Publicado em 6 coment√°rios

Editoras anarquistas que mant√™m vivo o esp√≠rito libert√°rio na Col√īmbia

“Voc√™ tem todo o direito de copiar este livro total ou parcialmente, imprimir e distribuir por qualquer meio. Esse conte√ļdo n√£o √© protegido por nenhum monop√≥lio cultural ou direito comercial; ao curso da hist√≥ria os livros s√£o e ser√£o gratuitos. Ningu√©m vai te culpar ou prender por distribuir ou realizar c√≥pias; pelo contr√°rio, ficaremos muito agradecidos se voc√™ fizer isso. O conhecimento se distribui livremente.”

Ao abrir um livro, raramente √© poss√≠vel se deparar com essa afirma√ß√£o, n√£o restritiva ‚Äď como regra geral ‚Äď, mas permissiva. Essa tem sido a premissa sob a qual acad√™micos, poetas, estudantes e militantes anarquistas publicam, de forma independente, distribuem os textos pr√≥prios e outros. Essas editoras fazem isso criando outros formatos, que visam uma produ√ß√£o com mais tiragem, diferente dos panfletos e fanzines publicados h√° mais de 20 anos em universidades e outros espa√ßos libert√°rios.

Alguns livreiros identificam a origem dessas editoras anarquistas na Feira do Livro Independente e Autogerenciada (FLIA, que come√ßou em Buenos Aires, Argentina) que, a partir de 2010, mudou-se para Bogot√°. Desde a primeira edi√ß√£o, os visitantes do evento liter√°rio come√ßaram a se familiarizar com uma produ√ß√£o diferente, clandestina e artesanal, que incentiva a produ√ß√£o dom√©stica dos livros. Uma dessas pessoas foi Fabi√°n Serrano, membro da editora Imprenta Comunera, da cidade Bucaramanga. “O bom de ter uma editora independente √© que escapamos da imposi√ß√£o de autores renomados e personalidades para focamos apenas nos personagens que consideramos importantes“, diz Fabi√°n, que juntamente com outros dois colegas, lan√ßou oito publica√ß√Ķes em apenas cinco meses.

Eles, como seus colegas de outras editoras, n√£o est√£o preocupados em ter lucro, mas em espalhar seus pensamentos e ideias para o maior p√ļblico poss√≠vel. √Č por isso que o tempo todo eles resgatam conte√ļdos de anarquistas conhecidos, mas que n√£o s√£o publicados em grandes editoras ou editoras comerciais, como √© o caso da obra de Emma Goldman, Piotr Kropotkin, Errico Malatesta, Uri Gordon, Henry David Thoreau e de personalidades com um lado libert√°rio pouco conhecido, como Oscar Wilde ou Noam Chomsky. Para essas reedi√ß√Ķes, √© mais complicado conseguir o texto para public√°-lo, por haver poucas c√≥pias existentes; geralmente, os autores dessa corrente independente divulgam seus trabalhos sem restri√ß√Ķes. “Sentimos que, quando criamos algo, isso n√£o nos pertence mais, de modo que as pessoas assumem e se reconhecem neles, e isso √© maravilhoso“, explica Iv√°n Dar√≠o √Ālvarez, escritor, pensador anarquista e bonequeiro, fundador do teatro La lib√©lula Dorada.

Pie de Monte √© uma das editoras que faz esses resgates, mas que tamb√©m quer apostar em novos escritores. Atualmente, a editora trabalha com textos de amigos e conhecidos, mas seu objetivo √© que, mais tarde, mais pessoas sejam encorajadas a publicar seus trabalhos autorais. “Fizemos isso porque a ideia √© que as pessoas saiam da din√Ęmica do mercado editorial e dos blogs e que resgatem a tarefa do livreiro e das livrarias. Isso sim, a √ļnica coisa que n√£o tem discuss√£o √© que quem publica conosco deve deixar livres os direitos da obra“, comenta Santiago Lopez, membro da editora.

A conjuntura √© outro fator importante nas reedi√ß√Ķes ou escritos originais: muitos textos s√£o publicados em um determinado momento para demonstrar que as ideias anarquistas de v√°rias d√©cadas atr√°s ainda s√£o v√°lidas. Foi o caso da √ļltima publica√ß√£o da El Rey Desnudo, a editora de Iv√°n Dar√≠o e do poeta Juan Manuel Roca, USA naci√≥n de lun√°ticos, uma compila√ß√£o de fragmentos de um ensaio que o escritor Henry Miller fez ap√≥s o fracasso americano no Vietn√£, um texto que foi lan√ßado como uma cr√≠tica ao atual mandato de Donald Trump.

