Publicado em Deixe um coment√°rio

Financimento coletivo “Este √© nosso corpo, a terra: Caminhos e palavras Av√° Guarani/√Ďandeva de Porto Lindo (Jakarey) Yvy Katu para al√©m do fim do mundo”

‚ÄúEste √© nosso corpo, a terra: caminhos e palavras Av√° Guarani/√Ďandeva para al√©m do fim do mundo‚ÄĚ Yan Leite Chaparro e Josemar de Campos Maciel

“Este √© nosso corpo, a terra: Caminhos e palavras Av√° Guarani/√Ďandeva de Porto Lindo (Jakarey) Yvy Katu para al√©m do fim do mundo” / “Yvy p√©a ha‚Äôe ore rete: tapeku√©ra ha √Īe‚Äôengu√©ra Ava Guarani/√Ďand√©va amogotyove oparire ko √ĪapyrŇ©ha”, um livro de Yan Leite Chaparro Josemar de Campos Maciel.

Resumo

A tese intitulada ‚Äú Este √© nosso corpo, a terra: caminhos e palavras Av√° Guarani/√Ďandeva de Porto Lindo (Jakarey) Yvy Katu para al√©m do fim do mundo‚ÄĚ j√° tem no seu t√≠tulo o sentido b√°sico de todo trabalho: a perspectiva do conceito de envolvimento como produ√ß√£o de realidade Av√° Guarani/√Ďandeva, que revela caminhos e palavras para al√©m do fim do mundo, ou melhor, para al√©m da inven√ß√£o branca de desenvolvimento. O trabalho entende os Av√° Guarani/√Ďandeva como uma sociedade com densidade pr√≥pria, em rela√ß√£o de simetria com a sociedade que a circunda. Em simetria, pois ambas s√£o sociedades que possuem suas cosmologias, organiza√ß√£o social, modos de existir, de ser e de fazer a vida. Em simetria, mas n√£o necessariamente em harmonia, pois tecem caminhos contr√°rios para produzir a sua realidade. Para os Av√° Guarani/√Ďandeva, essa produ√ß√£o acontece mediante movimentos de envolvimento enquanto que, para a sociedade marcada pelo movimento de acelera√ß√£o capitalista/moderno, acontece no chamado desenvolvimento. Da√≠ o ponto central de toda a tese. Trata-se de vis√Ķes de mundo sim√©tricas e tensionadas. Essa centralidade nos conduz a ouvir e construir juntos um discurso com os Av√° Guarani/√Ďandeva, de Porto Lindo (Jakarey) Yvy Katu sobre a cosmologia capitalista e desenvolvimentista produzida pela sociedade moderna, a inven√ß√£o branca de desenvolvimento. O texto provoca a reflex√£o sobre o envolvimento como proposto pelos Av√° Guarani/√Ďandeva como forma/conte√ļdo de radical sofistica√ß√£o para al√©m do fim do mundo de humanos e n√£o-humanos, questionando a hegemonia da inven√ß√£o branca como sendo mais um mito fundador, que pode ser visto com outros olhos, e redimensionado ‚Äď aqui, na imagem do sempre visto e esperado fim do mundo.

