ser problematizadas AGORA. De que forma e em que condições é possível manter esse isolamento sem ignorar a realidade brasileira?

O objetivo deste texto não é expor as contradições envolvidas nessa escolha, mas reconhecer que, em diferentes modelos, um auto-isolamento é possível, seguro e pode ser solidário. Além disso, de alguma maneira pode ser útil para a auto-instrução e para a promoção de novos conhecimentos.

Você deve ter notado uma oferta imensa de cursos e lives com debates interessantíssimos, grupos de estudos on-line e projetos que recebem a adesão de variados perfis. Nossas amizades também estão promovendo momentos de encontro com artistas, músicos, performances e outras atividades artísticas e de compartilhamento de conhecimentos como nunca havia sido visto.

É bem possível que, se você leu até aqui, muito provavelmente já assistiu algum desses eventos, já recebeu o convite para participar de alguma live, um podcast ou, até mesmo, em algum momento já promoveu seu próprio evento. Por isso podemos ter essa conversa, pois já entendemos que alguma coisa temos em comum.

Auto-isolamento / auto-instrução

Para ampliar nossos conhecimentos e contribuir no desenvolvimento de uma autodefesa legítima contra a ideologia hegemônica do estado, do grande capital e do patriarcado, precisamos de uma programa de educação política capaz de romper com as lógicas de dominação e fazer com que nossas visões de mundo abram um espaço de possibilidade em nossos enfrentamentos cotidianos.

Nós, que nos reconhecemos como pessoas identificadas com políticas radicais e revolucionárias, precisamos construir ferramentas práticas para que nossas ideias e críticas possam emergir das realidades às quaisque estamos condicionadas, especialmente durante a pandemia. É preciso estilhaçar as ideias do senso comum e desenvolver dentro de nós a coragem necessária para que nossas convicções e capacidades de ação possam fortalecer uma resposta autônoma e autogestionária, compartilhando dos princípios e éticas libertários aos problemas impostos pelo Covid-19 ou agravados por ele.

Pensando em tudo isso, seguem abaixo algumas dicas para realizar momentos de leitura no seu dia a dia, só ou com seu bando.

Ideias e sugestões para seu programa de auto-instrução

  • Ler (ou reler) obras de uma autora ou ator do seu interesse, em ordem cronológica;
  • Ler um livro junto com uma amizade e promover encontros on-line para trocar ideias a cada capítulo;
  • Combinar a leitura de um texto literário com textos e teóricos que dialogam com a obra;
  • Fazer uma ampla seleção de documentários e filmes de ficção sobre um tema;
  • Pesquisar artigos acadêmicos, livros, zines e panfletos sobre um tema de seu interesse ou de algo absolutamente novo para você e seu bando. Anticolonialismo, agroecologia libertária, solarpunk, teoria queer, feminismo negro, epicurismo, arrombamento de fechaduras e segurança digital são ótimos exemplos de temas;
  • Transitar entre diferentes escolas e movimentos literários e sociais;
  • Criar uma playlist de músicas que tratam sobre o tema de sua pesquisa e, na sequência, pensar sobre as letras e o contexto social da época de lançamento;
  • Reservar um horário para leitura sem muitas interrupções;
  • Navegar por sites estrangeiros de editoras e livrarias;
  • Acessar a Biblioteca Anarquista Lusófona e conhecer os diversos textos disponíveis;
  • Explorar formatos e gêneros, alternando histórias em quadrinhos, contos, romances, etc;
  • Ler obras de autoras e autores que você sempre considerou impossíveis ou inacessíveis;
  • Fazer um cineclube virtual para assistir filmes e debater com co-residentes e familiares, utilizando recursos de videochamada ou mensagens de texto/áudio;
  • Ler o livro, assistir ao filme e discutir a adaptação;
  • Criar um zine;
  • Organizar sua biblioteca/coleção (vale a pasta de PDF);
  • Compartilhar seus títulos preferidos com suas amizades, para depois organizar leituras em grupo;
  • Crar sua própria estratégia de leitura.

