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“Ninguém que não deseje a tua libertação total pode ser considerado teu aliado”

NINGUÉM QUE NÃO DESEJE A TUA LIBERTAÇÃO TOTAL PODE SER CONSIDERADO TEU ALIADO

Se não se estender a crítica do fascismo à democracia, capitalismo, às prisões, às pátrias, ao patriarcado, à propriedade, ao especismo e a qualquer regime que envolva sermos governadxs: estamos a nos condenar a um emaranhado histórico único que só acabará para dar lugar a um planeta inabitável. Os social-democratas eleitoralistas estão confortáveis demais ao condenar as atrocidades da direita e ao esconder as suas próprias, querem é estar nas ruas e no governo ao mesmo tempo.

Os regimes autoritários ganham terreno, rápida e eficientemente, porque os objetivos que perseguem são medíocres: não há nenhuma complexidade em submeter os outros através das armas, impostos, mentiras e propaganda – 90% dos projetos políticos estão comprometidos é com isso (toda a infraestrutura necessária já está construída e a funcionar).

Na realidade, ninguém que te trate como massa doutrinável, ninguém que entenda a luta como um passatempo a fazer de vítima e alheio à tua capacidade criativa e ofensiva, ninguém que não deseje a tua libertação total pode ser considerado teu aliado.

Anarquistas

Download em pdf em português, em inglês e espanhol

Via ContraInfo.

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Manifesto da Guerrilha do Livre Acesso – Aaron Swartz

Aaron Swartz (8.11.1986 – 11.01.2013)

Informação é poder. Mas, como todo o poder, há aqueles que querem mantê-lo para si
mesmos. A herança inteira do mundo científico e cultural, publicada ao longo dos séculos em
livros e revistas, é cada vez mais digitalizada e trancada por um punhado de corporações
privadas. Quer ler os jornais apresentando os resultados mais famosos das ciências? Você vai
precisar enviar enormes quantias para editoras como a Reed Elsevier.

Há aqueles que lutam para mudar essa situação. O Movimento Livre Acesso (Open Access)
tem lutado bravamente para garantir que os cientistas não assinem seus direitos autorais por
aí, mas, em vez disso, assegura que seu trabalho é publicado na internet, sob termos que
permitem o acesso a qualquer um. Mas, mesmo nos melhores cenários, o trabalho deles só
será aplicado a coisas publicadas no futuro. Tudo até agora terá sido perdido.

Esse é um preço muito alto a pagar. Obrigar pesquisadores a pagar para ler o trabalho dos
seus colegas? Digitalizar bibliotecas inteiras mas apenas permitindo que o pessoal da Google
possa lê-las? Fornecer artigos científicos para aqueles em universidades de elite do Primeiro
Mundo, mas não para as crianças no Sul Global? Isso é escandaloso e inaceitável.

“Eu concordo”, muitos dizem, “mas o que podemos fazer? As empresas que detêm direitos
autorais fazem uma enorme quantidade de dinheiro com a cobrança pelo acesso, e é
perfeitamente legal – não há nada que possamos fazer para detê-los.” Mas há algo que
podemos, algo que já está sendo feito: podemos contra-atacar.

Aqueles com acesso a esses recursos – estudantes, bibliotecários, cientistas – a vocês foi dado
um privilégio. Vocês começam a se alimentar nesse banquete de conhecimento, enquanto o
resto do mundo está bloqueado. Mas vocês não precisam – na verdade, moralmente, não
podem – manter este privilégio para vocês mesmos. Vocês têm o dever de compartilhar isso
com o mundo. E vocês têm que negociar senhas com colegas, preencher pedidos de
download para amigos.

Enquanto isso, aqueles que foram bloqueados não estão em pé de braços cruzados. Vocês vêm se esgueirando através de buracos e escalado cercas, libertando as informações
trancadas pelos editores e compartilhando-as com seus amigos.

Mas toda essa ação se passa no escuro, num escondido subsolo. É chamada de roubo ou
pirataria, como se compartilhar uma riqueza de conhecimentos fosse o equivalente moral a
saquear um navio e assassinar sua tripulação. Mas compartilhar não é imoral – é um
imperativo moral. Apenas aqueles cegos pela ganância iriam se negar a deixar um amigo fazer
uma cópia.

