2026: Educação anarquista para a transformação social

Nós, da Editora Monstro dos Mares, entendemos a educação anarquista como uma prática essencial para a transformação social. Acreditamos que ela é um caminho para ampliar a liberdade, fortalecer a autonomia e promover relações solidárias. A educação não deve ser reduzida a modelos tradicionais que reforçam hierarquias, obediências e estruturas de dominação. Deve ser vivida como um processo permanente de construção coletiva, presente no cotidiano das pessoas e dos movimentos que lutam por um mundo mais justo. Essa compreensão inclui as vivências e resistências das comunidades LGBTQIAPN+, das pessoas queer, dos povos originários, das comunidades indígenas e quilombolas, cujas trajetórias colocam em evidência a urgência de uma educação libertária.

Nossa visão sobre educação anarquista rompe com a lógica de transmissão unilateral do conhecimento. Defendemos um processo de aprendizagem baseado na colaboração e no respeito à autonomia de cada pessoa. Os saberes precisam circular de maneira horizontal, criando espaços onde todos possam ensinar e aprender, valorizando a diversidade e construindo ambientes realmente inclusivos. A educação libertária é inseparável da pluralidade de identidades, culturas e experiências que compõem nossas comunidades.

A educação precisa ser prática e transformadora. Em nossas publicações, buscamos estimular o pensamento crítico e fomentar reflexões que atravessam dimensões sociais, políticas, ambientais e identitárias. A educação anarquista acontece nos livros, mas também nas ruas, nas praças, nas bibliotecas comunitárias, nos espaços autogestionados e em qualquer lugar onde o aprendizado seja livre e espontâneo. A ação direta é parte desse processo. Ela surge como expressão concreta do conhecimento compartilhado e das mudanças que desejamos construir, ampliando e acolhendo especialmente as vozes e experiências marginalizadas.

Criticamos com firmeza o sistema escolar tradicional que reproduz desigualdades, restringe o acesso a saberes diversos e organiza a vida a partir da obediência a normas e autoridades. Defendemos uma educação inclusiva, participativa e emancipadora, capaz de fortalecer a autonomia e a consciência crítica de cada pessoa. Nosso compromisso é fomentar caminhos que permitam participação ativa na construção de um futuro mais igualitário, onde ninguém seja excluído por sua origem, gênero, orientação, identidade ou território.

As raízes da educação anarquista remontam ao início do século passado, quando pensadores e militantes libertários desenvolveram experiências pedagógicas que marcaram profundamente os debates educacionais. Francisco Ferrer y Guardia, com a Escola Moderna, inspirou escolas racionalistas em diversos países, inclusive no Brasil. No contexto brasileiro, diversos grupos anarquistas ligados ao movimento operário organizaram escolas livres, cursos noturnos, universidades populares e práticas educativas voltadas à emancipação da classe trabalhadora. Suas iniciativas defendiam a coeducação, a laicidade, a autonomia e o combate às estruturas autoritárias que moldavam a escola tradicional. Esses esforços mostram que a educação anarquista é uma prática histórica, coletiva e profundamente transformadora.

A educação libertária deve se refletir em todos os aspectos da vida social. Promovemos práticas educativas autônomas, que não dependem do mercado ou do Estado para existir. Nosso papel é contribuir para uma sociedade onde o conhecimento seja ferramenta de resistência e libertação, capaz de enfrentar as estruturas opressivas e ampliar a autonomia das pessoas sem qualquer forma de discriminação. A educação anarquista é um instrumento de subversão criativa, acolhendo as especificidades de cada comunidade e fortalecendo redes de solidariedade.

Seguimos firmes no compromisso com a produção e disseminação de ideias que questionam as convenções educacionais. Construímos alternativas que inspiram caminhos decoloniais, autônomos e transformadores, capazes de reconhecer e valorizar identidades, saberes e experiências diversas. Nosso trabalho busca um futuro em que a liberdade, a igualdade, a solidariedade e o respeito às múltiplas expressões da vida sejam pilares de uma sociedade baseada em conhecimento compartilhado e práticas verdadeiramente livres.

Feliz 2026
Felipe Siles, Caronte Mayer e Baderna Jaime.