Utilizar o tempo de auto-isolamento como um tempo útil e necessário para que seja possível fortalecer nossas visões de mundo e apontar direções para além do atual estado de coisas. Se manter o isolamento é viável para você, considere fazer um programa de estudos, um plano de zines, livros e capítulos que podem articular respostas para as dúvidas que movimentam suas inquietação e que te fazem perguntar como será possível fazermos, com nossas mãos, um século 21 absolutamente diferente.

Algo novo está em ebulição, bote para ferver!

Solidary Tea

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E aí, cadê o meu pacote? 📮

Quando chegam meus livros? Por que meu pacote continua parado? O que quer dizer “objeto postado após o horário limite da unidade”? Essas são algumas das perguntas que temos recebido ultimamente. Por isso, vamos explicar neste post algumas das situações que vêm ocorrendo nas nossas entregas via correios, e também sobre o tipo de registro que utilizamos – Impresso com Registro Módico.

Nós falamos aqui no nosso blog sobre as medidas de contenção da disseminação do coronavírus adotadas pelos correios. Você pode ler essa postagem aqui e dar uma olhada na página oficial dos correios com todas as informações.

Isso quer dizer que talvez sua encomenda demore mais a chegar em comparação com os prazos de costume. Temos recebido, porém, notícias de que nossos pacotes estão sim chegando. Alguns dentro do prazo com o qual já estamos acostumados, outros em prazos maiores, pois os prazos de entrega foram ampliados pelos correios . Há pacotes que estão demorando mais sim, especialmente naquelas regiões que estão em alerta de risco de contágio mais elevado.

Por isso, fiquem de olho no código de rastreio, que é enviado por email assim que os pacotes são registrados no sistema dos correios. Também pedimos que fiquem atualizadas em relação à classificação de risco da região onde moram, pois essas situações (infelizmente) mudam rápido e não temos como saber como está sendo em cada cidade.

Você pode verificar o status do seu pacote pelo sistema de rastreamento no próprio site dos correios ou pelo seu serviço de rastreio preferido (nós utilizamos o Muambator).

Isso nos leva à segunda pergunta: por que meu pacote continua parado?

Nós utilizamos o serviço de envio de Impressos com Registro Módico, destinado ao envio de “Livros de maneira geral, postados por qualquer pessoa física ou jurídica, e Material Didático em geral postado por Escola de Ensino por correspondência e destinados a seus alunos), de acordo com o site dos correios.

Nessa modalidade de registro, o status da movimentação do objeto é informado à usuária duas vezes: quando o objeto é cadastrado no sistema dos correios ao chegar à agência e quando o objeto sai para entrega à destinatária. Após a entrega, o status é modificado para “Entrega efetuada” ou, caso ocorra algum problema, é sinalizada a devolução ao remetente.

O serviço de Registro Módico é diferente do registro de PAC e Sedex, que informam cada movimentação do pacote. Explicamos por que não utilizamos mais as opções de PAC e Sedex nesta postagem.

A Editora Monstro dos Mares decidiu DESCONTINUAR os envios através de PAC e SEDEX. Entendemos que também é nosso papel lutar e defender a Universalização dos Serviços de Correspondência e combater a precarização das atividades de profissionais Carteiros. São Monas, Minas e Manos que fazem a maior correria todos os dias para que livros, zines e cultura cheguem nas mãos de mais e mais pessoas. Somando em solidariedade com a categoria e seus familiares pela garantia dos direitos desses profissionais, independentemente de posições anteriores de sindicatos e ou indivíduos.

E o que significa “objeto postado após o limite de horário da unidade”? Significa que a editora fica no finalzinho da rota de coleta! 😅
Contamos com a gentileza de nossa agência e de nosso querido carteiro, que vem buscar os pacotes aqui todas as semanas. Como ele passa por aqui no fim da tarde, nossos pacotes são registrados depois que o horário de postagem da agência já acabou. Por isso, eles começam a andar só no dia seguinte.

