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Julian Beck: Por um Teatro Anarquista (A)

Julian Beck

Julian Beck nasceu em Nova York em 31/05/1925, sendo seu pai comerciante e sua mãe professora. Desde jovem ele aprendeu a desprezar armas de brinquedo e desenvolvimento de ampla habilidade artística, motivada por uma paixão marcante pela vida e o desejo de concebê-la como algo que se constrói para si e com os demais.

Publicou poemas e peças no jornal do estudante do ensino médio da escola; ele sempre escreveu, mas também gostava de pintar e lá conquistou seus primeiros sucessos como artista. Depois de abandonar a faculdade, iniciou sua longa carreira de dissidência das instituições e de vontade de desenvolver-se, protestando contra um sistema que ele não poderia servir por não acreditar nele. Ele trabalha como operário e sente de perto o mundo dos explorados. Ele frequenta a Liga de Jovens Comunistas e faz amizade com muitas pessoas à esquerda. Em 1943 ele conheceu Judith Malina, que viria a ser uma companheira constante na vida, a pessoa que mais influencia seu trabalho; ela manteve posições pacifistas firmes, com as quais Julian simpatizou e a mesma ambição de mudar o mundo. Em 1944 ele conheceu Tennessee Williams e Paul Goodman, outro parceiro importante nas lutas políticas, artísticas e culturais. Paul se declarou abertamente um anarquista, enquanto que Julian ainda não estava convencido, embora ocupasse uma posição crítica ao comunismo por causa do stalinismo. Ele se sentiu enojado com a política estatal, viveu a realidade daqueles tempos horrorizados pela barbárie belicosa.

Na década de 1940, Nova York foi o lar de muitos artistas renomados Europeus no exílio como Breton, Duchamp, Ernst, Leger, Chagall e outros. Em esse meio que Julian conhece Jackson Pollock, com quem mantém uma amizade íntima, rodeado pelos ares patrióticos e patriarcais da Segunda Guerra Mundial. Julian começou a se descobrir homossexual em seu primeiro relacionamento com 16 anos e sentindo-se oprimido pelo sistema neste aspecto de sua personalidade. Quando ele foi chamado para servir no exército, ele se recusou alegando homossexualidade.

A convicção pacifista foi acentuada nele. Claro que tinha que radicalizar a ação revolucionária não violenta. Julian e Judith discutiram seriamente as alternativas políticas, que pareciam ser, todas, insatisfatórias. Isso até que Judith encontrou a revista WHY? Um artigo introdutório ao anarquismo. Foi a semente do pensamento ácrata que começou a germinar. É impossível ser convertido ao anarquismo. É possível chegar lá apenas através de um processo de reconhecimento e auto identificação com suas ideias e propósitos. A síntese anarco-pacifista e a ação político-artística constituirá o grande experimento para o qual eles vão dedicar toda a sua vida junto com a criação do “Living Theatre”, que começa em 1951.

O Living Theatre passou a representar uma resposta ao tradicional teatro comercial e institucional, com conteúdo político não convencional e uma linguagem altamente poética, então em breve as autoridades buscarão impedir sua ação em vários momentos. Além da ação política nas mesas, as pessoas do Living estavam cientes da necessidade de uma atuação no movimento pacifista e antimilitarista. Eles promoveram a ideia da primeira greve geral mundial pela paz que ocorreu em janeiro de 1962, culminando em uma marcha; tudo isso foi uma forma de inspirar que pessoas pratiquem a ação direta, então a experiência é repetida mais algumas vezes. Além disso, na década de 1960, Julian passa a ser conhecido como poeta por meio da leitura pública de seus textos e sua reprodução na imprensa underground, que então começa a proliferar e disseminar várias expressões da contracultura radical.

O grupo apresentou trabalhos de autores renomados (Brecht, Garcia Lorca e outros), mas enfatizará as obras de criação coletiva, como por exemplo “The Brig” (“La Prison”), uma obra de denúncia radical das instituições, uma peça de caráter tão questionável que foi fortemente questionada. Este tipo de trabalho os obrigou a se exilar na Europa em 1963. Em 1968 assumiram o nome de Coletivo Anarquista, envolvendo-se ainda mais nos eventos revolucionários que geram a contracultura e na reativação do movimento anarquista mundial. A famosa visão do Teatro Odeon de Paris foi ideia de Julian, extasiado com os acontecimentos de maio de 68. No mesmo ano, eles lançaram “Paradise, Now!”, Que também gerou reação escandalizado pelos poderes estabelecidos.

Com esse histórico, não é surpreendente que ao fazer teatro de rua no Brasil (1971), foram presos sob a acusação de subversão pelos gorilas que comandam esse país. Após os protestos generalizados dos feitos na Europa e nos EUA, acompanhados por expressões de solidariedade de muitas personalidades, o grupo é expulso após dois meses de prisão.