Grandes corporações, é claro, estão cegas pela ganância. As leis sob as quais elas operam
exigem isso – seus acionistas iriam se revoltar por qualquer coisinha. E os políticos que eles
têm comprado por trás aprovam leis dando-lhes o poder exclusivo de decidir quem pode fazer
cópias.

Não há justiça em seguir leis injustas. É hora de vir para a luz e, na grande tradição da
desobediência civil, declarar nossa oposição a esse roubo privado da cultura pública.

Precisamos levar informação, onde quer que ela esteja armazenada, fazer nossas cópias e
compartilhá-la com o mundo. Precisamos levar material que está protegido por direitos autorais
e adicioná-lo ao arquivo. Precisamos comprar bancos de dados secretos e colocá-los na Web.
Precisamos baixar revistas científicas e subi-las para redes de compartilhamento de arquivos.
Precisamos lutar pela Guerilha Open Access.

Se somarmos muitos de nós, não vamos apenas enviar uma forte mensagem de oposição à
privatização do conhecimento – vamos transformar essa privatização em algo do passado.
Você vai se juntar a nós?

Aaron Swartz
Julho de 2008, Eremo. Itália.

Traduzido por Mídia Pirata em 16/02/2014, disponível na Internet Archive.
Revisado por abobrinha em 04/01/2020.


Assista ao documentário O Menino da Internet: A História de Aaron Swartz gratuitamente no Libreflix: https://libreflix.org/i/the-internets-own-boy.

Ano: 2014
Duração: 105 minutos
Direção: Brian Knappenberger

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Fortaleça: Reforma da horta hidropônica de Utopia e Luta

Quem conhece o espaço coletivo de Utopia e Luta sabe da importância da horta no terraço e como esse tipo de cultivo fortalece as relações, os vínculos com a comunidade e os recursos desse assentamento urbano. Convidamos todas as pessoas para se somarem nessa campanha de financiamento coletivo e contribuir para que a horta volte com tudo. São necessárias diversas melhorias e manutenções, como a troca de 100m de lona de 200 micras, motores para hidroponia, insumos de plantio, estruturas, etc. Todos esses itens são bem específicos e dão pouco espaço para improvisações. Por isso Utopia e Luta precisa de sua ajuda para seguir cultivando um mundo de ideias, consciência e liberdade.

Conheça a campanha no Catarse e apoie.

Localizada no centro de Porto Alegre, a Comunidade Autônoma Utopia e Luta é uma exceção à regra das ocupações urbanas brasileiras. Iniciada em 2005 com uma ocupação durante o Fórum Social Mundial, a comunidade hoje é a única cooperativa que obteve regularização fundiária pelo Programa Crédito Solidário do governo federal. O prédio, situado nas escadarias do Viaduto Otávio Rocha na avenida Borges de Medeiros, foi contemplado com o programa viabilizado pela Caixa Econômica Federal e pelo Ministério das Cidades. Propriedade do Instituto Nacional de Seguridade Social (INSS), o edifício estava em processo de deterioração e desocupado havia 17 anos. O projeto do Utopia e Luta é único do tipo entre os contemplados pelo programa Crédito Solidário desde 2007.

Hoje estamos as vésperas de completar 15 anos de uma Ocupação exitosa e precisamos do seu apoio para reformar nossa Horta hidropônica, lançamos nosso grito aqui do sul do Brasil aos nossos amigos e parceiros do mundo todo, seguimos autônomos e acreditando em um mundo possível, com mais justiça e igualdade social.”

Nanci Araujo
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A biblioteca ideal

O grande sonho de Durruti e Ascaso era fundar editoras anarquistas em todas as grandes cidades do mundo. A maior empresa deste gênero teria sua sede em Paris, o centro do mundo intelectual, se possível na Place de l’Ópera ou na Place de la Concorde. Lá deveriam ser editadas as obras mais importantes do pensamento moderno. Para esse fim foi fundada a Editora Internacional Anarquista, que publicava inúmeros livros, panfletos e jornais em todas as línguas. O governo francês, como o espanhol e todos os outros regimes reacionários do mundo, perseguia esse trabalho com todos os meios policiais possíveis. Não lhes agradava nada que o grupo de Ascaso e Durruti se tornasse conhecido também no terreno cultural. Prisões e exílios acabaram levando a editora à ruína. A criança dileta desses dois filhos de Dom Quixote teve de ser provisoriamente enterrada. Ascaso e Durruti voltaram a pegar em armas, como o Cavaleiro da Triste Figura tomara da lança “para acabar com a injustiça, salvar os aflitos e introduzir o reino da justiça na terra”.