TAZ – Zona Autônoma Temporária: um chamado à liberdade efêmera

Há livros que chegam como manifestos e que permanecem como bússolas para gerações inteiras. TAZ – Zona Autônoma Temporária, de Hakim Bey, é um desses. Mais do que um texto teórico, é um convite a experimentar a vida em sua potência insurgente, explorando espaços de autonomia, solidariedade e criação coletiva.

Publicado originalmente nos anos 1990, o livro tornou-se referência mundial nos debates sobre política, cultura alternativa e contracultura. Sua força está na ideia central de que é possível criar brechas dentro do sistema – zonas autônomas temporárias – onde outras formas de viver, conviver e resistir podem florescer.

Ao falar de TAZ, Hakim Bey não descreve um território fixo, mas uma experiência em movimento. São espaços que escapam do controle do Estado e do mercado, onde a liberdade se manifesta de modo radical e poético. Essas zonas podem surgir em festas, ocupações, coletivos artísticos, redes autônomas ou até mesmo em pequenas práticas cotidianas que desafiam o conformismo.

O livro propõe que a autonomia não precisa esperar por grandes revoluções futuras. Ela pode ser vivida agora, ainda que por instantes. Esse pensamento ressoa fortemente com quem busca alternativas diante da precarização da vida, da vigilância e do consumismo desenfreado. É, ao mesmo tempo, uma filosofia e um manual de ação para rebeldes, artistas, coletivos e sonhadores.

A nova edição brasileira publicada pela Editora Subta resgata esse clássico em um formato acessível e independente. Fiel à proposta de abrir espaço para vozes e ideias que contestam a ordem estabelecida, a editora reafirma seu compromisso em trazer livros que alimentam a imaginação política e cultural de nossos tempos.

Ler TAZ – Zona Autônoma Temporária é entrar em contato com uma escrita vibrante, que mistura ensaio, poesia e provocação. Hakim Bey não oferece respostas prontas, mas instiga perguntas incômodas: como podemos criar frestas de liberdade em meio ao controle? Que formas de comunidade podem nascer quando nos reconhecemos fora da lógica do poder centralizado?

Esse livro atravessou décadas inspirando movimentos sociais, coletivos artísticos, hackers e comunidades alternativas ao redor do mundo. No Brasil, sua recepção é especialmente potente, pois dialoga com experiências de autogestão, cultura anarquista, coletivos periféricos e práticas que reinventam o cotidiano.

Ao se aproximar de TAZ – Zona Autônoma Temporária, você não encontra apenas um livro, mas uma experiência que atravessa páginas e se projeta na vida cotidiana. É um texto que circula como ferramenta de reflexão e ação, fazendo parte de uma constelação de publicações independentes que cultivam a pluralidade e a criação de outros mundos possíveis. Ler TAZ é somar-se a esse movimento de cultura livre, de resistência e de imaginação radical.

Se você busca um texto que une pensamento crítico, poesia política e prática insurgente, TAZ – Zona Autônoma Temporária é leitura indispensável. Descubra por que TAZ segue sendo um dos livros mais transformadores e instigantes de nosso tempo.


TAZ – Zona Autônoma Temporária

Contra-universidades

Excerto do capítulo VI do livro Entre cuadernos y barrotes publicado pela Editora Cultura y Sociedad, na cidade de Lima, em setembro de 1999.

Tradução de Mauricio Knup.

Com frequência se contrapõe a atividade universitária à atividade escolar, como se esta fosse um grande salto à frente e tivesse características qualitativamente diferentes. Inclusive, apresenta-se a universidade como o espaço de onde brotarão soluções e alternativas para os grandes problemas de nosso tempo. Dessa maneira, oculta-se, com um otimismo necessariamente envolvido por uma mentira astuta ou mesmo simples idiotice, o fato de que nas universidades, assim como nas escolas, persiste toda uma concepção autoritária de vida, horários rigorosos a serem cumpridos, exames, notas, aprovação e reprovação, uma verticalidade mofada que nenhuma sala de aula moderna e com iluminação natural pode esconder; às vezes, até pequenas mudanças de horários e controle de frequência de estudantes, professores que, apesar de não passarem fome de maneira miserável quando não estão protagonizando uma aula vertical e autoritária que pretendem que seja magistral, na maioria das vezes são os mesmos que não têm escrúpulos em recorrer à vergonha da cópia e da reprodução.