Embora os livros sejam o formato preferido para editoras anarquistas, brochuras, diários e jornais não são renegados. El Aguijón, uma editora criada dentro da Universidade Nacional de Medellín, em 2006, lançou uma seleção de contos e está preparando um novo volume. Porém, ocasionalmente eles tiram o jornal El Aguijón РKlavando la duda, para o qual recebem apoios financeiros que permitem dar continuidade em outros projetos. Você pode baixar os exemplares gratuitamente na página da editora.

O dinheiro investido √© recuperado na maior parte das vezes, mas para reduzir custos ou acelerar o processo √© comum alguns editores unirem for√ßas. Rojinegro e Gato Negro reuniram textos como Estrat√©gia e t√°tica na pr√°tica anarquista, de Errico Malatesta, e Anarquismo e poder popular: teoria e pr√°tica sul-americanas, uma compila√ß√£o de teorias e opini√Ķes sobre anarquismo e poder popular. O n√ļmero de c√≥pias varia e, assim como alguns t√≠tulos chegam a 300 c√≥pias, outros saem com apenas 30 exemplares.

Devido ao desconhecimento sobre os autores ou preconceitos que existem em rela√ß√£o ao anarquismo, poucos s√£o os lugares onde √© poss√≠vel encontrar essas publica√ß√Ķes em suas prateleiras. Em Bogot√°, os mais comuns s√£o La Valija de Fuego, Rojinegro, La Lib√©lula Dorada, Luvina, El Dinosaurio, √Ārbol de Tinta e La Mandriguera del Conejo. Oscar Vargas, um dos fundadores da Gato Negro, diz que tentaram alcan√ßar outros espa√ßos, mas que n√£o deu muito certo. “Isso foi dif√≠cil, porque em v√°rias livrarias eles querem cobrar entre 30% e 40% do pre√ßo de capa, e buscam ter lucro por algo que n√≥s n√£o compartilhamos na mesma l√≥gica. Somente alguns foram capazes de entender a proposta‚ÄĚ, explica √ďscar.

As publica√ß√Ķes de Gato Negro. Foto cedida por Oscar Vargas.

Mas nem a clandestinidade, nem o baixo or√ßamento, foram impedimentos para alcan√ßar outras partes do mundo. Por meio de conhecidos ou trocas por quilos, os editores colombianos levaram textos para Argentina, Chile, Equador, M√©xico, Peru, Uruguai, Brasil e Espanha. Os livros recebidos do exterior s√£o vendidos para recuperar o dinheiro investido ou, como no caso da Rojinegro, s√£o utilizados no Centro de Documenta√ß√£o √Ācrata, uma espa√ßo que fica nas suas instala√ß√Ķes e que qualquer pessoa pode consultar o acervo ou fazer c√≥pias.

Os pre√ßos baixos s√£o a chave para alcan√ßar mais pessoas: a maioria dos livros √© vendida entre sete mil e quinze mil pesos, aproximadamente. (Nota do tradutor: O que equivale a um valor entre 10 e 20 reais) ‚ÄúVimos que em feiras e eventos independentes, os metaleiros ou punks sacrificam parte da grana da birita porque est√£o interessados no que fazemos. √Č uma mentira que na Col√īmbia as pessoas n√£o gostam de ler; elas n√£o leem porque os livros aqui s√£o muito caros‚ÄĚ, explica Fabi√°n.

Foto cedida por Oscar Vargas.

As editoras libert√°rias da Col√īmbia precisam ser mais divulgadas, mas seus editores est√£o satisfeitos com a situa√ß√£o atual e com o fato de que cada vez mais pessoas querem escapar da realidade do mercado e s√£o incentivadas a publicar ou piratear o trabalho de autores que incomodam a outras editoras, ou mesmo ao estado. Essa aceita√ß√£o vem aumentando e recentemente, por exemplo, uma tradu√ß√£o do livro de Iv√°n Dar√≠o √Ālvarez e Juan Manuel Roca, Dicion√°rio anarquista de emerg√™ncia, come√ßou a ser distribu√≠do na Fran√ßa.

Para Roca, esse √© um sinal da inconformidade latente que persiste na humanidade. “Anarquismo √© como Dr√°cula, que em todos os filmes eles o matam, mas em cada final ele acorda e est√° mais vivo do que os vivos. H√° quantos anos eles decretam a sua morte e vemos que diversos movimentos de jovens e aqueles que n√£o fazem parte de um partido se mobilizam de maneira t√£o vigorosa e sem limita√ß√Ķes‚ÄĚ, diz ele.


Por Andrés J. López, publicado em Cartel Urbano no dia 10 de Março de 2017.
Versão para o português por Baderna James.