Cánovas Cervantes, O curto verão da anarquia, Hans Magnus Enzensberger,
1987, Editora Schwarcz, São Paulo.

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Livro Livre Curió – Biblioteca Comunitária

Com a ajuda das contribuições da Rede de Apoio nossos livros e zines chegaram até a Biblioteca Comunitária Livro Livre Curió em Fortaleza! Estamos bem felizes em receber este tipo de carinho de rolês que recebem gratuitamente nossos materiais. Segue a mensagem compartilhada pelas compas no Facebook:

“Doação incrível que recebemos da Editora Monstro dos Mares através da colaboração de Ju Maya, para diversificar ainda mais os conteúdos Anarquista da nossa Livro Livre Curió Biblioteca Comunitária”

Conheça a biblioteca:

Uma biblioteca com liberdade e afeto
Perto de completar aniversário, pedi de presente para Anitta Moura que me ajudasse a construir uma Biblioteca de Livros Livres no bairro em que eu moro, o Curió. Fui prontamente atendido, não apenas por ela, mas por muitas outras pessoas, a Silma que doou a estante, a Socorro Acioli que mobilizou doações, minhas amigas e amigos e as próprias moradoras e moradores do bairro, em especial minha Mãe, Ritinha, uma mulher que sempre articulou atividades no bairro, como passeios, cinema, festa das crianças, grupo de idosos; minha irmã Lígia, uma leitora apaixonada; meu vizinho Vinícius, que conheci e se encantou com a ideia.

Assim nasceu, no dia 31 de Março de 2018 a Biblioteca Comunitária Livro Livre Curió. Nosso bairro está entre os 20 bairros com o menor IDH, não possui políticas permanentes de cultura, sua população é formada por pessoas de diversos outros bairros beneficiadas por uma política de habitação da antiga COHABE. Contudo, sua população, mesmo sofrendo com a violência policial, e a violência do abandono do Estado e Município, é inteligente, empreendedora, e principalmente, inteligente e criativa.

Nossa biblioteca não tem cadastro, não estipula prazos para leituras, não tem horário de funcionamento e estamos de portas abertas à todas e todos, que desejam nos visitar; Também recebemos permanentemente doações de livros de literatura, de preferência em bom estado.

https://www.facebook.com/livrolivrecurio

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Ajude a localizar Brian

Compa Brian está desaparecido faz cerca de 30 dias. Ele precisa de sua ajuda, seja como for. 

Diversas pessoas de vários rolês conhecem Brian e sabem que não há de haver qualquer sacanagem neste chamado, trata-se de uma pessoa muito querida por todas nós, por diversos motivos. Brian compartilha aquilo que sabe, tem sempre disposição para chegar junto, faz você confiar que viver em resistência é um encantamento. Talvez você não conheça, mas temos certeza que de alguma maneira você poderá ajudar nesse corre. Este é um chamado importante e urgente!

Pessoas que gostam e admiram Brian querem sua volta, querem informações e querem compartilhar com outras pessoas notícias sobre essa busca. Amizades, vizinhos, parentes, grupos, bandos, bandas, rolês, coletivas, muitos de nós estamos surpresos e dispostos em fazer o que for necessário para conseguir informações que dêem conta de sua localização imediata.

Foi criado um blog para dar conta dessas informações, se você puder ajudar, por favor acesse o endereço  https://buscandobrian.wordpress.com/, qualquer notícia é importante. Também está sendo realizado um chamado de apoio financeiro para ampliar as buscas, uma vez que por morar numa região de difícil acesso, todo esforço é complicado e precisa de recursos. As informações de como colaborar estão no blog.

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[reflexão] Para publicar – A necessidade de tinta no papel nas publicações anarquistas da atualidade (por Aragorn!)

Dentro de cada pessoa cínica, há um idealista desapontado.
– George Carlin

Se publicar é a prática de colocar tinta no papel e jogar na mão do povo, então criar uma editora é barbada (principalmente se for uma editora anarquista). Embora existam indiscutivelmente mais livros anarquistas sendo publicados do que em qualquer outro momento da história, a quantidade de leitores está diminuindo. Publicações anarquistas, sejam panfletos, jornais e revistas, estão reduzindo no universo inteiro. Cronogramas de publicação sem frequências definidas e diminuição das tiragens, indicam que o tempo do papel pode estar chegando ao fim para os periódicos anarquistas.