√Ďe‚ÄôŠļĹ mbyky‚Äôi

Ko tembiapo mohu‚Äô√£ h√©ra ‚ÄúYvy p√©a ha‚Äôe ore rete Tapeku√©ra ha √Īe‚ÄôŠļĹngu√©ra Ava Guarani/√Ďand√©va Jakareypegua (Porto Lindo) Yvy Katu amogotyove opa‚ÄôŠĽĻmboyve ko √ĪapyrŇ©ha‚ÄĚ oguerek√≥ma pe √Īe‚ÄôŠļĹak√£me he‚Äôis√©va √Īepytykov√Ķr√£ tembiap√≥pe, mba‚Äô√©ichapa jahecha umi he‚Äôis√©va tembiapo ramo umi Av√° Guarani/√Ďand√©va hekoit√©pe ohechauk√°va tapeku√©ra ha √Īe‚ÄôŠļĹngu√©ra amogotyove oparire ko √ĪapurŇ©ha, t√©r√£, amogotyove umi karaiku√©ra ojejap√≥va √Īepytyv√Ķr√£. Ko tembiapo oń©va tenondeve ohechakuaa Ava Guarani/√Ďand√©va ha‚Äôeha peteń© tekohaygua oguerek√≥va ijyk√©re pe teko capitalista/moderna, mok√Ķive oguereko pe hek√≥pe arapygua, pe mba‚Äô√©ichapa omba‚Äôapo, mba‚Äô√©icha oiko ha mba‚Äô√©ichapa oiko. Ojoehe katu tape i√Īambue ha‚Äô√©re mba‚Äôapoharaku√©ra ombohek√≥va imba‚Äôete. Ava Guarani/√Ďand√©vape guar√£ pe omoa√Īet√©va oik√≥va oiko pe jeku‚Äôe ha‚Äôe oimeh√°me ha teko capitalista/modername oiko pe jeku‚Äôe mba‚Äôepotagu√©vi. P√©a ha‚Äôe pe ipor√£v√©va ko tembiap√≥pe, o√Īondie ha nah√°niri. Pe mombyte ome‚ÄôŠļĹ ojejapo hańĚua cr√≠ticas, invers√Ķes ha √Īeporandu Ava Guarani/√Ďand√©va ndive Porto Lindo (Jakarey) Yvy Katu gu√°ndi pe jehechapy tuichakue capitalista ha mba‚Äôepota potav√©va ombohek√≥va pe teko pyahu, pe mba‚Äôe pyahu karai mba‚Äôe mba‚Äôepota potav√©va. Pe ojap√≥va √Īeporandu mba‚Äôepota rehegua Ava Guarani/√Ďand√©va ndive mba‚Äô√©icha forma/conte√ļdo omoa√Īetet√©va amogotyove pe pyrŇ©ha oparire tekov√©pe ha ndaha‚Äô√©iva, √Īeporandu pe mbarete karai mba‚Äôe pyahu ha‚Äô√©va mba‚Äôepota potave mbyte ramo omohe√Īoiva pe ojehech√°va ha o√Īeha‚Äôar√Ķva pyrŇ©ha opataha.


Sobre os autores

Yan Leite Chaparro √© filho de pai paraguaio e m√£e sul-mato-grossense, neto de paraguaios e nordestinos, organiza√ß√£o comum e representativa sobre o processo hist√≥rico do Mato Grosso do Sul onde, esse trabalho foi inscrito. O pesquisador √© formado em Psicologia, com forma√ß√£o em Psicodrama Cl√≠nico. √Č tamb√©m Mestre e Doutor em Desenvolvimento Local pela Universidade Cat√≥lica Dom Bosco. Trabalha com os Av√° Guarani/√Ďandeva e os Kaiow√°/Pai`Tavyter√£ desde 2010 a convite da Profa. Dra. Rosa Colman e do Prof. Dr. Ant√īnio Brand (in memoriam) . Hoje junto com o trabalho com os Guarani que vivem no Mato Grosso do Sul, tamb√©m trabalha no, campo cl√≠nico do Psicodrama em consult√≥rio e em comunidades urbanas. √Č integrante do Grupo de Pesquisa Estudos Cr√≠ticos do Desenvolvimento/CNPq e do Laborat√≥rio de Humanidades/LabuH.

Josemar de Campos Maciel √© professor de Filosofia (de 1994 at√© o presente) e pesquisa na √°rea do Desenvolvimento, sendo l√≠der do Grupo de Pesquisa ‚ÄúEstudos Cr√≠ticos do Desenvolvimento‚ÄĚ (CNPQ). √Č doutor em Psicologia (2004). Atualmente, √© Docente Permanente dos Programa de P√≥s-Gradua√ß√£o Stricto Sensu: Mestrado e Doutorado em Desenvolvimento Local da Universidade Cat√≥lica Dom Bosco – MS, e presidente do Comit√™ Cient√≠fico da mesma Universidade. Possui est√°gio p√≥s-doutoral conclu√≠do em Estudos Culturais (2017) na Escola de Artes, Ci√™ncias e Humanidades da Universidade de S√£o Paulo.