O Living Theatre continuou a viajar pelo mundo, enfrentando desafios e proibições e promovendo mudanças sociais por meio da arte, sempre inflexíveis em sua postura anarco-pacifista. Julian Beck morreu em 1985, mas Judith Malina e o Coletivo continuam nesta linha de teatro de vanguarda que hoje é referência obrigatória em todo o mundo …

R e v o l u c i o n y C o n t r a r r e v o l u c i o n
(Fragmento de uma canção-poema de Julian Beck)

…queremos
abrirles con filtros de amor
queremos
vestir a los parias
de lino y de luz
queremos
poner musica y verdad
en la ropa interior
queremos
hacer que la tierra y sus ciudades resplandezcan
de creacion
lo haremos
irresistible
hasta para los racistas
queremos llevar la fertilidad
a los glaciares
queremos cambiar
el caracter demoniaco de nuestros adversarios
en gloria productiva
queremos
cambiando el mundo
cambiar nosotros mismos
queremos
desembarazarnos
de nuestra propia corrupcion
y a traves del
proceso de la revolucion
hallar
el ser
no
el morir
y hasta que
no lo logremos
la revolucion no tendra lugar

PAP
(CORREO A # 22, pp. 14-15; Março de 1993)
Extraído de Spunk.
Tradução: DaVinci
Revisão: Tonho


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Dulcinéia Catadora: O fazer do livro como estética relacional

Por Livia Azevedo Lima* em trecho publicado em Akademia Cartonera

Dulcinéia Catadora é um coletivo formado por artistas plásticos, catadores e filhos de catadores que produz livros com capas de papelão, pintadas à mão, e, além disso, realiza oficinas, instalações, ocupações de espaços culturais, como bibliotecas, e intervenções urbanas.

O projeto derivou do coletivo Eloísa Cartonera, criado em março de 2003 pelo artista plástico Javier Barilaro e pelo escritor Washington Cucurto, em Buenos Aires, Argentina. Com intensa atividade editorial, o grupo argentino possui um catálogo com mais de 100 títulos, entre autores novos e consagrados. Conquistou reconhecimento artístico e social, cuja expressão pode residir no convite para participar da 27ª Bienal de São Paulo, em 2006, com curadoria de Lisete Lagnado, com título derivado da obra de Roland Barthes “Como viver junto”. Durante a Bienal, formou-se um atelier em funcionamento permanente. Ao grupo argentino somou-se a participação de catadores, filhos de catadores e artistas brasileiros, com mediação da artista plástica paulista Lúcia Rosa, que já trabalhava com material reciclado. A partir deste contato, e do envolvimento e trabalho de Lúcia Rosa, formou-se o projeto-irmão, Dulcinéia Catadora, que começou a funcionar no Brasil a partir de 2007.

O nome Dulcinéia Catadora é uma homenagem à catadora Dulcinéia, mas também é o nome da personagem feminina do livro “Dom Quixote de la Mancha”, de Miguel de Cervantes. O papelão usado na confecção dos livros é comprado da cooperativa Coopamare por R$1,00 o quilo, valor cinco vezes maior do que o praticado usualmente para efeito de reciclagem. Os livros são feitos com miolo fotocopiado em papel reciclado; encadernação simples, grampeada ou costurada; colados na capa de papelão pintada à mão com guache. A diagramação é feita pelos artistas e escritores e a seleção dos textos, por um conselho editorial formado por escritores que colaboram com o projeto e se alternam neste trabalho, como Carlos Pessoa Rosa, Rodrigo Ciriaco, Flávio Amoreira e Douglas Diegues, este último também colaborou para o coletivo Eloísa Cartonera e fundou, em 2007, a cartonera Yiyi Jambo, no Paraguai.

A seleção dos textos leva em consideração não apenas a qualidade literária e o conteúdo, como também o caráter sociopolítico, priorizando aqueles que atentem para as minorias sociais. Os autores cedem os textos, mediante autorização escrita e recebem, em contrapartida simbólica, cinco livros de sua autoria. Todos os livros podem ser traduzidos para o espanhol e divulgados por outras células do projeto na América Latina, (são elas): Animita Cartonera (Chile), Eloísa Cartonera (Argentina), Felicita Cartonera (Paraguai), Kurupí Cartonera (Bolívia), Mandrágora Cartonera (Bolívia), Nicotina Cartonera (Bolívia), Santa Muerte Cartonera (México), Sarita Cartonera (Peru), Textos de Cartón (Argentina), Yerba Mala Cartonera (Bolívia), Yiyi Jambo (Paraguai) e La Cartonera (México).

Essa rede de projetos pares que se formou na América Latina é um caminho alternativo ao mercado de arte e ao mercado editorial. O escritor que não conseguia se inserir em uma grande editora, agora tem a possibilidade de ser editado e o seu texto poderá circular por diversos países. Da mesma forma os catadores e os filhos de catadores que participam da oficina se abrem para novas possibilidades profissionais e desenvolvem seu potencial artístico. A soma desses esforços orientados para um objetivo comum, apesar de cada projeto possuir suas especificidades, denota, politicamente, a busca por autonomia e, esteticamente, a realização de um trabalho artístico que está focado no resultado das trocas entre os indivíduos que o produzem. As atividades do atelier geram renda, mas, sobretudo, promovem a autoestima e o intercâmbio de experiências entre pessoas com origens e repertórios diversos, que ali se encontram, em um espaço aberto, para o exercício do prazer de criar.

Livia Azevedo Lima cursa o terceiro ano da graduação em Comunicação Social com ênfase em Produção Editorial e Multimeios na Universidade Anhembi Morumbi, São Paulo, Brasil. Escreve ficção e trabalha como estagiária de pesquisa no Núcleo de Documentação e Pesquisa do Instituto de Arte Contemporânea, em São Paulo.