Qualquer dúvida sobre o andamento de seu pacote, por favor entre em contato conosco via e-mail, Telegram ou redes sociais. Temos feito o possível para estar a par da situação dos correios e nos solidarizamos integralmente com a luta de todas e todos as/os profissionais que fazem a correria do dia a dia.

Obrigada, carteiro!

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Reflexões: O índio no cinema brasileiro e o espelho recente

Chegamos à última semana da campanha de financiamento coletivo do livro O índio no cinema brasileiro e o espelho recente, de autoria de Juliano Gonçalves da Silva. Por isso, aproveito este momento para levantar apontamentos para além do texto, pois sabemos que, ao chegarmos à ultima página de uma obra, começamos um novo processo de produção e reflexão sobre o que o livro nos diz e como as contribuições do/a autor/a passam a fazer parte de como nós mesmas pensamos o mundo.

O que a ficção cinematográfica pode produzir, como efeito sobre a realidade, em relação a coletividades e/ou indivíduos (re)constituídos à margem dos grupos hegemônicos de nossa sociedade?

Esse questionamento deve ser central em análises de quaisquer obras que tragam às telas personagens que pretendam representar grupos socialmente marginalizados, já que a constituição do imaginário de uma cultura perpassa todas as nossas relações sociais. Em outras palavras, preconceitos produzidos e reproduzidos na ficção são partes constitutivas dos preconceitos produzidos e reproduzidos pelas pessoas no dia a dia. Ou seja: a vida e a arte são indissociáveis. É preciso trazer à tona essa ligação imanente; é preciso des-velar a tensão ficção vs. realidade continuamente para desmantelar os ciclos de citacionalidade que sustentam as hierarquias entre as pessoas e as culturas e dão justificativa ao injustificável.

É impossível e covarde, a meu ver, desconectar do hoje qualquer esforço de análise ou comentário. Por isso, penso ser relevante situar a publicação deste livro dentro do contexto que vem sendo chamado “Crise do Coronavírus” e seus desdobramentos no Brasil.

O vírus chegou aos territórios supostamente protegidos destinados à manutenção da vida e cultura indígena, e isso se deu sobretudo através da “exploração ilegal” dessas terras. Temos falado de roubo, invasão, grilagem, e também da expropriação fundante do Brasil como nação–a invasão pelos colonizadores europeus. É fato que ao evocar esses termos e fatos históricos acertamos sobre o que move a contenda atual, mas gostaria de atrelar a essas reflexões e críticas que já fazemos duas outras questões que me acometem neste momento.

A primeira é que muitos de nós só pensamos nesses fatos em momentos de inegável comoção coletiva. Há certamente coletividades, instituições e individualidades não-indígenas que fazem da luta indígena sua própria constituição. Mas nós, pessoas brancas, estamos realmente assumindo nossa participação e responsabilidade sobre o binômio indígena/não-indígena enquanto vivemos nossa própria constituição como dependente da sustentação desse binômio? Fazemos parte de uma cultura que re(a)presenta os povos indígenas como atrasados, primitivos, não-civilizados, e essa cultura é parte do que nos faz quem somos sendo brancos. Daí a importância de questionarmos e analisarmos produções culturais, e aqui particularmente a ficção, que fazem parte da criação da narrativa de nós mesmas.

A segunda questão que gostaria de trazer é sobre a impropriedade do termo “exploração ilegal”, que coloco entre aspas justamente por causa de sua fragilidade e intrínseca trapaça. Podemos, efetivamente, classificar como legais e ilegais ações baseadas em um sistema formulado por aqueles que se beneficiam dessa organização de leis em detrimento daqueles sobre os quais as leis se aplicam? Já não foi legal a expropriação das terras dos indígenas que habitam o continente desde quando da chegada dos colonizadores, e não existe a manipulação e o preterimento das leis para que essa expropriação continue hoje, talvez sobre outros nomes? Soa ingênuo para mim, por tudo isso, chamar essas ações de “exploração ilegal” e pensar que as noções de legalidade e ilegalidade já atuam como uma espécie de punição classificatória. Como se isso fosse suficiente, e como se pudéssemos esperar sentadas por algum tipo de “justiça”.