Sobre o livro

‚ÄúEste √© nosso corpo, a terra: caminhos e palavras Av√° Guarani/√Ďandeva para al√©m do fim do mundo‚ÄĚ
Yan Leite Chaparro e Josemar de Campos Maciel

Editora Monstro dos Mares
230 p√°ginas

Para apoiar a campanha de financiamento coletivo do livro acesse:
https://www.catarse.me/nossocorpoaterra

Publicado em Deixe um coment√°rio

Não se corromper pra nóis já é vitória! Sobre o processo em curso de gourmetização dos livros independentes.

Oh! Bendito o que semeia
Livros à mão cheia
E manda o povo pensar!
O livro, caindo n’alma
√Č germe ‚Äď que faz a palma,
√Č chuva ‚Äď que faz o mar!
Castro Alves, Espumas Flutuantes, 1870.

Cultura como um produto das elites

Percebe-se que na hist√≥ria, desde a antiguidade at√© o World Trade Center (9/11), as elites criam hierarquias culturais a servi√ßo de seus mais diversos anseios. No modo de pensar hegem√īnico desta contemporaneidade decr√©pita, √© evidente que existem conceitos diferentes de ‚Äúcultura‚ÄĚ. Dentre os conceitos poss√≠veis, destacamos o conceito de ‚ÄúCultura‚ÄĚ das elites, autorizado e reproduzido como o √°pice das realiza√ß√Ķes da Humanidade. Hoje, quem s√£o as pessoas que leem, frequentam espet√°culos, t√™m acesso facilitado e mais oportunidades de acesso a atividades culturais, teatros, cinematecas e espa√ßos especialmente destinados √† reprodu√ß√£o da cultura cooptada e esculpida pela e para a elte e √† alimenta√ß√£o de um sistema social excludente?

A frui√ß√£o dessa ‚ÄúCultura‚ÄĚ nunca foi, por motivos que j√° come√ßam a ficar aparentes neste texto, nunca foi universalizada. Ou melhor, dizem para n√≥s que qualquer pessoa pode entrar num museu e usufruir do contato com os quadros dos Grandes Mestres, com as coreografias dos mais renomados grupos de dan√ßa. Entretanto, por mais que os discursos de governos, mecenas e programas institucionais ousem afirmar que a ‚ÄúCultura √© de todos‚ÄĚ, n√£o podemos negar, tendo o m√≠nimo de consci√™ncia do contexto em que vivemos, que isso √© mais uma mentira que nos contam.

A cultura produzida fora dos quadrantes hegem√īnicos (cultura feita pela elite para a elite; cultura feita pela elite para ‚Äúo povo‚ÄĚ; cultura popular cooptada e reapresentada como ‚Äúcultura popular‚ÄĚ; a n√£o-Cultura ou os produtos culturais de baix√≠ssimo n√≠vel mas s√£o vendidos com a auto-consci√™ncia de que s√£o p√©ssimos), a produ√ß√£o cultural, seja ela art√≠stica ou de costumes, se d√° por seus pr√≥prios mestres. Sempre estiveram em suas comunidades, com ou sem incentivos de ONG¬īs, OSCIP¬īs ou das Casas Fora-do-Eixo e suas picaretagens sem fim. A cultura popular √© marginalizada em um processo disruptivo fomentado pela abstra√ß√£o erudita, colonial e euroc√™ntrica da ideia de ‚ÄúCultura‚ÄĚ.