O indicador para essa contagem é que tem havido uma correspondente, se não maior, ascensão de publicações anarquistas na internet. Mas será que esse é realmente o caso? Isso vai depender do que você entende por publicação. Por exemplo, no site infoshop.org, podemos encontrar a maior e mais antiga publicação anarquista na web, ao longo de um ano, seria difícil encontrar um grande volume de conteúdo original na parte de notícias (já que é a mais ativa) para preencher as páginas de uma revista. Isto não é uma crítica, mas uma declaração de como uma publicação na internet é qualitativamente diferente de um jornal ou revista, onde republicações são a exceção e não a regra.

Por isso, talvez seja necessário uma definição mais ampla de publicação anarquista. Livrar-se de publicações de tinta e papel, pode ser visto como mais saudável e ecológico do que nunca. Sabemos que esses são dias felizes de discussões sobre os acontecimentos do outro lado do mundo, artigos escritos na semana passada, e detalhes picantes que antigamente teriam levado anos para descobrir sobre os heróis e vilões da anarcolândia (risos). Mas o que perdemos neste mundo novo da informação constante que se limita as telas, as conexões banda larga; especialistas das artes digitais, HTML, CMS, e manipulação de imagens?

O ritmo, o tato, a sedução, o contexto, a simplicidade, clareza, escrita bonita, profundidade, debate informado, e as relações pessoais aos autores é o que perdemos. É bem provável que essas coisas não vão voltar, nem nas publicações anarquistas ou em qualquer outra. Além disso, há uma massa crítica de leitores que deram adeus aos preços de venda; artigos longos demais; autores especializados; nome de editoras; cronogramas lentos de novas publicações e a quantidade de tempo levam para que periódicos possam ser impressos. As pessoas já não esperam impressões, em geral, as editoras que imprimem materiais estão desaparecendo uma a uma. Qualquer editor que deseja ser relevante deve manter uma presença na internet, mas o oposto disso também é verdade. O movimento em direção ao digital (evidenciado pelo número crescente de versões “apenas pdf” de publicações anarquistas) e incapacidade de um número maior de projetos capazes de ganhar voz própria é uma demonstração dos tempos sombrios que temos pela frente. Claro, haverá mais palavras, mais coisas jogadas contra as paredes digitais na esperança de ficar, mas isso não vai ser notado. Na melhor das hipóteses um novo tipo de elite virtual (que já existe e se diz dona de muitos espaços anti-autoritários) vão se virar na direção de um texto e pipocar novos links. E assim vão continuar na próxima semana. Até pintar a próxima coisa, a próxima falsa controvérsia, o próximo prazer, a próxima distração.

Isso é bem diferente do que acontece num zine, do mais humilde ao mais fantástico, até mesmo uma revista de crítica anarquista no fundo da mochila de um viajante. A tinta no papel contém mais possibilidades de serem redescobertos muitos anos depois, de encontrar um novo público. Editoras anarquistas de nossos tempos devem emergir como uma solução para um problema novo, que neste momento parece ser mais grave do que a própria extinção de editoras no século passado. Se a ideia de vivermos livres de coerção significou em algum momento vivermos livres do trampo de imprimir e distribuir, isto não tem se mostrado uma boa ideia. Existe um mercadão de ideias, nossas premissas de liberdade e anarquia já não parecem ser muito convidativas. O caminho é solitário e perigoso. Pode parecer pouco evidente, mas o processo de desejar a liberdade anarquista, de articular um mundo diferente enquanto estiver sob coação, é parte do processo para se tornar uma pessoa informada e educada ao longo da vida anarquista, tal como ler as palavras dos velhos anarquistas, ou o famoso FAQ.

O processo de colocar tinta no papel e entrega-los para pessoas que estão interessadas contém um espectro completo de experiências sobre como realmente podemos fazer alguma coisa. Como transformar boas ideias (e mesmo as meia-boca) em sucessos ou fracassos. No papel essas ideias tem um valor próprio, mais do que elogios, críticas e enganos, o resultado é jogar mais ideias para o mundo. O processo de transferir palavras impressas de lá pra cá, de você pra mim, é também a conexão primária que faz existir uma editora para dezenas, centenas ou milhares de pessoas que serão escribas do futuro, feitiçeirxs da anarquia, companheirxs que podem fazer as coisas acontecerem e as melhores amizades que você nunca vai ter.