Os questionamentos que apresentei não esgotam, sem dúvida, as possibilidades críticas e de ação que podem emergir da análise da representação de personagens indígenas no cinema brasileiro. O que busco fazer com este texto é um exercício no sentido de amplificar o que podemos perguntar, incentivar a expansão de minha capacidade questionadora. Pois, ao falar sobre um livro que disserta acerca da representação de personagens indígenas, posso, além de questionar a impropriedade ou propriedade dessas representações, questionar também a (im)propriedade das leis, a ficcionalidade das narrativas que me perpassam e constituem, a conexão entre ficção e realidade. Podemos e devemos tomar como determinação pessoal questionar tudo acerca do mundo em que vivemos.

Claudia Mayer
Doutora em Estudos Literários e Culturais
Editora Geral da Editora Monstro dos Mares
Contato: claudia@monstrodosmares.com.br

Contribuições com a campanha de financiamento coletivo do livro O índio no cinema brasileiro e o espelho recente, de Juliano Gonçalves da Silva, podem ser feitas até o dia 11/05, às 23h59min. Estamos muito felizes com o andamento dessa campanha e muito gratas a todas as pessoas que contribuíram e que ainda contribuirão. Logo os livros começarão a ser produzidos e prevemos para o fim deste mês o início dos envios nos Correios.

Apoie o financiamento coletivo do livro “O índio no cinema brasileiro e o espelho recente” de Juliano Gonçalves da Silva no Catarse -> http://catarse.me/oindionocinemabrasileiro

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Numerologia de Abril de 2020 🪔

Numerologia de Abril de 2020

Todos os dias, a pandemia do Novo Coronavírus nos atravessa com uma inundação de números assustadores. O número, entretanto, esconde em si o empobrecimento da linguagem no advento da cultura simbólica. Como falar sobre a vida de milhares de pessoas, seus nomes, ideais, sonhos e desejos? Em sua representação abstrata, o número não revela a dor de perder uma amizade, um parente, um vizinho ou uma pessoa conhecida. Por vezes, observar o número nos faz notar o que não está sendo dito: a abstração numérica esfrega em nossas caras a subnotificação de casos, dos óbitos, da irresponsabilidade e da omissão. Nenhuma vida será em vão.

Na numerologia de Abril de 2020, buscamos entender melhor nossas emoções e aprender a lidar com a ansiedade, o medo e as dúvidas. Não são dias fáceis e estendemos nossa solidariedade a todas as pessoas que estão empenhadas em encontrar formas de lidar com a pandemia. Agradecemos por todas as mensagens de carinho, pelo suporte financeiro ao Fundo de Emergência Coronavírus e pelo apoio emocional.

Numerologia do mês de Abril de 2020

  • Impressões de Abril de 2020: 8.692
  • Livros impressos: 71
  • Livros distribuição gratuita: 13
  • Zines impressos: 65
  • Zines distribuição gratuita: 37
  • Kw gerados e consumidos com energia solar: 0.2Kw

Numerologia: Hotsite com informações sobre nossos números mensais/anuais 🔮
https://monstrodosmares.com.br/numerologia


Imagem: Lâmpadas de diya de barro tradicionais iluminadas com flores para a celebração do festival de diwali.

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[Evento] Filosofia e Eco-Anarquia em Tempos de Pandemia (LIVE), Casa de Vidro, Goiânia, dia 8 de Maio, 19h.

Filosofia e Eco-Anarquia em Tempos de Pandemia (LIVE)

O eco-anarquismo ou anarquia verde é uma filosofia política anarquista com ênfase na questão ambiental. Como outras correntes anarquistas, o eco-anarquismo parte de uma crítica socialista e libertária ao capitalismo e toda forma de autoritarismo. Seu diferencial é abordar a questão ecológica como questão central ao invés de secundária, compreendendo os problemas ecológicos como inseparáveis das questões sociais e por isso igualmente urgentes.