A universidade mantém intacta a função repressiva, mas faz isso em um estágio mais avançado. Nem sempre se precisa recorrer a tanques e intervenções militares; geralmente, é suficiente para ela manter a ficção da gestão compartilhada, um simulacro de democracia no qual estudantes dóceis que adquiriram o mau hábito da política representativa e que, através da formação de diretórios acadêmicos e similares, possibilitarão não uma democracia direta e assembleias, mas a criação de máfias e grupos de poder, a existência de um alto sigilo burocrático, a perpetuação de um regime no qual você deve pedir permissão até para colocar um cartaz na parede; tudo isso, em conjunto com uma fórmula legal que proíbe atividades extra-acadêmicas, faz com que qualquer atividade independente ou autônoma capaz de produzir conhecimentos para além do saber oficial seja censurada ou desencorajada.

David Cooper compara a universidade a um hospital psiquiátrico:

“O design exterior é bastante semelhante: o bloco administrativo e vários departamentos, vilas, laboratórios, terapia ocupacional e tudo mais. Algumas universidades têm cercas e porteiros para controlar aqueles que entram e saem. A ironia disso está em que provavelmente ninguém entra e certamente ninguém sai. As duas instituições estão cheias de preocupação fingida dos ‘Protetores’ sobre os ‘protegidos’. Ambas são boas almas (alma mater), de cujos seios brota um antigo veneno, sedativos de todos os tipos concebíveis, desde a pílula precisa para o paciente preciso até o trabalho exato para estudantes exatos.”1

As universidades se apresentam, em caros anúncios de televisão, como o reino do conhecimento e da vida intelectual, mas estão presas pela esclerose de sua maneira pretensiosa e dogmática de conceber e produzir um conhecimento que desejam universalmente válido. Ignora ou despreza a sabedoria de dissidentes como Feyerabend, que afirma que o progresso científico só é possível quando certas regras “óbvias” são violadas voluntária ou involuntariamente, e acrescenta que, onde a razão é ditada pela norma, “os cientistas precisam desenvolver e sustentar suas teorias irracionalmente; não há regras gerais para estabelecer a verdade; vale tudo.”2

As universidades também têm, obviamente, interesses monetários importantes, objetivos claros de dominação social e agem de acordo com as normas ditadas pelo mundo do trabalho assalariado. Levando tudo isso em consideração, as universidades só podem ser úteis pelas estruturas que muitas vezes proporcionam (bibliotecas, ambientes diversos, salas de conferências, restaurantes universitários, salas de computadores, galerias) e que, para fins contrários aos seus propósitos originais, podem ser subvertidos e usados por estudantes e não-estudantes, ansiosos para explorar as margens do conhecimento, o subsolo da versão oficial, sabendo, assim como Bachelard, que “pensar é sempre pensar contra”3

A respeito do pensamento, essa atividade tão desencorajada por toda prática educacional, incluindo as universidades, diz Viviane Forrester:

“Não há atividade mais subversiva ou temida. É também a mais difamada, o que não é acidental nem sem importância: o pensamento é político. Isso não é restrito apenas ao pensamento político. O próprio pensar é político. Daí a luta insidiosa e, portanto, a mais eficaz e mais intensa em nosso tempo, contra o pensamento. Contra a capacidade de pensar.”4

Como provocar o pensamento, a capacidade de ler nas entrelinhas, o exercício exultante de lucidez e crítica? Como incentivar, permitir inovação, descoberta, criação de conhecimento que serve para viver, quando só é possível existir vida fora do sistema mercadológico? Agustín García Calvo renuncia ao título de filósofo ao considerá-lo desacreditado e absolutamente assimilado pelo sistema((Agustín García Calvo assinala que “a prova da extrema prostituição da palavra filosofia é a de que os até os executivos têm sua própria filosofia: a filosofia da empresa”. Nós acrescentaríamos a este exemplo, como forma de provar a mesma prostituição, o caso de Federico Salazar, filósofo liberal que comenta, com mais salário que dignidade, desfiles de moda no noticiário matinal do Canal 4 de TV.)) e prefere, se for necessário, o título menos profissional e gasto, menos formatado e definido e, portanto, mais livre, de pensador. A criação de contra-universidades, lugares autônomos onde pensadores, estudantes e professores convergem interessados em quebrar a monotonia, a rigidez acadêmica e a pobreza, onde o conhecimento deixa de ser “ensinado” para ser uma criação comum ou, ao menos, uma descoberta individual de uma possibilidade comum, a não ser que o próprio acordo mútuo solicite uma intervenção docente em matéria de ordem técnica, pode ser uma alternativa válida à morte da universidade.