Por Aragorn!
Versão para o português por Vertov

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Dulcinéia Catadora: O fazer do livro como estética relacional

Por Livia Azevedo Lima* em trecho publicado em Akademia Cartonera

Dulcinéia Catadora é um coletivo formado por artistas plásticos, catadores e filhos de catadores que produz livros com capas de papelão, pintadas à mão, e, além disso, realiza oficinas, instalações, ocupações de espaços culturais, como bibliotecas, e intervenções urbanas.

O projeto derivou do coletivo Eloísa Cartonera, criado em março de 2003 pelo artista plástico Javier Barilaro e pelo escritor Washington Cucurto, em Buenos Aires, Argentina. Com intensa atividade editorial, o grupo argentino possui um catálogo com mais de 100 títulos, entre autores novos e consagrados. Conquistou reconhecimento artístico e social, cuja expressão pode residir no convite para participar da 27ª Bienal de São Paulo, em 2006, com curadoria de Lisete Lagnado, com título derivado da obra de Roland Barthes “Como viver junto”. Durante a Bienal, formou-se um atelier em funcionamento permanente. Ao grupo argentino somou-se a participação de catadores, filhos de catadores e artistas brasileiros, com mediação da artista plástica paulista Lúcia Rosa, que já trabalhava com material reciclado. A partir deste contato, e do envolvimento e trabalho de Lúcia Rosa, formou-se o projeto-irmão, Dulcinéia Catadora, que começou a funcionar no Brasil a partir de 2007.

O nome Dulcinéia Catadora é uma homenagem à catadora Dulcinéia, mas também é o nome da personagem feminina do livro “Dom Quixote de la Mancha”, de Miguel de Cervantes. O papelão usado na confecção dos livros é comprado da cooperativa Coopamare por R$1,00 o quilo, valor cinco vezes maior do que o praticado usualmente para efeito de reciclagem. Os livros são feitos com miolo fotocopiado em papel reciclado; encadernação simples, grampeada ou costurada; colados na capa de papelão pintada à mão com guache. A diagramação é feita pelos artistas e escritores e a seleção dos textos, por um conselho editorial formado por escritores que colaboram com o projeto e se alternam neste trabalho, como Carlos Pessoa Rosa, Rodrigo Ciriaco, Flávio Amoreira e Douglas Diegues, este último também colaborou para o coletivo Eloísa Cartonera e fundou, em 2007, a cartonera Yiyi Jambo, no Paraguai.

A seleção dos textos leva em consideração não apenas a qualidade literária e o conteúdo, como também o caráter sociopolítico, priorizando aqueles que atentem para as minorias sociais. Os autores cedem os textos, mediante autorização escrita e recebem, em contrapartida simbólica, cinco livros de sua autoria. Todos os livros podem ser traduzidos para o espanhol e divulgados por outras células do projeto na América Latina, (são elas): Animita Cartonera (Chile), Eloísa Cartonera (Argentina), Felicita Cartonera (Paraguai), Kurupí Cartonera (Bolívia), Mandrágora Cartonera (Bolívia), Nicotina Cartonera (Bolívia), Santa Muerte Cartonera (México), Sarita Cartonera (Peru), Textos de Cartón (Argentina), Yerba Mala Cartonera (Bolívia), Yiyi Jambo (Paraguai) e La Cartonera (México).

Essa rede de projetos pares que se formou na América Latina é um caminho alternativo ao mercado de arte e ao mercado editorial. O escritor que não conseguia se inserir em uma grande editora, agora tem a possibilidade de ser editado e o seu texto poderá circular por diversos países. Da mesma forma os catadores e os filhos de catadores que participam da oficina se abrem para novas possibilidades profissionais e desenvolvem seu potencial artístico. A soma desses esforços orientados para um objetivo comum, apesar de cada projeto possuir suas especificidades, denota, politicamente, a busca por autonomia e, esteticamente, a realização de um trabalho artístico que está focado no resultado das trocas entre os indivíduos que o produzem. As atividades do atelier geram renda, mas, sobretudo, promovem a autoestima e o intercâmbio de experiências entre pessoas com origens e repertórios diversos, que ali se encontram, em um espaço aberto, para o exercício do prazer de criar.