No dia 08 de Maio, sexta-feira, a partir das 19h, A Casa de Vidro (www.acasadevidro.com), em parceria com a Editora Monstro dos Mares (https://monstrodosmares.com.br/) e o Grupo de Estudos em Complexidade, promovem o webdebate “Filosofia e Eco-Anarquia em Tempos de Pandemia” com Janos Biro Marques Leite, Pedro Tabio, Renato Costa e Eduardo Carli de Moraes. Assista ao vivo pelo Canal do Youtube d’A Casa de Vidro: https://youtu.be/yo-jeN2aPtE.

Introdução

Combinando a crítica anarquista ao Estado e ao Capital com uma perspectiva ecocêntrica vinda do veganismo, do primitivismo, da crítica à sociedade industrial ou da ecologia profunda, a filosofia eco-anarquista tem se mostrado uma fonte valiosa de reflexões e provocações para o contínuo desenvolvimento das teorias e práticas anarquistas, desafiando os paradigmas das escolas de pensamento mais tradicionais.

São consideradas como ligadas ao eco-anarquismo as seguintes tendências: o anarco-naturismo (inspirado por Thoreau, Tolstoi e Élisée Reclus), a ecologia social (que não se limita ao movimento iniciado por Bookchin), o anarcoprimitivismo (representado por John Zerzan e os autores da revista Green Anarchy) e o veganarquismo (movimento anarquista e vegano).

O anarcoprimitivismo e o veganarquismo se destacam em tempos de pandemia pela crítica que já faziam há muito tempo à sociedade de massas e à domesticação de animais como fatores da produção de pandemias e novas doenças. (Janos Biro)

Participe! Interaja!

Evento no Facebook:
https://www.facebook.com/events/466994764069513/

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“Pandemia constitui um reflexo cabal da miséria do capitalismo” — Entrevista com Carlos Taibo

Nosso compa Raphael Sanz, jornalista e editor-adjunto do Correio da Cidadania, entrevistou o professor, autor e pensador Carlos Taibo. Seu livro “Colapso: capitalismo terminal, transição ecossocial e ecofascismo” tem levantado questões significativas sobre o nosso tempo e o que está por vir. Nossos agradecimentos ao Raphael por compartilhar a entrevista conosco, valeu mano!


“Pandemia constitui um reflexo cabal da miséria do capitalismo”

A pandemia do Coronavírus se expande por todo o planeta e seus efeitos já são sentidos e temidos. Enquanto vemos o provável colapso dos sistemas de saúde em nível mundial somados a problemas ambientais e sociais preexistentes, os discursos políticos e midiáticos oficiais recusam qualquer debate relativo a um eventual colapso do sistema que venhamos a testemunhar – mas a possibilidade existe. Sobre esse contexto entrevistamos Carlos Taibo, professor de Ciência Política da Universidade Autônoma de Madrid, autor de diversos livros sobre o tema, entre eles Colapso: capitalismo terminal, transição ecossocial e ecofascismo, lançado no Brasil pela Editora UFPR no ano passado.

“Salta à vista que o capitalismo pretenda não dar um passo atrás. A morte de muitos seres humanos, sobretudo idosos, é vista como um problema menor em comparação com a manutenção da lógica do trabalho assalariado, da mais-valia e da mercadoria. Por trás desponta, como sempre, a subordinação dos governos, dos Estados, aos interesses de poderosas corporações econômico-financeiras que operam nos bastidores. E se faz evidente que a crise tem uma manifesta condição de classe”, analisa.

Taibo pesquisa as possíveis causas e consequências de um próximo colapso das sociedades capitalistas. Entre as causas ressalta questões como mudanças climáticas e crise de matriz energética em nível global, mas não descarta o papel que epidemias e pandemias podem desempenhar em um processo de desagregação social e econômica. Avalia, ao contrário de outros especialistas, que a atual situação de pandemia tem mais a ver com as consequências, do que com as causas, das crises – no plural – que atualmente estão instaladas em nossas sociedades.

