Ao longo dos últimos anos, a Monstro dos Mares realizou mais de 15 campanhas de financiamento coletivo, entre iniciativas pontuais e recorrentes. Neste texto, reunimos alguns aprendizados desse percurso, atravessando plataformas, erros, acertos e muitas trocas.
Hoje estamos presentes em duas plataformas, Catarse e Apoia-se. Cada uma tem suas especificidades e, como sabemos, existem muitas outras plataformas por aí. O objetivo desta publicação é compartilhar um pouco da nossa experiência navegando pelas águas do financiamento coletivo.
Atualmente, lançar livros pela Monstro dos Mares só é possível por meio de financiamento coletivo pontual. Não contamos com recursos próprios para impressão, e é justamente aí que o financiamento coletivo se mostra um instrumento potente. Ele viabiliza os custos de produção, amplia a comunicação em torno do conteúdo e aproxima pessoas do cotidiano da editora. Muitas vezes, quem apoia um projeto acaba voltando em outros. Criamos vínculos, trocamos ideias por e-mail ou chat e, aos poucos, essas pessoas passam a fazer parte das atividades da editora.
Ansiedade do início ao fim
Nas campanhas pontuais, a ansiedade acompanha todo o processo. Começa na preparação, passa pela escolha da data ideal de lançamento, pela dúvida sobre a comunicação e pelas recompensas. Será que vão gostar? Será que os apoios vão chegar?
E quando não chegam, bate aquele frio na barriga. Por outro lado, há também a alegria de alcançar marcos como 20%, 50% e 80%. Nem sempre chegamos aos 100%, e tudo bem. Faz parte do processo. Afinal, estamos falando de livros anarquistas, não de revistas de RPG ou produtos de massa. Cada campanha é única e aprender com cada uma delas é essencial.
Planeje suas recompensas com cuidado
Uma história que sempre lembramos envolve recompensas. Em uma campanha, compramos 50 pendrives para enviar com o sistema operacional TAILS OS. Cerca de 30 foram enviados, e 20 ficaram guardados.
Anos depois, em uma nova campanha de tecnologia, resolvemos usar esses pendrives novamente. Deu certo até a hora de gravar. O sistema tinha passado de 4GB para 8GB, e os pendrives se tornaram inúteis. Resultado: tivemos que comprar novos, com dinheiro da campanha, o que bagunçou bastante as contas.
Moral da história: planeje bem suas recompensas e cuide das finanças do projeto com atenção.
Optar por plataformas maiores
Sabemos quais são as principais plataformas e também conhecemos seus problemas. A taxa de 13% costuma gerar desconfiança e nos faz olhar para alternativas menores. Ainda assim, as plataformas maiores têm uma vantagem importante: muitas pessoas já possuem cadastro, já apoiaram outros projetos e estão habituadas ao processo.
Outro ponto é a limitação na formatação de textos. Independentemente da plataforma, ainda há muito a melhorar. Inserir textos com boa organização, títulos e legibilidade é um desafio. Nem mesmo recursos simples como Markdown são oferecidos.
Mesmo com essas limitações, entendemos que vale arriscar em ferramentas mais consolidadas e lidar com seus problemas.
Sistemas de pagamento
Um ponto básico em qualquer financiamento coletivo é o sistema de pagamentos. Espera-se facilidade com pix, cartão e boleto, além de compensação rápida e transparente.
O ideal é que o pix apareça instantaneamente na campanha e que as transferências para a conta corrente do projeto sejam ágeis e certas. Nesse aspecto, ainda há bastante espaço para melhorias, principalmente quanto aos prazos.
Divulgação e comunicação com o público
Um ponto importante que temos aprendido é lidar com o mundo hiper conectado, onde há uma disputa feroz pela atenção das pessoas, na qual levamos desvantagem em relação a grandes empresas e influenciadores. Como fazer a pessoa lembrar de pagar o boleto? A maioria das pessoas acaba tendo a sua atenção, concentração e organização engolidas pela conjuntura que vivemos, onde o trabalho é sucateado, os mensageiros e as plataformas invadem as nossas folgas e descansos, e buscamos o alívio dopamínico no entretenimento por diversas mídias, gerando um ciclo de trabalho e distração que nos afasta de nossos prazeres, propósitos e objetivos mais genuínos.
Estamos observando as estatísticas das campanhas, e aprendendo os momentos mais assertivos de enviar lembretes aos leitores para apoiar os nossos projetos. Além do conteúdo da mensagem, temos uma preocupação com o meio, já que esses lembretes tem se dado de diversas formas: por e-mail; nos nossos grupos privados de apoiadores; e pelas plataformas das chamadas big techs, já que não estar nelas nos daria uma desvantagem ainda maior pela disputa de atenção. Também estamos ocupando plataformas livres e descentralizadas, como o Mastodon, como posição política, no sentido de ajudar a construir um futuro sem as grandes corporações, mas a realidade é dura e nos faltam braços para gerir tantos espaços digitais.
Uma novidade recente, implantada na campanha Cosmologias ameríndias, foi a realização de uma entrevista gravada de cerca de 80 minutos com o autor do livro, com o objetivo de gerar cortes e realizar uma divulgação em formato familiar ao público. Além de ajudar na divulgação, cremos que ouvir a voz do autor, ver o seu rosto, é algo que ajuda a humanizar a campanha e observamos um crescimento nos apoios frente ao vídeo, pelo menos nessa primeira experiência, que pretendemos ampliar e aprimorar nos próximos financiamentos.
Conheça nossas campanhas de financiamento coletivo
As campanhas pontuais que já realizamos:
- Por uma epistemologia orgânica
- Cosmologias ameríndias em movimento
- Brasil Negro Insurgente
- Anarquia na era dos dinossauros
- 10 perguntas sobre o anarquismo
- Monstro dos Mares 10 anos
- Migração de Outono
- Aniversário 9 anos Editora Monstro dos Mares
- Por uma impressora incendiária
- Manifestos Cypherpunks
- Este é nosso corpo, a terra
- Cronicavírus in Brazil: A Gambiarra da Destruição
- Zumbi dos Palmares: por uma educação antirracista
- O índio no cinema brasileiro e o espelho recente
- O mal-estar do dominante
- [Livro] Ciberfeminismo: tecnologia e empoderamento
- [Livro] PIXAÇÃO: A arte em cima do muro
As campanhas recorrentes
- Rede de apoio Editora Monstro dos Mares (Catarse)
- Monstro dos Mares (Apoia-se)
Por que seguimos confiando no financiamento coletivo
Realizar um financiamento coletivo, seja pontual ou recorrente, é muito importante para um projeto coletivo. Não se trata apenas de arrecadar recursos. É também uma forma de se comunicar com o mundo, apresentar ideias, fortalecer uma proposta e construir relações.
O financiamento coletivo nos permite existir, mas também nos permite criar comunidade. E, no meio desse processo, surgem amizades e trocas que fazem toda a diferença.
Seguimos navegando.
Viva o financiamento coletivo.