Livia Azevedo Lima cursa o terceiro ano da graduação em Comunicação Social com ênfase em Produção Editorial e Multimeios na Universidade Anhembi Morumbi, São Paulo, Brasil. Escreve ficção e trabalha como estagiária de pesquisa no Núcleo de Documentação e Pesquisa do Instituto de Arte Contemporânea, em São Paulo.

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Publication Studio: a editora artesanal que já vendeu mais de 10.000 livros

Geralmente quando falamos sobre editoras artesanais, as pessoas costumam acreditar que criar livros com as mãos seja uma ideia romântica e distante de ser “modelo de negócio de sucesso”. Bom, primeiro precisamos definir que modelo é esse. Afinal, já sabemos que a maioria dessas pessoas, acredita num modelo capitalista, baseado na métrica de replicação e escala. Quanto mais volume, maior o lucro. Definitivamente nós rejeitamos esse modelo. Nosso sucesso é criar objetos artesanais bonitos, que contenham boas histórias, que promovam o pensamento crítico e que possam ser reconhecidos por apresentarem-se em contraponto à lógica atual. Sim, ainda que tenhamos que vender os livros (mesmo aceitando trocas), não significa que concordamos com essa lógica, apenas estamos evitando fazer parte integral de suas motivações, formas de pensar e agir.

Com o surgimento de aparelhos como o Kindle, os tablets e o próspero formato de e-books, que espaço nos resta para o livro “físico” em nossas vidas? Como podemos tratar adequadamente por livro um objeto que nós podemos ler, falar, estar em contato com os amigos, etc… Será que aquilo que conhecemos por livro terá seu espaço modificado, será que isso tudo vai mudar, ou será que já mudou?

Em 2009 na cidade de Portland (EEUU), o ex-editor literário da revista Nest, Matthew Stadler e uma jovem escritora chamada Patrícia No utilizaram uma loja emprestada para fundarem a editora Publication Studio. Sim, eles estavam fodidos e sem grana, mas encontraram meios super baratos para confeccionarem livros encadernados manualmente, um de cada vez. A ideia de utilizar todos os meios possíveis para fazer livros de artistas e autores locais que admiravam e vendê-los para o público parecia muito simples, até que o curador Jans Possel pediu à dupla editar 20 livros para participarem da Bienal de Amsterdam. Stadler e No chamaram artistas próximas de suas relações e mais 19 livrinhos brotaram. Depois disso, a editora nunca mais parou.

Construindo uma comunidade em torno dos livros artesanais

Dois anos mais tarde a editora ainda continuava crescendo, outras seis editoras surgiram nos Estados Unidos naquela época (Berkeley, Vancouver, Minneapolis, Toronto, Ontário e Los Angeles), cada uma usando as mesmas formas de baixo custo para fazer livros encadernados novinhos todos os dias. Em conjunto com essas novas editoras, a Publication Studio já lançou cerca de 90 títulos e vendeu mais de 10.000 livros artesanais.

Nossos livros desafiam as noções pré-concebidas sobre o que um livro pode ser, basta olhar às indefiníveis experiências possíveis ao manusear um flipbook de arte como Blush, de Philip Iosca por exemplo. Nós entendemos que apesar de nossos métodos misteriosos, o sucesso da Publication Studio encontra-se na forma com que ela compartilha o sentimento de que não se está apenas fabricando livros, mas também produzindo um público.Matthew Stadler

Ao contrário de um mercado, um público é difícil de quantificar. É impossível traçar um gráfico ou pulular uma planilha. O público é nossa rede de editoras irmãs, autores, encadernadores autônomos, bibliotecas, livrarias e leitores, é o resultado de conexões pré-existentes, amizades, uma modesta presença na web e muito boca a boca. No começo em 2009, as 20 artistas tinham alguma relação com Stadler e No, não precisou nenhum edital ou chamada pública para começar as publicações.

Por exemplo, quando Stadler enviou um email ao amigo e fotógrafo Ari Marcopoulos perguntando se havia interesse em publicar um livro, o fotógrafo respondeu 40 minutos depois com um PDF pronto para impressão de seu livro, The Round Up. Nem sempre os livros são “fermentados” com esta velocidade. O primeiro livro da artista Vic Haven, Hit the North, foi criado um ano antes da publicação, durante uma conversa informal na casa de Stadler. O livro foi lançado em conjunto com uma mostra de arte numa tiragem limitada de exemplares.

Esse artigo é uma versão tosca do texto em inglês.