“Na origem, a pandemia é, certamente, uma consequência das regras que impõem, em toda ordem, um capitalismo enlouquecido e descontrolado. Constitui, se assim podemos dizer, um reflexo cabal da miséria desse capitalismo”.

A entrevista completa pode ser lida a seguir.

Correio da Cidadania: Como encara a emergência da pandemia de covid-19 em todo o mundo, especialmente na Espanha, um dos países mais afetados até o momento ao lado de Itália, China, Irã e Índia?

Carlos Taibo: Como um sinal inquietante de que falamos de um período crítico para a manifestação de um colapso geral. E aqueles que o identificam com a etapa 2020-2050 não estavam, desgraçadamente, equivocados. Isto não significa, necessariamente, é claro, que o sistema não possa experimentar alguma recuperação. Significa que teremos diante dos nossos olhos, em todas as áreas, sinais de que esse sistema não funciona e urge introduzir mudanças radicais.

Correio da Cidadania: Qual teu pensamento a respeito da dicotomia presente em boa parte dos países ocidentais, incluindo os da América Latina, que apresenta um embate entre as medidas de isolamento social recomendadas pelos trabalhadores da saúde, e a ideia de que ‘a economia não pode parar’?

Carlos Taibo: Salta à vista que o capitalismo pretenda não dar um passo atrás. A morte de muitos seres humanos, sobretudo idosos, é vista como um problema menor em comparação com a manutenção da lógica do trabalho assalariado, da mais-valia e da mercadoria. Por trás desponta, como sempre, a subordinação dos governos, dos Estados, aos interesses de poderosas corporações econômico-financeiras que operam nos bastidores. E se faz evidente que a crise tem uma manifesta condição de classe. Não afeta da mesma maneira as elites e a quem têm de acudir, dia após dia, ao trabalho – da mesma forma que exames e tratamentos não estão ao igual alcance de todos.

Correio da Cidadania: Como isso se relaciona com a necessidade de deixar nossas sociedades menos complexas, ideia que você coloca em seu livro Colapso?

Carlos Taibo: A discussão tem a ver com a relação entre complexidade e independência. Não notamos que quanto mais complexas são nossas sociedades, mais dependentes somos. E, como resultado, somos menos capazes de resolver, ‘de baixo e daqui’, por nós mesmos, de forma autogerida, os nossos problemas. Isto colocou nas mãos do capital, e de suas diferentes estruturas de poder, capacidades de controle e de submissão das que antes carecia.

Correio da Cidadania: Podemos dizer que a pandemia tem um caráter de consequência, e não de causa, das crises no capitalismo?

Carlos Taibo: Na origem, a pandemia é, certamente, uma consequência das regras impostas, em toda ordem, por um capitalismo enlouquecido e descontrolado. Constitui, se assim podemos dizer, um reflexo cabal da miséria desse capitalismo. É certo que, a partir daí, se abrem duas interpretações.

A primeira sublinha que a pandemia se transformará, infelizmente, em uma ferramenta decisiva para permitir que o capital retome, em condições ainda mais vantajosas que as de há pouco, sua condição de proeminência. A segunda entende, ao contrário, que desnudará as disfunções de um capitalismo aberrante, curtoprazista e sem projeto de futuro. Sinto-me mais cômodo com a segunda interpretação do que com a primeira.

Correio da Cidadania: É possível que essas crises se transformem em colapso geral do capitalismo? Em que medidas podemos começar a falar em colapso – uma vez que tanto meios de comunicação como autoridades fogem do assunto – e como podemos caracterizar este colapso?

Carlos Taibo: No meu livro ‘Colapso’, do qual há uma versão publicada no Brasil, em Curitiba, defino o colapso da seguinte maneira: ‘Um processo, ou um momento, do qual se derivam várias consequências delicadas: mudanças substanciais, e irreversíveis, em muitas relações, profundas alterações no que se refere à satisfação das necessidades básicas, reduções significativas no tamanho da população humana, uma perda geral de complexidade em todos os âmbitos – acompanhada de uma crescente fragmentação e de um retrocesso dos fluxos centralizadores -, o desaparecimento das instituições previamente existentes e, por fim, a quebra das ideologias legitimadoras e de muitos dos mecanismos de comunicação da ordem anterior.