No Brasil, a Poesia Marginal, a Gera√ß√£o Mime√≥grafo, os Fanzineiros do S√©culo Passado j√° nos apresentaram outros modos de compreender o fazer cultural. Feministas, Militantes, Rebeldes, Punks, Anarquistas e Hackers v√™m, no decorrer dos anos, apropriando-se dos processos que at√© ent√£o eram exclusivos da ind√ļstria, seja pelo dinamismo das tecnologias ou do compartilhamento das t√©cnicas. Mais do que isso, pela necessidade de n√£o depender da aprova√ß√£o do Deus Mercado para colocar seus gritos de resist√™ncia na fita, no disco, fanzine ou livro. Guerreiras e guerreiros que sempre fizeram das ruas o seu palco e estendem os bra√ßos para subverter a l√≥gica do consumo e fazer sua arte, seja ela teatro, circo, poesia, m√ļsica, cinema, tudo o que voc√™ conseguir inserir nesta lista. Mas antes de qualquer coisa, a tarefa √© a de assumir para si o empenho de ser seu pr√≥prio meio de express√£o, fazer a autonomia acontecer livre de intermedia√ß√Ķes. Ocupar a arte em todos os seus processos.

O processo de gourmetização não é novo e sabemos para onde ele vai

O t√≠tulo deste artigo poderia ser simplesmente ‚ÄúN√£o gourmetizem os livros‚ÄĚ, mas o ‚Äútoque de Midas‚ÄĚ dos hipsters j√° aconteceu e isso n√£o √© nenhuma novidade. Foi assim com as revistas em quadrinhos, discos de vinil, bicicletas, cafeterias, caderninhos de anota√ß√Ķes e comida vegana. √Č a gentrifica√ß√£o das culturas marginais. Se em algum momento n√≥s tivemos ingenuidade o suficiente para achar que atrav√©s de nossa resist√™ncia ativa e das pequenas mudan√ßas em pr√°ticas cotidianas poder√≠amos enfrentar o grande capital, infelizmente essa possibilidade j√° se esgotou. Rapidamente a Hidra de Lerna se adapta e transforma ecobags em produtos de grandes marcas de fast fashion, utilizam bicicletas nos comerciais de autom√≥veis de luxo. A pr√≥pria bike em si foi tornada um item de luxo; j√° existem startups obstinadas em desenvolver hardwares para reciclagem e compostagem dom√©stica. N√£o h√° limites para a gourmetiza√ß√£o.

As chamadas megastores por algumas d√©cadas concentraram ‚Äúo melhor da cultura‚ÄĚ. Reuniam livros, cds e dvds em confort√°veis e luxuosos espa√ßos com cafeteria e m√ļsica ambiente, praticamente um shopping dentro do shopping. Locais que davam (e d√£o) guarida √† adolesc√™ncia tardia de publicit√°rios que n√£o podiam comprar itens caros, mas que, agora, como profissionais liberais possuem dinheiro para forrar as prateleiras do seus quartinhos na casa da m√£e. E o Deus Mercado capturou esse movimento e entregou a essas pessoas produtos cada vez mais luxuosos, franquias infinitas de adapta√ß√£o de quadrinhos para o cinema‚Ķ Com a populariza√ß√£o do acesso √† internet (e ao download gratuito), essas grandes lojas precisaram diversificar os produtos para adolescentes de 20 e poucos anos e inclu√≠ram celulares, tablets e computadores em seus cat√°logos. Era o in√≠cio do fim dessas grandes redes.

A ind√ļstria fonogr√°fica, na sua face mais cruel, ou seja, as grandes gravadoras e distribuidoras de discos, preocupadas com o fen√īmeno peer-to-peer, realizaram a tarefa de ‚Äúaprimorar‚ÄĚ os aspectos f√≠sicos de seus produtos. E no final dos anos 90 e in√≠cio dos 00, a m√≠dia f√≠sica do CD (que j√° anunciava uma vida curta) recebeu latas especiais, facas de cortes personalizadas e encartes riqu√≠ssimos. Tudo isso foi por √°gua abaixo, desceu pelo ralo do esquecimento e hoje a m√≠dia f√≠sica √© apenas um material de divulga√ß√£o das bandas. Um mero cart√£o de visitas. Se em algum momento a ideia de vender discos para obter sucesso pareceu uma grande coisa a se fazer, na atualidade n√£o passaria de uma divertida anedota. A m√≠dia f√≠sica foi substitu√≠da pelo Youtube. Perceba que n√£o estamos falando de plataformas de compartilhamento de m√ļsica P2P como poderia parecer, mas toda a efetividade das rela√ß√Ķes entre a performance e seu p√ļblico est√° resumida ao Youtube. Se n√£o estiver l√°, nem sequer existe.