Diz D. Cooper:

“O que proponho é uma estrutura móvel, totalmente não hierárquica e em revolução contínua, capaz de gerar revolução além dos limites de sua estrutura. A universidade (ou o que no atual momento da história deveria ser chamado de anti-universidade, contra-universidade, universidade livre ou algo semelhante) seria uma rede muito ampla. As células funcionariam dentro de uma universidade oficial como um antídoto para o sistema, de forma muito independente.”5

Essas estruturas informais, completamente desprovidas dos vícios daquela esquerda que se submete à dinâmica e lógica da política autoritária, desprezando completamente o poder e criando apenas uma organização mínima para funcionar, provavelmente seriam consideradas suspeitas ou mesmo ilegais pelas autoridades acadêmicas, o que nos mostra a saúde vigorosa do cadáver universitário e, portanto, a necessidade desses casos de resposta e crítica.

Se a criação desses espaços autônomos não for possível, seja devido à repressão autoritária ou porque não ocorreram encontros felizes com as pessoas necessárias para concretizá-las – dados os interesses cada vez mais estreitos e previsíveis das novas gerações; se mesmo as intervenções pessoais em sala de aula não são mais viáveis com a intenção de provocar algum debate, devido ao torpor e retaliação gerais, e se a perspectiva de um horizonte de exames e aulas massacrantes é insuportável, o único recurso para salvaguardar a integridade pessoal parece ser abandonar formalmente o antro universitário, de maneira solitária e silenciosa, estrelando o que aos olhos do mundo parece um abandono inexplicável.

  1. David Cooper, La muerte de la familia, Editorial Planeta, México 1986. []
  2. P. Feyerabend., Tratado contra el método, Ediciones Orbis, Barcelona 1984. []
  3. Citado por Jesús García Blanca, en “No somos nada”, revista Ekintza Zuzena No 19, Bilbao 1996. []
  4. Viviane Forrester, El horror económico, F.C.E., Buenos Aires 1997. []
  5. David Cooper, La muerte de la familia, op. cit. []

Fortaleça: Reforma da horta hidropônica de Utopia e Luta

Quem conhece o espaço coletivo de Utopia e Luta sabe da importância da horta no terraço e como esse tipo de cultivo fortalece as relações, os vínculos com a comunidade e os recursos desse assentamento urbano. Convidamos todas as pessoas para se somarem nessa campanha de financiamento coletivo e contribuir para que a horta volte com tudo. São necessárias diversas melhorias e manutenções, como a troca de 100m de lona de 200 micras, motores para hidroponia, insumos de plantio, estruturas, etc. Todos esses itens são bem específicos e dão pouco espaço para improvisações. Por isso Utopia e Luta precisa de sua ajuda para seguir cultivando um mundo de ideias, consciência e liberdade.

Conheça a campanha no Catarse e apoie.

Localizada no centro de Porto Alegre, a Comunidade Autônoma Utopia e Luta é uma exceção à regra das ocupações urbanas brasileiras. Iniciada em 2005 com uma ocupação durante o Fórum Social Mundial, a comunidade hoje é a única cooperativa que obteve regularização fundiária pelo Programa Crédito Solidário do governo federal. O prédio, situado nas escadarias do Viaduto Otávio Rocha na avenida Borges de Medeiros, foi contemplado com o programa viabilizado pela Caixa Econômica Federal e pelo Ministério das Cidades. Propriedade do Instituto Nacional de Seguridade Social (INSS), o edifício estava em processo de deterioração e desocupado havia 17 anos. O projeto do Utopia e Luta é único do tipo entre os contemplados pelo programa Crédito Solidário desde 2007.

Hoje estamos as vésperas de completar 15 anos de uma Ocupação exitosa e precisamos do seu apoio para reformar nossa Horta hidropônica, lançamos nosso grito aqui do sul do Brasil aos nossos amigos e parceiros do mundo todo, seguimos autônomos e acreditando em um mundo possível, com mais justiça e igualdade social.”

Nanci Araujo
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