As causas principais do colapso que estudo no livro são duas: as mudanças climáticas, por um lado, e o esgotamento de todas as matérias primas energéticas, por outro. Mas assinalo que há outros fatores que, aparentemente secundários, podem aparecer como multiplicadores das tensões. E entre eles menciono, de maneira expressa, epidemias e pandemias. Creio que, por falta de um conhecimento maior, é razoável afirmar que talvez nos encontraremos diante de um cenário próprio do que chamarei de ‘antessala do colapso’. Resta determinar, enfim, se podemos falar de um colapso do capitalismo ou, mais além, de um colapso da civilização humana como um todo.

Correio da Cidadania: O que é o Ecofascismo? De alguma maneira autoridades e lideranças nacionais e globais poderiam se aproveitar da situação para implantar uma agenda própria de poder, próxima ao conceito de Ecofascismo?

Carlos Taibo: Estaríamos equivocados se concluíssemos que as ideias que defenderam os nazistas alemães oitenta anos atrás remetem a um momento histórico conjuntural e irrepetível: muitas dessas ideias parecem chamadas a reaparecer hoje, não defendidas por ultramarginais grupos de neonazis, senão postuladas por alguns dos principais centros de poder político e econômico, cada vez mais conscientes da escassez geral que se avizinha e cada vez mais firmemente decididos a preservar em umas poucas mãos esses recursos escassos, ao amparo de um projeto de darwinismo social militarizado, isto é, de ecofascismo. Este último entende que no planeta sobra gente, de tal maneira que se trataria, na versão mais suave, de marginalizar aqueles que sobram – isto já fazem – e, na mais dura, de exterminá-los diretamente.

Ainda seria excessivo concluir que as medidas de recorte estatista, hierarquizantes, repressivas e militarizadas que aplicam hoje tantos governos obedecem em sentido estrito a um projeto ecofascista. Parece que a experiência conseguinte, com a ratificação da servidão voluntária que abraçam muitas pessoas, está chamada a aportar dados muito sugestivos diante dos desdobramentos desse projeto.

Correio da Cidadania: Os colapsos dos sistemas de saúde, como vemos na Itália, poderiam ter influência neste processo, mesmo que de maneira indireta?

Carlos Taibo: Poderiam, sim, em virtude uma razão precisa: colocam graficamente diante dos olhos das pessoas as misérias da gestão neoliberal, da gestão capitalista, de uns serviços sociais destinados a reproduzir sem meio termo a força de trabalho. Nunca se sublinhará o suficiente, contudo, de que não basta fortalecer os serviços sociais: é preciso apostar, para nos liberarmos de tutelas externas, por sua autogestão e socialização plenas.

Correio da Cidadania: O que esperar do mundo após o fim do período mais crítico da pandemia e quais devem ser os principais desafios que nos serão impostos?

Carlos Taibo: Temos de estar muito atentos aos perfis da pós-pandemia, se é que chegará. Há poucos dias, e em outra entrevista, identifiquei aqueles que creio serem os nossos deveres. Por um lado, colocar no núcleo do debate a discussão sobre o capital, o trabalho assalariado, a mercadoria, a mais-valia, a alienação, a exploração, o espólio dos países do sul global, a sociedade patriarcal, as guerras imperiais, as crises ecológicas e o colapso. E, pelo outro lado, perfilar os movimentos anticapitalistas que, longe da lógica dos Estados, coloquem a autogestão e o apoio mútuo no núcleo de sua ação. Somamos ao acerto desses movimentos muitos dos elementos das sociedades pré-capitalistas. Já sei que fácil não é, e não será.

Raphael Sanz é jornalista e editor-adjunto do Correio da Cidadania.


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