O mesmo aconteceu posteriormente com os filmes. Por d√©cadas as pessoas juntaram seu sacrif√≠cio mensal para comprar um t√≠tulo para colocar na prateleira e assistir com as amizades nos finais de semana. Com a populariza√ß√£o do download, os dvds, tal como os CDs tinham somente dois destinos: 1) As caixinhas de pl√°stico eram gourmetizadas com estojos, luvas, sobrecapas, finaliza√ß√Ķes e acabamentos especiais em verniz, papeis nobres e novamente encartes glamourosos e olhe l√°! Latas! Sim! Dvds dentro de latas, como se fossem biscoitos importados do tempo da vov√≥. Igualzinho aos CDs. 2) Os famigerados balaios de ofertas, onde a pessoa comprava a pre√ßo de banana o √ļltimo dos lotes dessa decadente ind√ļstria cultural.

Atualmente, o peer-to-peer dos filmes está sendo ameaçado pela Netflix (muito semelhante ao Youtube, porém com assinatura mensal), conforme alerta Peter Sunde, Co-fundador do The Pirate Bay em entrevista ao Torrent Freak (JAN/2018).

Se você chegou até aqui, já pode perceber que isso já aconteceu com livros das grandes editoras. Então não há razão de falar sobre elas, é hora de expor o próximo passo da gourmetização para além do churros e do picolé de frutas.

‚ÄúModern publishing is characterized by its being simultaneously cannibalistic and viviparous: while one publishing house is acquiring another, a third is opening for business.‚ÄĚ STEINBERG, S. H.; Five Hundred Years of Printing. 1996, p. 244

‚ÄúA editora√ß√£o moderna se caracteriza por ser, ao mesmo tempo, canibal e viv√≠para: enquanto uma editora est√° adquirindo outra, uma terceira est√° abrindo suas portas.‚ÄĚ

Conforme Sigfrid Henry Steinberg podemos perceber que depois de tanto comprarem umas às outras, as grandes editoras começaram a comprar as pequenas editoras. Misteriosamente começaram a brotar projetos editoriais, selos, editoras independentes e até mesmo as cartoneiras, inocentes que eram, agora correm velozes para alcançar seu espaço entre a matilha de lobos. Essa acusação, ou constatação, nos remete diretamente ao processo em curso das editoras independentes no Brasil.

Quem pesquisar na internet ou tiver o privil√©gio de conferir in loco como √© dado o ‚Äúfen√īmeno‚ÄĚ das pequenas livrarias e editoras independentes em outros pa√≠ses, pode perceber que o que est√° acontecendo aqui no ‚Äúpa√≠s dos foli√Ķes‚ÄĚ tem todas as caracter√≠sticas de um verdadeiro embuste! L√° fora, coletivos publicadores, pequenas editoras e autoras independentes produzem os livros, vendem de m√£o em m√£o em feiras, no pr√≥prio site, ou disponibilizam em pequenas livrarias de bairro, enviam para as amizades revenderem, compartilham com centros sociais ocupados e muito eventualmente em alguma distribuidora de nicho. ‚ÄúL√° fora‚ÄĚ, pode ser a Argentina, Uruguai e Chile, n√£o somente o velho continente. Uma distro/distribuidora de nicho se d√° por tem√°tica de conte√ļdos, ou afinidades pol√≠ticas entre as casas publicadoras e n√£o por seu modelo de comercializa√ß√£o; logo, um livro independente n√£o √© um g√™nero da literatura, mas somente a forma com que a editora se organiza. E aqui estamos percebendo que as ‚ÄúEditoras Independentes‚ÄĚ est√£o se transformando em mercado, um g√™nero, um objeto de fetiche da ‚Äúind√ļstria criativa‚ÄĚ. Um orgulho para Pablo Capilantra e a ‚Äúnova economia da cultura‚ÄĚ.

Claro que grandes editoras compram pequenas editoras no exterior tamb√©m, normal. Esse text√£o n√£o √© sobre isso, mas √© sobre o modelo de neg√≥cios que est√° em curso em torno do objeto livro das editoras independentes no Brasil. H√° atravessadores sedentos por serem a pr√≥xima megastore, a pr√≥xima Amazon, s√≥ que do livro independente brasileiro. √Č l√≥gico que existem pessoas muito bem intencionadas que compram uma banca de jornal, um √īnibus, um barco, uma bicicleta e transformam-na em livraria independente. N√£o s√£o dessas pessoas que acreditam no livro independente como uma possibilidade para se fazer a cultura marginal e marginalizada chegar √†s m√£os das pessoas que estamos falando. Estamos falando do inimigo real que quer abocanhar uma fatia dessa conquista das publicadoras aut√īnomas e independentes. Deus Mercado est√° de olho e salivando por esses livros descolados.

Em breve voc√™ vai perceber que dentro das poucas megastores que a Amazon ainda n√£o fechou haver√° uma ‚Äúquitandinha‚ÄĚ com as editoras independentes, que os pequenos publicadores que nunca foram associados do Sindicato Nacional dos Editores de Livros (SNEL) receber√£o como um espacinho para falar sobre suas produ√ß√Ķes em seus eventos e n√£o precisar mais correr para fazerem sua ‚ÄúBienal B‚ÄĚ, sua Feira do Livro Aut√īnomo e Independente na mesma data e em outros locais das grandes Feiras do Livro promovidas por institui√ß√Ķes e governos. Aos bocados, eles pretendem assimilar as pequenas editoras como frutos de sua pr√≥pria obra, como parte de sua benevol√™ncia, com sua autoriza√ß√£o/b√™n√ß√£o e at√© mesmo investindo algum dinheirinho nisso, pois afinal, se existem pessoas para comprar livros independentes, esse pode ser um bom neg√≥cio. Ao inv√©s da m√≠dia anunciar o acontecimento de uma contra-bienal do livro reividicando o papel das independentes, a Bienal vai apresentar sua bondade √† m√≠dia, ao conceder um ‚Äúespacinho‚ÄĚ em seus stands para as editoras independentes. Voc√™ em algum momento vai perceber a participa√ß√£o de um selo editoral de uma grande editora em pequenos eventos de editoras independentes. Ent√£o poder√° perceber que as concess√Ķes s√£o vias de m√£o dupla (canibal e viv√≠para) na assimila√ß√£o do mercado. Se n√£o agirmos, teremos cada vez mais livros bonitos, acabamentos especiais, recortes laser, furinhos, sobre capas, estojos, luvas, latas e menos populariza√ß√£o ou acesso ao livro impresso.

J√° existem distribuidoras de editoras independentes recheadas de ‚Äúagitadores culturais‚ÄĚ que est√£o mais interessadas no objeto livro e como ele se apresenta para seus clientes de luxo, do que com as rela√ß√Ķes de conting√™ncia que fizeram emergir tais publica√ß√Ķes. Este √© um assunto muito s√©rio, pois raramente as grandes editoras em suas distribuidoras d√£o descontos acima de 30% para lan√ßamentos, o faturamento √© realizado em 30, 60 e 90 dias e o frete √© por conta do livreiro. J√° o modelo sugerido por algumas dessas ‚Äúnovas‚ÄĚ distribuidoras exige 50% do pre√ßo de capa dos t√≠tulos das editoras independentes (lan√ßamentos inclusive), consigna√ß√£o (ou seja, o acerto √© realizado quando e somente quando √© realizada a venda ou no m√™s posterior) e a casa publicadora ainda precisa arcar com os custos de frete para o magn√≠fico distribuidor. Caramba! A√≠ est√° realmente um grande modelo de neg√≥cio √†s custas dos esfor√ßos das independentes. Vejo o sorriso do SEBRAE neste horizonte!

Essa √© uma estrat√©gia de mercado para tornar o objeto livro distante do PDF, para que as pessoas tenham desejo de possuir a obra por seus aspectos f√≠sicos e sua apar√™ncia. Com tanta gourmetiza√ß√£o, o pre√ßo dos livros independentes pode chegar √† estratosfera. Uma implica√ß√£o tautol√≥gica em dire√ß√£o a lucros muito rent√°veis. Uma vez que o conte√ļdo √© igual ao do PDF, ao pesquisar bem e com um pouco de sorte, a pessoa mais desatenta poder√° encontrar t√≠tulo igual ou semelhante dispon√≠vel para baixar na rede. E isso tem significado cont√≠nuos preju√≠zos ao Deus Mercado quando aplicado √†s grandes editoras. Mas quem ter√° o PDF das independentes?

N√ÉO SE CORROMPER PRA N√ďIS J√Ā √Č VIT√ďRIA!

Cada uma de nós na Editora Monstro dos Mares, temos em nossos princípios uma definição inequívoca e ampla sobre as possibilidades do livro de baixo custo nas mãos de compas. Para que as pessoas em contato com nossos livros, para que as ideias impressas nas páginas possam representar a potência de um fuzil. O livro é o fuzil de quem pensa! E ele deve estar na mão de todas as pessoas que estão no enfrentamento diário contra a Hidra de Lerna do grande capital.

O livro não deve ser um objeto de elites, de vanguardas intelectuais, de movimentos exclusivos, nem fruto de uma plataforma específica. O livro carrega em si todo o espectro de possibilidades e experiências de que algo que foi realmente feito para o propósito de estar nas mãos das pessoas, em toda parte. Como afirma Aragorn, no editorial da revista AJODA #59, Primavera/Verão de 2009.

Não se corromper pra nóis já é vitória! Assumimos aqui o compromisso de colocar tinta no papel, cortar, grampear, colar, montar o livro e oferecer títulos de baixo e baixíssimo custo para todas as pessoas. Estendemos este convite às nossas amizades, que tragam esse objetivo em seus princípios para suas editoras, que as autoras e autores exijam a possibilidade de popularizar o acesso ao livro e também, obviamente, que as pessoas rejeitem a gourmetização não apenas dos livros! Baixe o PDF, imprima, distribua!

Entendemos que esse tema causa divergência entre as pessoas que buscam objetivamente viver somente da produção de sua pequena editora, mas nossa experiência fazendo livros, estando nas ruas, na internet e de mão em mão, apresenta a condição de possibilidade para seguir realizando essa tarefa como um princípio, sem depender de intermediários ou grandes redes. Você pode não concordar com este posicionamento, mas este é um princípio muito caro para nossos objetivos e se mais pessoas compartilharem dessas práticas poderemos enfrentar a máquina com mais vigor.

Resista / Recuse
Livros e Anarquia
Editora Monstro dos Mares
Maio de 2018
[[[A]]]

Este artigo é dedicado à memória de Aaron Swartz

Quando conhecemos o cotidiano da atividade acad√™mica no Brasil √© latente as condi√ß√Ķes de precariedade de pesquisadoras e pesquisadores. Em via de regra, n√£o h√° bibliotecas especializadas, n√£o h√° federaliza√ß√£o de acervos, n√£o h√° t√≠tulos impressos acess√≠veis. Salvo as raras exce√ß√Ķes, ou a pessoa paga caro pelo livro no Brasil, compra o original no exterior ou ‚Äúcavuca‚ÄĚ a internet atr√°s do arquivo digital, preferencialmente sem pagar por isso. √Č praticamente imposs√≠vel passar pela academia sem a obriga√ß√£o de baixar conte√ļdos em reposit√≥rios online considerados ‚Äúilegais‚ÄĚ.

Por isso √© importante a mem√≥ria da luta de Aaron Swartz, que agiu contra os altos custos para acessar conte√ļdos acad√™micos. O jovem ativista foi levado ao suic√≠dio depois de intermin√°veis acusa√ß√Ķes, processos e judicializa√ß√Ķes. A pr√≥pria internet surgiu como ferramenta de compartilhamento e universaliza√ß√£o do conhecimento, mas se observa que mais e mais barreiras s√£o erguidas em todas as dire√ß√Ķes. N√£o podemos permitir que essa jornada prossiga, compartilhe!